Explore mais de 1,5 milhão de audiolivros e e-books gratuitamente por dias

A partir de $11.99/mês após o período de teste gratuito. Cancele quando quiser.

Guerra e Paz — Volume 1 de 2
Guerra e Paz — Volume 1 de 2
Guerra e Paz — Volume 1 de 2
E-book1.255 páginas16 horasGuerra e Paz

Guerra e Paz — Volume 1 de 2

Nota: 0 de 5 estrelas

()

Ler a amostra

Sobre este e-book

Guerra e Paz narra a invasão da Rússia por Napoleão e os efeitos que o acontecimento teve na vida da aristocracia, dos militares e da população envolvida no conflito.
A maior parte dos oficiais era originária das famílias nobres e as separações e perigos da guerra tornavam mais intensas todas as relações pessoais e, em particular, as amorosas.
Os hábitos sociais, as relações sentimentais e o declínio de importantes famílias de Petersburgo e Moscovo são apresentados com distanciamento ou irónica ternura.
Neste romance surgiram algumas das mais perduráveis personagens da literatura, o íntegro príncipe Andrei, o insólito Pierre Bezúkhov e a fascinante Natacha Rostova, que se tornaria indispensável para qualquer um deles.
Com esta obra e a apresentação em mosaico de grandes painéis da vida russa onde se movimentam centenas de personagens num período de convulsões militares, Tolstoi realizou o seu projeto de se confrontar com o Homero da Ilíada e da Odisseia.

«O maior de todos os romancistas — que outra coisa poderíamos dizer do autor de Guerra e Paz!» Virginia Woolf
IdiomaPortuguês
EditoraRelógio D'Água Editores
Data de lançamento25 de jan. de 2025
ISBN9789897834974
Guerra e Paz — Volume 1 de 2
Autor

Lev N. Tolstói

Nació en 1828, en Yásnaia Poliana, en la región de Tula, de una familia aristócrata. En 1844 empezó Derecho y Lenguas Orientales en la universidad de Kazán, pero dejó los estudios y llevó una vida algo disipada en Moscú y San Petersburgo. En 1851 se enroló con su hermano mayor en un regimiento de artillería en el Cáucaso. En 1852 publicó "Infancia", el primero de los textos autobiográficos que, seguido de "Adolescencia" (1854) y "Juventud" (1857), le hicieron famoso, así como sus recuerdos de la guerra de Crimea, de corte realista y antibelicista, "Relatos de Sevastópol" (1855-1856; ALBA CLÁSICA núm. CXXVIII). La fama, sin embargo, le disgustó y, después de un viaje por Europa en 1857, decidió instalarse en Yásnaia Poliana, donde fundó una escuela para hijos de campesinos. El éxito de su monumental novela "Guerra y paz" (1865-1869) y de "Anna Karénina" (1873-1878; ALBA CLÁSICA MAIOR núm. XLVII; ALBA MINUS núm. 31), dos hitos de la literatura universal, no alivió una profunda crisis espiritual, de la que dio cuenta en "Mi confesión" (1878-1882), donde prácticamente abjuró del arte literario y propugnó un modo de vida basado en el Evangelio, la castidad, el trabajo manual y la renuncia a la violencia. A partir de entonces el grueso de su obra lo compondrían fábulas y cuentos de orientación popular, tratados morales, ensayos como "Qué es el arte" (1898) y algunas obras de teatro como "El poder de las tinieblas" (1886) y "El cadáver viviente" (1900); su única novela de esa época fue "Resurrección" (1899), escrita para recaudar fondos para la secta pacifista de los dujobori (guerreros del alma). Una extensa colección de sus Relatos ha sido publicada en esta misma editorial (ALBA CLÁSICA MAIOR núm. XXXIII; ALBA MINUS núm. 79). En 1901 fue excomulgado por la Iglesia ortodoxa. Murió en 1910 en la estación de tren de Astápovo.

Outros títulos da série Guerra e Paz — Volume 1 de 2 ( 2 )

Visualizar mais

Leia mais títulos de Lev N. Tolstói

Relacionado a Guerra e Paz — Volume 1 de 2

Títulos nesta série (2)

Visualizar mais

Ebooks relacionados

Ficção Literária para você

Visualizar mais

Categorias relacionadas

Avaliações de Guerra e Paz — Volume 1 de 2

Nota: 0 de 5 estrelas
0 notas

0 avaliação0 avaliação

O que você achou?

Toque para dar uma nota

A avaliação deve ter pelo menos 10 palavras

    Pré-visualização do livro

    Guerra e Paz — Volume 1 de 2 - Lev N. Tolstói

    Uma tradução de Guerra e Paz

    As traduções são modos mais ou menos flagrantes de traição.

    George Steiner, Tolstoi ou Dostoievski.

    Pode ter sido uma temeridade aceitar o desafio da Relógio D’Água para uma nova tradução da Guerra e Paz, sobretudo se tivermos em conta que já existiam em Portugal pelo menos três traduções. A de José Marinho nos anos cinquenta (3.ª edição, 1958), a de João Gaspar Simões e Isabel da Nóbrega (1967), ambas feitas a partir do francês, e finalmente a de Nina Guerra e Filipe Guerra, primeira tradução portuguesa feita diretamente do original russo.

    Se a estas juntarmos as três traduções existentes no Brasil, a de Oscar Mendes a partir do francês, e as de Rubens Figueiredo e de Paulo Bezerra, ambas a partir do original russo, a epopeia de Tolstoi tem já uma boa difusão em língua portuguesa. Mesmo assim, ainda longe das dez traduções inglesas, mas ao nível das seis traduções francesas, a primeira das quais data de 1879 e é assinada por «une russe», Irène Paskevitch, a princesa Irina Ivanovna Paskevitch (1835-1925).

    Perguntava há tempos um leitor francês qual a melhor tradução de Guerra e Paz de entre as várias existentes em língua francesa. Não há resposta a esta pergunta, e creio bem que seria difícil uma resposta definitiva. Ser diferente não significa necessariamente ser melhor. Uma obra está acabada quando o tradutor decide que está, mas as interpretações podem variar muito e manter a fidelidade ao original. Tal como o autor, se reescrevesse essa obra, a escreveria talvez de maneira muito diferente. Existem alguns casos. A tradução é também uma reescrita.

    Tendo presente a frase de George Steiner e a grande responsabilidade que ela implica, aceitei o desafio, que veio ao encontro de um sonho já com alguns anos. Este é o resultado. Espero ter transmitido ao leitor português a história contada pelo autor, mas também, «na medida do possível» (G. Steiner), um pouco o estilo do autor, a poesia que perpassa no livro. De contrário, terei de dizer como o próprio Tolstoi: «Nem o tempo nem as minhas capacidades me permitiram fazer inteiramente aquilo que tencionava…»

    Algumas opções

    Traduzir é sempre interpretar, e por vezes escolher entre várias possibilidades.

    Os conhecedores da língua russa poderão estranhar a presença ou a ausência de alguns acentos gráficos. É o caso, por exemplo, do nome Maria, que os russos pronunciam Mária. Optei pelo belo nome português Maria.

    Outra opção refere-se à tradução de algumas passagens que no original figuram em língua francesa e que são bastante numerosas. Como era costume da nobreza russa, as personagens de Tolstoi falam muitas vezes em francês. Há opiniões divergentes quanto ao tratamento a dar a estes textos nas traduções. Algumas edições limitam-se a traduzir os textos para a língua de chegada, como se fossem iguais a tudo o resto. Outras dão a tradução em nota de pé de página, e foi essa a opção seguida nesta edição. Ao falar em francês, as personagens de Tolstoi ignoram totalmente o pronome «tu». O pai trata o filho por tu ao falar-lhe em russo; mas se fala em francês usa o pronome «vous». Nestes casos, segui a versão russa, optando portanto pelo pronome «tu».

