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Dicionário Compartilhado: Um Encontro entre Escrita, Análise de Discurso e Psicanálise
Dicionário Compartilhado: Um Encontro entre Escrita, Análise de Discurso e Psicanálise
Dicionário Compartilhado: Um Encontro entre Escrita, Análise de Discurso e Psicanálise
E-book501 páginas6 horas

Dicionário Compartilhado: Um Encontro entre Escrita, Análise de Discurso e Psicanálise

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Sobre este e-book

O livro Dicionário Compartilhado: um encontro entre escrita, Análise de Discurso e Psicanálise busca compreender o processo de subjetivação de sujeitos adolescentes pela produção do discurso e pela construção de sentidos, a partir da proposta de criação de verbetes, ilustrados e musicados, que fazem parte de um "dicionário compartilhado", o qual contempla a história pessoal e singular de cada jovem. A noção teórica de dicionário compartilhado, desenvolvida a partir desta obra, ampara-se na noção de "partilha do sensível" de Jacques Rancière, em que a partir desse lugar o sujeito pode tomar a palavra, constituindo outros sentidos, determinando outra partilha do sensível.
IdiomaPortuguês
EditoraEditora Appris
Data de lançamento16 de mar. de 2020
ISBN9788547341169
Dicionário Compartilhado: Um Encontro entre Escrita, Análise de Discurso e Psicanálise

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    Dicionário Compartilhado - Camilla Baldicera Biazus.

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    COMITÊ CIENTÍFICO DA COLEÇÃO LINGUAGEM E LITERATURA

    Brasil, Nelci, Matheus e Thiago… nomes que me constituem, que fazem parte da minha história, que sustentam o meu percurso-vida. A vocês dedico esta obra, por serem presença, por acreditarem em mim e alimentarem meu desejo pela escrita.

    Agradecimentos

    Agradeço à minha eterna orientadora, Verli Petri, que me (re)apresentou a palavra ACREDITAR. Se não fosse o seu ACREDITAR, o caminho aqui percorrido não teria se iniciado. O ACREDITAR da Verli vem sempre repleto de muitos sentidos. Significa ter coragem, persistência, sentir-se capaz, realizar, sonhar, correr, sofrer, lutar, comemorar, celebrar, conquistar. Só que o ACREDITAR da Verli só é significativo assim, porque ela está junto dele: sustentando, orientando, encorajando, sofrendo, vibrando. É um ACREDITAR que só se faz possível porque existe uma relação de afeto e de afetação mútua. Obrigada, Verli, por me presentear com o teu ACREDITAR e tornar possível que eu chegasse até aqui, na realização de mais um sonho!

    Agradeço também à Cris, pessoa que sorri com os olhos e que me inspira com as palavras! Obrigada pelo presente e pela honra de poder ter a presença da tua escrita neste livro. A sensibilidade e potência das tuas palavras trouxeram vida a esta obra!

    Não existe vida comum, existem olhos domesticados

    (Eliane Brum).

    PREFÁCIO

    Pausa para o batuque, silêncio para os sentidos: escritura e dissonância na criação de um dicionário compartilhado

    O tempo pressiona os sentidos enquanto a escrita passa cortando as horas ao meio. O livro que temos em mãos é feito de uma escrita que corta, faz brechas, esburaca o sentido; é feito de uma escrita do movimento, uma escrita que coreografa o significado fazendo dança com os sentidos e tirando sons inusitados da fonética das palavras, como no dizer de Camilla Biazus, autora do livro: um lugar para a escritura, em que a rasura e a transgressão das normas ortográficas possam representar uma forma de marcar/traçar a singularidade na língua, no social. (p. 113).

    Este livro trabalha a cartografia dos sentidos ao construir um dicionário dobrado sobre si mesmo. Na dobra, dá outra direção ao sentido de dicionário, levando ao limite o político, crucial em Análise de Discurso, campo teórico no qual se inscreve essa reflexão, no entremeio de outros pensadores do campo da Filosofia, da História, da Psicanálise.

