Jogos de Camaleão
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Sobre este e-book
Após ficar encarcerada por incontáveis anos, Chelsea Grey se reencontra com sua mãe e filha e começa uma busca por si mesma. Achando difícil reconectar-se com o mundo, Chelsea busca a liberdade e a encontra enquanto trabalha no Centro da Vida Selvagem.
Mas logo, um assalto, um bandido armado - e suas próprias inseguranças - ameaçam destruir o que ela tinha conseguido. Enquanto Chelsea busca confiança e um novo sopro de vida, uma conspiração indesejada abre caminho em seu mundo.
Será que Chelsea irá conseguir descobrir a verdade - e encontrar forças para confiar em alguém novamente?
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Jogos de Camaleão - June V. Bourgo
I
Solidão é a pobreza do eu;
Solitude é a riqueza de si mesmo.
MAY SARTON
1
KELOWNA
Chelsea Grey estava com a cabeça latejando. Ela levantou o rosto para receber toda a força da água quente e fumegante. Ainda um pouco embriagada, suas pernas vacilaram, desequilibrando-a. Oops! Ela travou os joelhos e jogou as mãos para frente contra a parede do banheiro para se manter firme. Ela teria rido se as imagens dos rostos de sua mãe e filha ainda não estivessem frescas na mente.
Na noite anterior, ela tinha ido a uma boate e dançado até ela fechar. O que há de errado nisso? Fez eu me sentir livre. Ela havia saído com um cara divertido e com os amigos dele, e acabaram festejando a noite toda na casa dele. Ela franziu a testa. Ok, as coisas saíram um pouco do controle. Ela não conseguia se lembrar de tudo... muita bebida e comprimidos. Seu estômago revirou e ela respirou fundo várias vezes o vapor úmido até a náusea passar.
Chelsea havia voltado para casa momentos antes e ido imediatamente para o chuveiro. Rostos de pessoas que ela não conhecia passaram pela sua mente. Chelsea estremeceu. Ela nem sequer sabia o nome delas... ela principalmente se lembrou de corpos entrelaçados ao redor de um cômodo. A vergonha a dominou. Ela encostou o rosto na parede de mármore e deixou a água cair nas costas. No que eu estava pensando? O problema não é minha falta de raciocínio, é apenas a causa e o efeito do verdadeiro problema - bebida e drogas.
Chelsea saiu do banho. Ela enxugou o espelho com uma toalha e olhou para o seu reflexo. O rosto que refletiu de volta a chocou. Os olhos azuis estavam vermelhos e vidrados, e as bochechas estavam manchadas. O cabelo loiro comprido estava molhado e grudado nas laterais do rosto. Essa visão não é nada bonita. Ela observou as gotas de água descerem pela testa e seguirem até a ponta do nariz. Seus olhos focaram nas gotas que pingavam, pingavam e pingavam enquanto deixavam seu rosto e caíam na pia. Naquele momento, Chelsea viu a face de seu futuro; tudo o que aquilo poderia significar e o que poderia custar a ela.
Você acabou de fazer quarenta anos. Mantenha esse estilo de vida que a aparência que você ainda tem não vai durar muito.
Ela foi até a sua cama, tirou a toalha do corpo e se enfiou embaixo das cobertas. Seus pensamentos se voltaram para sua mãe e filha tomando café da manhã quando ela chegou em casa. Seu coração estava pesado. Não que elas tenham dito algo. Elas não disseram nada. Foram as expressões que disseram tudo - a dor e a preocupação no rosto da mãe; a raiva e a decepção nos olhos da filha. Tudo isso doía em Chelsea. Um pensamento veio à sua mente pouco antes de ela apagar.
Estou tão confusa.
O som do motor foi ficando cada vez mais alto. Mas que diabos é isso? Chelsea tentou ignorá-lo e puxou o travesseiro que estava ao seu lado e colocou-o sobre a cabeça para abafar o barulho irritante. Não funcionou. Ela jogou o travesseiro para fora da cama em um acesso de raiva.
