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Feminismos em movimento
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E-book465 páginas4 horas

Feminismos em movimento

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Sobre este e-book

Feminismos em movimento é um livro que nasce de uma inquietação das organizadoras, Camila Galetti e Jéssica Melo Rivetti, em representar a pluralidade que abarca os movimentos sociais, políticos e acadêmicos que se denomina de feminismos. Ao longo dos anos, a luta se desenvolveu em várias direções, correntes e perspectivas teóricas e cada uma delas trouxe uma visão única sobre as questões de gênero. Essas visões refletem não apenas diferenças de análise teórica, mas também diferenças de contexto, de histórias pessoais e de experiências sociais. Assim, o resultado é um movimento diverso, com perspectivas múltiplas que buscam transformações sociais profundas em direção a uma sociedade mais justa e igualitária.

O livro que apresentamos aqui se insere nesse debate, buscando, com uma linguagem didática, dar voz a diferentes perspectivas feministas, que vêm trazendo contribuições valiosas para a luta por igualdade de gênero em diferentes contextos políticos e sociais. Por isso, os verbetes expressam tanto em autoria e em seus formatos, as demandas e agendas que orientam cada tipo de feminismo. As reflexões teóricas e práticas sobre a pluralidade do movimento mostram-se relevantes para a compreensão da complexidade das lutas feministas.

Com a colaboração de 38 autoras e com 32 verbetes — apresentados por ordem alfabética —, contamos com brasileiras de diversas regiões do país, três argentinas, uma indígena do Povo Aymara e uma espanhola. Entre as autoras, temos professoras universitárias, pesquisadoras pós-graduadas, graduadas e militantes especialistas na temática.

Os temas abordados são: Anarcofeminismo, Antifeminismo, Ciberfeminismo, Ecofeminismo, Feminismo Anticapacitista, Feminismo Camponês e Popular, Feminismo Comunitário, Feminismo Cristão, Feminismo Cultural, Feminismo da Diferença, Feminismo da Igualdade, Feminismo Decolonial, Feminismos Dissidentes, Feminismo e Prostituição, Feminismo Filosófico, Feminismo Institucional, Feminismo Interseccional, Feminismo Jurídico, Feminismo Lésbico/Lesbofeminismos, Feminismo Liberal, Feminismo Materialista, Feminismo Negro, Feminismo Pós-colonial, Feminismo Pro-life e Ativismo Pró-vida, Feminismo Queer (no Brasil), Feminismo Radical, Feminismo Riot Grrrl, Feminismo Socialista, Feminismo Transnacional, Homens Feministas, Marxismo Feminista, Transfeminismo.
IdiomaPortuguês
EditoraEditora Luas
Data de lançamento22 de mar. de 2024
ISBN9786581177096
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    Feminismos em movimento - Camila Galetti

    aPREsentação

    Feminismos em movimento nasce de uma inquietação nossa em representar a pluralidade que abarca os movimentos sociais, políticos e acadêmicos que se denominam feminismos. Este trabalho é fruto de mais de uma década de dedicação à temática de mulheres na política institucional, na militância e de diversos trabalhos realizados em parceria. Entendemos que é fundamental escrever um livro com uma linguagem didática para que qualquer pessoa possa compreender do que se trata os feminismos, tendo em vista o recrudescimento neoconservador e os ataques destinados aos movimentos feministas nos últimos anos – diante da ascensão da extrema direita pelo mundo.

    Ao longo dos anos, a luta se desenvolveu em várias direções, correntes e perspectivas teóricas, e cada uma delas trouxe uma visão única sobre as questões de gênero, apesar de partirem do mesmo pressuposto: de que a desigualdade de gênero se faz presente de inúmeras formas na sociedade. Essas visões refletem não apenas diferenças de análise teórica, mas também diferenças de contexto, de histórias pessoais e de experiências sociais. Assim, o resultado é um movimento diverso, com perspectivas múltiplas que buscam transformações sociais profundas em direção a uma sociedade mais justa e igualitária, porém buscando caminhos diversos para isso.

    O livro coletivo que apresentamos aqui se insere nesse debate, contemplando diferentes perspectivas feministas que vêm trazendo contribuições valiosas para a luta por igualdade de gênero em diferentes contextos políticos e sociais. Por isso, os verbetes expressam, tanto em autoria quanto em formatos, as demandas e agendas que orientam cada tipo de feminismo. As reflexões teóricas e práticas sobre a pluralidade do movimento mostram-se relevantes para a compreensão da complexidade das lutas feministas.