    É em torno da criação de um Dicionário Compartilhado, noção e artefato que será desenvolvido pelo próprio movimento de fuga dos sentidos, que a experiência com os jovens integrantes da Associação Cuica, que trabalha com educação musical, é proposta. Para Orlandi (2014, p. 11), no texto Sentidos em fuga: efeitos da polissemia e do silêncio, a palavra fuga é tomada no sentido musical, ou seja, forma complexa de composição polifônica (polissêmica?) com base em um tema que é apresentado sob várias formas. Assim, o movimento da música vai se entremeando ao movimento dos sentidos das palavras, produzindo dissonâncias na Análise de Discurso e também nos estudos sobre dicionário enquanto um instrumento linguístico, na medida em que põe em funcionamento a palavra vivida/sentida, na contramão do imaginário de dicionário, sustentado pelo discurso científico, de ser um instrumento linguístico conhecido por guardar e preservar o uso correto da língua, parecendo assegurar, àqueles que o utilizam, o domínio e a excelência da língua escrita e falada. (BIAZUS, 2019, p. 114).

    Nesse sentido, o trabalho empreendido por Camilla, que resulta neste livro, traz uma ampla reflexão acerca dos estudos sobre dicionário enquanto um instrumento de gramatização, como propõe Auroux (1992). Autores como Orlandi, Petri, Nunes, Medeiros, que em suas pesquisas sobre o sentido já produzem uma compreensão sobre dicionário levando em conta o político, estão na base desta proposta que cunha a noção de Dicionário Compartilhado ao levar ao limite a proposta de Petri (2012), de desvincular instrumentalização e gramatização, produzindo consequências fortes.

    O dicionário compartilhado surge nesse espaço de contestação, criando algo que leva o nome de dicionário, mas que tem a propriedade de fazer outra coisa, questionando supostas verdades, certezas e deslocando sentidos (BIAZUS, 2019, p. 266 ).

    Mas a proposta de criação de um Dicionário Compartilhado, para além de deslocar o sentido de dicionário como detentor de um saber da língua e do processo de gramatização, necessariamente, produz algo novo na Cidade das Palavras, tal como referido pela autora, Camilla Biazus, ao trazer o Dicionópolis de Manguel e Guadalupi, que é o sentido do dicionário como partilha, partilha do sensível, de Rancière, mas também partilha do sentido.

    O dicionário compartilhado é tomado de acordo com a noção de partilha do sensível de Rancière (2005), sendo uma das formas, um dos lugares possíveis de segmentação/corte do comum que se dá a partir da estética, da arte. (p. 88).

    A força teórica dessa criação, cujos percurso, desafios e efeitos para o sujeito e para a compreensão dos processos de interpretação e sua intervenção no real do sentido, como diz Orlandi (2001), o leitor encontrará nas páginas que seguem. Mas adianto já neste prefácio que se trata da força da escritura como experiência estética e política da autoria enquanto assunção de uma posição diante de um estado de coisas (a saber) ou, nas palavras da autora do livro, um estado estético da escrita, da autoria, que busca ativar o pensamento e a receptividade do corpo, da palavra, isto é, uma relação estética com o mundo (p. 90).

    Essa relação estética e política é proposta por Camilla Biazus, a partir de um espaço muito específico, que é o espaço Cuica.

    A Cuica é uma organização não governamental, fundada no dia 20 de outubro de 2007, por José Everton Rozzini – músico e idealizador. As iniciais C.U.I.C.A representam as palavras: Cultura, Inclusão, Cidadania e Artes – alicerces básicos das atividades desenvolvidas nesse espaço. (p. 138).