- Aargh... estou tentando dormir! - gritou.
Ela esforçou-se para abrir os olhos e concentrou-se no relógio da mesa de cabeceira.
- Ai, meu Deus... - Os números digitais marcavam três da tarde. Ela tinha dormido a maior parte do dia. Chelsea empurrou as cobertas para trás e sentou-se na beira da cama. O latejar em sua cabeça, agravado pelo zumbido constante da motosserra do vizinho, trouxe de volta a memória de suas façanhas da noite anterior. Ela deixou escapar um gemido e cruzou o quarto para fechar a janela para pelo menos abafar o barulho irritante.
Chelsea foi até o banheiro para se aliviar. Ela encheu a pia e, com as duas mãos, jogou água no rosto e pescoço. O baque da água fria a trouxe de volta à terra dos vivos, por mais dolorosa que ela fosse. Ela pegou o frasco de enxaguante bucal para gargarejar e enxaguar o gosto horrível e o hálito rançoso que exalava de sua boca. Só então ela se olhou no espelho. Seu rosto refletia a dor que ela sentia por dentro; é claro que eram os efeitos físicos esperados depois de suas indulgências da noite anterior - mas havia algo mais olhando para ela do reflexo. Era algo que tinha ficado bem escondido no passado, mas que agora olhava para ela do fundo de seus olhos. A consciência da dor mental e emocional bateu com tanta força em seu rosto - como o baque da água fria momentos antes - que ela cambaleou para trás. As palavras que tinham passado em sua mente naquela manhã antes de apagar voltaram: Estou tão confusa.
Escovar o cabelo loiro comprido e passar um pouco de blush e brilho labial rosa ajudaram a normalizar seu rosto estressado. Ela acrescentou um pouco de corretivo sob os olhos e passou delineador. Bem melhor. Uma calça jeans apertada e um moletom grande combinavam com seu humor. E foi o que Chelsea vestiu, adicionando um par de meias de lã listradas com as cores do arco-íris. Ela foi até à cozinha. Graças a Deus, pelo visto não tem ninguém em casa.
Uma garrafa térmica com café quente estava no balcão com uma xícara limpa ao lado. Um gesto diário de sua mãe que acabou despertando um sentimento de culpa. Chelsea serviu-se de uma xícara. O vizinho havia terminado sua tarefa de cortar madeira e, com a certeza que teria paz e tranquilidade, ela passou por uma porta toda de vidro para o jardim de inverno fechado e aninhou-se no sofá de dois lugares.
O sol brilhava através dos grandes painéis de vidro. Era um lindo dia de abril. Chelsea achava difícil acreditar que estava morando no bangalô de sua mãe em Kelowna. Como foi que o tempo passou tão rápido?
Ela foi mantida em cativeiro por Arne Jensen por vinte anos. Ele a sequestrou quando ela tinha dezenove anos e a trancou em sua fazenda, em frente à casa de seus pais. Sua filha, Sydney, tinha um ano na época. Quatro anos depois, o pai de Chelsea morreu de um infarto fulminante e sua mãe, Elizabeth, deixou a fazenda com Sydney para se mudarem para Kelowna. Elas retornaram anos depois quando Sydney estava com 21 anos. Sydney encontrou os diários da mãe e, por meio de uma série de eventos como sequências de sonhos, visitas de espíritos e um molho de chaves perdido, ela e Elizabeth descobriram que Chelsea estava na casa de Arne e a resgataram.
Ela estremeceu ao pensar em Arne. Ele morrera naquele dia decisivo em que ela encontrou sua liberdade. Um golpe rápido na cabeça dele com uma frigideira de ferro fundido dado por sua mãe, e todas as suas vidas mudaram para sempre. Chelsea suspirou e encostou a cabeça no encosto do sofá. Ela fechou os olhos e sentiu os raios quentes do sol em seu rosto que refletiam através dos painéis de vidro. Havia momentos em que ela sentia falta dele. Afinal, ele tinha sido sua única companhia e provedor durante todo aquele tempo. E ela aprendera a ser como ele queria e a obedecer às suas regras para evitar punições. Não que funcionasse o tempo todo. Ele poderia ser imprevisível e ilegível. Às vezes, os demônios dele vinham à tona sem motivo aparente e Chelsea tinha que suportar o peso disso. Mesmo assim, ele era minha única conexão com o mundo exterior e dentro dos limites da minha prisão; o único que poderia cuidar das minhas necessidades.
