Desmama: memórias de uma mãe com outra mãe
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Sobre este e-book
Este livro parte do nascimento de Bernardo e Iolanda para narrar o cotidiano da família, desde os primeiros dias dos bebês até o desmame – tudo isso vivido em meio a uma pandemia. E mais: divididas em décadas, narrativas paralelas resgatam memórias da infância, juventude e vida adulta da autora.
Em Desmama, Marcela Tiboni reafirma sua escolha de viver a maternidade de forma aberta e inclusiva, quebrando mais uma vez o tabu da maternidade homoafetiva para contar a história de seu maternar ao lado de outra mulher.
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Pré-visualização do livro
Desmama - Marcela Tiboni
Sumário
Capa
Folha de rosto
memórias 1980
memórias 1990
Primeira tentativa
Segunda tentativa
memórias 2000
Tentativa noturna
Finalmente
Créditos
Pontos de referência
Capa
Sumário
Para minha família, que é dia,
é noite, é vida e é também
personagem deste livro.
Para minha esposa, Melanie,
que é par, é dupla, é parte
e é pedaço fundamental
daquilo que amo em nós.
Para meus filhos, Bernardo e
Iolanda, que, ao me fazerem
mãe, me fizeram mais complexa e
inteira, e se fizeram as pessoas
mais amadas do planeta.
Para minha mãe e meu pai,
Conceição e Adelchi, que
são a origem, o amor e a
história deste livro.
Para meus irmãos, Roberta e
Adelchi, base, estrutura e
sorrisos do que sou hoje.
Para mim criança, pela potência
de viver sorrindo, para mim
adolescente, pela coragem
de não desistir, para mim
adulta, pela força de tornar
tudo isso mais um livro.
des-MAMA-FINAL7des-MAMA-FINAL6Três anos separam este do meu livro anterior, Mama: um Relato de Maternidade Homoafetiva. Meu primeiro livro nasceu da dúvida, do medo, da falta, da necessidade, da ansiedade. Mel, minha mulher, estava grávida de quatro meses, e não havia um único livro que contasse a dupla maternidade, que nos preparasse para o que estava por vir, que nos acolhesse, que nos fizesse sentir representadas, escutadas e abraçadas.
Escrevi o primeiro livro do país sobre o assunto como quem desabafa sobre a vida com a melhor amiga. Foram exatos nove meses de escrita, como uma gestação que chega a termo. Coloquei no mundo um livro que conta o amor entre duas mulheres e os processos que trouxeram nossos filhos ao mundo.
Por que falo do meu livro anterior quando deveria estar falando deste? Porque este livro é uma espécie de continuação daquele. Mas, se você não leu o primeiro, não se preocupe, pode ler este tranquilamente, pois trata-se de uma narrativa independente. No primeiro, mesclo duas histórias, o amor por minha esposa – Mel – e nossa história de busca pela dupla maternidade.
Conto como eu e a Mel nos conhecemos, nos apaixonamos, fomos morar juntas, adotamos uma cachorra e decidimos ter filhos. Intercalando com tudo que vivemos ao longo do processo da gestação e parto da Mel: a escolha da clínica, do sêmen, a doação dos óvulos da Mel, a descoberta de que teríamos gêmeos, nossa escolha pela dupla amamentação, a preparação do meu corpo para amamentar sem ter gestado e o nascimento deles.
Mas, como eu disse, o primeiro livro foi escrito como um desabafo, uma tentativa de sanar essa lacuna do mercado editorial e acolher as centenas – talvez milhares – de mulheres lésbicas, bissexuais ou trans em busca de viver a dupla maternidade.
O que eu não imaginava é que tomaria gosto pela escrita e faria dela a minha nova profissão. Também não imaginei o impacto que meu primeiro livro teria na vida de tantas pessoas e na minha própria.
Um ano se passou até que, em agosto de 2020, em meio a uma pandemia de escala mundial, entendi que a dupla maternidade não era um assunto que se esgotaria em um único livro. Que cada fase da minha vida em família poderia gerar um livro novo, que – provável e infelizmente – seguiria sendo um dos primeiros sobre o tema. Mais que isso, que cada fase do desenvolvimento dos meus filhos, cada ocupação da nossa família nos espaços públicos e sociais, sendo mãe ao lado de outra mãe, traria desafios, descobertas, transformações, reflexões e questionamentos novos. De minha parte, da parte da Mel, da parte do Bernardo e da Iolanda, que agora são crianças de 3 anos e, portanto, muito falantes e em pleno relacionamento com o mundo. Entendi que o Mama poderia ser o primeiro de muitos, de uma série, de uma coleção de livros que, de tempos em tempos, trariam a realidade da minha família, da maternidade lésbica, do maternar ao lado de outra mulher.