    Como sabemos, a partir dos estudos de Eni Orlandi (2004) sobre o saber urbano e linguagem que pensa a cidade por meio do discurso, o espaço significa, tem materialidade e não é indiferente em seus distintos modos de significar. Partindo dessa perspectiva, o livro que temos a ler vai produzir sentidos para a materialidade do espaço Cuica, ou seja, para o processo de significação sócio-histórica e política de um espaço localizado em um bairro periférico da cidade, sem muros, de porta aberta, onde o batuque, a música significa o ritmo de uma vida com outras significações. Um espaço onde, nas palavras de Camilla,

    [...] o som parecia fundir o humano com o material. Não se tratava de mais um espaço urbano, mas sim de um espaço em que esses sujeitos buscavam uma maneira de serem escutados ou, pelo menos, de poderem falar/inscrever-se. Esses sujeitos que lá chegavam eram frequentemente aqueles que a sociedade exclui: os rebeldes, marginais, carentes, aqueles que não contribuem com a sociedade e não são considerados no que pensam e dizem. O espaço Cuica tornava-se assim, para esse sujeito, um lugar de construir sentido, bem como de ser reconhecido, de ter o sentimento de pertencimento. (p. 143).

    Produzir um trabalho num espaço como a Cuica já é filiar-se a sentidos que consideram o social como fundamental para pensar o urbano e o público, ou seja, espaço social, com suas relações de convivência e de diferença. A Cuica já é um espaço significante de uma ruptura com os sentidos de violência, marginalidade, segregação, que o imaginário sobre a periferia e a pobreza naturaliza em nossa sociedade. A esse significante Cuica, o projeto Cuicando Palavras, desenvolvido por Camilla no âmbito da Cuica, para chegar ao Dicionário Compartilhado, vem produzir efeitos metafóricos que fazem derivar sentidos socialmente estabilizados de língua, aprendizagem, formas de pertencimento, instrumentos linguísticos, escola etc.

    Ao fazer parte de uma Associação como a Cuica, dedicada à música, à percussão, funciona já no imaginário do sujeito o fora da escola, dos bancos da classe, da passividade. A passagem de uma produção de conhecimento desse lugar estagnado, de difícil movimento, para um lugar onde o movimento e também o silêncio, a pausa, o contraponto, a dissonância, são constitutivos, como é o da música, e no qual o movimento (do corpo) é parte da produção do próprio conhecimento musical, é de certo modo libertador para adolescentes que cresceram numa região carente da cidade de Santa Maria. Como, então, propor a esse sujeito, um retorno ao banco da escola? Como fazê-lo significar a escrita como possibilidade de produzir um conhecimento pelo movimento (do sentido)?

    Essa ruptura só é possível porque esse projeto produziu uma escuta social (PÊCHEUX, 2011), a partir da qual os sujeitos são compreendidos enquanto sujeitos fazendo parte de relações de sentidos que são complexas e determinadas pela história e pela ideologia. Escuta essa que é, acima de tudo, a produção de um espaço de interpretação do sujeito sobre si mesmo e sobre a sociedade.

    Mais do que a escrita de verbetes para um dicionário, o livro de Camilla Biazus, pela sua escrita engajada e poética, vai nos conduzir pela experiência de uma escrita compartilhada, deslocando também o sentido de compartilhamento, hoje, tão automatizado pelas tecnologias digitais. Pela noção de partilha do sensível, de Rancière, que a autora leva ao limite por um trabalho com o discurso, a noção de compartilhamento vai ganhando uma dimensão de resistência e de emancipação do sujeito frente aos sentidos dominantes numa sociedade capitalista.

    O movimento é um elemento essencial e estruturante deste livro. É um livro que movimenta a Análise de Discurso numa relação de entremeio com pensadores de distintos campos de conhecimento, mas também com sujeitos-autores de seus dizeres. E aí a autoria é fundamental para o próprio sentido de compartilhado que coloca o dicionário em uma relação criativa com um conhecimento singular, desprendido do discurso científico, legitimado e do arquivo institucional, embora não sem relação com eles, para inscrevê-lo numa relação com o arquivo com memória, aquele que se constitui pelas marcas do sujeito, pelos rastros do tempo, pela segmentação/corte de espaços comuns. Como afirma a autora deste livro, o compartilhado não se refere apenas a uma nova estética mas a uma criação junto, junto de, em conjunto, coletivamente. Não há um autor, mas vários. (p. 125). Dá-se, nessa tomada de posição do sujeito pela escritura, a fragmentação da própria autoria: Nesse dicionário, a autoria se dá no/pelo encontro com o outro, com aquilo que por vezes é sentido como estranho-familiar, e também a partir do que desses encontros resta, do que desses encontros se produz. (p. 125, 126).