    António Pescada

    Tomo 1

    Primeira Parte

    I

    — Eh bien, mon prince. Gênes et Lucques ne sont plus que des apanages, des propriedades de la famille Buonaparte. Non, je vous préviens que si vous ne me dites pas que nous avons la guerre, si vous vous permettez encore de pallier toutes les infamies, toutes les atrocités de cet Antichrist (ma parole, jy crois) — je ne vous connais plus, vous nêtes plus mon ami, vous nêtes plus mon fiel escravo, comme vous dites. Bem, bom dia, bom dia. Je vois que je vous fais peur¹, sente-se e conte-me.

    Assim falava, em julho de 1805, a célebre Anna Pávlovna Scherer, Fräulein e valida da imperatriz Maria Fiódorovna, ao receber o príncipe Vassíli, importante alto funcionário, o primeiro a chegar ao seu serão. Anna Pávlovna estivera com tosse durante alguns dias, tinha gripe, como ela dizia (gripe era então uma palavra nova, usada só por raras pessoas). Nos bilhetes enviados de manhã por um lacaio engalanado de libré escarlate, estava escrito para todos sem distinção:

    «Si vous n’avez rien de mieux à faire, Monsieur le comte (ou mon prince), et si la perspective de passer la soirée chez une pauvre malade ne vous effraye pas trop, je serai charmée de vous voir chez moi entre 7 et 10 heures.

    Annette Scherer.»²

    Dieu, quelle virulente sortie!³ — respondeu o príncipe que acabava de entrar, nada perturbado com semelhante receção. Vestido com o uniforme bordado da corte, de meias, sapatos e estrelas, tinha uma expressão radiante no rosto liso.

    Falava naquele francês refinado em que não só falavam mas também pensavam os nossos avós, e com aquelas suaves e protetoras entoações próprias de um homem importante que envelhecera na alta sociedade e junto da corte. Aproximou-se de Anna Pávlovna, beijou-lhe a mão, expondo a sua calva perfumada e luzidia, e sentou-se calmamente no sofá.

    Avant tout dites moi, comment vous allez, chère amie?⁴ Tranquilize-me — disse ele sem mudar a voz nem o tom em que, por trás do decoro e da simpatia, transparecia a indiferença e até a zombaria.

    — Como é possível ter saúde… quando se sofre moralmente? Pois será possível, quando se tem sentimentos, estar tranquila no nosso tempo? — disse Anna Pávlovna. — Vai ficar todo o serão aqui, espero?

    — E a festa do embaixador inglês? Hoje é quarta-feira. Preciso de aparecer lá — disse o príncipe. — A minha filha vem cá buscar-me e leva-me.

    — Eu pensava que a festa de hoje tinha sido anulada. Je vous avoue que toutes ces fêtes et tous ces feux d’artifice commencent à devenir insipides.

    — Se soubessem que a senhora queria, teriam anulado a festa — disse o príncipe, por hábito, como um relógio de corda, dizendo coisas em que nem ele queria que acreditassem.

    Ne me tourmentez pas. Eh bien, qua-t-on décidé par rapport à la dépêche de Novosilzoff? Vous savez tout.

    — Como lhe direi? — disse o príncipe num tom frio e enfastiado. — Qu’a-t-on décidé? On a decidé que Buonaparte a brûlé ses vaisseaux, et je crois que nous sommes en train de brûler les nôtres.

    O príncipe Vassíli falava sempre com ar indolente, como um actor que diz o papel de uma comédia antiga. Anna Pávlovna Scherer, pelo contrário, apesar dos seus quarenta anos, era cheia de vivacidade e de impulsos.

    Ser entusiasta tornara-se a sua posição social e por vezes, mesmo quando não queria, para não desapontar as expectativas das pessoas que a conheciam, tornava-se entusiasta. O sorriso contido que brincava constantemente no rosto de Anna Pávlovna, embora não condissesse com as suas feições decaídas, expressava, como nas crianças mimadas, a permanente consciência do seu amável defeito, do qual ela não queria, não podia e não achava necessário corrigir-se.

    A meio de uma conversa sobre ações políticas, Anna Pávlovna acalorava-se.

    — Ah, não me fale da Áustria! Talvez eu não perceba nada, mas a Áustria nunca quis nem quer a guerra. Ela está a trair-nos. Só a Rússia deve ser a salvadora da Europa. O nosso benfeitor conhece a sua alta missão e ser-lhe-á fiel. Essa é a única coisa em que acredito. O nosso bom e maravilhoso soberano tem pela frente o maior papel no mundo, e é tão virtuoso e tão bom que Deus não o abandonará, e ele cumprirá a sua missão de esmagar a hidra da revolução que se tornou agora ainda mais terrível na figura desse assassino e celerado. Só nós devemos redimir o sangue do justo. Em quem havemos de confiar, pergunto-lhe eu?… A Inglaterra, com o seu espírito comercial, não compreende nem pode compreender toda a grandeza da alma do imperador Alexandre. Recusou-se a evacuar Malta. Quer ver, procura o sentido oculto das nossas ações. O que disseram eles a Novossíltsev? Nada. Não compreenderam, não são capazes de compreender a abnegação do nosso imperador, que não quer nada para si próprio e tudo quer para bem da paz. E o que prometeram eles? Nada. E mesmo aquilo que prometeram, não o farão! A Prússia já declarou que Bonaparte é invencível e que toda a Europa nada pode contra ele… E eu não acredito numa palavra nem de Hardenberg nem de Haugwitz. Cette fameuse neutralité prussienne, ce n’est qu’un piège.⁸ Só acredito em Deus e no elevado destino do nosso querido imperador. Ele salvará a Europa!… — De repente interrompeu-se com um sorriso de quem troçava da sua própria fogosidade.

    — Eu penso — disse o príncipe Vassíli, sorrindo — que se a enviassem a si em vez do nosso amável Wintzingerode, a senhora teria conseguido o consentimento do rei da Prússia. Com a sua eloquência. Quer oferecer-me chá?

    — Agora mesmo. À propos — acrescentou, acalmando-se de novo —, hoje vou ter cá duas pessoas muito interessantes, le vicomte de Mortemart, il est allié aux Montmorency par les Rohans⁹, uma das melhores famílias de França. É um dos bons emigrantes, dos autênticos. E depois l’abbé Morio, conhece essa grande inteligência? Foi recebido pelo soberano. Conhece-o?

    — Ah! Terei muito gosto — disse o príncipe. — Diga-me — acrescentou como se tivesse acabado de se lembrar de alguma coisa e com especial negligência, quando na verdade aquilo que perguntava era o motivo principal da sua visita —, é verdade que limpératrice-mère deseja a nomeação do barão de Funke como primeiro secretário em Viena? Cest un pauvre sire, ce baron, à ce quil paraît.¹⁰ — O príncipe Vassíli queria que o seu filho fosse nomeado para esse lugar, que alguém estava a tentar, através da imperatriz Maria Fiódorovna, atribuir ao barão.

    Anna Pávlovna quase fechou os olhos em sinal de que nem ela, nem ninguém, podia julgar aquilo que era da vontade ou do agrado da imperatriz.

    Monsieur le baron de Funke a été recommandé à limpératrice-mère par sa soeur¹¹ — disse ela apenas num tom triste e seco. No momento em que falava da imperatriz, o seu rosto apresentava uma profunda e sincera expressão de dedicação e respeito, misturada com tristeza, o que lhe acontecia sempre que numa conversa se referia à sua alta protetora. Disse que sua majestade se dignara mostrar pelo Barão de Funke beaucoup destime¹², e de novo o seu olhar se nublou de tristeza.

