Explore mais de 1,5 milhão de audiolivros e e-books gratuitamente por dias

A partir de $11.99/mês após o período de teste gratuito. Cancele quando quiser.

Adorando com os reformadores
Adorando com os reformadores
Adorando com os reformadores
E-book354 páginas5 horas

Adorando com os reformadores

Nota: 0 de 5 estrelas

()

Ler a amostra

Sobre este e-book

Durante a Reforma Protestante, um dos aspectos mais impactantes da vida cristã que passou por uma profunda transformação foi o culto. Mas como exatamente os reformadores moldaram a adoração cristã, e que relevância isso tem para nós hoje? Em Adorando com os Reformadores, a renomada historiadora e Karin Maag nos oferece uma fascinante exploração das tradições de culto que surgiram durante a Reforma e sua influência contínua nas igrejas contemporâneas.

Com base em uma vasta pesquisa em fontes primárias, Maag desvenda os detalhes da vida litúrgica das principais igrejas protestantes, anabatistas e católicas. Ela nos guia através dos debates e tensões da época, que tratavam de temas como a centralidade da pregação, o papel dos sacramentos e a importância da participação ativa dos fiéis no culto. Ao fazer isso, Maag não apenas pinta um quadro vivo do passado, mas também revela como os fundamentos teológicos estabelecidos naquela época ainda moldam a maneira como muitas igrejas adoram no presente.

O livro oferece uma abordagem acessível e envolvente para estudantes de teologia, líderes de igreja e cristãos em geral que desejam entender melhor como a Reforma continua a influenciar a prática da fé. Este volume é uma leitura indispensável.

Adorando com os Reformadores não é apenas um mergulho histórico, mas um convite para refletirmos sobre a importância do culto na vida cristã, entendendo como a sabedoria do passado pode enriquecer e revitalizar nossa adoração hoje. Este é um livro que promete inspirar aqueles que buscam uma fé enraizada na tradição reformada e um culto que seja tanto fiel ao Senhor.
IdiomaPortuguês
EditoraEditora Cultura Cristã
Data de lançamento28 de out. de 2024
ISBN9786559893515
Adorando com os reformadores

Autores relacionados

Relacionado a Adorando com os reformadores

Ebooks relacionados

Cristianismo para você

Visualizar mais

Avaliações de Adorando com os reformadores

Nota: 0 de 5 estrelas
0 notas

0 avaliação0 avaliação

O que você achou?

Toque para dar uma nota

A avaliação deve ter pelo menos 10 palavras

    Pré-visualização do livro

    Adorando com os reformadores - Karin Maag

    Adorando com os reformadores. Os reformadores, sua visão de culto e sua influência hoje. Karin Maag. Cultura Cristã.

    "Em Adorando com os reformadores, Karin Maag descreve de maneira hábil as diversas práticas religiosas que resultaram da Reforma e oferece um retrato vívido do culto no século 16. Expondo as diferenças entre as principais formas de protestantismo e o catolicismo romano, este livro envolvente e informativo é o ponto de partida ideal para toda pessoa que tenha curiosidade a respeito do desenvolvimento histórico das práticas de culto que ainda são relevantes hoje."

    Amy Nelson Burnett, professora de História na Nebraska-Lincoln University

    A competente apresentação de Karin Maag dá voz aos adoradores comuns que se reuniam para a oração, o louvor, a pregação, o culto e a Santa Ceia em toda a ampla diversidade confessional da Reforma. Maag explora com precisão e desenvoltura o complexo cenário litúrgico da Reforma. Raramente os fiéis foram ouvidos com tanta clareza. É um relato profundamente humano que ecoa em nossa sociedade contemporânea.

    Raymond A. Mentzer, professor de Estudos da Reforma na Iowa University

    "Adorando com os reformadores é puro deleite! Karin Maag sintetizou conclusões acadêmicas e uma vasta gama de histórias pessoais para oferecer um relato excepcionalmente útil e envolvente das principais facetas do culto sob uma variedade de perspectivas. O que aprendemos com este esplêndido livro é intrinsecamente valioso, bem como aprofunda o nosso entendimento das raízes históricas das maneiras como cultuamos hoje."

    Suzanne McDonald, professora de Teologia Sistemática e Histórica no Western Theological Seminary, Holland, Michigan

    Este inestimável livro nos leva diretamente à experiência de culto na época da Reforma. O domínio das questões teológicas por parte da Professora Maag impressiona, mas o que chama a atenção no livro é o seu aspecto profundamente humano: a autora nunca se esquece de que o culto é uma atividade na qual as pessoas encontram sentido e sempre nos oferece as duas perspectivas: a do banco da igreja e a do púlpito.