    Nada disso se faz sem tensão, sem resistência do sujeito habituado a não ser levado em conta a não ser pelas estatísticas de pobreza, IDH, desigualdade social etc. Sujeitos que não estão habituados a serem protagonistas na/da produção de conhecimento sobre sua própria vivência e sobre sua própria história, que não estão habituados a dizer das coisas-a-saber do mundo semanticamente normal.

    Por tudo isso, este é um livro plural, mas também singular. Nesse sentido, coloco-me aqui, com Camilla Biazus, Verli Petri e todos os integrantes da Cuica, que participaram desta escritura, na partilha que me desafia a escrever um prefácio para dizer desta obra. Misturo-me assim, ao mesmo tempo que me perco, aos saberes institucionalizados, às teorias significadas em discursividades fundadoras, ao empreendimento feito por Camilla Biazus de escritura de um livro, a toda experiência de movimentos entre a música, a potência da arte e da linguagem em des-fazer a dureza da vida numa sociedade de segregação, a toda potência da construção de espaços de interpretação capazes de des-locar os sentidos estabilizados dos instrumentos (musicais e linguísticos) de modo que podemos tocá-los com palavras e ouvir nessa batucada muitas vezes dissonante o som da nossa própria história, o som da nossa própria voz.

    Eis a ideia do comum como espaço entre que pode levar o sujeito a escapar dos binarismos e das oposições, em suma, a qualquer fechamento dos sistemas simbólicos em sentidos unívocos e homogêneos. É aí que os espaços-vãos se instalam construindo o comum, malogrando o saturado do sentido e dando vazão para a pulsão vital de um corpo social que toma a vida em suas mãos de modo a direcioná-la à criação de modos de existência para aquilo que pede passagem (ROLNIK, 2018).

    O livro Dicionário Compartilhado: um encontro entre escrita, Análise de Discurso e Psicanálise, de Camilla Biazus, pede passagem para, como diz um dos jovens da Cuica no prefácio feito ao Dicionário Compartilhado, outros sentidos: O que você vai descobrir ao utilizar esse dicionário? Você vai descobrir que nós não somos só um monte de jovens barulhentos, que a gente não é um bando de loucos.

    Este livro pede passagem para nos fazer escutar socialmente o próprio fazer científico e acadêmico, ao produzirmos instrumentos capazes de levar em conta a experiência/vivência de uma emancipação na/pela escritura, como propõe Camilla Biazus.

    Cristiane Dias

    Doutora em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas e pesquisadora e coordenadora associada do Laboratório de Estudos Urbanos – Labeurb-Nudecri/Unicamp

    Campinas, 07/2019

    APRESENTAÇÃO

    O convite para a apresentação do livro Dicionário compartilhado: um encontro entre escrita, Análise de Discurso e Psicanálise chega como um presente com as diversas acepções que essa palavra pode ter: 1. Estar junto, acompanhar, orientar; 2. Ser atual, fazer-se junto no tempo verbal que nos escapa enquanto escrevemos essas palavras; 3. Aquilo que se dá a alguém para felicitar, retribuir, manter o vínculo; 4. Dádiva, graça, lembrança; 5. Que acontece agora, que se encontra. E essa última acepção está marcada no título do livro: encontro. Este trabalho resulta de uma tese de doutorado, a primeira tese que orientei, e ela resulta de um encontro desafiador, de um encontro marcado para acontecer, de um encontro que foi se repetindo inúmeras vezes, mas sempre diferente em sua repetibilidade constitutiva. Nessa esteira de encontros fomos construindo questões teóricas, metodológicas e analíticas; fomos tecendo lado a lado uma relação de trabalho e um tecido de afetos que não cessa de se reinventar.