    Entre os temas abordados, destacam-se contribuições de autoras feministas do sul global, negras e racializadas, que têm trazido novas perspectivas para a análise das relações raciais e de gênero; abordagens interseccionais, que consideram a interação e transversalização de diferentes formas de opressão, como gênero, raça/etnia, localização geográfica e classe; análises sobre as relações de poder presentes no âmbito da sexualidade e das políticas públicas; e reflexões transnacionais sobre as possibilidades e os limites do feminismo em um contexto globalizado.

    Com a colaboração de 37 autoras e com 32 verbetes – apresentados em ordem alfabética –, contamos com brasileiras de diversas regiões do país, três argentinas, uma indígena do povo Aymara da Bolívia e uma espanhola. Entre as autoras, temos professoras universitárias, pesquisadoras pós-graduadas, graduadas e militantes especialistas na temática.

    Dentro das possibilidades, este livro abarca a complexidade do movimento feminista. Como tal, torna-se uma fonte valiosa para quem busca compreender as diversas dimensões da luta por igualdade de gêner , sabendo que tal temática não se esgota.

    Agradecemos todo mundo que acreditou no projeto, compartilhou e nos ajudou a chegar no objetivo para a publicação. Destacamos, com um especial carinho, as 518 pessoas que contribuíram financeiramente, além de claro, as mais de 40 mulheres que estiveram à frente da produção, divulgação e confecção. Chamamos a atenção também para a dedicação da Editora Luas (e para a Cecília Castro) que nos acolheu desde o início e que, em sua linha editorial independente, têm estimulado as mulheres a publicarem cada vez mais.

    Feminismos em movimento foi sonhado e idealizado por muitas mãos.

    Esperamos que este texto coletivo possa ser um ponto de partida para novas discussões e aprofundamentos teóricos, bem como para a ação política e social em prol da transformação das relações de poder. Agradecemos novamente a todas as autoras que construíram este projeto e a todas/os/es que se interessarem por este texto. Desejamos, por fim, que Feminismos em movimento possa auxiliar na ampliação e diversificação das reflexões sobre os feminismos.

    Jéssica Mayara de Melo Rivetti e

    Camila Carolina Hildebrand Galetti

    30 de outubro de 2023

    PREFÁCIO

    Fernanda Melchionna

    Estamos diante de um livro muito especial, uma espécie de dicionário enciclopédico dos feminismos. Organizado em verbetes escritos por várias autoras do Brasil e de outras nações, o livro organizado por Camila Galetti e Jéssica Rivetti nos oferece uma visão panorâmica, didática e bastante detalhada dos vários feminismos, entendido como movimento plural, com diversas formas e expressões, movimentos, filosofias, identidades, organizações. Sem ser cronológico, mas apresentando o contexto histórico e as protagonistas de cada feminismo, a obra reúne contribuições fundamentais para pensar e atuar nos dias de hoje, além de trazer uma extensa referência para quem quiser se aprofundar sobre cada um dos verbetes.

    Os diversos enfoques se agregam à palavra feminismo tentando explicar seu significado múltiplo e ao mesmo tempo único e determinante. Assim nos deparamos com o anarcofeminismo, o feminismo comunitário,o feminismo filosófico, o ecofeminismo, o feminismo decolonial, o feminismo pós-colonial, o feminismo negro, o feminismo camponês e popular, feminismo queer, transfeminismo, entre outros.

    Os verbetes também abarcam as relações dos feminismos com múltiplos aspectos da história e das sociedades: feminismo socialista, liberal, marxismo feminista, feminismo materialista, feminismo e prostituição, a questão dos homens feministas, feminismo e religião, lesbofeminismos, feminismo jurídico, institucional, até… antifeminismo. Longe de ser compartimentos estanques e separados, cada um dos capítulos dialoga com os outros, e o conjunto, às vezes se complementam ou se contrapõem, mantendo um sentido e um ritmo dialético e dinâmico, como os espelhos de um caleidoscópio que, cada vez que se movimenta, forma figuras diferentes.