    Alec Ryrie, professor de Teologia e Religião, Durham University

    Com a Reforma, milhões de pessoas chegaram a um novo entendimento da igreja e sobre o que significa ser igreja. Neste livro extremamente interessante e informativo, Karin Maag nos ajuda a entender o significado do culto para aqueles que professavam a fé protestante. Elementos como pregação, oração e os sacramentos despontam como essenciais, enquanto as vozes e as histórias dos adoradores nos transportam para suas experiências em sua recém-descoberta fé. Maag é uma extraordinária acadêmica cujo estudo nos ajuda a entender o culto na Reforma. Seu estudo também nos motiva a aprofundar nossas próprias práticas de culto.

    Donald K. McKim, autor de Everyday prayer with the reformers e Reformation questions, Reformation answers

    O cativante, esclarecedor e abrangente panorama do culto na época da Reforma apresentado por Karin Maag aborda as práticas rituais e devocionais em igrejas, lares, escolas e outros locais. É o ponto de partida perfeito para aqueles que buscam compreender como o aparecimento de novas formas de cristianismo no século 16 envolveu não apenas as doutrinas teológicas, mas também experiências vividas por pessoas reais. O estudo perspicaz de Maag abre caminho para uma conversa mais proveitosa a respeito do culto na igreja hoje.

    Barbara Pitkin, palestrante sênior de Estudos Religiosos na Stanford University, e autora de Calvin, the Bible, and History

    "Adorando com os reformadores não apenas preenche uma lacuna no estudo histórico, como também oferece um recurso indispensável à igreja. Maag é uma experiente guia cujas ricas ilustrações conduzem os leitores a santuários, capelas, lares e espaços públicos do início da vida moderna. Este livro nos ajuda a entender os vários contornos de devoção, demonstrando como os diversos padrões de culto tornaram-se marcas da identidade cristã que resistiram até o presente. Altamente recomendado!"

    Chris Castaldo, pastor titular da New Covenant Church, Naperville, Illinois, e autor de Talking with Catholics about the Gospel

    Adorando com os reformadores. Os reformadores, sua visão de culto e sua influência hoje. Karin Maag. Cultura Cristã.

    Aos meus queridos irmãos Liane Clark e Eric Maag, e com o coração cheio de gratidão ao meu amigo e colega de longa data Paul Fields, curador do H. Henry Meeter Center for Calvin Studies.

    Adorando com os reformadores de Karin Maag © 2023 Editora Cultura Cristã. Originalmente publicado em inglês pela InterVarsity Pres com o título Worshipping with the reformers © 2021 by Karin Maag. Traduzido e publicado com permissão da InterVarsity Press P.O.Box 1400 Downers Grove, IL 60515 USA. www.ivpress.com

    1ª edição – 2023

    Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

    M111a

    Maag, Karin

    Adorando com os reformadores / Karin Maag; tradução Cláudia Vassão Ruggiero. –- São Paulo: Cultura Cristã, 2023.

    Recurso eletrônico (ePub)

    Titulo original: Worshipping with the reformers

    ISBN 978-65-5989-351-5

    1. História. 2. Teologia. 3. Bíblia. I. Ruggiero, Cláudia Vassão. II. Título.

    CDU-264

    Sueli Costa - Bibliotecária - CRB-8/5213

    (SC Assessoria Editorial, SP, Brasil)

    A posição doutrinária da Igreja Presbiteriana do Brasil é expressa em seus símbolos de fé, que apresentam o modo Reformado e Presbiteriano de compreender a Escritura. São esses símbolos a Confissão de Fé de Westminster e seus catecismos, o Maior e o Breve. Como Editora oficial de uma denominação confessional, cuidamos para que as obras publicadas espelhem sempre essa posição. Existe a possibilidade, porém, de autores, às vezes, mencionarem ou mesmo defenderem aspectos que refletem a sua própria opinião, sem que o fato de sua publicação por esta Editora represente endosso integral, pela denominação e pela Editora, de todos os pontos de vista apresentados. A posição da denominação sobre pontos específicos porventura em debate poderá ser encontrada nos mencionados símbolos de fé.