Nove meses de liberdade. Por que eu não me sinto livre?
Um tornozelo quebrado levou a avó de Sydney de volta à fazenda para se recuperar, e Sydney reformou a casa da fazenda e abriu sua empresa nela. Quando Chelsea foi libertada, as três moraram na fazenda por dois meses. Assim que seu tornozelo estava se recuperando, sua mãe, Elizabeth Grey, voltou para sua casa em Kelowna e para seu emprego de cabeleireira. Chelsea foi junto com ela. Morar em frente à casa de Arne não era uma opção. Ela precisava se encontrar na vida e se curar. Por seis meses ela fez terapia e tentou se encaixar em um mundo que não conhecia ou entendia. Então, no Ano-Novo, ela descobriu boates e a dança, reconectando-se à música que ela sempre amou... e encontrou o álcool. Comprimidos eram sua nova aquisição. E Chelsea foi forçada a enfrentar o fato de que estava em um caminho imprudente e desastroso.
A porta do jardim de inverno se abriu. Chelsea virou a cabeça e observou Sydney cruzar o local e pegar um suéter de uma cadeira. Era uma garota linda, ela tinha os olhos azuis e o cabelo loiro da mãe, só que ela usava o dela em um corte a navalha que caia ao redor do rosto. Chelsea observou a filha segurar o suéter contra o peito e olhar pelas janelas, alheia à sua presença.
- Ei.
Sydney deu um pulo.
- Ohh... - Ela virou-se para a mãe. - Chelsea... eu não vi você sentada aí.
Uma pontada de decepção passou por ela. Chelsea... e não mãe.
- Desculpe-me, eu não queria assustá-la.
- Tudo bem. - Sydney foi em direção à porta.
- Por favor... sente-se comigo por um minuto. Não tenho visto muito você desde que saímos com a mamãe para comemorar nossos aniversários.
Sydney ficou tensa.
- Estou fazendo as malas. Tenho que voltar a Stoney Creek para uma sessão do grupo de ioga. A residência está lotada neste final de semana.
Chelsea sentia-se estranha. Ela sabia que Sydney estava brava com ela.
- Só por alguns minutos. Converse comigo.
Sydney sentou-se rigidamente em uma das cadeiras de vime de frente para ela.
- Eu sei que você está chateada comigo. - Chelsea fez uma pausa para avaliar a filha. - Precisamos falar sobre isso.
A garota olhou fixamente para o chão.
- Não sei se agora é uma boa hora.
- De alguma forma, acho que nunca será uma boa hora se eu for esperar você vir falar comigo. Você está com raiva de mim, eu sei disso.
Sydney ergueu os olhos e olhou para a mãe.
- Sim... estou brava. Com várias coisas.
- Bom, então, vamos começar com a primeira delas.
Sydney estreitou os olhos.
- Se você insiste. Estou brava por você ter dado em cima de Jax. Que mãe faria isso? Dar em cima do namorado da filha?
O rosto de Chelsea ficou vermelho.
- Eu sei e eu sinto muito, mas eu estava bêbada.
A filha inclinou-se em direção à mãe.
- Não, não... você não pode descartar isso como se estar bêbada fosse uma desculpa para ficar tudo bem.
- Não foi minha intenção, foi apenas uma explicação. Ele me elogiou e eu precisava disso. Por mais ridículo que pareça, por um momento eu esqueci que ele estava com você. Claro que isso foi totalmente errado e estou me sentindo muito mal. Não vai acontecer de novo.
A jovem recostou-se na cadeira.
- Até a próxima vez que você estiver bêbada. Dói para mim dizer isso, mas como posso confiar em você? E não me refiro apenas ao Jax.