Quando entendi isso tudo, abri meu computador e comecei a escrever este Desmama. Contar tudo o que não contei no primeiro livro, o que veio antes da Mel e o que veio depois que chegamos em casa com dois bebês recém-nascidos.
Este livro pode ser lido sem a leitura do livro anterior, pode ser lido depois do Mama, pode ser lido pensando que depois virá outro, virão outros. Desejo viver muito para contar em novas páginas tudo que pensei, senti e questionei ao longo dessa jornada.
Marcela Tiboni,
maio de 2022
Uma história
de afeto
e coragem
Sou um tanto cara de pau. Um dia, ouvindo um podcast no qual Marcela contava seus perrengues com a amamentação, decidi mandar a ela uma mensagem. Algo na maneira irônica como ela relatava o que estava vivendo me chamou a atenção, e eu soube na hora que era aquele típico caso de quem ria para não chorar.
Arrisquei levar um fora, e ganhei uma amiga. A mensagem evoluiu para uma conversa, que virou um encontro virtual, que se transformou numa amizade, selada com abraço demorado no meio da pracinha, mais de um ano depois. Materializar e dar textura a uma pessoa que só conhecia virtualmente foi importante, assim como ver ao vivo a dupla maternidade da Má e da Mel.
Mudar as narrativas sobre o que é ser mãe se tornou uma busca particular, e encontrar duas mulheres dividindo a criação dos filhos me ajuda a expandir crenças e me convida a redesenhar o que o patriarcado me contou sobre maternar. Ou seja, Marcela estica minhas fronteiras e me transforma.
Todo esse atrevimento me traz até aqui, até as páginas iniciais do segundo livro da Marcela. Confesso que disse sim sem pensar, mas, quando li a primeira versão, tudo fez sentido.
Tenho um interesse pela origem. Gosto de saber as histórias das famílias, de onde vêm, o que trouxe cada um até aqui. Sinto curiosidade em relação aos encontros e desencontros e como tudo isso é repassado aos mais novos. Gosto de entender como se estabelece a relação com as crianças que chegam, e o que trazemos dessa raiz para o dia a dia, quando o filho grita porque quer um brinquedo ou a filha foge antes de entrar no banho.
Sou uma observadora de como as heranças emocionais se instalam, sem que a gente perceba, e acho graça do tanto que carregamos em nossos gestos e escolhas aqueles que vieram antes de nós. Vejo álbuns de família e me sinto diante de mapas do tesouro. E esse livro é exatamente isso.
Como numa valsa, Marcela nos tira para dançar e brinca com o passado e o presente. De forma generosa, ela nos permite olhar pelo buraco da fechadura como foi sua infância e nos apresenta pai, mãe e irmãos. Não estranhe se você se apaixonar pela versão criança da Marcela. Aconteceu comigo. E de uma forma muito bonita consegui perceber essa menina na mãe que a Má vem se tornando. Sim, ser mãe é gerúndio. Aliás, poder observar esse trabalho contínuo de se tornar mãe através das palavras de Marcela é um privilégio, e perceber seu crescimento junto com Bernardo e Iolanda é algo forte. Parto, amamentação, criação de filhos, relacionamentos, trabalho e maternidade, tretas de família são relatados de forma leve. Você vai rir, chorar e se identificar.
Na costura entre a família de origem e a família que ela forma junto com Mel e as crianças, o afeto é o personagem principal. É ele que alinhava o cotidiano narrado por Marcela, é ele que nos carrega através das páginas. Mas a palavra que fica para mim é coragem.
A maternidade ainda é um espaço de heteronormatividade e o trabalho de Marcela é fazer a gente repensar esse conceito. Isso é muito corajoso. Falar sobre o processo de se descobrir lésbica em uma família tradicional é muito corajoso. Revelar ambivalências maternas, quando se espera a linearidade das mães, é muito corajoso. Trazer com honestidade as dores e delícias de um desmame é muito corajoso.
Estou orgulhosa de você, Má. E te agradeço pelo tanto que você nos deu com este livro.
LUA BARROS
educadora parental, mãe de
quatro e autora de Eu Não
Nasci Mãe (Editora Nacional)
des-MAMA-FINAL101982
É menina. Uma menina. Parabéns!
Essas foram as primeiras palavras que ouvi quando cheguei a este mundo. Sabia, desde antes de entender o significado da palavra, que eu era mesmo uma menina. Essa palavra – menina – foi dita por um estranho que me tirou da barriga da minha mãe a fórceps, repetida pelo meu pai comigo nos braços e endossada pela minha mãe, que, em seu terceiro parto, chorou de alegria e quis se certificar de que o fórceps não havia arrancado um pedaço do meu crânio. Com isso dito e repetido tantas vezes, eu só podia, mesmo aos 29 segundos de vida, fazer desta a minha primeira certeza: eu era uma menina.