    ABDR. Associação brasileira de Direitos Reprográficos. Respeite o direito autoral.Editora Cultura Cristã

    Rua Miguel Teles Júnior, 394 – CEP 01540-040 – São Paulo – SP

    Fones 0800-0141963 / (11) 3207-7215 – Whatsapp (11) 97133-5653

    www.editoraculturacrista.com.br – cep@cep.org.br

    Superintendente: José Inácio Ramos

    Editor: Cláudio Antônio Batista Marra

    SUMÁRIO

    Agradecimentos

    Introdução

    A caminho da igreja

    Na igreja

    Pregação

    Oração

    Batismo

    Comunhão

    A música e as artes visuais

    O culto fora da igreja

    Conclusão

    AGRADECIMENTOS

    Ao final de um projeto grande como este, é bom fazer uma breve pausa para expressar meus agradecimentos a todos os que me ajudaram ao longo do percurso.

    Minha gratidão, primeiramente, ao doutor David McNutt, editor adjunto da IVP Academic, que me apresentou este projeto e me convenceu a levá-lo adiante. Seu estímulo e seu bom-senso sereno foram alentadores. Agradeço também a todos da InterVarsity Press por seu trabalho magistral. É um grande prazer ter este trabalho incluído como volume complementar da série Reformation Commentary on Scripture. Também sou grata aos dois leitores externos que contribuíram com proveitosos comentários.

    Agradeço também a amizade e o apoio dos colegas da Calvin University e do Calvin Theological Seminary, entre eles John Witvliet, Susan Felch, Laura Smit, Kate van Liere, Frans van Liere, Dan Miller, William Van Vugt, Ronald Feenstra, Lyle Bierma e Richard Muller. Essas pessoas, ao lado de outros colegas no Departamento de História da Calvin University e dos meus colegas de seminário, tornaram o ensino e o trabalho nessas duas instituições uma alegria.

    Um agradecimento especial a meus colegas da Hekman Library – impressionei-me muitas vezes com a quantidade de recursos necessários a este projeto que foram disponibilizados em cópia impressa ou eletrônica por meio do site da Hekman Library ou por meio do empréstimo interbibliotecas. Também pude consultar uma grande variedade de artigos pelos bancos de dados aos quais a Hekman Library tem acesso. Sem bibliotecas acadêmicas excelentes como a Hekman, este livro e muitos outros não poderiam ter sido escritos. Minha gratidão a Kaitlyn van Kampen, que prazerosamente preencheu minhas solicitações de empréstimo interbibliotecas.

    De modo considerável contei com a colaboração e com a boa vontade dos meus colegas do Meeter Center, entre eles as coordenadoras de programa Laura Beer e Deborah Snider, mais recentemente. Deborah, em especial, foi uma ajuda inestimável na leitura dos manuscritos deste livro, conferindo e reconferindo as notas de rodapé e elaborando os índices e a lista de Leitura complementar. Minha profunda gratidão também a Paul Fields, o curador do Meeter Center, amigo e colega de longa data. Temos o prazer de trabalhar lado a lado há mais de duas décadas. Eu não poderia desejar um colega mais especial.

    Por fim, sou profundamente grata pelo interesse e apoio de amigos e familiares, entre eles Mike Abma, cuja calorosa amizade tem sido uma maravilhosa dádiva em minha vida; Jim e Andrea Turner, que sempre se interessaram pelos meus relatos sobre os feitos da Reforma; e Susanna Phillippo, pela sua sólida amizade transoceânica. Meu marido Chris tem oferecido seu apoio amoroso em todos os momentos, assim como meus pais. Mas dedico este livro à minha irmã Liane e ao meu irmão Eric. Nossos interesses e nossas vidas profissionais seguiram rumos diferentes, mas eu não poderia ter mais orgulho de ser irmã deles.

    INTRODUÇÃO

    Em 1545, um jovem de Antuérpia chegou a Estrasburgo para dar início a seus estudos. Sendo protestante e falante do francês, começou a frequentar a igreja reformada francesa em Estrasburgo, a qual João Calvino havia servido como pastor antes de voltar para Genebra em 1541. Para sua própria segurança e a dos seus familiares ainda residentes na católica Antuérpia, o jovem adotou o pseudônimo de Martin du Mont e, sob esse nome, escreveu cartas a seus familiares nos Países Baixos relatando sua experiência. Seu relatório pormenorizadamente detalhado a respeito do culto reformado em Estrasburgo expunha não apenas o que acontecia, mas também o impacto emocional e espiritual dessa experiência na sua vida:

