Sociedades Tradicionais Costeiras: ordens e desordens destruidoras e ordens e desordens criadoras – Ensaio para ecologia e dialogia de saberes
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Sociedades Tradicionais Costeiras - Lucia Helena Oliveira Cunha
DEDICO ESTA OBRA, ESPECIALMENTE
Aos meus sábios pais, Helena e Manoel – in memoriam –, litorâneos de raízes na costa paranaense e catarinense, respectivamente, nascidos no início do século XX, pelas ricas e infinitas lições transpondo os tempos, deixando-me como principal patrimônio o amor à natureza, a ética pela vida e a esperança permanente de outro e novo porvir.
AGRADECIMENTOS
Muitos foram os que contribuíram durante a feitura do trabalho original de tese de doutorado, agora transformada em ensaio. Não os nomeio todos e todas aqui sob pena de omitir alguns nomes importantes, conquanto tais contribuições e apoios foram imprescindíveis para a conclusão do trabalho em 2007 – ano de defesa da tese.
De todo modo, quero realçar minha profunda gratidão a todos os pescadores de Shangri-Lá e Pontal do Sul, que, de modo espontâneo, dispuseram-se a conceder entrevistas, conversar livremente, apresentar relatos e depoimentos e memorizar pacientemente, fornecendo ricos ensinamentos sobre o significado da vida no mar e a arte da pesca no texto original de tese doutoral. Agradeço especialmente aos velhos pescadores de tais comunidades, cuja sabedoria se integra à fecundidade de suas vidas.
Em nome de todos eles, sou especialmente grata aos pescadores, Sr. Jair Crisanto da Silva e Sr. João Rosa Serafim, por generosas, valiosas e intermináveis interlocuções norteando os caminhos trilhados em ato de verdadeira escuta dos demais pescadores a serem consultados e a observação direta de suas práticas pesqueiras.
Não posso deixar de mencionar meus agradecimentos aos meus orientadores, José Milton Andriguetto, Paulo da Cunha Lana – in memoriam – e Antônio Carlos Sant’Ana Diegues, integrantes do comitê interdisciplinar de orientação do texto de tese, pelos ensinamentos em cada campo do conhecimento, propiciando-me iniciação ao trabalho interdisciplinar, e pelo apoio e estímulo constante, acompanhando incansavelmente o percurso desta pesquisa, originariamente, e contribuindo significativamente para o seu término.
Agradeço também à oceanógrafa Karina Brotto Rebulli e ao geodesista Nílton Cunha, que, com dedicação e paciência, deram-me importantes lições sobre as dinâmicas marítimas dos pontos de vista físico-natural, ecológico e oceanográfico para este ensaio interdisciplinar. Nílton, meu irmão, sempre me ofereceu importantes ensinamentos básicos e fundamentais sobre física clássica e quântica, astronomia, filosofia da ciência, em relação aos quais continuo efetuando grande esforço e tateando para obter melhor compreensão diante de minhas possibilidades e limitações.
Nessa mesma direção, sou grata ao geólogo costeiro Rodolfo Angulo, que, com presteza e atenção, auxiliou-me na elaboração de uma parte deste estudo, assim como à geóloga Maria Cristina Souza, que me esclareceu aspectos socioambientais importantes para a compreensão dos processos de erosão praial. Angulo, Lana e Naina Pierri me hospedaram gentil e generosamente em suas moradias na região pesquisada para o trabalho de campo. Agradeço à Naina, que em trocas recentes virtuais, em 2022, atualizou-me sobre os movimentos sociais dos pescadores e pescadoras artesanais no Paraná e no Brasil.
Desejo registrar, ainda, meus agradecimentos à antropóloga e professora Marília Gomes Carvalho; ao sociólogo e amigo Dimas Floriani; aos oceanólogos e amigos José Milton Andriguetto e Paulo Lana, pela leitura recente, em 2022, e revisão atenta da versão preliminar relativa à minha longa e extensa apresentação deste ensaio, no intuito de atualizar e contextualizar a presente reflexão; assim como sou grata aos sociólogos e amigos Felipe Amaral e João Torrens, pela revisão criteriosa e de precisão conceitual da versão final, para melhor entendimento de minhas ideias e experiências ao leitor, oferecendo-me sugestões relevantes.
