O peso e a mídia: As faces da gordofobia
De Agnes Arruda
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Sobre este e-book
Fafate Costa
Dra. em Memória Social. Pesquisadora de Estudos sobre as Mulheres.
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O peso e a mídia - Agnes Arruda
Conselho Editorial
Ana Paula Torres Megiani
Eunice Ostrensky
Haroldo Ceravolo Sereza
Joana Monteleone
Maria Luiza Ferreira de Oliveira
Ruy Braga
Alameda Casa Editorial
Rua 13 de Maio, 353 – Bela Vista
CEP 01327-000 – São Paulo, SP
Tel. (11) 3012-2403
www.alamedaeditorial.com.br
Copyright © 2021 Agnes Arruda
Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009.
Edição: Haroldo Ceravolo Sereza / Joana Monteleone
Editora assistente: Danielly de Jesus Teles
Projeto gráfico, diagramação e capa: Danielly de Jesus Teles
Assistente acadêmica: Tamara Santos
Revisão: Alexandra Colontini
Imagem da capa: Já Pensou em Fazer Dieta? 2021 Lígia De Marco e Paula. Técnica mista, guache sobre acetato sobreposto em papel seda 29 x21 cm.
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
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A817p
Arruda, Agnes
O peso e a mídia [recurso eletrônico] : as faces da gordofobia / Agnes Arruda. - 1. ed. - São Paulo : Alameda, 2021.
recurso digital
Formato: ebook
Requisitos dos sistema:
Modo de acesso: world wide web
Inclui bibliografia e índice
ISBN 978-65-5966-075-9 (recurso eletrônico)
1. Imagem corporal. 2. Obesidade - Aspectos Sociais. 3. Corpo humano na comunicação de massa. 4. Peso corporal. 5. Livros digitais. I. Título.
21-69256 CDD: 306.4613
CDU: 316.344:616.33-008.4
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A todas as mulheres que cruzaram e cruzarão o meu caminho ao longo da vida. Andamos juntas, lutamos sempre; até que todas sejamos livres.
Gordura não é feiura, é formosura!
Vó Isolette
Sumário
PREFÁCIO OU O ELOGIO DA BELEZA
Teresa Cunha
QUANDO A FICHA CAI
UM PROBLEMA DE COMUNICAÇÃO
MAS AFINAL... O QUE É GORDOFOBIA?
SOCIEDADE MIDIÁTICA: O CORPO À SUA IMAGEM E SEMELHANÇA
MAS POR QUE A MULHER?
AUTOETNOGRAFIA DA GORDOFOBIA: A HISTÓRIA DE UMA VIDA
O PESO E A MÍDIA: AS FACES DA GORDOFOBIA
CAMINHOS PARA A RESSIGNIFICAÇÃO OU: O CORPO GORDO PARA ALÉM DA GORDOFOBIA
REFERÊNCIAS
Prefácio ou o elogio da beleza
Este livro de autoria de Agnes de Sousa Arruda é, em primeiro lugar, um acto de ousadia. Ousadia porque é, em toda a sua extensão, um desnudamento que, de capítulo em capítulo, vai revelando as pragas que os nossos preconceitos lançam aos corpos, os chamados corpos gordos, especialmente aos corpos gordos das mulheres. Sem temer mostrar as imperfeições da pele, as pregas em que se abrigam os pelos púbicos e outros, os cheiros que os dias cheios de trabalho deixam pairando pelas dobras do pescoço ou dos braços, Agnes desnuda uma realidade desnudando-se a ela ao mesmo tempo. Quem ler este trabalho verá que não são metáforas porque os corpos gordos de que nos fala a autora estão materialmente presentes e falam, até gritam, no meu entendimento. Falam, sussurram e gritam muitas coisas que os habitam: sofrimentos, perplexidades, raivas, forças, lágrimas e os caminhos que caminham para mudar as coisas. Assim, eu leio este livro. Um livro que é muito mais do que um trabalho académico, ele é também um manifesto nas primeiras pessoas do singular (eu) e do plural (nós) sobre a gordofobia. Só por esta razão, enfrentar o desnudamento dos nossos estereótipos e preconceitos, e fazê-lo com este profundo conhecimento do assunto, com elegância e ousadia, já são razão suficiente para ler e apreciar a lição que é este livro, para todas e todos nós.