    O príncipe calou-se com indiferença. Anna Pávlovna, com a habilidade cortesã e feminina que lhe era própria e a rapidez de tato, quis dar um remoque ao príncipe por ter ousado falar assim de uma pessoa recomendada pela imperatriz, e ao mesmo tempo consolá-lo.

    Mais à propos de votre famille — disse ela —, sabe que a sua filha, desde que começou a aparecer, fait les délices de tout le monde? On la trouve belle, comme le jour.¹³

    O príncipe inclinou-se em sinal de respeito e reconhecimento.

    — Muitas vezes penso — continuou Anna Pávlovna depois de um momento de silêncio, aproximando-se do príncipe e sorrindo-lhe ternamente, como a querer dizer com isso que as conversas políticas e mundanas tinham acabado e que agora começava a conversa cordial — muitas vezes penso como a felicidade na vida é em certos momentos injustamente repartida. Porque lhe deu o destino a si uns filhos tão simpáticos (excluindo Anatole, o mais novo, não gosto dele) — disse com ar perentório, erguendo as sobrancelhas —, uns filhos tão maravilhosos? E o senhor, na verdade, aprecia-os menos que toda a gente, e por isso não é digno deles.

    E sorriu, com o seu sorriso extasiado.

    Que voulez-vous? Lafater aurait dit que je nai pas la bosse de la paternité¹⁴ — disse o príncipe.

    — Deixe-se de brincadeiras. Eu queria falar consigo a sério. Sabe, estou desagradada com o seu filho mais novo. Aqui entre nós (o seu rosto assumiu uma expressão triste), falaram dele a sua majestade e tiveram pena de si…

    O príncipe não respondeu, mas ela, em silêncio, olhando-o com ar significativo, esperava uma resposta. O príncipe Vassíli franziu o rosto.

    — Que hei de eu fazer? — disse ele por fim. — A senhora sabe que eu fiz pela educação deles tudo o que um pai pode fazer, e ambos saíram des imbéciles¹⁵. O Ippolit, ao menos, é um parvo quieto, mas o Anatole é irrequieto. É a única diferença — disse ele, sorrindo de um modo menos natural e mais animado que de costume, mostrando ao mesmo tempo com especial brusquidão, nas rugas que se formavam em volta da sua boca, qualquer coisa inesperadamente grosseira e desagradável.

    — E porque hão de nascer filhos a pessoas como o senhor? Se o senhor não fosse pai, eu não teria nada de que o pudesse censurar — disse Anna Pávlovna, erguendo os olhos pensativamente.

    Je suis votre fiel escravo, et à vous seule je puis lavouer. Os meus filhos — ce sont les entraves de mon existence. São a minha cruz. É assim que o explico a mim mesmo. Que voulez-vous?¹⁶ — Calou-se, exprimindo com um gesto a sua submissão ao destino cruel.

    Anna Pávlovna ficou pensativa.

    — Nunca pensou em casar o seu filho pródigo Anatole? Diz-se — observou ela — que as solteironas ont la manie des mariages. Eu ainda não sinto essa fraqueza, mas tenho uma petite personne que é muito infeliz com o pai, une parente à nous, une princesse¹⁷ Bolkónskaia. — O príncipe Vassíli não respondeu, embora com a rapidez de perceção e de memória própria da gente da alta sociedade tivesse mostrado com um movimento da cabeça que tinha tomado essa informação em conta.

    — Não, sabe que esse Anatole me custa quarenta mil rublos por ano — disse ele, visivelmente incapaz de conter o triste curso dos seus pensamentos. Ficou calado por um momento.

    — O que acontecerá dentro de cinco anos, se isto continuar assim? Voilà lavantage dêtre père.¹⁸ Essa sua princesa é rica?

    — O pai é rico e avarento. Vive na aldeia. Sabe, é aquele famoso príncipe Bolkónski que se retirou ainda no tempo do falecido imperador e a quem davam a alcunha de rei da Prússia. É um homem muito inteligente, mas cheio de esquisitices e desagradável. La pauvre petite est malhereuse, comme les pierres.¹⁹ Tem um irmão, que se casou há pouco tempo com a Lise Meinen, e que é ajudante de Kutúzov. Ele vai estar cá hoje.

    Ecoutez, chère Annette — disse o príncipe, pegando subitamente na mão da sua interlocutora e puxando-a para baixo por qualquer razão. — Arrangez-moi cette affaire et je suis votre fiel escravo à tout jamais («escrafo», comme me escreve o meu síndico, com f em vez de v).²⁰ Ela é de boa família e rica. É tudo do que eu preciso.

    E com aqueles graciosos movimentos livres e familiares que o distinguiam, pegou na mão da Fräulein, beijou-a e, depois de a beijar, agitou-a um pouco, refastelou-se no sofá e olhou para o lado.

    Attendez — disse Anna Pávlovna refletindo. — Hoje mesmo vou falar com a Lise (la femme du jeune Bolkónski). E talvez a coisa se arranje. Ce sera dans votre famille, que je ferai mon apprentissage de vieille fille.²¹

    1 Ora bem, meu príncipe, Génova e Lucca já não são mais do que apanágios da família Bonaparte. Não, aviso-o de que se não me diz que vamos ter guerra, se continua a desculpar todas as infâmias, todas as atrocidades desse Anticristo (palavra que acredito nisso), já não quero conhecê-lo, e o senhor já não será meu amigo, não será o meu […] como costuma dizer. […] Vejo que estou a assustá-lo.

    2 «Se não tem nada melhor para fazer, senhor conde (ou meu príncipe), e se a perspetiva de passar o serão em casa de uma pobre doente não o assusta demasiado, ficaria encantada por recebê-lo em minha casa entre as 7 e as 10 horas. Annette Scherer.»

    3 Meu Deus, que ataque tão violento!

    4 Antes de mais nada, diga-me: como se sente, minha amiga?

    5 Confesso-lhe que todas essas festas e todos esses fogos de artifício começam a tornar-se insípidos.

    6 Não me atormente. Então, o que foi decidido acerca do despacho de Novossíltsev? O senhor sabe tudo.

    7 O que decidiram? Decidiram que Buonaparte queimou os seus navios, e acho que nós estamos a queimar os nossos.

    8 Essa famosa neutralidade prussiana não passa de uma armadilha.

    9 A propósito […] o visconde de Mortemart está aliado aos Montmorency através dos Rohans […] o abade Morio.

    10 A imperatriz-mãe […] Esse barão é um pobre diabo, segundo parece.

    11 O senhor barão de Funke foi recomendado à imperatriz-mãe pela irmã dela.

    12 Muita estima.

    13 Mas a propósito da sua família […] faz as delícias de toda a gente. Acham-na bela como o dia.

    14 Que fazer? Lafater diria que eu não tenho a bossa da paternidade.

    15 Uns imbecis.

    16 Sou o seu fiel escravo, e só a si o posso confessar […] são o fardo da minha existência. […] Que se há de fazer?

    17 […] têm a mania dos casamentos. […] uma pequena […] uma parente nossa, uma princesa […]

    18 Aí está a vantagem de ser pai.

    19 A pobre pequena é uma infeliz.

    20 Ouça, cara Annette […] Arranje-me esse assunto e eu serei o seu mais fiel escravo para todo o sempre (escrafo. Como […].

    21 Espere […] Liza (a mulher do jovem Bolkónski). […] Será na sua família que eu farei a minha aprendizagem de solteirona.