    Nas primeiras cinco ou seis vezes, ao ver esse pequeno grupo reunido formado por pessoas que haviam sido expulsas de sua terra por terem defendido a honra de Deus e do seu evangelho, comecei a chorar, não movido pela tristeza, mas pela alegria de ouvi-los cantar com tanto ânimo, gratos a Deus por tê-los trazido a um lugar em que seu nome é honrado e glorificado. Ninguém pode imaginar a alegria de cantar na nossa própria língua os louvores e as maravilhas do Senhor, como fazemos aqui. Aos domingos, em lugar da missa, cantamos dois salmos ou orações e em seguida ouvimos o sermão. [...] O pastor coloca-se diante das pessoas e ora por todos na língua materna dos ouvintes, com voz alta e clara para que todos possam ouvir. Após as orações, ele sobe ao púlpito e prega, das 7:30 até às 9:00 horas, e são sermões maravilhosos de se ouvir.1

    Esse relato de uma testemunha ocular capta muitos dos aspectos do culto na era da Reforma que constituem o ponto central deste livro: a pregação, a oração, o canto e a comunhão espiritual. A carta do jovem de Antuérpia também revela o efeito dessas atividades sobre os participantes – dentre os quais ele se inclui – a ponto de levá-lo às lágrimas. Para esse estudante que está distante do seu lar, a experiência de culto entre outros exilados religiosos ajuda a trazer sentido ao que, do contrário, seria uma experiência difícil.

    Em 1562, o reformador suíço Henrique Bullinger expôs sua visão do culto coletivo num texto que mais tarde tornou-se conhecido como a Segunda confissão helvética. Bullinger frisava a importância do louvor coletivo bem como da exortação e da leitura individual das Escrituras:

    Para que a Palavra de Deus seja apropriadamente pregada a todos, e as orações e súplicas sejam feitas de maneira correta, e para que os sacramentos sejam corretamente ministrados, e sejam feitas as coletas para os pobres e para o pagamento dos custos das despesas da igreja, e a fim de manter o relacionamento social, é muito necessário que sejam realizadas reuniões na igreja, ou religiosas. Isso porque é certo que, na igreja primitiva e apostólica, tais reuniões eram frequentadas por todos os tementes a Deus.2

    Bullinger argumentava que o culto público era uma prática normativa enraizada na igreja primitiva que cumpria uma gama considerável de papéis importantes, entre os quais a manutenção dos laços de comunhão entre os adoradores. Embora esse texto seja mais prescritivo do que descritivo, Bullinger, assim como du Mont, destacava a grande importância do culto comunitário para os fiéis.

    Contudo, é correto afirmar que nem todos tinham uma visão tão positiva do culto como o jovem Martin du Mont ou da maneira descrita por Bullinger. Na verdade, muitas das cenas e dos relatos em primeira pessoa que leremos nos próximos capítulos destacam as reações de homens e mulheres do início da Idade Moderna que, por diversas razões, consideravam a experiência de culto difícil, desanimadora ou confrontadora. Como poderia ser diferente considerando as mudanças dramáticas que se deram em muitos aspectos do culto na época da Reforma? Este estudo propõe-se, no mínimo, a apontar os desafios de se promover mudanças na prática de culto de uma comunidade. Além disso, embora alguns leitores talvez fiquem surpresos com a frequência com que os conflitos sociais surgiam nos cultos, vale lembrar que – como muitas vezes acontece hoje – as tensões na sociedade como um todo inevitavelmente acabavam chegando à igreja, visto que nem o edifício nem a prática de culto eram hermeticamente isolados do restante da vida das pessoas. Também é verdade que o registro histórico preservou, principalmente, os relatos dos problemas e protestos – as vozes dos silenciosamente satisfeitos raramente são ouvidas, especialmente nos registros judiciais e dos consistórios.

    Quer fossem apreciativos ou hostis, esses relatos sobre o culto e seus efeitos no início da Idade Moderna destacam a principal realidade da Reforma: que as pessoas observavam e encaravam com seriedade quaisquer mudanças que afetassem sua prática de culto. É possível que muitos daqueles cujas vozes são ouvidas nos capítulos deste livro não conseguissem explicar, por exemplo, as distinções teológicas entre transubstanciação e consubstanciação, mas eles conheciam e valorizavam as diferentes partes da liturgia da comunhão em sua própria tradição e logo protestavam contra quaisquer mudanças, às quais se opunham. As batalhas sobre o culto nos dias de hoje têm paralelos nas igrejas do início da Idade Moderna, quando indivíduos e comunidades debatiam sobre o modo correto de celebrar os sacramentos ou se o canto congregacional deveria ser acompanhado por instrumentos ou se os que conduziam orações durante o louvor deveriam fazê-lo de maneira extemporânea ou com base em textos predefinidos. O culto oferecia uma oportunidade não apenas para que indivíduos e comunidades se voltassem para Deus, mas para que se posicionassem de maneira clara quanto à identidade, conformidade e o poder do ritual.