A autora mostra muito bem como a hipervisibilidade das pessoas consideradas gordas redunda na sua invisibilidade; muitas vezes numa atroz transparência tanto social como cognitiva. Isso quer dizer que de tanto se falar na gordura dos corpos e no seu carácter patogénico, vai-se transformando em grãos de poeira, praticamente invisíveis, não apenas esses corpos, mas sobretudo as pessoas que neles habitam. Os provérbios, os alertas, os ditos, os conselhos, as dietas, as prescrições as campanhas e as promoções fazem doer, mas doer tanto que os corpos-transformados-em-grãos-de-poeira-fina precisam de desaparecer das nossas vistas para aplacar o cruel mandamento que proclama, vezes sem fim, que a magreza – a mais extrema – é igual à etérea beleza. Que fado e que ilusão; que corpos irreais e descompostos; que pessoas tristemente amarradas às grilhetas da sua obsessão pela sua folha de alface ou do palitinho de cenoura!
A meu ver, o que Agnes nos ensina neste livro, de uma forma magistral, são três coisas muito importantes. A primeira é reconhecer como nas nossas sociedades vamos construindo os estereótipos que depois transformamos em formas culturais de permanente discriminação de alguém, de muitas/os. Esse reconhecimento é antes de mais um auto-conhecimento, a possibilidade de nos vermos no nosso próprio espelho e perceber o quanto participamos em cada uma dessas formas de violência sobre as pessoas que chamamos de gordas. Por isso, a ausência da palavra ‘gordofobia’ nos dicionários de Língua Portuguesa, ou então a sua inclusão muito recente. Isso mostra como é difícil classificar esse medo, essa repulsa por corpos desalinhados com as nossas manias colectivas, como o preconceito que temos e que é preciso admitir para o poder enfrentar e destruir.
A segunda lição, é como precisamos de aplicar a lógica da redenção que é também a lógica da rendição, às pessoas gordas ou que por nós assim são consideradas. A autora, ao analisar vários produtos que a mídia faz circular entre nós, ela revela, não apenas como se constroem ideias dominantes sobre os corpos, em especial os das mulheres. Essas ideias, na verdade, estão cheias de razões muito pouco compatíveis com a realidade. Para impor uma fantasia, que é também um fetiche, os média criam esta meta-realidade que se constitui numa materialidade visual e auditiva que nos faz ver os corpos, quase todos, como deformações de um ideal que só existe nos comandos da aplicação informática e depois nos cristais líquidos das nossas telas. E Agnes vai fazendo o exercício de colocar em evidência esta forma de loucura e violência colectivas que redunda, muitas vezes, na nossa pulsão, judaico-cristã e tão colonial, de impor uma salvação aos ‘selvagens’, aos corpos que se rebelam e não se conformam nem se medem pelas mesmas medidas. Isto fica claro neste livro: civilizam-se os corpos e as suas pessoas nas rendas de metáforas com as quais se quer, a final esconder tudo o que são verdadeiramente e querem ser. E como o caminho da redenção pressupõe sempre o martírio das carnes, o seu epítome é a sua transformação radical: despojam-se as carnes das gorduras, colocam-se os ossos o mais visíveis possível através das peles dependuradas e tem-se assim, plasmado nos écrans, esse sangue redentor, mas que não tem cheiro, não mancha, não traz os gritos das dores que essas makeover impõem. Agnes mostra tudo isto de uma forma incrivelmente real e, ao aumentar a resolução do nosso próprio espelho, nos ensina como os média podem ser os mestres dos nossos enganos e como com eles precisamos lutar por média mestres de coragem e sabedoria.