    II

    A sala de visitas de Anna Pávlovna começou pouco a pouco a encher-se. Reunia-se ali a mais alta nobreza de Petersburgo, as pessoas mais diversas pela idade e pelo carácter, mas idênticas quanto à sociedade em que viviam; chegou a filha do príncipe Vassíli, a bela Hélène, que vinha buscar o pai a fim de ir com ele à festa do embaixador. Trazia vestido de baile com monograma. Chegou também a pequena jovem princesa Bolkónskaia, conhecida como la femme la plus séduisante de Pétersbourg²², que no inverno anterior se casara e que agora não frequentava a alta sociedade devido à sua gravidez, mas ainda frequentava os pequenos serões. Chegou o príncipe Ippolit, filho do príncipe Vassíli, com Mortemart, que apresentou; chegou também o abade Morio e muitos outros.

    — Ainda não viu, ou: ainda não conhece ma tante²³? — dizia Anna Pávlovna aos convidados que chegavam, e com a máxima seriedade conduzia-os junto de uma velhinha cheia de grandes laços, que surgiu da outra sala assim que os convidados começaram a chegar; indicando os nomes deles, passava lentamente o olhar do convidado para ma tante, e depois afastava-se.

    Todos os convidados cumpriam o ritual de cumprimentar a tiazinha que ninguém conhecia e de quem ninguém queria saber. Anna Pávlovna seguia com uma triste e solene simpatia os cumprimentos deles, aprovando-os em silêncio. Ma tante falava a cada um com as mesmas expressões acerca da saúde deles, da saúde dela e da saúde de sua majestade a imperatriz, que agora, graças a Deus, estava melhor. Todos os que iam ter com ela, sem mostrarem pressa, por decoro, afastavam-se da velhota com um sentimento de alívio pela pesada obrigação cumprida, para nunca mais se aproximarem dela em todo o serão.

    A jovem princesa Bolkónskaia chegou com o seu lavor num saquinho de veludo bordado a ouro. O seu bonitinho lábio superior, com um pequeno buço negro quase invisível, era demasiado curto para os dentes, mas por isso mesmo se abria de um modo encantador e de modo mais encantador ainda se esticava e descia sobre o lábio inferior. Como acontece com as mulheres muito atraentes, os defeitos dela — o lábio curto e a boca entreaberta — pareciam nela uma beleza especial, pessoal. Toda a gente se alegrava ao olhar aquela futura mãe cheia de saúde e de vivacidade, que suportava com tanta facilidade o seu estado. Depois de estarem alguns momentos na sua companhia e conversarem um pouco com ela, até os velhos, e os jovens sorumbáticos, achavam que eles próprios se tornavam parecidos com ela. Quem falava com ela e via o seu sorrisinho luminoso e os dentinhos brancos e brilhantes a cada palavra, que apareciam constantemente, achava que estava a ser ele próprio especialmente amável nesse dia. E todos assim pensavam.

    A pequena princesa, bamboleando-se, contornou a mesa em passinhos rápidos com o saco do seu lavor na mão e, ajeitando alegremente o vestido, sentou-se no sofá, perto do samovar de prata, como se tudo o que ela fizesse fosse uma partie de plaisir²⁴ para ela e para todos os que a rodeavam.

    Jai apporté mon ouvrage²⁵ — disse ela, abrindo o saquinho e dirigindo-se a toda a gente.

    — Veja lá, Annette, ne me jouez pas un mauvais tour — disse ela dirigindo-se à anfitriã. — Vous mavez écrit que cétait une toute petite soirée; voyez comme je suis attifée.²⁶

    E abriu os braços para mostrar o seu elegante vestido cinzento de renda, apertado um pouco abaixo do peito por uma larga fita.

    Soyez tranquille, Lise, vous serez toujours la plus jolie²⁷ — respondeu Anna Pávlovna.

    Vous savez, mon mari mabandonne — continuou ela no mesmo tom, dirigindo-se a um general —, il va se faire tuer. Dites moi pourquoi cette vilaine guerre?²⁸ — disse ela ao príncipe Vassíli e, sem esperar resposta, dirigiu-se à filha do príncipe Vassíli, a bela Hélène.

    Quelle délicieuse personne, que cette petite princesse²⁹ — disse o príncipe Vassíli em voz baixa a Anna Pávlovna.

    Pouco depois da pequena princesa entrou um jovem corpulento, de cabelo curto, de óculos, calças claras segundo a moda de então, camisa de bofes altos e fraque castanho. Este jovem gordo era filho ilegítimo de um famoso cortesão do tempo de Catarina, o conde Bezúkhov, que estava agora às portas da morte em Moscovo. Ainda não servia em lugar nenhum, acabava de chegar do estrangeiro onde tinha sido educado, e era a primeira vez que aparecia em sociedade. Anna Pávlovna cumprimentou-o com a vénia com que se dirigia às pessoas da mais baixa hierarquia no seu salão. Mas, apesar desse cumprimento de mais baixa categoria, ao ver o jovem Pierre entrar, o rosto de Anna Pávlovna expressou inquietação e medo, como o que se expressa perante a visão de qualquer coisa demasiado grande e imprópria para o lugar. Embora Pierre fosse de facto um pouco maior do que os outros homens presentes na sala, esse medo só podia estar relacionado com o olhar inteligente e ao mesmo tempo tímido, observador e natural que o distinguia de todos os presentes naquela sala de visitas.

    Cest bien aimable à vous, Monsieur Pierre, dêtre venu voir une pauvre malade³⁰ — disse Anna Pávlovna, trocando olhares temerosos com a tia, a quem o ia apresentar. Pierre balbuciou umas palavras incompreensíveis e continuou a procurar qualquer coisa com os olhos. Sorriu alegre e satisfeito à pequena princesa, como a uma conhecida íntima, e aproximou-se da tia. O medo de Anna Pávlovna não era em vão, porque Pierre, sem ouvir aquilo que a tia disse acerca da saúde de sua majestade, afastou-se dela. Anna Pávlovna, assustada, deteve-o com as palavras:

    — Não conhece o abade Morio? É um homem muito interessante… — disse.

    — Sim, ouvi falar do seu plano de paz eterna, e isso é muito interessante, mas dificilmente será possível…

    — Acha?… — disse Anna Pávlovna para dizer alguma coisa, e de novo voltou às suas ocupações de anfitriã; mas Pierre cometeu uma descortesia contrária à anterior. Primeiro, afastou-se sem escutar as palavras da interlocutora; agora detinha a interlocutora com a sua conversa, quando ela precisava de se afastar dele. Inclinando a cabeça e afastando os pés enormes, pôs-se a explicar a Anna Pávlovna por que motivo pensava que o plano do abade era uma quimera.

    — Mais tarde falaremos — disse Anna Pávlovna, sorrindo.

    E, livrando-se do jovem que não sabia viver, voltou às suas ocupações de anfitriã e continuou a escutar e a olhar, preparada para dar uma ajuda em qualquer lugar onde a conversa esmorecesse. Como o patrão de uma oficina de fiação, depois de distribuir os trabalhadores pelos seus lugares, percorre as instalações observando a imobilidade ou o funcionamento irregular ou rangente, demasiado ruidoso de um fuso, acorre à pressa a refreá-lo ou pô-lo no movimento adequado — assim Anna Pávlovna, caminhando pela sua sala de visitas, se aproximava de um círculo silencioso ou demasiado falador e com uma palavra ou uma deslocação voltava a repor a máquina da conversa na devida ordem. Mas no meio de todos esses cuidados continuava a ser visível o medo especial que tinha de Pierre. Olhou-o preocupada quando ele se aproximou a escutar aquilo que se dizia em volta de Mortemart, e quando ele se afastou para outro círculo, onde o abade falava. Para Pierre, educado no estrangeiro, aquele serão em casa de Anna Pávlovna era o primeiro a que ele assistia na Rússia. Sabia que estava ali reunida toda a intelectualidade de Petersburgo, e, como uma criança numa loja de brinquedos, não sabia para onde se havia de voltar, receando perder as conversas inteligentes que pudesse ouvir. Olhando as expressões convictas e elegantes dos rostos ali reunidos, estava sempre à espera de qualquer coisa especialmente inteligente. Por fim, aproximou-se de Morio. A conversa pareceu-lhe interessante, e parou, à espera de uma oportunidade para expressar as suas ideias, como os jovens gostam de fazer.