    Este livro, um volume complementar da série Comentário bíblico da Reforma, publicada pela IVP Academic, destina-se àqueles que desejam saber mais sobre a experiência de culto na era da Reforma, seja para ter um melhor entendimento da vida dos cristãos do início da Idade Moderna, seja para compreender as raízes das práticas de culto nos nossos dias. No entanto, não se pode esperar que um livro breve como este seja abrangente. O campo de pesquisa sobre culto, liturgia, iconografia, música, espaço sacro e religião popular no início da Idade Moderna está em constante expansão. Portanto, seria melhor encarar este livro como parte de uma conversa mais ampla e não como a palavra final sobre qualquer um dos tópicos aqui discutidos. Os leitores que desejarem saber mais são incentivados a consultar as notas de rodapé e as listas de Leitura complementar ao final de cada capítulo a fim de encontrar outros recursos. Também foi preciso decidir quais grupos confessionais incluir na comparação das primeiras práticas de culto daquela época. De modo geral, os cinco principais grupos confessionais incluídos neste trabalho são: católicos, luteranos, anglicanos, reformados e anabatistas, conquanto nem todos apareçam em proporções iguais em cada capítulo.3 Embora o enfoque principal deste livro seja a prática de culto, a maioria dos capítulos inclui alguma informação sobre a abordagem teológica desses tópicos diversos adotada pelos líderes das igrejas da era da Reforma. Finalmente, vale observar que as práticas de culto não eram definitivas em nenhum grupo confessional, tampouco as fronteiras confessionais eram rigorosamente controladas. Em outras palavras, havia mais flexibilidade e diversidade do que se imagina no culto da era da Reforma.

    Um dos objetivos deste livro é contribuir para que os clérigos e os leigos de hoje reflitam de modo mais profundo a respeito dos vários aspectos da prática de culto. Por que algumas igrejas passam bandejas de pães e de cálices entre as pessoas assentadas nos bancos, enquanto outras pedem que seus membros se dirijam à frente do santuário para receber o pão e o vinho ou suco de uva? O que está por trás do profundo desconforto de algumas igrejas protestantes com as orações predefinidas? Por que algumas igrejas luteranas europeias praticamente não se distinguem das igrejas católicas no que se refere à quantidade de imagens religiosas nos seus espaços de culto, enquanto as igrejas reformadas parecem, à primeira vista, totalmente desprovidas de imagens? Este livro oferece análises das práticas das igrejas do início da Idade Moderna que expõem as raízes desses aspectos divergentes do culto contemporâneo.

    No entanto, enquanto criamos conexões entre o culto na era da Reforma e os dias de hoje, é importante ter em mente os significativos pontos de contraste entre essas duas eras. Uma das maiores diferenças entre a Europa do início da Idade Moderna e dos dias de hoje, da qual os leitores atuais não devem se esquecer, é o papel importante desempenhado pelo governo na regulamentação da prática de culto. Em regiões que haviam adotado o protestantismo oficialmente, os governos entendiam que tinham tanto o direito quanto o dever de assegurar que as populações se reunissem regularmente para o culto. Em regiões luteranas, por exemplo, os governos elaboraram documentos prescritivos conhecidos como ordenanças da igreja expondo suas expectativas quanto à frequência, à conduta, ao formato dos cultos aos domingos e em outros dias da semana, e assim por diante. Em áreas oficialmente protestantes, o governo pagava o salário dos pastores, assegurando mais uma vez que a regulamentação do culto fosse da competência das autoridades civis. Para as mentes de hoje, as injunções que exigiam que as pessoas frequentassem a igreja e ameaçavam aplicar multas aos que se recusassem a obedecer podem parecer ao mesmo tempo severas e contraproducentes. Mas vale lembrar que há uma grande diferença entre as regras que estão no papel e sua aplicação prática. Os repetidos lembretes vindos das autoridades de que todos na comunidade deveriam frequentar a igreja sugerem, no mínimo, que os frequentadores relutantes encontravam várias maneiras de burlar as exigências.