    Por isso, Feminismos em movimento, uma ferramenta dinâmica e útil que ajuda a compreender as lutas, resistências, ofensivas, reflexões, expressões, atitudes, formas de vida e debates que permeiam a existência das mulheres hoje e na história. É uma obra que vem em boa hora, quando as desigualdades de gênero são acentuadas pelos impactos da crise multidimensional do capitalismo, potencializada pela pandemia. O preço da crise recai de forma mais acentuada nas mulheres com as intersecções de raça, classe, identidade de gênero e orientação sexual.

    As próprias organizadoras pontuam na apresentação que a publicação de uma obra em linguagem acessível é fundamental diante da ascensão da extrema direita e de suas tentativas reacionárias em derrotar o movimento feminista. O patriarcado é um dos pilares do capitalismo, e, diante da crise desse modelo econômico e de dominação, estamos vivendo tempos complexos. Complexos porque é inegável a presença organizada no tecido social de movimentos conservadores, mas também vivemos, há alguns anos, fenomenais lutas feministas ao redor do mundo. Nesse equilíbrio instável, comemoramos com a maré verde na Argentina as recentes legalizações do aborto na Colômbia e no México, ao mesmo tempo que Trump conseguiu mudar a Suprema Corte dos EUA para retroceder essa conquista de décadas. As lutas das mulheres a partir dos anos 2011, sem dúvida, deu um salto de qualidade.

    E se em outros momentos, corretamente, ponderamos o uso de ondas para expressar movimentos de mulheres por narrar essa história sempre na perspectiva de mulheres brancas das classes altas do Norte Global, a última década nos permitiu assistir, participar, apoiar e se emocionar com movimento no Oriente Médio, no sul global, além de países do Norte. Os impactos ainda mais brutais da crise econômica sobre as mulheres, combinada com a mudança da relação tempo-espaço propiciada pelas mídias, permitiu o efeito contagiante que embalou a greve internacional das mulheres em 2017. E, em cada país, em seu contexto de avanço de direitos ou na contenção de retrocessos, tivemos mulheres na linha de frente da resistência.

    Sem entrar na polêmica das ondas ou buscar uma definição de permanência, ou não, nos movimentos sincronizados, que de maneira desigual e combinada aconteceram em várias partes do mundo na última década, pontuo apenas que as mulheres foram protagonistas nas lutas, nas derrotas eleitorais e nas formas de resistência aos neofascismos, muito embora também tenhamos mulheres evidentemente reprodutoras dessas ideologias.

    Dentro do contexto no qual hoje estou inserida, que é a política, também é possível afirmar que as mulheres seguem sendo linha de frente nos embates políticos e na defesa dos direitos do povo em Câmaras Municipais, Assembleias, Câmara dos Deputados, Senado e, portanto, também são as mais atacadas e perseguidas, o que inclusive escancara cada vez mais a violência política de gênero a qual somos submetidas todos os dias no parlamento.

    Um bom exemplo é a própria tentativa de cassação do nosso mandato e de outras cinco parlamentares na Câmara, neste ano. Durante a votação da urgência do Marco Temporal, que na prática significa a perpetuação do genocídio indígena, muitas vozes, principalmente as femininas, se levantaram contra esse projeto. No entanto, mesmo que homens e mulheres tenham se posicionado contrariamente, foram as deputadas mulheres e de esquerda que tiveram seus mandatos ameaçados pela extrema direita, que representou contra nós no Conselho de Ética da Câmara. Mas o tiro saiu pela culatra. Juntas, articulamos um movimento nacional, em conjunto também com o Movimento Sem Terra (MST), ameaçado de criminalização por uma CPI farsesca, que mobilizou mulheres em diversos estados. Distrito Federal, Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, mulheres se articularam no país todo com a pauta Elas Ficam. A força das mulheres foi vitoriosa e os processos contra nós foram arquivados. Esse é mais um exemplo da perseguição desleal e violenta contra as mulheres que lutam, mas também uma prova de que a força do feminismo é real e imparável.

    Os elementos que criaram as condições para a extrema direita arrastar setores de massas seguem se retroalimentando com a crise multidimensional do capitalismo, com as crises econômica, social, climática e de representatividade. E para sermos efetivas na derrota do patriarcado, temos que saber combinar a luta contra a exploração e a opressão. Para tal, é preciso buscar sínteses e fornecer ferramentas para abarcar a totalidade programática que vá à raiz dos problemas, sem definir uma identidade única para mulheres que sofrem opressões diversas, mas conectando as consignas e potencializando as lutas do presente.