Agradeço à Laynara Almeida, doutoranda do MADE, pela editoração de parte do presente texto e ao Caibar Pereira pela rigorosa revisão e edição final.
Gratidão ao pensador, mestre e amigo Paulo Henrique Vieira – in memoriam –, por seu permanente rigor científico e ricos aportes críticos, selecionando-me bibliografia de ponta à época; pelos câmbios sempre fecundos, no passado e no presente; e, recentemente, em trabalho conjunto, na composição da Revista Desenvolvimento e Meio Ambiente (D&MA) do Programa Interdisciplinar de Meio Ambiente e Desenvolvimento (PPGMADE) da Universidade Federal do Paraná (UFPR) sobre Agronegócio em tempos de colapso planetário
. Muito aprendizado, por sua epistemologia de construção do sistemismo aberto e de uma ecologia radical, no sentido de se ir às raízes dos dilemas socioecológicos nos limiares do contemporâneo.
Agradeço as trocas profícuas realizadas com colegas e alunos do MADE, como professora colaboradora, e à Revista Desenvolvimento e Meio Ambiente/D&MA, deste programa interdisciplinar de pós-graduação, pela oportunidade de eu organizar edições especiais e dossiês temáticos.
Sou grata aos participantes – comitê coordenador amazônico integrado por Edel Moraes, Angela Mendes e Júlio Barbosa e vários pesquisadores, representantes dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais – das Oficinas Diálogos de Saberes e Etnoenvolvimento Socioambiental, com vistas a construção, ampliação e fortalecimento da Aliança História dos Povos da Terra, dos Povos da Floresta e dos Povos das Águas no Brasil, em 25, 26 e 27 de novembro de 2021 – IV CEPIAL VIRTUAL/CASLA.
E agradeço especialmente à minha irmã Neide, pelo apoio incondicional em todo o percurso deste trabalho – uma amizade rara e peculiar. Em seu nome agraço a torcida da Neuzi.
Aos amigos e amigas que perpassaram e estão presentes em ato de troca e reciprocidade, de ideias e experiências, com respeito mútuo e amorosidade, em todos os cantos e recantos em que andarilhei e vivi no Brasil – de norte a sul – na (re)descoberta histórica e viva de suas múltiplas belezas e riquezas naturais e culturais.
E aos que participaram de inúmeras lives, em encontros virtuais, seja no contexto pandêmico, seja pela dificuldade de manifestações no mundo presencial no próprio contexto do país, em particular nesses últimos anos até 2022.
À Editora Dialética, agradeço pelo especial convite de publicação da tese original em livro, pela atenção respeitosa, compreensão e paciência na demora para a produção da versão final, em nome de Ludmila, assessora editorial, que em nenhum momento e instante mediu esforços para a editoração e viabilização deste livro.
Por último, peço desculpas se olvidei de algumas pessoas que contribuíram para tal jornada e quero salientar que as trilhas tomadas no direcionamento do presente ensaio, cuja produção ora se apresenta, são de minha inteira responsabilidade, conquanto oriundo da construção do pensamento e práxis coletivas de múltiplos e diversos diálogos e debates – caminhos e (des)caminhos na minha incessante busca de tempos e espaços da delicadeza.
PREFÁCIO
É com prazer que prefacio o livro da antropóloga e amiga Lucia Helena de Oliveira Cunha, que focaliza – entre ordens e desordens – um dos temas focais do estudo, sua expressão no mundo dos pescadores artesanais; em particular, os saberes e fazeres patrimoniais tecidos ao longo do tempo em interação com a natureza e nos ritmos culturais de tempo próprios, dissonantes dos tempos apressados de nossos dias – da aceleração da história.
O presente estudo, cabe evocar aqui, originou-se primeiramente de sua dissertação de mestrado, produzida em finais dos anos de 1980, defendida na PUC-SP, sobre o tema Entre o mar e a Terra: tempo e espaço dos pescadores artesanais da Barra da Lagoa/SC
, no litoral leste da ilha de Florianópolis/SC, período em que lecionou como professora colaboradora na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); e de sua tese de doutorado defendida no Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Meio Ambiente e Desenvolvimento (PGMADE), da Universidade Federal do Paraná (UFPR), sob o título original Ordens e desordens socioambientais: saberes tradicionais nas dinâmicas pesqueiras da costa paranaense.