    É do tempo presente e da nova possibilidade de encontro que teço algumas considerações acerca do livro que chega às mãos de leitores também ávidos por encontros transformadores. Sem dúvida, estamos diante do resultado de um estudo complexo que toca questões fundamentais para todos nós que nos interessamos pela escrita, pela escrita de si, pela constituição do sujeito na e pela escrita, pela língua que está e não está no dicionário, por questões teórico-metodológicas pertinentes à Análise de Discurso e à Psicanálise. Digo fundamentais porque tratam do ser e do vir a ser; porque mostram uma pesquisadora que saiu dos protetores muros da Universidade e tocou nas mãos das pessoas, entrou na rotina de crianças e jovens, caminhou de mãos dadas e protagonizou práticas sociais de tipo novo, misturando-se ao grupo.

    Há muito que se destacar no livro que ora se apresenta, mas o que o leitor vai encontrar do princípio ao fim de cada Paisagem que Camilla Baldicera Biazus nos apresenta é, sobretudo, uma escuta sensível de sujeitos que tantas vezes ficam silenciados pelo ruído da cidade, pela poeira fina que se acumula sobre os dicionários das bibliotecas, pela tagarelice daqueles que pensam que sabem o que se deve e como se deve fazer, pela surdez daqueles que preferem não ver e seguem alheios ao mundo que os cerca.

    A Associação Cuica, em Camobi, situada nas cercanias da UFSM e nas cercanias da cidade de Santa Maria-RS, recebeu a pesquisadora (e todos nós que participamos!): acolheu, emocionou, partilhou, produziu discursos que estão guardados nesse livro. Estar com a Camilla na Associação Cuica foi poder capturar momentos da realização do que denominamos indissociabilidade entre pesquisa, ensino e extensão, tripé que sustenta a universidade que queremos! No planejamento, no desenvolvimento e na avaliação de cada atividade reuniam-se pesquisadores, professores, alunos de graduação e de pós-graduação, construindo no grupo o que seria o estar junto na comunidade de Camobi, mas o estar junto também na UFSM. Enfim, o que o leitor encontrará neste livro é também o resultado de um trabalho coletivo, amadurecido no interior de um grupo de pesquisadores (IC, mestrado, doutorado), capitaneado pela Camilla: a psicóloga apaixonada pelas questões de linguagem!

    A escrita se fez urgência! Foi necessário realizar escolhas, recortes... e a escrita cumpre sua parte, o texto desenha-se no papel, esparrama-se nas paisagens! Nosso olhar se alonga... Estamos diante de uma escrita vigorosa da pesquisadora que se ocupa da escrita do outro, da escrita que também é nossa, porque diz das nossas dores, dos nossos desejos, da nossa aventura de vida. É também pela escrita que a autora nos dá a conhecer as diversas materialidades discursivas que podem e devem compor um dicionário compartilhado: a escrita, o desenho, a fotografia, a pintura, o gesto, o som dos instrumentos, a voz; todas essas materialidades produzindo efeitos de sentidos e sendo tomadas como passíveis de análise. A construção do dispositivo teórico-analítico se deu durante a escrita e diz muito do sujeito pesquisador e dos sujeitos participantes, esse engajamento conduz o leitor por caminhos, paisagens e aventuras efetivamente transformadoras.