    Nos dias atuais, quando é preciso mais do que nunca defender nossos direitos e avançar nas conquistas obtidas, que são permanentemente atacadas pelo obscurantismo machista e patriarcal, a publicação desta obra é um importante acontecimento editorial. Estrategicamente, para sair da defensiva, é preciso alterar a correlação de forças e passar para a ofensiva. Mas para isso, nosso feminismo deve ter lado, o das mulheres negras, trabalhadoras, indígenas, com deficiência, mulheres trans, lésbicas. Nosso feminismo tem que ser no sentido da emancipação das mulheres e da classe e não na reprodução de um discurso meritocrático que aceita mais mulheres, desde que estejam dispostas a explorar a classe.

    O esforço coletivo das organizadoras e autoras e da Editora Luas é muito bem-vindo para permitir conhecer muitos feminismos. Que a leitura te deixe mais interessada a seguir adiante nos estudos e na ação.

    Por um mundo sem opressão e exploração, dias mulheres virão!

    Deputada Federal (PSOL/RS)

    O presente é luta. O futuro é da gente!

    anarco

    feminismo

    Patrícia Lessa

    O anarcofeminismo ou anarcafeminismo é um movimento de luta pela libertação das mulheres. As anarcofeministas não possuem líderes ou chefes, pois se caracterizam pela autonomia, independência e autogestão. Sendo assim, o movimento não se orienta por mudanças através das instituições estatais, da aprovação de leis, do voto ou da entrada de mulheres em cargos de poder. Suas frentes de batalha são contra o autoritarismo, o patriarcado, a moral burguesa e cristã, a desigualdade de gênero, as diferenças salariais, o sexismo, a violência contra as mulheres etc. Acreditam e constroem princípios para uma sociedade assentada em valores de cooperação, cuidado, apoio mútuo, amor livre e libertação humana e não humana.

    Para abordar o anarcofeminismo, é preciso entender, inicialmente, a formação destas duas frentes de ação aqui reunidas: o anarquismo e o feminismo. As ideias e práticas anarquistas surgiram no século XIX e atravessaram o mundo inspirando a classe operária, intelectuais, artistas, educadoras/es, dentre outros grupos, na construção de uma sociedade livre. A crítica central, desde sua aurora, é direcionada ao Estado, ao clero e, sobretudo, à exploração capitalista. A perspectiva anarquista via na educação um lugar central que promovia uma crítica à educação burguesa e religiosa e, ao mesmo tempo, possibilitava materializar sua própria concepção educacional baseada na autogestão e na autonomia. Nesse mesmo momento, vimos surgir um movimento feminista internacional, que desde sua origem não era uniforme, pois havia feministas anarquistas, marxistas, sufragistas e liberais. O que podemos entender entre as vertentes feministas é que havia um ponto em comum: o protagonismo das mulheres lutando por espaço social. Anarquismo e feminismo estavam conectados na voz de mulheres em defesa da libertação.

    A terminologia anarcofeminismo foi criada nos anos 1970 para dar luz ao movimento organizado por mulheres dentro dos grupos anarquistas. Lynne Farrow publicou, em 1974, o artigo Feminism as anarchism, propondo a utilização da terminologia tal como vinha sendo pensada nos grupos de mulheres anarquistas. Até o início do século XX, era comum as anarquistas não se identificarem como feministas por entenderem que as pautas das sufragistas e das mulheres burguesas estavam circunscritas a uma classe social, deixando de fora as lutas das mulheres operárias. No entanto, mesmo não se autodenominando feministas, elas foram pioneiras em várias frentes: romperam com o uso de roupas coercitivas; questionaram a maternidade obrigatória; foram contra o casamento, propondo uniões por livre escolha; defenderam o sexo fora do casamento; criaram propostas educacionais; incentivaram a escrita como ferramenta para a libertação das mulheres, dentre outras pautas.