Já desde essa época, ela revelou-se uma antropóloga sensível, capaz de apreender a singular cultura dos pescadores artesanais em seus variados ciclos, sobretudo os de tainha; bem como firmou seu compromisso com o modo de vida das sociedades costeiras, num momento em que o conhecimento da forma de pensar e fazer e de peculiar viver em outras temporalidades e territórios desses sujeitos social, consoante aos movimentos da vida marinha, era ainda muito restrito na produção socioambiental brasileira até então; quando não, consistiam em temas marginalizados no pensamento social desse momento.
A partir dos anos 1980, organizamos na USP uma série de sucessivos encontros interdisciplinares intitulados Ciências Sociais e o Mar
, e Lucia Helena contribuiu significativamente como uma das mais ativas participantes, apresentando uma visão enriquecedora sobre o tema, cujos aportes se refletiram em vários seminários e cursos temáticos específicos por ela proferidos, sob a coordenação do NUPAUB, da USP; assim como produziu diversos artigos publicados em várias coletâneas organizados por esse mesmo instituto de pesquisa em vários momentos, como pesquisadora associada.
Como pesquisadora do NUPAUB, Lucia Helena investigou duas comunidades de pescadores costeiros no litoral norte do Paraná, juntamente com a geógrafa Marie Dominique Rougeulle, com a perspectiva de traçar mecanismos culturais de controle ecológico com base na relativa conservação em sintonia com os seus ambientes estuarinos e marítimos no empreendimento de uma pesca de pequena escala. Tal estudo tinha como escopo a proposta de implementação de uma modalidade de reserva extrativista marinha, especificamente em Ilhas das Peças e Tromomô, com vistas a conciliar o uso sustentável dos recursos marítimos e estuarinos e a proteção ambiental, o que era novidade em finais dos anos de 1980.
Trabalho similar realizou no estuário de Mamanguape, na Paraíba, em 1990, quando lecionava Antropologia nos cursos de graduação e pós-graduação de Sociologia Rural da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), que lhe proporcionou a realização de levantamentos de campo nesse espaço pautado também em pesquisa bibliográfica, conjuntamente com graduandos de Ciências Sociais dessa universidade à época –, indicando as Reservas Extrativistas como alternativa à proteção e uso sustentável da região, também publicado pelo NUPAUB no mesmo ano.
A partir de meados dos anos de 1990, eu a convidei para compartilhar uma disciplina no Programa de Pós-graduação em Ciência Ambiental (PROCAM) da USP intitulada O mar como espaço de estudos interdisciplinares – o papel da socioantropologia marítima
, tema até então pouco estudado no Brasil.
Em 2007, como integrante do comitê orientador interdisciplinar, participei da banca examinadora de defesa de doutorado da autora no Programa de Pós-Graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento (PPGMADE) da Universidade Federal do Paraná sobre a temática original de sua tese, que agora se transforma em livro.
Essa autora desenvolve também neste ensaio a relação entre o tempo natural, marcado pelos ventos, pelas marés, pelo aparecimento sazonal de cardumes que integra a vida dos pescadores artesanais, e o tempo mercantil, próprio da sociedade moderna dominante, ainda que a pesca artesanal seja configurada como uma produção mercantil simples, de pequena escala.
O livro que prefacio é, sem dúvida, uma contribuição significativa para o entendimento da importância do trabalho etnográfico e socioantropológico para a valorização dos saberes e de modos de vida daqueles que tradicionalmente retiram seu sustento do mar por meio da pesca artesanal em respeito aos seus ciclos vitais; ao mesmo tempo que sua abordagem inova para a compreensão dos processos contínuos e descontínuos, de estabilidades e instabilidades – ordens e desordens – presentes nas dinâmicas dos sistemas socioecológicos costeiros.
Antônio Carlos Sant’Ana Diegues
Antropólogo e professor da Universidade de São Paulo – USP
ABERTURA: APRESENTAÇÃO DA AUTORA
A convite da Editora Dialética, a obra que ora se apresenta resulta de um conjunto de reflexões inscritas em minha trajetória acadêmica (e de vida), e deriva, em particular, de minha tese de doutorado, originalmente denominada Ordens e desordens socioambientais: saberes tradicionais em dinâmicas pesqueiras da costa paranaense, apresentada ao Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Meio Ambiente e Desenvolvimento da Universidade Federal do Paraná (PPGMADE/UFPR), em 2007.