    O tempo presente nos dá certo distanciamento e com ele observamos o esforço da pesquisadora em se apropriar do aparato teórico próprio a uma linguista/analista de discurso, o que se realiza de modo formidável, tornando-a uma especialista também no estudo dos dicionários. Ao final do trabalho nos deparamos com a elaboração substanciosa da noção de dicionário compartilhado que tem funcionado em diferentes trabalhos de ensino, pesquisa e extensão, realizados nos últimos tempos, dentre os quais podemos citar: a) atividades de ensino desenvolvidas por mim em aulas da graduação em Letras; b) atividades práticas de ensino e extensão desenvolvidas em escolas da região de Santa Maria por alunos petianos de Letras e alunos formandos em Letras Licenciaturas quando realizam seus estágios em escolas de ensino fundamental; c) a produção de dicionários compartilhados como produtos finais em mestrado profissional em Letras da UNEMAT (Cáceres – MT), nos quais tive a honra de conhecer como banca de dissertação; d) a construção do Dicionário compartilhado de Língua de Fronteira (2015), livro desenvolvido em duas escolas da cidade de Itaqui – RS, fronteira com a Argentina (com o apoio do PET Letras-UFSM e do PEIF-MEC); e) a inspiração para publicação de artigo científico intitulado: ‘‘Saberes compartilhados: a constituição de sujeitos na construção de um dicionário de língua de fronteira’’ (Revista REAL – UNEMAT); f) a construção e publicação do e-book Dicionário Compartilhado do Desenvolvimento Humano do Curso de Psicologia da URI – Campus de Santiago – RS; para citar alguns dos desdobramentos que essa tese já teve e outros tantos para os quais ela funcionará como inspiradora a partir de agora com as facilidades de circulação que ganhará como livro.

    Para finalizar esta apresentação, preciso dizer que a partir daqui o leitor terá diante de si uma obra primorosa, aceitando o desafio de caminhar com a autora pelas diferentes paisagens que ela propõe! Boa leitura a todos!

    Verli Petri – UFSM

    Doutora em Letras pela UFRGS e pós-doutora pela Universidade Estadual de Campinas.