Foi a vez de Chelsea encarar o chão enquanto pesava suas próximas palavras.
- Hoje percebi como estou confusa e eu...
Sydney interrompeu:
- É, está. E isso me entristece, me decepciona e me enoja completamente. - Ela levantou-se e caminhou pelo cômodo. - Pensei que tivesse encontrado uma mãe... a minha mãe, mas você não age como uma. Você se veste como eu, ouve as mesmas músicas que eu e age como se fôssemos melhores amigas ou algo do tipo. Chelsea, você tem quarenta anos e eu vinte e dois. Eu simplesmente não sei como assimilar isso.
Os olhos de Chelsea se encheram de lágrimas.
- Eu fui uma boa mãe quando você era bebê. Pergunte à sua avó, ela vai confirmar, mas você voltou para mim dois anos mais velha do que quando fui sequestrada. Eu só... eu só não sei como ser mãe de uma adulta porque eu nem mesmo sei como ser uma.
Sydney voltou a sentar-se.
- E você acha que vai descobrir isso no fundo de uma garrafa? Ah... e essa é a coisa número dois na minha lista da raiva. Sim, você foi uma vítima por vinte anos. Eu nem consigo começar a imaginar como isso a afetou e o quanto lhe custou. Deus sabe que tenho tentado. Tenho sido paciente, tentei entender as etapas e fui às terapias, mas você... você desistiu.
Os olhos de Chelsea brilharam de raiva.
- Eu não desisti.
Sydney apoiou os braços sobre os joelhos e encarou a mãe.
- Oh, é mesmo? Você se mudou para Kelowna há seis meses para um novo começo. Você ia voltar a estudar. Ao invés disso, você se tornou uma beberrona e festeira, e parou de fazer terapia. - Sydney levantou-se e pegou seu suéter. - E isso me leva ao que mais me zangou.
Olhando para a filha, Chelsea não disse nada. Havia tanta coisa que ela queria dizer, mas sabia que era melhor deixar Sydney liberar toda a raiva que estava sentindo.
- Conte-me.
- Minha avó. Ela passou vinte anos sofrendo em silêncio, se perguntando se você estava viva ou morta. - Sydney fez uma pausa. - Foi mais fácil para ela lidar com o seu desaparecimento acreditando que talvez você tivesse fugido e estivesse viva em algum lugar, vivendo uma vida feliz, mesmo que você não a quisesse por perto. Quando a encontramos, sabia que ela se sentiu culpada por carregar aquela raiva contra você por todos aqueles anos, enquanto você estava o tempo todo do outro lado da fazenda trancada pelo vizinho?
- Não tinha como ela saber disso - sussurrou Chelsea.
- Não, não tinha. E então ela a trouxe de volta e em vez de aproveitarem o tempo que vocês duas poderiam estar passando juntas, você está jogando tudo isso fora. - Sydney estava agitada e sua voz estava em um tom mais alto. - Uma coisa é lidar com tudo isso, mas assistir minha avó sofrer - faz meu sangue ferver. Você perdeu vinte anos da sua vida. Não há nada que você possa fazer para mudar isso, mas você pode ter mais três desses anos no futuro para compensá-los. Mas se você escolher permanecer uma vítima e seguir o caminho que está seguindo, você se autodestruirá e levará minha avó junto. E se isso acontecer, eu gostaria que nunca tivéssemos a encontrado.
Sydney virou-se e saiu correndo do jardim de inverno.
Chelsea estava cega pelas lágrimas. Ela queria correr atrás de Sydney, mas não conseguia se mover. Ela olhava para a frente, para o jardim através das janelas. Tudo o que sua filha havia dito era verdade. Naquela manhã, ela tinha enfrentado seus demônios internos, enxergando a pessoa que havia se tornado. Ela queria explicar isso à filha, mas sabia que, no atual estado emocional de Sydney, ela não teria acreditado nela. Era melhor não dizer nada.