Conquanto a pesquisa originária tenha se realizado em tempo e espaço determinados, julgou-se que a atualidade das questões aqui postas, tanto do ponto de vista teórico quanto do ponto de vista empírico, transcende ao período da pesquisa diante dos desafios decorrentes da crise ambiental e civilizatória e da busca da sustentabilidade da vida, como se verá posteriormente.
Com base nas reflexões feitas originariamente neste trabalho, como uma tentativa de aproximação aos universos empíricos aqui investigados, elegeram-se as categorias ordens e desordens como categorias nodais de análise. Ou seja, pretende-se observar como ordens e desordens socioambientais se manifestam – tanto na tradição quanto na modernidade (ou na pós-modernidade) – em sua expressão, ao mesmo tempo, destruidora e criadora, conforme propõe o antropólogo Georges Balandier em seus vários escritos, já desde meados e finais do século passado.
Além disso, no bojo dessa discussão, intenta-se realçar o chamado conhecimento tradicional – especificamente dos povos do mar em seu caráter patrimonial – ainda que configurado de novos sentidos nos limiares do contemporâneo e ameaçado (ou até mesmo, em alguns casos, desarticulados pela ordem social dominante), na lógica de conexão entre ordem e desordem socioambientais, e em sua indissociabilidade.
Em sua obra A desordem: elogio do movimento (1997), Balandier oferece contribuições relevantes à reflexão, ao formular que ordem e desordem atuam juntas, afirmando que, assim como a natureza não é linear, todas as sociedades são confrontadas com a desordem, em que nada é simples. Para ele, a ordem se esconde na desordem, o aleatório está constantemente a refazer-se, o imprevisível deve ser compreensível
. Trata-se, portanto, agora de produzir uma descrição diferente do mundo, onde a ideia do movimento e de suas flutuações prevalece sobre as estruturas, as organizações, as permanências
(Balandier, 1997, p. 10). Nessa linha, os fenômenos materiais e vitais, onde os elementos estão tecidos em apertadas tramas de relações, não ficam jamais em presença de uma desordem absoluta [...], mas de desordens relativas
(ibidem, p. 48).
Referindo-se ao fato de que as ditas sociedades tradicionais não são unanimistas, dotadas de consenso e pouco afetadas pela entropia, Balandier assinala, desde a sua produção das décadas de 1960 e 70, que a contestação emerge nesses sistemas sociais, mesmo quando o mito se impõe como lei. Isso significa que há sempre no interior das sociedades tradicionais espaço e abertura para inovações, produzidas por incompatibilidades − pela lógica do conflito, de contranormas, transgressões e da contestação.
Tais aportes conduzem o autor a estabelecer diferenciação das duas principais figuras da desordem: a desordem destruidora é concebida "quando existe perda de ordem, quando os elementos se dissociam e tendem a não mais constituir uma estrutura, uma organização, uma adição – (uma ordem de soma)"; enquanto a desordem criadora se caracteriza quando acarreta uma perda de ordem acompanhada de um ganho de ordem, quando é geradora de uma nova ordem
(Balandier, 1997, p. 48).
Para efeito dessa reflexão, cabe realçar que as desordens destruidoras em termos socioambientais, mesmo como tendência, não levam necessariamente a uma mera adição de seus elementos, embora em alguns casos a destruição do mundo natural possa se tornar irreversível – sem ponto de retorno –, considerando que a morte entrópica do planeta está inscrita nos paradigmas de apropriação social da natureza no Ocidente moderno. Fim da modernidade? Fim da natureza?
Essas perguntas são constantes diante de todos os eventos de destruição socioambiental em âmbito planetário, no cotidiano de muitas vidas; entende-se, porém, que essa visão relativa à inexorabilidade – do fim das espécies, inclusive da espécie humana – naturaliza e fataliza, de certa forma, os processos entrópicos contidos na realidade atual e anula as potencialidades e possibilidades existentes em movimentos de caráter socioecológico que propugnam alternativas de vida na biosfera terrestre.
Nesses termos, a crise socioambiental e civilizatória pode conduzir à outra face, à ordem e desordem criadora, talvez para aquém e além da modernidade, a depender das condições vitais e do contexto em que tais figuras da desordem se inscrevem no tempo e espaço.