A terceira linda e preciosa lição que esta obra nos traz, pensada e escrita pela Agnes Arruda, minha querida colega e amiga, é a de não se deixar escapar a si mesma de todo este processo. Ela cria conhecimento encarnado, conhecimento quente e fértil. Neste sentido, este livro é uma obra feminista que assume a complexidade da produção epistemológica como alguma coisa que não se pode desligar nem dos corpos nem dos contextos em que se dá. Além disso, e tal como muitas feministas antes dela já diziam, ela revela de forma sistemática e bem informada como o pessoal é político, como o que parece ser privado é público e como as fronteiras entre o saber e o não-saber são para serem transgredidas por uma imaginação sociológica criativa e crítica. A auto-etnografia que a Agnes leva a cabo é tanto a revelação de uma valentia pessoal como uma ousadia epistemológica no campo disciplinar onde se move, que resulta num conhecimento potente, forte, claro e relevante sobre a relação entre a gordofobia e os média.
Sou feminista, eu também, e não posso terminar a escrita deste prefácio sem vos dizer, coraçonando, que me sinto companheira e aprendente de Agnes desde o momento em que nos encontramos do outro lado do mar Atlântico e seguimos juntas em várias aventuras tanto académicas como as que são regadas com pura amizade, respeito e admiração. É muito bom, é uma preciosidade poder ter na nossa vida este livro, a rectidão e a limpeza cristalina que é a Agnes de Sousa Arruda.
Bem-hajas! Mando um cheirinho de alecrim.
Coimbra, 1 de Maio de 2020
Teresa Cunha
Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra
Quando a ficha cai
Eu tinha pouco mais de sete anos quando me dei conta que as outras pessoas me tratavam diferente por causa do tamanho do meu corpo. Era meados dos anos 1990, eu morava no interior de São Paulo; a mais velha de três irmãos em uma família de mãe professora e pai se virando como podia em trabalhos autônomos. Para muitas crianças dessa geração, cujos pais trabalhavam fora para sustentar a família, a programação televisiva era uma importante fonte de distração e entretenimento. Não havia, no meu convívio, a cultura da problematização e, no geral, aceitávamos os conceitos e pré-conceitos que nos eram passados sem nem mesmo perceber que isso estava acontecendo. Naquela época, meu maior sonho era ser paquita. ¹E se o auge da beleza estava em um modelo loiro e magro, não demorou muito para que a contraposição com meu corpo gordo se formasse e eu entendesse, então, que ele era considerado feio.
Cresci assim, como muitas meninas cresceram e crescem até hoje, achando seus que seus corpos são feios. E daí que por dizer isso você pode pensar: mas Agnes, é uma pressão estética! Toda gente sofre com isso. Inventam defeitos nos nossos corpos para vender produtos de beleza, procedimentos estéticos e cirurgia plástica; ninguém está ileso!
. Bem, isso é verdade, e é um problema sério, mas não o foco deste livro. Isso porque, no entanto, bem mais que feios, os corpos gordos são considerados sujos, errados, inadequados, incapazes... Indignos de amor, felicidade, carinho, sucesso... Respeito. E por quê? Bem, aí vai uma dica: não é porque a obesidade é uma doença e estão preocupados com a saúde dessas pessoas
, mas passa por um imbricado relacionamento do estigma que quem é gordo carrega socialmente com os estereótipos amplificado pela mídia, ou seja, os meios de comunicação hegemônicos.
Como são as mulheres bem-sucedidas, felizes, amadas e desejadas da TV, do cinema, dos seriados, dos telejornais, das revistas... E como elas não são? Como são as antíteses do modelo positivo? Como são as vilãs, as tristes, as infelizes, as amarguradas? E que características adicionais são dadas às personagens gordas? Sujas, repulsivas, desleixadas,