    22 A mulher mais sedutora de Petersburgo.

    23 A minha tia.

    24 Um divertimento.

    25 Trouxe o meu lavor.

    26 Annette, não me pregue nenhuma partida […] Escreveu-me que era um pequeno serão; veja como eu estou enroupada.

    27 Esteja tranquila, Liza, será sempre a mais bela.

    28 Sabe, o meu marido abandona-me […] vai-se deixar matar. Diga-me, porquê esta guerra infame?

    29 Que criatura deliciosa, esta princesinha.

    30 É muita amabilidade sua, Monsieur Pierre, ter vindo visitar uma pobre doente.

    III

    O serão de Anna Pávlovna estava em pleno funcionamento. Os fusos zumbiam de vários lados, regulares e incessantes. Com exceção de ma tante, ao lado de quem estava sentada apenas uma senhora de idade com o rosto magro e choroso, um tanto deslocada naquela brilhante sociedade, toda a companhia estava dividida em três círculos. Num deles, principalmente masculino, o centro era o abade; num outro, jovem, o centro eram a bela princesa Hélène, filha do príncipe Vassíli, e a pequena princesa Bolkónskaia, bonitinha, coradinha, demasiado cheia para a sua idade. O terceiro grupo reunia-se em volta de Mortemart e de Anna Pávlovna.

    O visconde era um jovem bem-parecido, de feições e modos suaves, que manifestamente se considerava uma celebridade, mas que por boa educação se colocava modestamente ao dispor da companhia em cujo meio se encontrava. Anna Pávlovna estava obviamente a servi-lo aos seus convidados. Tal como um bom maître dhôtel serve como coisa excelente e extraordinária um naco de carne de vaca que ninguém quereria comer se o visse numa cozinha suja, assim naquele serão Anna Pávlovna serviu aos seus convidados primeiro o visconde, depois o abade, como coisas de extraordinário requinte. No círculo de Mortemart começou-se logo a falar do assassínio do duque de Enghien³¹. O visconde disse que o duque de Enghien morrera devido à sua magnanimidade e que havia motivos especiais para a exacerbação de Bonaparte.

    Ah! voyons. Contez-nous cela, vicomte³² — disse Anna Pávlovna, sentindo alegremente que nesta sua frase soava qualquer coisa à la Louis XIV —, contez-nous cela, vicomte.

    O visconde inclinou a cabeça em sinal de obediência e sorriu cortesmente. Anna Pávlovna fez um círculo em redor do visconde e convidou todos a escutarem a sua história.

    Le vicomte a été personnellement connu de monseigneur — sussurrou Anna Pávlovna a um. — Le vicomte est un parfait conteur — disse ela a outro. — Comme on voit lhomme de la bonne compagnie³³ — disse a um terceiro; e o visconde foi servido à companhia sob a luz mais refinada e favorável para ele, como rosbife num prato quente polvilhado de ervas finas.

    O visconde queria começar já a sua história e esboçou um sorriso delicado.

    — Venha para aqui, chère Hélène — disse Anna Pávlovna à bela princesa, sentada um pouco à parte, constituindo o centro de outro círculo.

    A princesa Hélène sorria; levantou-se com aquele mesmo sorriso inalterável de uma mulher perfeitamente bela com que entrara na sala de visitas. Com o leve frufru do seu vestido branco de baile, adornado de heras e de musgos, com a alvura dos ombros a brilhar, o fulgor dos cabelos e dos brilhantes, caminhou a direito por entre os homens que lhe abriram passagem, e sem olhar para ninguém, mas sorrindo a todos como que concedendo amavelmente a cada um o direito de admirar a beleza da sua figura, os ombros cheios, o peito e as costas muito descobertos, segundo a moda de então, e como que levando atrás de si o brilho de um baile, aproximou-se de Anna Pávlovna. Hélène era tão bonita que não só não havia nela uma sombra de coquetismo, como, pelo contrário, parecia envergonhar-se da sua indubitável e fortemente triunfante beleza. Era como se desejasse e não conseguisse diminuir o efeito da sua beleza.

    Quelle belle personne!³⁴ — diziam todos aqueles que a viam. Como que pasmado por qualquer coisa extraordinária, o visconde encolheu os ombros e baixou os olhos quando ela se sentou à sua frente e o deslumbrou também a ele com aquele mesmo sorriso inalterável.

    Madame, je crains pour mes moyens devant un pareil auditoire³⁵ — disse ele, inclinando a cabeça com um sorriso.

    A princesa apoiou na mesinha o cotovelo do seu braço nu, roliço, e não achou necessário dizer nada. Esperava, sorrindo. Durante todo o tempo em que a história era contada, ficou sentada, direita, olhando de vez em quando ora para o seu bonito braço roliço, levemente pousado na mesa, ora para o seu peito ainda mais bonito, sobre o qual compunha o colar de brilhantes; ajeitou diversas vezes as pregas do seu vestido e, quando o relato produzia alguma impressão, olhava para Anna Pávlovna e assumia logo a mesma expressão que via no rosto da Fräulein, voltando logo em seguida a parar no mesmo sorriso luminoso. Depois de Hélène, também a pequena princesa se mudou para a mesinha do chá.

    Attendez-moi, je vais prendre mon ouvrage — disse ela. — Voyons, à quoi pensez-vous? — perguntou ela ao príncipe Ippolit. — Aportez-moi mon ridicule.³⁶

    A princesa, sorrindo e falando com toda a gente, provocou de repente uma mudança de lugares e, sentando-se, acomodou-se.

    — Agora sinto-me bem — disse ela e, depois de pedir que começassem, pegou no seu lavor.

    O príncipe Ippolit trouxe-lhe o saquinho, mudou-se também para aquele círculo e, aproximando mais o seu cadeirão, sentou-se ao lado dela.

    Le charmant Hippolyte³⁷ impressionava pela sua extraordinária parecença com a bela irmã e mais ainda porque, apesar da parecença, era espantosamente feio. Os traços do seu rosto eram os mesmos que os da irmã, mas nesta tudo era iluminado pelo seu sorriso jovial, satisfeito, jovem, inalterável e pela invulgar e clássica beleza do seu corpo; no irmão, pelo contrário, esse mesmo rosto era turvado pelo idiotismo e exprimia invariavelmente um mau humor autossatisfeito, e o seu corpo era magro e débil. Os olhos, o nariz, a boca, tudo se comprimia num esgar indefinido e fastidioso, e os braços e as pernas assumiam sempre uma postura que não era natural.

    Ce nest pas une histoire de revenants?³⁸ — disse ele, sentando-se ao lado da princesa e levando apressadamente o lornhão aos olhos, como se sem esse instrumento não pudesse começar a falar.

    Mais non, mon cher³⁹ — disse o narrador, surpreendido, encolhendo os ombros.

    Cest que je déteste les histoires de revenants⁴⁰ — disse o príncipe Ippolit num tom que evidenciava ter dito essas palavras, só depois compreendendo o que elas significavam.

    Pela segurança com que falava, ninguém conseguia compreender se aquilo que ele dissera era muito estúpido ou muito inteligente. Vestia um fraque verde-escuro, com as calças da cor de cuisse de nymphe effrayée⁴¹, como ele próprio dizia, meias e sapatos.