Nas trilhas do pensamento de Georges Balandier, este ensaio visa, pois, perceber como ordens e desordens criadoras e ordens e desordens destruidoras se presenciam concomitantemente nos movimentos da sociedade e da natureza, como uma tentativa de tradução e transposição dessas categorias focais para a questão socioambiental em seus contornos atuais. E, nesse sentido, pretende focalizar como tais categorias – dotadas de imanência e historicidade – se pronunciam simultaneamente nos movimentos próprios da natureza e em movimentos socioculturais em várias expressões e dinâmicas próprias, em sua interioridade e exterioridade, particularmente nas sociedades tradicionais costeiras aqui contempladas.
Face aos dinamismos históricos marcados na contemporaneidade pela velocidade do tempo, com a aceleração da história e metamorfoses múltiplas, novos desafios de interpretação se apresentam na apreensão de várias formas de tradicionalismo manifestas no mundo atual e na própria dinâmica da modernidade (ou, para alguns pensadores, na chamada pós-modernidade), em que se conformam mundos diversos – coexistentes e díspares – e neles se inscrevem processos¹ ordenados e desordenados, tanto na natureza quanto na cultura.
Nessa direção também se apresenta o pensamento do antropólogo Marc Augé, particularmente em sua proposta de uma antropologia dos mundos contemporâneos, em que para ele se afiguram na atualidade mundos múltiplos e, neles, várias expressões do mundo da tradição e do mundo moderno se manifestam em cada contexto, no tempo e espaço, de modo peculiar.
Para esse autor, sem negar o percurso antropológico, entre tensões e ambivalências, compatibilidades e incompatibilidades, em particular em suas contribuições teórico-metodológicas, é nos processos contemporâneos, em decorrência de suas intensas mutações, que se impõem as condições de uma antropologia renovada carregada de historicidade – de apreensões de processos ambivalentes e paradoxais. Portanto, é neste jogo complexo de chamados e respostas que o antropólogo encontra agora seus novos objetos de reflexão
(AUGÉ, 1997, p. 8) – impregnados de novas simbologias, sentidos e feições singulares, como desafio a novas interpretações, num deslocamento de escalas. Além da historicidade própria das sociedades da tradição, Augé coloca, assim, a necessidade de busca concomitante em apreender-se também a alteridade em outros mundos rurais e urbanos, conquanto em contextos de mutações (ou mesmo a crise da alteridade em alguns desses contextos).
Outros antropólogos contemporâneos, como Jean Copans et al. (1971) e Erick Wolf (2003), propõem repensar as chamadas sociedades da tradição nos tumultos da história, para além da lógica do consenso e da repetição que dominou o discurso antropológico em seus primórdios, quando essas sociedades foram apreendidas, em muitos casos, como sistemas fechados
, destituídas de história – sem história ou pré-históricas.
O sociólogo Dimas Floriani (2004) assinala também a importância dos novos paradigmas científicos e filosóficos na ultrapassagem de modelos que apreendem apenas fenômenos estáveis. Ou seja, nessa perspectiva, segundo Floriani, não se trata de negar os equilíbrios, mas estes devem ser vistos em termos transitórios e excepcionais. A flecha do tempo (passa a ser) o elemento comum do universo
.
Entende-se, todavia, que outras temporalidades parecem se conjugar (e disjuntar) nesse contexto; isto é, ao lado da flecha do tempo, também expressam, em um intercruzamento de várias temporalidades, uma visão marcada pela visão cíclica do tempo – esta, dentre várias interpretações, leva-nos a interrogar se tais ritmos temporais se afiguram como a evasão do tempo histórico (REIS, 1994); ou se manifestam, numa relação coetânea, em busca da constelação de outro tempo, talvez no aceno de um novo tempo, que parece transcender ao mito do eterno retorno.
Em um mundo que congrega diversos mundos em sua pluralidade, de certo modo se pode dizer que, ao contrário da visão de homogeneização social e ambiental presente na própria lógica moderna ocidental hegemônica – colonial e neocolonial – e de sua ânsia de domínio e expansionismo em várias partes do planeta, particularmente no contexto da figuração dos sistemas mundos, outros mundos se recriam nos embates com a própria modernidade, para além de sua imagem e semelhança.