    Para Chiara Bottici (2022), em seu livro Anarchafeminism, o anarquismo pressupõe a libertação de todas as pessoas, inclusive as não humanas, outras espécies de animais, plantas e minerais. Além disso, a quebra de hierarquias torna o pensamento anarcafeminista, também, animalista, ecológico, decolonial, antirracista e queer. Ela é uma das autoras que usa o termo com o sufixo a para denotar o movimento das mulheres em oposição ao prefixo anarco-, de raíz grega. Ela questiona a ideia de autores clássicos anarquistas, pois, todos sendo homens, anula a existência das mulheres na construção dos princípios do movimento e das suas formulações conceituais. A proposta de utilizar o termo anarcafeminismo visa chamar a atenção para um grupo marginalizado e, sobretudo, acentuar a atuação das mulheres no movimento anarquista.

    Os anos 1960 e 1970 caracterizaram-se por uma expansão nas áreas de atuação para os campos das artes, da ecologia, do vegetarianismo e em tantas outras manifestações sociais e culturais. Suas práticas valorizam a cooperação, o cuidado, o apoio mútuo, a autogestão, a autonomia, a descentralização, a solidariedade e outros princípios. As libertárias estavam em todos os continentes e, geralmente, interseccionalizavam a luta anarquista com questões de gênero, de geração, étnico-raciais, de classe e, em muitos casos, com relação às vidas não humanas. Muitas delas, apagadas dos registros históricos, estão sendo lembradas neste tempo de multiplicação de vertentes feministas (Rago, 2017; Lessa, 2020; Mendes, 2021; Steiner, 2008). As anarquistas desafiaram as regras impostas às mulheres e avançaram na crítica ao patriarcado e ao capitalismo. Algumas dessas mulheres marcaram a história e criaram as bases do anarcofeminismo.

    Louise Michel (1830-1905) foi uma das militantes mais combativas do século XIX. Educadora, poetisa, dramaturga, anarquista, enfermeira, escritora francesa. Ao longo de sua vida manteve uma relação intensa com o mundo da literatura e da luta social. Amiga de Victor Hugo, dedicou-se, assim como este, a uma literatura social, no entanto, sua escrita e suas práticas eram mais pungentes. Assumidamente anarquista, ela foi uma das mais importantes communards, como denominavam-se as pessoas que estiveram à frente da Comuna de Paris, em 1871. Michel deflagrou a bandeira negra como símbolo dos ideais libertários e lecionou alguns anos em Paris. Aos 26 anos, já era autora de uma extensa obra literária, política e educacional com foco nos movimentos sociais revolucionários (Lodi, 2022).

    Ao redor do mundo, o anarquismo e o feminismo avançaram entre os séculos XIX e XX. No início do século XX, o Japão, devastado, começava a sua reconstrução; a Revolução Industrial tornaria o país uma potência econômica. Durante o governo do imperador Meiji Tennõ (1852-1912), havia ocorrido a chamada Restauração Meiji. Ele foi o 122º imperador dentro da tradicional sucessão de poder, e governou de 3 de fevereiro de 1867 até 30 de julho de 1912. Foi durante seu reinado que o Incidente de Alta Traição levou um grupo de anarquistas para a prisão, julgamento, condenação e morte nos braços impiedosos do Estado. Uma das mais interessantes libertárias daquele movimento foi Kanno Sugako (1881-1911). Ela militou como anarquista e feminista e foi assassinada pelo judiciário político comprometido com o imperador. Nasceu em Osaka, perdeu a mãe muito jovem, aos 10 anos de idade. Sofreu maus-tratos da madrasta, foi violentada aos 15 anos de idade e, aos 17, casou-se para fugir do sofrimento e mudar para Tóquio. Mesmo sem acesso ao estudo universitário, ela foi uma das maiores jornalistas revolucionárias do Japão do início do século XX. Escreveu muitos textos. Seu último foi o Diário da prisão, traduzido para o espanhol como Reflexões no caminho da forca (Sugako [1911], 2018). Ela foi, sem dúvida, uma aguerrida ativista no alvorecer do século XX, porém ainda pouco conhecida no Ocidente.

