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A sabedoria do Padre Brown
A sabedoria do Padre Brown
A sabedoria do Padre Brown
E-book316 páginas4 horasSérie Padre Brown

A sabedoria do Padre Brown

De G. K. Chesterton e Beatriz Viégas-Faria

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Sobre este e-book

Imortalizado nestes célebres contos, Padre Brown, o fascinante detetive amador criado pelo britânico G.K. Chesterton (1874-1936), encantou gerações de leitores em todo o mundo. Por trás da simplicidade desarmante desse sacerdote católico, de seus óculos característicos e de seu indefectível guarda-chuva, esconde-se uma mente arguta e especialmente dotada para desvendar ações criminosas.
IdiomaPortuguês
EditoraL&PM Pocket
Data de lançamento15 de jul. de 2024
ISBN9786556665085
A sabedoria do Padre Brown
Autor

G. K. Chesterton

G. K. Chesterton (1874–1936) was a prolific English journalist and author best known for his mystery series featuring the priest-detective Father Brown and for the metaphysical thriller The Man Who Was Thursday. Baptized into the Church of England, Chesterton underwent a crisis of faith as a young man and became fascinated with the occult. He eventually converted to Roman Catholicism and published some of Christianity’s most influential apologetics, including Heretics and Orthodoxy. 

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    A sabedoria do Padre Brown - G. K. Chesterton

    2. O paraíso dos ladrões

    O grande Muscari, o mais original dos jovens poetas da Toscana, entrou depressa em seu restaurante favorito: com vista para o Mediterrâneo, coberto por um toldo e cercado por pequenos pés de laranjeira e limoeiros. Os garçons, em seus aventais brancos, já dispunham nas mesas também brancas os prenúncios de um elegante e antecipado almoço; e isso parecia aumentar em Muscari uma satisfação que já alcançava o topo da arrogância. Muscari tinha um nariz aquilino, como Dante; o cabelo e o lenço no pescoço eram negros e ondulavam ao vento. Andava com capa preta e podia até mesmo andar com uma máscara negra, tal o seu ar de melodrama veneziano. Comportava-se como se um trovador exercesse uma função social definida, tanto quanto, por exemplo, um bispo. Até o ponto em que seu século permitia, fazia suas andanças pelo mundo literalmente como Don Juan, com florete e violão.

    Pois ele nunca viajava sem o seu estojo de espadas, com as quais combatera em numerosos e brilhantes duelos, tampouco sem o estojo do seu bandolim, com o qual fizera uma serenata para a srta. Ethel Harrogate, a filha bastante convencional de um banqueiro de Yorkshire em férias. Não era um charlatão nem era uma criança; era, isso sim, um latino racional e ardente que, quando gostava de certa coisa, personificava-a. Sua poesia era tão direta como a prosa de qualquer outra pessoa. Desejava fama, ou vinho, ou a beleza das mulheres de uma maneira tórrida e direta, inconcebível para os ideais nebulosos e os nebulosos acordos dos povos setentrionais; para raças mais indefinidas, sua intensidade cheirava a perigo ou mesmo a crime. Assim como o fogo e o mar, Muscari era demasiado simples para merecer confiança.

    O banqueiro e sua bela filha inglesa estavam hospedados no hotel ao lado do restaurante em que se encontrava Muscari; exatamente por isso aquele restaurante era o seu favorito. Porém, bastou um rápido olhar pelo salão para perceber que os ingleses ainda não haviam descido. O restaurante reluzia, mas ainda estava bastante vazio. Dois padres conversavam numa mesa ao canto, mas Muscari (católico fervoroso) não lhes deu mais atenção do que se dá a um par de corvos. Porém, de um assento mais distante, um tanto oculto atrás de uma laranjeira anã carregada de frutos dourados, levantou-se e avançou em direção ao poeta uma pessoa cujo traje era agressivamente o extremo oposto do seu.

    Aquela figura apareceu vestida com um terno de tweed malhado, gravata rosa e colarinho alto; nos pés, botas amarelas, chamativas. Conseguia, seguindo a melhor tradição de Margate, parecer chamativo e, ao mesmo tempo, uma pessoa comum. Mas, à medida que a aparição cockney se aproximava, Muscari surpreendeu-se ao observar que aquela cabeça era bastante diferente do restante do corpo. Uma cabeça italiana – cabeluda, escura e muito vivaz – saía abruptamente de uma gravata rosa e de um colarinho tão alto e tão engomado que parecia de papelão. Na verdade, ele já conhecia aquela cabeça. Reconheceu, sob o horror do traje de inglês em férias, o rosto de um velho amigo do qual nem mais se lembrava, chamado Ezza. Aquele jovem havia sido um prodígio na universidade; mal completara quinze anos e já lhe vaticinavam fama por toda a Europa; mas, quando saiu da vida de estudante para o mundo, fracassou. Primeiro na vida profissional, como dramaturgo e demagogo, e depois, na vida privada, por anos sem fim como ator, viajante, corretor de apostas de turfe e jornalista. Pelas últimas notícias que tivera dele, Muscari entendeu que atuava nos bastidores dos palcos; era tão sintonizado com a profissão que se pensava que fora engolido por uma calamidade moral.