Nessa linha, é possível evidenciar que, de um lado, homogeneidades e heterogeneidades se combinam e se manifestam juntas em diferentes contextos socioambientais, com maior ou menor acento ou intensidade, a depender do caso em questão; de outro lado, não se pode desconsiderar que na atualidade todos os povos se apresentam, a um tempo, inscritos em um processo de planetarização efetiva, dentro ou nas franjas da lógica global dominante assentada no modo de produção capitalista, regido historicamente pela destruição de modos de vida que não coadunam ou não constituem em seu próprio espelho.
A globalização do mundo natural e social é, assim, vista por Michel Serres (1991, p. 13): Outrora local – tal rio, tal pântano, [tal mar, tal floresta] – global agora – o Planeta Terra
. Essa dimensão planetária da vida em suas diversas facetas leva, por sua vez, em contraponto, ao chamado da terra, à construção ou constelação de outros caminhos, de outros horizontes – na busca de conjunção de reenraizamentos histórico-culturais em novos enlaces com a mãe natureza. Assim, mesmo que interconectadas, tem-se que tais dimensões não se dissolvem uma na outra, o que exige pensar na dialógica ou na dialética entre local e global, entre semelhança e diferença, entre singular e universal.²
Retomando o pensamento de Balandier (1997) – que demarca a desordem como uma categoria que salta ou sobressai na contemporaneidade, muitas vezes escondida na ordem –, em verdade tais dimensões são inscritas nos próprios movimentos da história e da natureza; nelas estão implicadas em relação concomitante de conjunção e disjunção tanto estabilidades quanto instabilidades, continuidades e descontinuidades, perturbações, distúrbios e ruídos, rupturas e permanências – ordens e desordens – com significação singular em cada contexto no tempo e espaço.
No âmbito do universo pesqueiro, como se verá posteriormente, Acheson e Wilson (1996) apontam em alguns estudos recentes a presença de caos e complexidades às mudanças nos estoques pesqueiros, contrapondo-se aos modelos convencionais de reposição dos estoques pesqueiros, com o pressuposto de que sistemas ecológicos marinhos tendem ao equilíbrio. Para tais autores, a mudança do tamanho dos estoques pesqueiros sucede de forma caótica, ou seja, não segue um padrão regular, mas ocorre mediante relações complexas e variações imprevisíveis, ainda que até certo limite, como se verá no capítulo 1 – Parte I.
Compreendendo como equivalentes a um conjunto de ordens e desordens destruidoras socioambientais, denota-se que nas chamadas sociedades da tradição – em que pese o avanço cada vez mais intenso e o impacto da chamada civilização moderna e pós-moderna em seus territórios de vida – as desordens criadoras aí se pronunciam, numa relação de simultaneidade, em seus movimentos históricos e atuais.
Isso requer pensar as figuras de ordem e desordem no âmbito da problemática aqui proposta à reflexão em três sentidos: o primeiro evoca o sentido de historicidade e imanência de ordens e desordens no próprio movimento da natureza e da cultura; o segundo manifesta-se na própria ordem e desordem da modernidade ou da condição pós-moderna, conduzindo, com base em sua apropriação social do mundo natural, a desordens destruidoras; o terceiro sentido enseja pensar os movimentos contemporâneos da tradição em questão como configuradores de respostas criadoras, seja para a sua permanência na história restaurada, entre continuidades e descontinuidades, seja como referências significativas para a constelação de futuros sustentáveis em outros mundos possíveis.
Tem-se também como preocupação problematizar e repensar em sentido crítico os imaginários sobre a natureza presentes no pensamento social ocidental dominante, porquanto ela, nessa ótica, é percebida em sentido homogêneo, como se a natureza estivesse em perene repouso, num ideal de harmonia estático; abstraem-se, daí, as múltiplas e diversas formas ecológicas que compõem os movimentos do sistema terra, marítimo, arbóreo e fluvial, com suas diversas culturas, biomas e ecossistemas específicos, em sua dinâmica e conformação singular.
Vários autores são contemplados neste ensaio, oferecendo contribuições significativas e novas balizas – ainda que em linhas próprias – para a apreensão da multiplicidade de mundos que se afiguram na contemporaneidade, em que incertezas e indeterminações se manifestam nos limites do provável e improvável – do imprevisto, do acaso