Mas, para todos os casos, seria Gustavo – se nascesse menino, me chamaria Gustavo. O único rebento da casa que tinha de antemão dois nomes escolhidos – um de menino e um de menina –, porque até onde eu sei as intuições materna e paterna não falharam nos dois partos anteriores. Desde antes de os meus irmãos nascerem, meus pais pareciam já saber que minha irmã mais velha seria a Roberta e o do meio o Adelchi. Minha mãe queria uma menina, e ela veio no primeiro parto. Meu pai, um menino, e ele chegou no segundo parto. Sendo assim, no terceiro, viesse o que viesse, seria uma alegria sem fim para todos os envolvidos.
Quando perguntei, já adolescente, que nome meus irmãos teriam se viessem de outro gênero, lembro a resposta da minha mãe:
— Ah, não tinha muito ao certo. Eu sempre tive uma certeza meio engraçada de que a Roberta era mesmo menina, então escolhemos Roberta, e o mesmo para o Adelchinho. Achávamos que era menino mesmo antes de nascer. Mas acho que a Roberta chamaria Adelchi e o Adelchi chamaria Roberta.
Agora, por que eu, justo eu, deixei dúvidas aos envolvidos? Bom, isso nunca saberemos.
Chegamos com dois bebês minúsculos e pouquíssima, ou quase nenhuma, noção de como cuidar deles. O preparo tinha sido tão intenso, tão árduo, tão seguro que eu imaginava que estaria completamente pronta para desempenhar o papel de mãe assim que pisasse em casa com os dois bebês. Mas, quando entrei na sala escura e acendi a luz, trazendo no braço uma cadeirinha com um bebê tão pequeno, tive a mais absoluta certeza de que não tinha noção do que estava acontecendo!
Sento-me na poltrona da sala, coloco a cadeirinha no chão, olho para os lados e não reconheço minha própria casa. Vejo meu filho dormindo, e todas as minhas certezas se desfazem, toda a história, que até ali parecia tão sólida, não passa de um grande sacolejar e amolecer sem fim.
Conheci a Mel em 2013, quando estudávamos na mesma turma em um curso de pós-graduação. Em agosto, nos achávamos chatas e arrogantes, em setembro passamos a nos olhar com curiosidade e nos perceber sob outra perspectiva, em outubro uma goiaba que levei de lanche quebrou o clima, empesteou a sala, ela me olhou um tanto reclamona e eu aproveitei a situação para conversar. Em 2 de novembro, demos o primeiro beijo, e nunca mais nos largamos.
Em 2015, fomos morar juntas, em 2016 adotamos Clotilde, nossa cachorra, e começamos a pensar em maternidade, em 2017 começamos o tratamento de fertilização in vitro. Foi também em 2017 que nos casamos, em duas festas lindas. Sim, duas! Em 2018, transferimos nossos únicos dois embriões para a barriga da Mel, e assim, de primeira, conseguimos nosso tão sonhado e desejado positivo. As 37 semanas e cinco dias de gestação da Mel foram animadas, com alguns sustos, muita expectativa e um interesse profundo pela dupla maternidade. Muita leitura, muita conversa, muito ativismo, muitas descobertas. E grande parte de nossa trajetória escrita por mim. Faltava pouco para lançar e fazer chegar às prateleiras das livrarias a primeira publicação sobre a dupla maternidade do país. Muita segurança, muita certeza, muitos planos. Tudo sobre a chegada de Bernardo e Iolanda organizado, escrito, falado e filmado. Como ao chegar em casa a sensação era de puro desconhecimento e medo? Não era isso que tínhamos planejado, não era isso que tínhamos organizado em nossa cabeça, não era assim que meu corpo deveria reagir ao chegar em casa. Buuummm, meu mundo particular estava de pernas para o ar e eu não sabia como colocá-lo para andar.
Minutos depois, a Mel subiu as escadas, entrou com mais um bebê na cadeirinha e minha esperança era de que ela desse vida ao espaço, me fizesse reconhecer aquele lugar, me fizesse sentir em casa. Mas ela chegou, olhou para os lados, sentou na poltrona ao lado da minha, colocou a cadeirinha com Iolanda dormindo ao lado do Bernardo, me olhou e, em silêncio, entendemos que nenhuma de nós reconhecia a casa. Talvez a casa tenha sido apenas uma analogia, talvez não estivéssemos reconhecendo a nós mesmas. Os objetos eram os mesmos, a disposição dos móveis, o cheiro, tudo estava igual a três dias antes, quando saímos com nossos filhos na barriga. Agora voltávamos para uma casa desconhecida, ou nos desconhecíamos, e tínhamos a esperança de que a casa nos fizesse reconhecer a nós mesmas. Seja o que for, não houve reconhecimento de coisa alguma. Éramos estranhas, em uma casa estranha, com bebês pouquíssimo conhecidos.