A porta da frente abriu e fechou. Poucos minutos depois, ouviu-se o motor de um carro e Chelsea soube que sua filha havia ido embora. Eu gostaria que nunca tivéssemos a encontrado. As palavras doem. Elas penetraram profundamente na psique de Chelsea. Ela deixou as lágrimas rolarem, enterrou o rosto nas mãos e chorou. Ela chorou pela dor que estava causando à mãe e à filha; ela chorou por tudo que havia perdido; mas acima de tudo, ela chorou pela sua própria fraqueza.
2
Elizabeth Grey estudou a neta. Ela conhecia bem as expressões faciais e a linguagem corporal dela. Tem algo errado , ela pensou.
Elas se encontraram mais cedo para um jantar no restaurante grego favorito das duas antes que Sydney fosse para a fazenda em Stoney Creek. Durante toda a refeição, a neta ficou distraída e sua conversa era vaga. Sydney estava beliscando sua torta de limão sem glúten enquanto Elizabeth bebericava seu café.
- Ok... o que está acontecendo?
- O quê? O que a senhora quer dizer?
- Você esteve distante durante toda a refeição.
Sydney sorriu.
- A senhora me conhece muito bem.
- Sim, conheço. E eu sei que você está chateada com alguma coisa. - Elizabeth estendeu o braço por cima da mesa e apertou a mão dela.
- Ah, vovó! Eu conversei com a Chelsea antes de sair de casa e disse coisas horríveis a ela. Eu não queria, mas depois que comecei, não consegui calar a boca.
Pensar na filha trouxe uma expressão de dor no rosto de Elizabeth.
- Não posso dizer que estou surpresa. Já faz muito tempo. Vocês duas estão em desacordo há meses. Até o nosso jantar naquele dia para celebrar o aniversário de vocês foi obviamente tenso.
Sydney levantou uma sobrancelha.
- Eu esperava que a senhora não tivesse notado. A senhora sabe por quê?
Elizabeth deu de ombros.
- Presumi que, assim como eu, você está desapontada com a forma em como ela está lidando com os problemas dela.
- Sim, isso faz parte, mas é mais complicado do que isso. Eu estou realmente brava com ela. Ela queria falar sobre isso e eu acabei me soltando. Lembra quando Jax e eu viemos para comemorar seu aniversário?
- Sim, foi uma noite divertida.
- A maior parte sim. A senhora foi para casa antes de nós com seus amigos e Chelsea ficou bêbada... como de costume. Fui ao banheiro e, quando voltei, ela estava dando em cima de Jax. Ele ficou envergonhado e eu, enojada.
Elizabeth balançou a cabeça.
- Eu sinto muito, mas talvez seja melhor você conversar com ela.
- Vovó, eu realmente fui má. Eu disse que o estilo de vida dela estava machucando a todos, principalmente a senhora. E que se isso continuasse, eu gostaria que nunca a tivéssemos encontrado.
A avó se encolheu. Seu peito doía.
- Oh, Sydney.
- Eu sinto muito. Eu estou me sentindo péssima, mas às vezes é assim que me sinto. Eu entendo que ela está em uma luta interna, mas é difícil quando ela age assim e faz coisas como dar em cima do meu namorado.
- Não estou defendendo as ações dela ultimamente, mas só se passaram nove meses. Chelsea ainda tem muito o que superar.
- Eu sei, mas esse caminho repentino de bebida e festa em que ela está, só vai prejudicá-la. Eu quero entender a batalha dela, mas para mim é como se ela tivesse desistido.
Elizabeth colocou sua xícara na mesa e torceu as mãos distraidamente.
- Definitivamente ela está em um modo de autodestruição. Conversei com a Dra. Sauvé sobre isso. Eu esperava que ela pudesse fazer algo neste tipo de situação, mas as mãos dela estão atadas.
Sydney desistiu da torta de limão e cobriu-a com o guardanapo.
- Fazer algo como o quê?