    O vicomte contou com muita graça a anedota então em voga segundo a qual o duque de Enghien tinha viajado em segredo para Paris para um encontro com Mademoiselle George, e que se encontrara lá com Bonaparte, que também gozava dos favores da famosa atriz; e que, ao encontrar-se com o duque, Napoleão caiu por acaso num daqueles desmaios de que sofria, ficando assim à mercê do duque, e que este não se aproveitou, mas que Bonaparte se vingou depois dessa magnanimidade, condenando o duque à morte.

    O relato foi muito bem feito e interessante, em especial na passagem em que os rivais se reconhecem um ao outro, e as senhoras pareciam agitadas.

    Charmant⁴² — disse Anna Pávlovna, lançando um olhar interrogativo à pequena princesa.

    Charmant — murmurou a pequena princesa, que espetava a agulha no seu lavor como em sinal de que o interesse e o encanto da história a impediam de continuar o trabalho.

    O visconde apreciou esse elogio silencioso e, sorrindo agradecido, continuou; mas nesse momento Anna Pávlovna, que continuava a olhar aquele jovem que considerava assustador, notou que ele falava com o abade com demasiado calor e em voz demasiado alta, e apressou-se a ir acudir àquele lugar de perigo. De facto, Pierre conseguira encetar com o abade uma conversa sobre o equilíbrio político, e o abade, visivelmente interessado na ingénua fogosidade do jovem, desenvolveu diante dele a sua ideia favorita. Ambos falavam e se escutavam com excessiva animação e naturalidade, e isso não agradou a Anna Pávlovna.

    — O meio é o equilíbrio europeu e le droit des gens⁴³ — dizia o abade. — Basta que um Estado poderoso como a Rússia, célebre pela sua barbárie, se coloque desinteressadamente à frente de uma união que tenha como objetivo o equilíbrio da Europa, e salvará o mundo!

    — Mas como encontrará esse equilíbrio? — começou Pierre; nesse momento Anna Pávlovna aproximou-se, e, olhando Pierre com severidade, perguntou ao italiano como estava ele a suportar o clima local. O rosto do italiano alterou-se de repente e assumiu uma expressão fingidamente doce e insultuosa, que pelos vistos lhe era habitual ao falar com as mulheres.

    — Estou tão fascinado com os encantos da inteligência e da educação da sociedade, em especial da feminina, em que tive a felicidade de ser recebido, que ainda não consegui pensar no clima — disse ele.

    Sem voltar a deixar o abade e Pierre, Anna Pávlovna, para mais facilmente os vigiar, fê-los juntarem-se ao círculo geral.

    Nesse momento entrou na sala de visitas uma nova personagem. Essa nossa personagem era o jovem príncipe Andrei Bolkónski, marido da pequena princesa. O príncipe Bolkónski era de baixa estatura, um jovem muito bem-parecido, de feições bem marcadas e secas. Tudo na sua figura, desde o olhar cansado e entediado, até ao andar suave e comedido, constituía o mais completo contraste com a sua esposa pequena e viva. Era evidente que ele não só conhecia todas as pessoas presentes na sala de visitas, mas que também estava tão farto delas que até olhá-las e ouvi-las era para ele muito enfadonho. E, de todas as caras presentes, parecia que a da sua linda mulher era a que mais o aborrecia. Com um esgar que lhe deformava o belo rosto, virou-lhe as costas. Beijou a mão de Anna Pávlovna e, franzindo os olhos, lançou um olhar por toda a companhia.

    Vous vous enrôlez pour la guerre, mon prince?⁴⁴ — disse Anna Pávlovna.

    Le général Koutouzoff — disse Bolkónski, acentuando a última sílaba zoff, como um francês — a bien voulu de moi pour aide-de-camp⁴⁵

    Et Lise, votre femme?⁴⁶

    — Ela vai para a aldeia.

    — Como não tem pena de nos privar da sua encantadora mulher?

    — André — disse a mulher, dirigindo-se ao marido no mesmo tom coquete com que se dirigia a um estranho —, que história nos contou o visconde sobre Mademoiselle George e Bonaparte!

    O príncipe Andrei semicerrou os olhos e voltou-lhe as costas. Pierre, que desde a chegada do príncipe Andrei à sala não desviava dele os seus olhos alegres e amistosos, aproximou-se e tomou-o pelo braço. O príncipe Andrei, sem olhar, franziu o rosto numa careta que exprimia enfado para com aquele que o agarrava pelo braço, mas, ao ver o rosto sorridente de Pierre, teve um sorriso inesperadamente bondoso e agradável.

    — Ora vejam!… Também tu estás na alta sociedade! — disse ele a Pierre.

    — Eu sabia que você vinha — respondeu Pierre. — Vou jantar a sua casa — acrescentou em voz baixa, para não interferir com o visconde, que continuava a contar a sua história. — Posso?

    — Não, não podes — disse o príncipe Andrei rindo-se, e com um aperto de mão dando a entender a Pierre que nem precisava de perguntar. Queria dizer mais qualquer coisa, mas nesse momento o príncipe Vassíli e a filha levantaram-se, e todos os homens se levantaram, para lhes dar passagem.

    — Desculpe-me, meu caro visconde — disse o príncipe Vassíli ao francês, puxando-lhe amavelmente a manga para baixo, para a cadeira, para que não se levantasse. — Essa infeliz festa em casa do embaixador priva-me do prazer e interrompe-o a si. Entristece-me ter de deixar o seu encantador serão — disse ele a Anna Pávlovna.

    A filha, a princesa Hélène, segurando ligeiramente as pregas do vestido, passava por entre as cadeiras, e o seu sorriso resplandecia ainda com maior brilho no seu belo rosto. Pierre olhava com os olhos quase assustados, extasiados, aquela beldade, quando ela passou ao seu lado.

    — Muito bonita — disse o príncipe Andrei.

    — Muito — disse Pierre.

    Ao passar, o príncipe Vassíli agarrou Pierre por um braço e voltou-se para Anna Pávlovna.

    — Eduque-me este urso — disse. — Há um mês que vive em minha casa e esta é a primeira vez que o vejo em sociedade. Nada é tão necessário a um jovem como a companhia de mulheres inteligentes.

    31 Louis Antoine Henri de Bourbon-Condé, duque de Enghien (1772-1804), viveu no exílio depois da Revolução Francesa. Falsamente acusado de conspirar para assassinar Napoleão, foi preso em território alemão, sumariamente julgado, condenado à morte e fuzilado em Vincennes.

    32 Ah, sim! Conte-nos isso, visconde.

    33 O visconde conheceu pessoalmente monsenhor […] O visconde é um perfeito contador. […] Como se vê, o homem de boa companhia.

    34 Que bela criatura!

    35 Minha senhora, receio pelas minhas capacidades diante de semelhante auditório.

    36 Espere, vou buscar o meu lavor. […] Vejamos, em que está a pensar? […] Traga-me o meu saquinho.

    37 O encantador Ippolit.

    38 Não é uma história de fantasmas?

    39 Não, meu caro.

    40 É que eu detesto histórias de fantasmas.

    41 Coxa de ninfa assustada.

    42 Encantador.

    43 O direito das gentes.

    44 Alista-se para a guerra, príncipe?

    45 O general Kutúzov […] quis-me para seu ajudante de campo…

    46 E Liza, a sua mulher?

    IV

    Anna Pávlovna sorriu e prometeu ocupar-se de Pierre, que, como ela sabia, era parente do príncipe Vassíli por parte do pai. A dama de certa idade que estava sentada ao lado de ma tante, levantou-se apressada e alcançou o príncipe Vassíli na antessala. Do rosto dela tinha desaparecido o anterior interesse simulado. O seu rosto bondoso e choroso expressava apenas inquietação e medo.