    Outros nomes estão sendo recuperados por estudos acadêmicos e através da criação de arquivos anarquistas, tais como: Voltairine de Cleyre (1866-1912), anarco-individualista, feminista e abolicionista estadunidense; Leda Rafanelli (1880-1971), editora e poeta italiana anarquista que converteu-se ao islamismo, e dentre os temas abordados em seus escritos citamos o anticolonialismo, o individualismo, o futurismo, o espiritualismo e o feminismo; Virginia Bolten (1876-1969), precursora na imprensa feminista da Argentina e criadora do primeiro jornal La voz de la mujer, faleceu no Uruguai depois de perseguição política em seu país natal; Lucy Eldine Gonzalez Parsons (1853-1942) nasceu no seio de uma das mais duras lutas sociais, havia, durante a infância, sentido a dor do processo de escravidão no Sul dos Estados Unidos, e na idade adulta aderiu ao movimento operário e foi casada com Albert Parsons (1848-1887), um dos mártires de Chicago durante as manifestações na Greve de 1º de maio de 1886, na Praça Haymarket; Anna Mahé (1882-1960) foi uma anarco-individualista francesa que, muito jovem, foi trabalhar na imprensa libertária; Jeanne Morand (1887-1969), filha de operários, seu pai era um anarcossindicalista, ela trabalhava na fábrica têxtil da pequena cidade de Saint-Marcel, na Normandia, e, em 1905, mudou-se sozinha para Paris, onde começou a trabalhar como doméstica e aderiu ao anarquismo individualista e ao feminismo (Steiner, 2008). Esses são alguns poucos nomes dentro de um rico universo de anarquistas combatentes, que agregaram as questões das mulheres mesmo sem se autodefinirem feministas.

    No Brasil, uma das autoras mais importantes no registro das memórias das mulheres no movimento anarquista é Margareth Rago. Seu livro Do cabaré ao lar: a utopia da cidade disciplinar e a resistência anarquista, Brasil 1890-1930 (2014) coloca em cena a militância das mulheres no movimento anarquista, desafia a tradição de uma história escrita para ressaltar os grandes nomes, adentra nas fábricas e nas vilas operárias para entender o processo de industrialização no país. Em suas análises, ela problematiza temas como a ideologização do saber médico, de suas técnicas sanitaristas e higienistas para pensar o mito do amor materno, do aleitamento infantil, do sexo fora do casamento, do abandono de crianças, da segregação social nos grandes centros urbanos, dentre outros tópicos.

    Em outra pesquisa importante, ela sublinha a relevência histórica da construção de um dos maiores grupos de mulheres anarquistas da história. Rago e Biajoli (2017), ao escreverem sobre o protagonismo das Mujeres Libres no anarquismo espanhol, lembram que desde o século XIX havia uma movimentação através da criação de sindicatos, da promoção de atividades culturais, da produção escrita, da formação de núcleos educacionais para crianças e jovens, de autogestão, da luta pela emancipação das mulheres como estratégia no combate às hierarquias. As Mujeres Libres tiveram uma atuação forte na Revolução Espanhola, entre 1936 e 1939. Desde 1934, em Barcelona, um grupo de mulheres que tinha à frente Lucía Sánchez Saornil, Mercedes Comaposada Guillén e Amparo Poch y Gascón começaram a organizar um agrupamento cultural feminino atuante junto à Confederação Nacional do Trabalho. Em 1938, acredita-se que havia cerca de 20 mil mulheres participando das atividades.

    Por fim, vale lembrar a pesquisa de História Oral de Margareth Rago, que resultou no livro Entre a história e a liberdade: Luce Fabbri e o anarquismo contemporâneo (2001), e em vários artigos, capítulos de livros e palestras. Seu livro foi traduzido para o espanhol, italiano e inglês e publicado em vários países. Foram muitos anos de entrevistas realizadas no Uruguai, local para onde Luce mudou-se com a família de italianos após a ascensão do fascismo. Luce Fabbri (1908-2000) escreveu sobre o totalitarismo e a expansão da extrema direita na Europa, discorreu sobre as técnicas de aliciamento da juventude e das massas e do uso da violência, do fanatismo e do ódio como combustível para o crescimento do fascismo. Apontando o fracasso das tendências de socialismo liberal ou de liberalismo socialista (Silone, Garosci, Pivert etc.), ela escreveu justamente para sublinhar esta diferença, os anarquistas não se definem como ‘liberais’ e sim como ‘libertários’ (Fabbri, 2004, p. 33).