    Professora do PPGL da UFSM

    Sumário

    Uma pequena narrativa sobre a autora e a obra 23

    PRIMEIRA PAISAGEM 29

    A ANÁLISE DE DISCURSO E SUAS NUANCES 30

    1.1 Cartografias da Análise de Discurso 30

    1.2 O sujeito na e para a Análise de Discurso 44

    1.3 Resistência, um movimento possível de sentidos 58

    SEGUNDA PAISAGEM 67

    A ESCRITA DE SI E SEUS POSSÍVEIS CAMINHOS 69

    2.1 O trabalho de autoria na/pela escrita 72

    2.2 A autoria em um dicionário compartilhado 84

    2.3 A escritura de si: (ex)posições no/pelo outro 93

    2.4 A escritura e suas relações com a história e a memória 102

    Terceira Paisagem 111

    DICIONÁRIO COMPARTILHADO: MOVIMENTANDO PALAVRAS, DESLOCANDO SENTIDOS 112

    3.1 Dicionários e a possibilidade de um lugar-incomum: o dicionário compartilhado 112

    3.2 A língua fluida e os sentidos não dicionarizados: a possibilidade de criar palavras 126

    QUARTA PAISAGEM 133

    CUICA – O LUGAR DO SOCIAL NO PROCESSO DE CONSTITUIÇÃO DE SUJEITOS E SENTIDOS 134

    QUINTA PAISAGEM 159

    O DICIONÁRIO COMPARTILHADO DA CUICA 160

    5.1 A criação de um dicionário compartilhado na/da cuica 160

    Primeiro Movimento – Bricando com os sentidos 162

    Jogando com as palavras: vivenciando a Cuica no cinema 162

    Deslocando os sentidos do dicionário 169

    Mendigo x Favela: o que isso significa para mim? 190

    Segundo Movimento - Construir/criar sentidos 206

    Terceiro Movimento – Indo além das palavras escritas 237

    Musicando Palavras 238

    Desenhando palavras 250

    5.2 E para não finalizar, Isto não é um dicionário: palavras finais que introduzem a obra 265

    A ÚLTIMA PAISAGEM OU APENAS UMA PAUSA NO PERCURSO 281

    REFERÊNCIAS 289

    Índice Remissivo 303

    Uma pequena narrativa sobre a autora e a obra

    Para iniciar este trajeto, escolho aqui uma simples e, ao mesmo tempo, complexa palavra para mim: a escrita, que está engendrada no processo de escrever. Este livro irá tratar da escrita e só se fará possível a partir dela, processo esse que se inicia já com esta autora, quando assume uma posição-sujeito e se constitui por meio do ato de escrever. E o que o escrever tem a ver com isso? Como a escrita chega até aqui? Poderia dizer que ela chega até mim muito cedo e chega pela escrita do outro, daquele que sou capaz de ler, porque também partilho da escrita, por meio de nomes, palavras, músicas, livros e vozes como de Vinícius de Morais, Fernando Pessoa, Elis Regina e João Bosco. Chega com versos como: onde eu possa plantar meus amigos, meus discos e livros e nada mais (RODRIX, 1990); De tudo ao meu amor serei atento, antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto (MORAES, 1967); Cores do mar, festa do sol, vida é fazer todo o sonho brilhar (BOSCO, 2007); Escrever, sim, é perder-me, mas todos se perdem, porque tudo é perda (PESSOA, 2009). De alguma forma, essas palavras e vozes marcaram minha primeira entrada no mundo das Letras, movimentaram em mim não só um gosto, mas um desejo tanto pela leitura quanto pela escrita, as quais, aos poucos, passaram a se tornar uma necessidade importante na minha vida. Uma necessidade de palavrar¹.

    Fui tomada em cheio pelas palavras e arremessada a um fascinante universo de sentidos e de possibilidades. A palavra escrita permitia-me falar, jogar, brincar, criar e, nesse processo, fui me constituindo enquanto sujeito nela e por meio dela. Essas marcas provocadas pelas palavras me conduziram a palavras outras que nos cortam, que nos invadem, que ficam em nós tatuadas, que são elas mesmas e de repente são outras. Isso fascina e nos leva por caminhos inusitados. As palavras, foram elas que me levaram, de forma um pouco torta e incerta, para os lados da Psicologia. Confesso aqui que demorei certo tempo para entender por que fiz tais escolhas e o que elas diziam de mim e do espaço que eu buscava encontrar. Dentro da psicologia encontrei a psicanálise e descobri nela um terreno possível para resgatar a possibilidade de brincar com as palavras, tal como fazia com a poesia, com a música, com a escrita. Na psicanálise resgatei a polissemia da palavra e me reencontrei com a arte, marca essa que me constitui e que me possibilita significar. Penso que a psicanálise remete a algo não muito simples: porque o seu fazer é atravessado pela palavra, seja pela abertura de sentidos que autoriza, pela impossibilidade de controlar o que é e o que não é a verdade, seja simplesmente/fragilmente pelo estar-se diante de uma versão acerca das coisas. Demorei para perceber e entender o motivo pelo qual estava ali e acredito que essa compreensão só tenha vindo a partir da pesquisa, uma experiência de mestrado. No momento em que me propus a escrever sobre a Psicologia/Psicanálise, que descrevo como minha segunda entrada no mundo das Letras, aproximei-me novamente da escrita e descobri-a como um importante dispositivo² com possibilidades terapêuticas. Essa descoberta já latente em mim desde a tenra infância — de que há uma relação muito forte entre o sujeito e a escrita, entre a constituição de sentidos e a constituição de sujeitos — conduziu-me à seguinte indagação: qual a relação da escrita com a construção da subjetividade?

    Frente a esse questionamento, percebi que os lados da Psicologia/Psicanálise precisavam ser mais problematizados e que somente estando no interior desses campos é que poderia lhes propor questões. A contestação vai acontecer a partir de outros olhares e de outros saberes. Assim, de uma forma relativamente consciente, encaminhei-me em busca dessas relações, desses entremeios, desses lugares que têm sua constituição na/pela língua(gem). Uma busca então marcou o que representaria a minha terceira e talvez mais legítima entrada no mundo das Letras: o Programa de Pós-Graduação em Letras. Foi por meio desses novos lados, lugares que hoje também habito, que encontrei algo que ainda estou descobrindo e que digo ser a linha que permite tecer a minha escrita nesse espaço: a Análise de Discurso. E o que antes era apenas um questionamento que movimentava buscas, redefiniria fronteiras, passando a se tornar uma questão de pesquisa.