    — O que é que me diz, príncipe, sobre o meu Boris? — perguntou ela ao alcançá-lo na antessala. (Dizia o nome de Boris com especial acento na letra o.) — Não posso ficar mais tempo em Petersburgo. Diga-me, que notícias posso eu levar ao pobre rapaz?

    Apesar de o príncipe Vassíli escutar a velha dama de má vontade e quase com descortesia, e até mostrar impaciência, ela sorria-lhe de um modo amável e comovente, e, para que ele não se afastasse, agarrou-o pela mão.

    — Não lhe custa nada dizer uma palavra ao soberano, e ele é logo transferido para a guarda — pediu ela.

    — Acredite, princesa, que farei tudo o que puder — respondeu o príncipe Vassíli —, mas para mim é difícil pedir ao soberano; eu aconselhava-a a dirigir-se a Rumiántsev, através do príncipe Golítsin: isso seria mais sensato.

    A velha dama tinha o nome de princesa Drubetskaia, uma das melhores famílias da Rússia, mas era pobre, há muito que tinha deixado a vida de sociedade e perdera as anteriores ligações. Tinha vindo agora para tentar obter a nomeação do seu único filho para a guarda. Fizera-se convidada e aparecera no serão de Anna Pávlovna só para ver o príncipe Vassíli, e só por isso escutara a história do visconde. As palavras do príncipe Vassíli assustaram-na; o seu rosto em tempos belo exprimiu exasperação, mas isso durou apenas um instante. Voltou a sorrir e agarrou com mais força a mão do príncipe Vassíli.

    — Ouça, príncipe — disse —, eu nunca lhe pedi nada, nunca lhe hei de pedir, nunca lhe recordei a amizade do meu pai para consigo. Mas agora, suplico-lhe por Deus, faça isso pelo meu filho, e eu hei de considerá-lo um benfeitor — acrescentou ela, apressada. — Não, não se zangue, mas prometa-me. Já pedi a Golítsin, ele recusou. Soyez le bon enfant que vous avez été⁴⁷ — disse ela, tentando sorrir, apesar de ter lágrimas nos olhos.

    — Papá, vamos chegar atrasados — disse a princesa Hélène, que esperava à porta, virando a sua bonita cabeça nos ombros clássicos.

    Mas a influência na sociedade é um capital que é preciso economizar para que não desapareça. O príncipe Vassíli sabia isso, e, tendo compreendido que se começasse a pedir para todos os que lhe pediam em breve não poderia pedir para si próprio, raramente utilizava a sua influência. Porém, no caso da princesa Drubetskaia sentiu, depois do novo apelo, uma espécie de remorso. Ela recordou-lhe a verdade: os seus primeiros passos na carreira devia-os ele ao pai dela. Além disso, via pelos meios que ela usava que era uma daquelas mulheres, em especial as mães, que, quando metem qualquer coisa na cabeça, não param enquanto os seus desejos não forem satisfeitos, e em caso contrário estão dispostas a insistir todos os dias, a todos os minutos, e até a fazer cenas. Esta última consideração fê-lo vacilar.

    Chère Anna Mikháilovna — disse ele com a sua eterna familiaridade e enfado na voz —, para mim é quase impossível fazer isso que me pede; mas para lhe provar como gosto de si e honro a memória do seu falecido pai, farei o impossível: o seu filho será transferido para a guarda, aqui tem a minha mão. Está satisfeita?

    — Meu querido, é um benfeitor! Não esperava de si outra coisa; sabia como é bondoso.

    Ele ia partir.

    — Espere, mais duas palavras. Une fois passé aux gardes⁴⁸ — ela hesitou. — O senhor tem boas relações com Mikhail Ilariónovitch Kutúzov, recomende-lhe Boris como ajudante. Assim eu ficaria tranquila e então…

    O príncipe Vassíli sorriu.

    — Isso não lhe prometo. Sabe como assediam Kutúzov desde que foi designado comandante-chefe. Ele mesmo me disse que todas as senhoras moscovitas conspiram para lhe dar os seus filhos como ajudantes.

    — Não, prometa-me, não deixo, meu querido benfeitor.

    — Papá — repetiu a beldade no mesmo tom —, vamos chegar atrasados.

    — Bem, au revoir, adeus, bem vê…

    — Então amanhã fala com o soberano?

    — Sem falta, mas a Kutúzov, não prometo.

    — Não, prometa, prometa, Basile — disse Anna Mikháilovna nas costas dele, com um sorriso de jovem coquete que em tempos devia ter sido próprio dela, e que agora não ficava nada bem no seu rosto desgastado.

    Pelos vistos esquecera-se da sua idade e por hábito recorria a todos os seus antigos recursos femininos. Mas assim que ele saiu, o seu rosto adquiriu de novo a mesma expressão fria e afetada que tinha antes. Voltou para o círculo em que o visconde continuava o seu relato, e de novo fingiu que estava a ouvir, à espera do momento de sair, visto que o seu assunto estava resolvido.

    — Mas o que acha desta última comédia du sacre de Milan? — disse Anna Pávlovna. — Et la nouvelle comédie des peuples de Gênes et de Lucques, qui viennent présenter leurs voeux à Monsieur Buonaparte. Monsieur Buonaparte assis sur son trône, et exauçant les voeux des nations! Adorable! Non, mais cest à en devenir folle! On dirait que le monde entier a perdu la tête.⁴⁹

    O príncipe Andrei riu-se, olhando a direito o rosto de Anna Pávlovna.

    — «Dieu me la donne, gare à qui la touche» — disse ele (palavras de Bonaparte, ditas ao receber a coroa). — On dit quil a été très beau en prononçant ces paroles⁵⁰ — acrescentou ele em italiano: — «Dio mi la dona, guai a chi la tocca.»

    Jespère enfin — continuou Anna Pávlovna — que ça a été la goutte deau qui fera déborder le verre. Les souverains ne peuvent plus supporter cet homme, qui menace tout.⁵¹

    Les souverains? Je ne parle pas de la Russie — disse o visconde cortesmente e sem esperança. — Les souverains, madame! Quont ils fait pour Louis XVI, pour la reine, pour Madame Elisabeth? Rien — continuou, animando-se. — Et croyez-moi, ils subissent la punition pour leur trahison de la cause des Bourbons. Les souverains? Ils envoient des ambassadeurs complimenter lusurpateur.⁵²

    E, suspirando com desprezo, mudou novamente de posição. O príncipe Ippolit, olhando longamente para o visconde através do lornhão, a estas palavras voltou de repente todo o corpo para a pequena princesa e, pedindo-lhe uma agulha, começou a mostrar-lhe, desenhando com a agulha na mesa, o escudo dos Condé. Explicava-lhe esse escudo com um ar tão significativo como se a princesa lho tivesse pedido.

    Bâton de gueules, engrêlé de gueules dazur maison Condé⁵³ — dizia ele. A princesa escutava, sorrindo.

    — Se Bonaparte fica no trono de França durante mais um ano — continuou o visconde a conversa iniciada, com ar de quem não escuta os outros, mas que num assunto que conhece melhor do que todos segue apenas o curso dos seus pensamentos —, as coisas irão demasiado longe. Pela intriga, a violência, os desterros, as execuções, a sociedade, quero dizer, a boa sociedade francesa será para sempre destruída, e então…

    Encolheu os ombros e abriu os braços. Pierre queria dizer alguma coisa: a conversa interessava-lhe, mas Anna Pávlovna, que o vigiava, interrompeu.

    — O imperador Alexandre — disse ela com uma tristeza que acompanhava sempre as suas referências à família imperial — declarou que deixava aos franceses a escolha da sua forma de governo. E eu penso que, sem dúvida, toda a nação, ao libertar-se do usurpador, se lançará nos braços do rei legítimo — disse Anna Pávlovna, procurando ser amável com o emigrado e royaliste.