- Eu não sei... talvez colocá-la em um hospital por trinta dias para observação onde ela teria um tratamento mais intensivo, mandá-la para a reabilitação... alguma coisa assim. A Dra. Sauvé diz que ela é adulta e, a menos que tente fazer mal a si mesma ou aos outros, ela não tem autoridade legal para fazer nada a respeito. E Chelsea não retornou suas ligações desde que parou de ir às sessões, então ela realmente não sabe o que está acontecendo com ela.
Sydney colocou a mão sobre a da avó para impedi-la de esfregar os dedos já vermelhos.
- É preocupante, vovó, mas não sei o que podemos fazer. Chelsea tem que descobrir isso sozinha. Minha principal preocupação é realmente o efeito que isso está tendo sobre a senhora.
- É difícil, mas tenho a esperança de que ela vai se curar. Nós duas demos muito espaço a ela, mesmo quando não concordamos com seu comportamento. Está na hora de eu tentar falar com ela. Lamento que a conversa de vocês tenha sido ruim, mas dê a ela um pouco de espaço e tempo.
O garçom trouxe a conta e Elizabeth insistiu em pagar. As duas mulheres deixaram o restaurante e caminharam em direção a seus carros.
Sydney entrelaçou o braço no da avó.
- Sabe, meses atrás sugeri que ela lesse os diários porque pensei que ela poderia se reconectar com aquela pessoa forte e independente que ela era antes de tudo aquilo acontecer.
Elizabeth parou ao lado de seu carro.
- Eu entendo o motivo de ela não querer fazer isso. É porque a faria se sentir um fracasso. Espero que o espírito livre que ela tem escondido em algum lugar dentro dela lute para chegar à superfície.
- Esperamos que sim. É melhor eu ir, vovó. Dê-me um abraço. - As duas se abraçaram.
- Dirija com cuidado e me envie uma mensagem quando chegar em casa - disse Elizabeth.
- Pode deixar.
Como não estava pronta para voltar para casa, Elizabeth ligou para uma amiga e marcou uma visita para um café. Três horas depois, ela entrou em sua garagem. Não havia luzes acesas na casa quando ela destrancou a porta e entrou. Ela bateu à porta do quarto de Chelsea e, como não houve resposta, ela a abriu, confirmando que estava sozinha em casa. Ela saiu de novo. Ela foi até a cama desarrumada da filha e a arrumou, um esforço inconsciente que lhe trouxe um pouco de conforto. Não querendo imaginar onde sua filha estaria ou com quem, ela foi cedo para a cama. Uma série favorita na Netflix com novos episódios chamou sua atenção. Quando não conseguia mais manter os olhos abertos, ela desligou a TV e adormeceu.
Pouco tempo depois, ela acordou e ouviu alguém abrindo e fechando a porta da frente. Chelsea passou pela porta da mãe e entrou em seu próprio quarto. O relógio marcava 22h30. Elizabeth ficou surpresa.
Ela chegou cedo pela primeira vez. Pelo menos sei que está em casa e segura.
3
SETE HORAS ANTES...
Chelsea usou as mangas do moletom para enxugar as lágrimas de seu rosto. Uma calma a envolveu enquanto ela olhava pela vidraça, focando nas travessuras de um esquilo preto subindo pelo tronco de uma árvore. O sol desapareceu na esquina da casa e o cômodo esfriou. Arrepios subiram pela sua pele. Ela passou as mãos para cima e para baixo nos braços sobre o moletom para aquecê-los enquanto revivia o confronto com a filha. As palavras contundentes de Sydney forçaram Chelsea a avaliar os últimos nove meses, a reavaliar suas ações e a enfrentar seus fracassos. Ela tentou enxergar tudo pela perspectiva da mãe e da filha.
Uma explosão de ideias confusas invadiu sua mente. Uma palavra veio à tona acima da rápida sucessão de pensamentos que a abriu para uma consciência - vítima. Na raiva, Sydney dirigira essa palavra a ela.
Eu fui uma vítima; EU SOU uma vítima... porque eu ainda me considero uma.