    – Ezza! – exclamou o poeta, levantando e trocando um aperto de mãos que demonstrava ser agradável aquela surpresa. – Bem, eu já vi você usando várias fantasias nos camarins, mas nunca esperava vê-lo fantasiado de britânico.

    – Isso não é um traje de britânico – respondeu Ezza, sério –, mas sim de um italiano do futuro.

    – Nesse caso – respondeu Muscari –, confesso que prefiro o italiano do passado.

    – Esse é um velho erro seu, Muscari – disse o homem de terno de tweed, balançando a cabeça –, e o erro da Itália. No século XVI, nós, toscanos, fizemos o amanhecer. Tínhamos o melhor aço, a mais avançada marcenaria, a mais avançada química. Por que não devemos ter as mais avançadas fábricas, os mais avançados motores, as mais avançadas finanças e as mais avançadas roupas?

    – Porque não vale a pena ter isso tudo – respondeu Muscari. – Você não pode fazer dos italianos um povo progressista de verdade: são muito inteligentes. Homens que percebem atalhos para uma vida prazerosa nunca se embrenham em estradas novas e complexas.

    – Bem, para mim, Marconi e D’Annunzio são as estrelas da Itália – disse o outro. – Por isso me tornei um futurista e um courier.

    – Um courier? Um guia de viagens de aristocratas? – gritou Muscari rindo. – É a última na sua lista de profissões? E para quem você está trabalhando?

    – Ah, para um tal de Harrogate; e para a família dele, acho eu.

    – Não seria o banqueiro que está neste hotel? – perguntou o poeta com curiosidade.

    – Esse mesmo – respondeu o courier.

    – E ele paga bem? – perguntou o trovador de modo inocente.

    – Vale a pena – disse Ezza com um sorriso bastante enigmático –, mas eu sou um tipo curioso de courier. – Como se estivesse mudando de assunto, disse abrupto: – Ele tem uma filha; e um filho.

    – A filha é divina – afirmou Muscari –, o pai e o filho são humanos, suponho eu. Mas, apesar das características inofensivas, não acha que esse banqueiro é um surpreendente e esplêndido exemplo da minha teoria? Harrogate tem milhões em seus bancos; eu tenho um rombo no meu bolso. Mas você não ousaria dizer, nem teria como dizer, que ele é mais esperto que eu, ou mais ousado que eu, ou até mesmo mais enérgico. Ele não é esperto: os olhos são dois botões azuis. Não tem muita energia: vai de uma cadeira para outra como um paralítico. Tem um bom coração: é um velho agradável e medíocre. Mas tem dinheiro apenas porque coleciona dinheiro, assim como um menino coleciona selos. Você é um livre pensador, Ezza, inteligente demais para se dedicar aos negócios. Você nunca irá adiante. Para ser esperto o bastante para conseguir acumular tanto dinheiro, é preciso ser estúpido o bastante para querê-lo.

    – Eu sou estúpido o bastante para isso – disse Ezza com um ar triste –, mas sugiro que suspenda sua crítica ao banqueiro, pois aí vem ele.

    O sr. Harrogate, o grande financista, entrou na sala, mas ninguém olhou para ele. Era um velho corpulento, com olhos azuis e um bigode grisalho desbotado, mas, pela postura ereta como um pilar, podia ter sido um coronel. Trazia consigo várias cartas, ainda fechadas. Seu filho Frank era um rapazote bonito e vigoroso, de cabelo encaracolado, pele corada pelo sol, mas para ele também ninguém olhava. Todos os olhares, como de costume, estavam fixos, pelo menos naquele momento, em Ethel Harrogate, cuja cabeça grega dourada e a cor do amanhecer pareciam postas de propósito sobre o mar de safira, como se fosse ela uma deusa. O poeta Muscari suspirou fundo, como se estivesse bebendo alguma coisa; e na realidade, ele estava. Estava bebendo dos clássicos, uma obra de seus antepassados. Ezza estudava-a com um olhar intenso e muito mais desconcertado.

    A srta. Harrogate, naquela ocasião, estava especialmente radiante e disposta a conversar; e sua família já havia se acostumado ao hábito continental, permitindo ao desconhecido Muscari e mesmo ao courier Ezza compartilhar a mesa e a conversa. Em Ethel Harrogate, o convencional coroava-se com perfeição e esplendor próprios. Orgulhosa da prosperidade do pai, indulgente com os prazeres da moda, filha amorosa, mas notória namoradeira: era todas essas coisas com uma espécie de naturalidade, o que tornava simpático o seu orgulho e fazia de sua respeitabilidade mundana uma coisa sincera e espontânea.

    Estavam em grande entusiasmo por causa de um suposto perigo na trilha da montanha que tentariam subir naquela semana. O perigo não era causado por pedras ou avalanches, mas por algo bem mais romântico. Ethel recebera informação de fonte segura de que bandoleiros, autênticos degoladores de modernas lendas, ainda assombravam a cordilheira e vigiavam a passagem para os

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