    Entretanto é importante destacar que essa terceira entrada no mundo das Letras foi e é complexa, ousada e íngreme. Deixar lados familiares para habitar/explorar lados estranhos não exige apenas desejo, vontade, mas também companhia, encorajamento, sustentação. Há sempre alguém para nos dizer que os nossos sonhos, por mais absurdos que possam ser/parecer, podem se tornar realidade e que, além disso, aceita nos acompanhar nessa (trans)formação. Essa pessoa foi Verli Petri, professora, pesquisadora, analista de discurso, enfim, uma pequena-grande mulher que tive o prazer de encontrar primeiramente por meio das palavras escritas, depois por meio das palavras faladas, trocadas, ensinadas e encantadas. Ler a Verli me fez acreditar que era possível à Psicologia/Psicanálise se bandear para o lado das Letras.

    É desse lugar que hoje falo e escrevo/discursivizo. É a partir desse lugar que busco desbravar e encontrar um lugar próprio no qual minha escrita se faça possível. O bom de nos aventurarmos e irmos ao encontro de novos lados é que podemos ter a oportunidade de ver o mesmo de outras maneiras e acabamos também, como já disse, por fazer novas descobertas e abrir espaços para múltiplas possibilidades. Nesse ínterim, fui então apresentada, pela Prof.ª Verli Petri, à Associação Cuica, um espaço social e potencial³ que desenvolvia atividades culturais com jovens que viviam em situação de vulnerabilidade social no bairro Camobi, na cidade de Santa Maria (RS), priorizando a inclusão social e o desenvolvimento de crianças e adolescentes, por meio da educação musical. A partir desse encontro, surgiu a oportunidade da realização de um trabalho no espaço-Cuica, trabalho esse que, por sua peculiaridade, envolveria necessariamente a música, a palavra cantada. Mas e a escrita, onde fica? Bom, e o que seria a escrita senão um convite às palavras para dançar? Uma dança das mãos? E, para isso, quem melhor do que aqueles que fazem música para movimentar as palavras?

    Eis que então a ideia nasce: analisar a escrita enquanto processo de subjetivação a partir de um trabalho com jovens que fazem parte da Associação Cuica. Essa ideia se tornou então meu tema de pesquisa no doutorado e, agora, neste livro, busco narrar um pouco dessa experiência, bem como do meu percurso teórico. É importante salientar que nenhuma ideia nasce sozinha, mas sim de uma relação. Sendo assim, foi com base em questões já pensadas pela professora Verli, do seu conhecimento e do seu contato com a obra de José Horta Nunes⁴ acerca de verbetes musicados, que comecei a dar forma para esta ideia: pensar a escrita no espaço da música e a música por meio da escrita, sempre como espaço de subjetivação. Para que isso fosse possível, não era preciso apenas pensar em um espaço, mas criá-lo. Criar um instrumento que promovesse o encontro entre essas diferentes materialidades e possibilitasse o desenvolvimento da ideia. Diante disso, pensei no dicionário como esse espaço que permitiria o encontro não só entre a escrita e a música, mas também entre outras formas de produção da linguagem. Assim, o tema central desta obra chega à sua forma final: compreender o processo de construção de sentidos por meio da escrita, da música e de outras materialidades para os sujeitos da/na Cuica⁵, a partir da construção/criação de um dicionário elaborado em grupo, o qual teve como objetivos falar sobre a experiência de fazer parte da Cuica, bem como fazer referência à história pessoal e singular de cada jovem. Com isso, o dicionário passa a ser considerado, aqui, como um espaço

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