Chelsea pensou muito sobre isso. Ela já tinha conversado sobre todos os seus estágios de recuperação com a Dra. Sauvé e experimentado todos eles: choque, ansiedade, culpa, depressão, raiva, perda e solidão. Mas entendê-los não parecia ajudá-la. Por quê? Eu quero me sentir normal - ser normal.
Naquele momento, Chelsea sabia o que tinha que fazer. Ela voltou para a cozinha com sua xícara de café vazia. Uma olhada no relógio mostrou que eram 16h. Hmm... é melhor eu me apressar. Está ficando tarde. Ela recuperou a lista telefônica e procurou até encontrar o número que queria. Ela digitou o número e esperou.
Uma voz atendeu:
- Rhyder Developments, escritório do Sr. Rhyder.
- Olá, o Sr. Rhyder está disponível? - perguntou Chelsea.
- Ele está aqui, mas não tenho certeza se está recebendo ligações no momento. Quem gostaria de falar com ele?
- Por favor, diga-lhe que Chelsea Grey gostaria de falar com ele. É importante.
- Um momento, por favor - disse a voz.
Chelsea andou pela cozinha, batendo os dedos nervosamente no celular no ritmo da música que tocava em seu ouvido. Ela não teve que esperar muito.
- Chelsea? É o Wes. Estou feliz que você tenha ligado. Como você está?
Uau, ele soa o mesmo de quando tinha dezoito anos. Uma risada nervosa escapou da boca dela.
- Bom... essa é uma pergunta difícil. Digamos que estou chegando lá, ou tentando. Ouça, Chaz... - O apelido que ela sempre o chamava escapou. Outra risadinha. - …Ou devo chamá-lo de Wes?
Foi a vez de Wes rir.
- Ninguém me chama assim há anos. Você pode me chamar de Chaz se quiser, de qualquer jeito está bom. É bom ouvir sua voz.
Ele parece tão nervoso quanto eu.
- Gostaria de agradecer pelas flores e pelo cartão. Eu deveria ter ligado meses atrás, mas eu não estava... - Chelsea hesitou, procurando pelas palavras certas. - Eu não estava pronta para falar com as pessoas do meu passado.
- Ei, eu entendo, de verdade. E agora... aí está você.
Chelsea decidiu ir direto ao ponto:
- Ouça, há algo que eu gostaria de falar com você, mas prefiro não fazer isso por telefone. Você acha que podemos nos encontrar para um café?
- Claro. Quando você quer me encontrar?
- O mais rápido possível. Preciso tomar uma decisão e nosso encontro pode ser que tenha um efeito sobre ela.
- Uau, que intrigante. Olha, estou terminando minhas coisas por aqui. Se você estiver disponível agora, por que não vem ao meu escritório? Em meia hora todos irão embora e estaremos livres para conversar.
Ela soltou um suspiro. Primeiro passo.
- Estarei aí.
- Terceiro andar e vire à esquerda ao sair do elevador. Como você prefere o seu café? Vou pedir no andar de baixo.
- Preto, obrigada.
- Ok, vejo você em breve.
Chelsea correu para o seu quarto, tirou o moletom e o substituiu por uma blusa de seda preta com um decote redondo. Ela refez a maquiagem, puxou o cabelo para cima e o enfiou dentro de um gorro de lã, deixando uma franja parcial e mechas finas ao redor do rosto. Botas pretas de couro até o joelho sobre sua calça jeans skinny e uma jaqueta bomber preta de couro completaram seu vestuário. Uma olhada em um espelho de corpo inteiro revelou um rosto abatido com olhos cansados. É o melhor que dá para fazer, garota.
Enquanto dirigia para encontrá-lo, ela se lembrou do namoro deles na adolescência e tudo o que tinha acontecido nos últimos vinte anos. Eles cresceram juntos e frequentaram a mesma escola em Stoney Creek. Wes ‘Chaz’ Rhyder foi seu único namorado na adolescência. Eles estavam apaixonados, mas depois que ele deixou Stoney Creek para ir para a universidade, ela nunca mais ouviu falar dele. Pelo menos era o que ela pensava. Chaz havia escrito cartas e