Desejamos tanto viver tudo isso, sonhamos tanto com a ampliação da nossa família, só esquecemos que não seríamos mais as mesmas ao voltar para casa com duas crianças. Que era impossível prever as mudanças que viveríamos em tão pouco tempo. Na sexta-feira, eles nasceram, na segunda-feira estávamos em casa. Um intervalo de apenas três dias, mas aquela parecia outra vida!
Enquanto meu pai dirigia do hospital de volta para casa, comigo sentada no banco da frente e a Mel sentada no banco de trás, entre duas cadeirinhas e o sacolejar típico dos buracos nas vias de São Paulo, nossos olhares pareciam reconhecer uma cidade nova. As buzinas, os faróis, o barulho das motos que aceleravam por entre os carros, tudo parecia novo e assustador. Tinha medo de que meu pai batesse o carro, errasse o caminho, os bebês acordassem e não pudéssemos pegá-los no colo. Quase chegando em casa, ao fim de um percurso de 40 minutos, em que o único assunto foi a chegada de Bê e Ioiô, meu pai toma coragem e diz:
— Filha, agora você é mãe. Não dá mais para ir a protestos e manifestações de rua. Não dá mais para enfrentar a polícia ou se colocar em risco. Você precisa cuidar deles, colocá-los em primeiro lugar.
Eu não entendia absolutamente nada daquela conversa, demorei a ter qualquer reação. Eu, que normalmente tinha resposta para tudo, precisei pensar sobre essa nova lógica. Parecia absurdo nunca mais ir a uma manifestação, mas também me parecia perigoso levar um bebê comigo a um ato coletivo em que policiais, instruídos por um governo violento, seguem ordens de atacar. Além de não ter resposta, eu não tinha a menor vontade de responder. Parecia não haver espaço dentro de mim para formular qualquer pensamento que não o de lembrar onde eu estava, com quem e para onde estava indo.
O que aconteceu na sequência da conversa você já sabe. Chegamos em casa, pousamos as cadeirinhas no chão e ficamos ali, nós duas, tentando entender o que tinha acontecido, em quem tínhamos nos transformado e se já nos sentíamos mães. Três dias que pareciam anos. Daquele dia em diante foi assim que o tempo passou: desordenado, às vezes lento, às vezes voando, às vezes arrastado, às vezes sem sentido.
1985
Nasci e cresci em uma família branca da classe média paulistana, em um bairro tradicional de origem operária, a Lapa.
Meu pai nasceu na Itália e veio ainda muito pequeno morar com a família no Brasil. Nunca se naturalizou, nunca votou e nunca se gabou de ser europeu. Formou-se em engenharia. Um canceriano convicto, daqueles homens que choram e se emocionam, pai amável e brincalhão, que teve de viajar a trabalho durante grande parte da minha infância e adolescência, mas que, quando estava conosco, permanecia completamente entregue e presente na vida da família e dos filhos. Minha mãe nasceu em Portugal, também veio ainda pequena com a família para o Brasil, formou-se em física, começou a dar aulas muito jovem. Quatro anos mais velha que meu pai, e feminista que sempre foi, dizia: Vou casar e ter filhos só depois que minha carreira estiver consolidada
. E assim foi, dona de uma paciência impressionante, um didatismo admirável e um cuidado precioso.
Sou a filha caçula de três irmãos. Minha irmã tem quatro anos a mais do que eu, garota séria, empenhada, gentil, meiga e muito amorosa. Ao longo da infância, sempre fizemos tudo juntas, mas com ritmos diferentes. Roberta é daquelas pessoas que terminam o que começam, usam o intelecto para facilitar o trabalho, se dedicam e têm prazer nas pequenas atividades. Eu, ao contrário, era afobada, apressada, fazia tudo rápido, ficava entediada e queria começar outra coisa antes de terminar a primeira. Ela falava e eu gritava, ela caminhava e eu corria, ela dançava e eu pulava.
Meu irmão é um ano e 11 meses mais velho do que eu, garoto espoleta, agitado, de corpo inquieto, mente criativa e extremamente inteligente. Tudo o que ele fazia, eu queria imitar. Mesmo quando ele queria estar sozinho, eu aparecia para tentar descolar um pedacinho de traquinagem. Sua astúcia e capacidade de elaboração me deixavam boquiaberta e me faziam desejar demais aquela companhia. Mas a pequena diferença de idade e a similaridade de personalidades nos fizeram aprontar os maiores arranca-rabos que a casa poderia presenciar: era cada cutucão, empurrão, puxão de cabelo, belisco, mas também muita parceria.
Já eu nasci em 1982, na famosa década de 1980, quando rabos de cavalo no