    Assim como Luce Fabbri, Emma Goldman (1869-1940) também fez severa crítica ao contexto político do período entre as duas Grandes Guerras: Não são apenas o bolchevismo, o marxismo e o estatismo que são fatais à revolução e ao progresso vital da humanidade. A principal causa da derrota da Revolução Russa é muito mais profunda. Ela reside na própria concepção socialista da revolução (Goldman, 2011, p. 60). Goldman, que havia se mudado para a América ainda jovem, no início da Primeira Guerra Mundial foi deportada para a URSS quando o governo norte-americano decretou o Ato de Exclusão Anarquista (1918). Ela e outros ativistas foram expulsos do país. De volta ao seu país de origem, ela percebeu o repúdio aos movimentos anarquistas. Lutou em várias frentes e, durante a Revolução Espanhola, foi para Barcelona demonstrar seu apoio. Escreveu sobre a condição das mulheres, da classe operária, sobre educação libertária, dentre outros assuntos. Em 1906, lançou a revista Mother Earth nos Estados Unidos e distribuiu cerca de 3 mil exemplares. A revista era um veículo de discussão dos debates anarquistas e teve grande repercussão. Ela foi considerada a mulher mais perigosa da América.

    No Brasil, muitas mulheres estiveram à frente da crítica à moral burguesa e à sociedade patricapitalista. O livro Companheiras: mulheres anarquistas em São Paulo (1889-1930), de Samanta Colhado Mendes (2021), propaga o trabalho das libertárias brasileiras, principalmente durante o período da Primeira República, e a sua organização frente ao movimento operário. Havia uma grande circulação de ideias naquele momento, sobretudo com a mobilidade e as trocas internacionais.

    Ana de Castro Osório (1872-1935) foi uma escritora libertária portuguesa que colaborou com Maria Lacerda de Moura (1887-1945) na revista Renascença. Ela era pedagoga, jornalista, escreveu obras de literatura infantil e foi atuante ativista republicana em Portugal. Foi importante parceira da libertária mineira na difusão das discussões sobre as mulheres e a educação. Maria Lacerda de Moura foi uma mulher que exerceu grande influência no pensamento feminista, social e de esquerda no Brasil nas primeiras décadas do século XX.

    Ela nasceu em Manhuaçu, Minas Gerais, e, aos 4 anos de idade, mudou-se com seus pais para Barbacena, onde, mais tarde, formou-se como normalista e exerceu a docência. Em 1921, mudou-se para São Paulo, onde iniciou a luta pela emancipação feminina, contra o nazifascismo, pela libertação animal e humana. Viveu em uma comunidade anarquista agroecológica em Guararema, onde fez uma das críticas mais virulentas contra o fascismo, o patriotismo, o capitalismo e o militarismo. Ela usou o termo masculinocracia para denunciar uma ciência feita por homens e voltada para a invenção da verdade científica sobre a inferioridade intelectual e física das mulheres. Dentre as obras escritas em Guararema, destacamos Civilização: tronco de escravos ([1931] 2020), Amai e... não vos multipliqueis (1932) e Fascismo: filho dileto da igreja e do capital ([1935] 2018), nas quais ela identificava o homem como opressor na figura do patricapitalista, que explorava o trabalho das mulheres em casa, nas fábricas e nas oficinas (Lessa, 2020).

    O anarcofeminismo, e algumas de suas expoentes aqui destacadas, demonstra uma rica produção cultural, artística e política. Para pesquisar outras representantes do anarcofeminismo, sugiro o dicionário on-line em língua francesa Maitron¹ ou o Diccionario biográfico de las izquierdas latinoamericanas: movimientos sociales y corrientes políticas², da Argentina. As anarquistas dos séculos XIX e XX construíram as bases do que hoje se expande e adentra nos vários espaços sociais, marcando a presença das mulheres preocupadas com temas como maternidade, aborto, guerra, pacifismo, ecologia, arte, amor livre, libertação animal, veganismo, direito sobre os seus corpos, dentre outros temas que marcam a pluralidade de suas ações e propostas.

    Referências

    BOTTICI, Chiara. Anarchafeminism. New York: Bloomsbury, 2022.

    FABBRI, Luce. O caminho: até o socialismo sem Estado. Em cada passo a realidade da meta. Rio de Janeiro: Achiamé, 2004.

    FARROW, Lynne. Feminism as anarchism. Aurora feminist magazine, New York, 1974.

    GOLDMAN, Emma. O indivíduo, a sociedade e o Estado e outros ensaios. 2. ed. Tradução e organização de Plínio Augusto Coelho. São Paulo: Hedra, 2011.

    LESSA, Patrícia. Amor & libertação em Maria Lacerda. São Paulo: Entremares,

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