    Outro ponto-chave a ser destacado antes de nos aprofundarmos no tema é que a uniformidade na prática de culto, mesmo no contexto de um único grupo confessional, era mais uma aspiração do que uma realidade no início da Idade Moderna. Com exceção dos territórios muito menores, como as cidades-Estados (e até mesmo ali), a prática de culto dependia muito do clero e dos leigos presentes. Liturgias cuidadosamente elaboradas e belamente redigidas, ordens detalhadas da igreja e visitas regulares destinadas a mover corações e moldar vidas em torno do culto não eram páreo para pastores que pregavam semana após semana em tom monótono ou paroquianos que adormeciam assim que o sermão começava. Por outro lado, pastores criativos podiam criar maneiras de preparar os jovens para sua primeira comunhão, ou os membros da congregação podiam encontrar maneiras engenhosas de preservar os elementos de culto de épocas anteriores que ainda prezassem. Embora as regulamentações que cercavam o culto do início da Idade Moderna ofereçam uma imagem de uniformidade (como salientado na Segunda Confissão Helvética), a realidade (conforme descrita por Martin du Mont) era muito mais variada – e mais interessante.

    Notas

    1 Carta publicada in ERICHSON, Alfred. L’Eglise française de Strasbourg au seizième siècle d’aprés des documents inédits. Estrasburgo: Schmidt, 1886, p. 22-23 (tradução minha).

    2 BULLINGER, Heinrich. Second Helvetic confession (1562). Capítulo 22. Of religious and ecclesiastical meetings. In Christian classics ethereal library, www.ccel.org/creeds/helvetic.htm.

    3 Ao longo deste livro, o termo anglicano refere-se à Igreja da Inglaterra. Teologicamente, sob Eduardo VI e depois sob Elizabeth, a Igreja da Inglaterra foi reformada, mas sua eclesiologia e estilo de culto preservaram muitos mais aspectos tradicionalmente medievais do que as igrejas reformadas do continente europeu. Tendo em vista que este livro enfoca principalmente a prática de culto, tanto o termo anglicano quanto o estilo característico de culto da Igreja da Inglaterra constituirão uma categoria distinta.

    1

    A CAMINHO DA IGREJA

    As reuniões da igreja nos são ordenadas pela Palavra de Deus; e por nossa experiência cotidiana sabemos bem como as necessitamos.

    João Calvino. As Institutas da religião cristã*

    Imagine a cena: é manhã de domingo na sua comunidade. Algumas pessoas estão se levantando e se preparando para ir à igreja. Dependendo de sua denominação e prática de culto, elas pegam suas Bíblias, confirmam se têm o valor destinado à oferta, vestem sua melhor roupa (ou simplesmente roupas comuns), verificam a leitura bíblica do dia ou certificam-se de ter em mãos a partitura do coral ou do grupo de louvor. Talvez, como aconteceu durante a recente pandemia da COVID-19, famílias e indivíduos se acomodam ao redor da TV ou do computador para a transmissão do culto liderado por seu pastor assentado em sua própria sala de estar. Enquanto isso, os vizinhos que não costumam ir à igreja dormem, fazem compras, desfrutam de um tranquilo café da manhã ou cumprem as mil e uma tarefas domésticas que se acumularam ao longo da semana. Para eles, o domingo é como um dia comum. Seja qual for a comunidade de cada um, é imensa a variedade de práticas e atividades num domingo qualquer.

    Quando nos voltamos para o século 16, o quadro é bem diferente. Fosse para reformados, anglicanos, luteranos ou católicos, a ênfase na prática de ir à igreja aos domingos era forte e imposta pelas autoridades religiosas e políticas a toda a comunidade. Nos círculos anabatistas, o enfoque no ato de reunir-se para o culto era igualmente forte, mas não havia a imposição por parte das autoridades políticas. As pressões da comunidade talvez moldassem as expectativas de que todos se reuniriam para o culto, mas a frequência não era exigida pelos líderes do governo. O culto anabatista no início da Idade Moderna era sinônimo de reuniões em lares, celeiros, ou até mesmo nos campos e clareiras na floresta.1 A pressão da perseguição também costumava significar que o horário e o local de culto não eram predeterminados, mas transmitidos de boca a boca, tornando o cumprimento da exigência de frequência um grande desafio. Assim, este capítulo se concentrará mais nos outros grupos confessionais, deixando os anabatistas de lado por enquanto.

    De uma perspectiva teológica, a frequência à igreja aos domingos era parte da observância do sabá conforme determinado nos Dez Mandamentos (Êx 20.8; Dt 5.12). Os líderes eclesiásticos

    Está gostando da amostra?
    Página 1 de 1