    — Isso é duvidoso — disse o príncipe Andrei. — Monsieur le vicomte⁵⁴ supõe muito justamente que as coisas já foram demasiado longe. Penso que há de ser difícil voltar à antiga situação.

    — Segundo o que ouvi — interveio Pierre de novo, corando —, quase toda a nobreza já se passou para o lado de Bonaparte.

    — Isso é o que dizem os bonapartistas — disse o visconde, sem olhar para Pierre. — Agora é difícil conhecer a opinião pública de França.

    Bonaparte la dit⁵⁵ — disse o príncipe Andrei com um risinho. (Era evidente que não gostava do visconde e que, embora não olhasse para ele, era contra ele que falava.)

    — «Je leur ai montré le chemin de la gloire» — disse ele depois de uns momentos de silêncio, voltando a repetir palavras de Napoleão —, «ils nen ont pas voulu; je leur ai ouvert mes antichambres, ils se sont précipités en foule…» Je ne sais pas à quel point il a eu le droit de le dire.⁵⁶

    Aucun — objetou o visconde. — Depois do assassínio do duque, até as pessoas mais facciosas deixaram de ver nele um herói. Si même ça a été un héros pour certaines gens — disse o visconde, voltando-se para Anna Pávlovna —, depuis lassassinat du duc il y a un martyr de plus dans le ciel, un héros de moins sur la terre.⁵⁷

    Ainda Anna Pávlovna e os outros não tinham conseguido avaliar com um sorriso estas palavras do visconde, quando Pierre de novo interveio na conversa, e Anna Pávlovna, embora pressentisse que ele diria qualquer coisa inconveniente, já não conseguiu detê-lo.

    — A execução do duque de Enghien — disse Pierre — era uma necessidade de Estado; e vejo grandeza de alma no facto de Napoleão não ter receado assumir sozinho a responsabilidade por esse ato.

    Dieu! Mon Dieu! — disse Anna Pávlovna num sussurro apavorado.

    Comment, Monsieur Pierre, vous trouvez que lassassinat est grandeur dâme?⁵⁸ — disse a pequena princesa, sorrindo e puxando para si o seu lavor.

    — Ah! Oh! — disseram várias vozes.

    Capital! — disse o príncipe Ippolit em inglês e bateu com a palma da mão no joelho. O visconde limitou-se a encolher os ombros.

    Pierre olhou os seus ouvintes por cima dos óculos, com ar solene.

    — Digo isto — continuou Pierre desesperadamente — porque os Bourbon fugiram da revolução, abandonando o povo à anarquia; e só Napoleão foi capaz de compreender a revolução, vencê-la e por isso, a bem da sociedade, não podia deter-se diante da vida de um único homem.

    — Não quer passar para esta mesa? — disse Anna Pávlovna. Mas Pierre, sem responder, continuou o seu discurso.

    — Não — disse ele cada vez mais animado —, Napoleão é grande, porque se colocou acima da revolução, pôs fim aos seus abusos, mantendo tudo aquilo que era bom: a igualdade dos cidadãos, a liberdade de palavra e de imprensa, e só por isso alcançou o poder.

    — Sim, se ele, tendo tomado poder, não o usasse para o assassínio e o entregasse ao rei legítimo — disse o visconde —, nesse caso também eu lhe chamava um grande homem.

    — Ele não podia fazer isso. O povo só lhe entregou o poder para que o livrasse dos Bourbons, e por isso o povo via nele um grande homem. A revolução foi uma grande coisa — continuou Monsieur Pierre, mostrando com essa sua proposição desesperada e provocativa a sua grande juventude e o desejo de dizer tudo o mais depressa possível.

    — A revolução e o regicídio uma grande coisa?… Depois disso… mas não quer passar para esta mesa? — repetiu Anna Pávlovna.

    Contrat social — disse o visconde com um sorriso dócil.

    — Não falo de regicídio. Falo de ideias.

    — Sim, ideias de pilhagem, assassínio e regicídio — interrompeu de novo uma voz irónica.

    — Isso foram excessos, é claro, mas não é neles que está o significado, o significado está nos direitos do homem, na emancipação de preconceitos, na igualdade dos cidadãos; e todas essas ideias Napoleão manteve-as em toda a sua força.

    — Liberdade e igualdade — disse o visconde com desdém, como se tivesse finalmente decidido mostrar seriamente àquele jovem toda a estupidez do seu discurso — são apenas palavras sonantes, que estão há muito comprometidas. Quem é que não gosta da liberdade e da igualdade? Já o nosso Salvador pregou a liberdade e a igualdade. Terão as pessoas ficado mais felizes depois da revolução? Pelo contrário. Nós queríamos a liberdade, mas Bonaparte destruiu-a.

    O príncipe Andrei, com um sorriso, olhava ora para Pierre, ora para o visconde, ora para a anfitriã. Num primeiro momento, Anna Pávlovna ficou horrorizada com a extravagância de Pierre, apesar da sua experiência em sociedade; mas quando viu que, apesar das palavras sacrílegas de Pierre, o visconde não perdia as estribeiras, e se convenceu de que já não era possível abafar esses discursos, reuniu forças e, juntando-se ao visconde, atacou o orador.

    Mais, mon cher Monsieur Pierre⁵⁹ — disse Anna Pávlovna —, como é que explica um grande homem que foi capaz de matar o duque, afinal apenas um homem, sem julgamento e sem culpa?

    — Eu perguntaria — disse o visconde —, como explica Monsieur o dezoito Brumário? Não foi isso um logro? Cest un escamotage, qui ne ressemble nullement à la manière dagir dun grand homme.⁶⁰

    — E os prisioneiros que ele matou em África? — disse a pequena princesa. — Isso é horrível! — E encolheu os ombros.

    Cest un roturier, vous aurez beau dire⁶¹ — disse o príncipe Ippolit.

    Monsieur Pierre não sabia a quem responder, olhou-os a todos e sorriu. O seu sorriso não era igual ao das outras pessoas, fundindo-se num não-sorriso. Nele, pelo contrário, quando sorria, de repente, instantaneamente, o seu rosto sério e até um pouco sombrio desaparecia e surgia um outro, infantil, bondoso, até um pouco tolo e como que a pedir desculpa.

    Para o visconde, que o via pela primeira vez, ficou claro que aquele jacobino não era de modo nenhum tão terrível como as suas palavras. Todos ficaram em silêncio.

    — Como querem que ele responda a todos ao mesmo tempo? — disse o príncipe Andrei. — Além disso, nos atos de um homem de Estado é preciso distinguir os atos do próprio indivíduo, os do chefe militar ou do imperador. É o que me parece.

    — Sim, sim, é claro — concordou Pierre, contente com a intervenção em seu socorro.

    — Não se pode deixar de reconhecer — continuou o príncipe Andrei — que Napoleão como homem é grande na Ponte de Arcole, no hospital de Jaffa, onde aperta a mão às vítimas da peste. Mas… mas há outros atos difíceis de justificar.

    O príncipe Andrei, que visivelmente desejava suavizar a inépcia do discurso de Pierre, levantou-se na intenção de sair, fazendo sinal à mulher.

    *

    De repente o príncipe Ippolit ergueu-se e, fazendo sinais com as mãos a todos e pedindo que ficassem sentados, começou a falar:

    Ah! Aujourdhui on ma raconté une anecdote moscovite, charmante: il faut que je vous en régale. Vous mexcusez, vicomte, il faut que je raconte en russe. Autrement on ne sentira pas le sel de lhistoire.⁶²

    E o príncipe Ippolit começou a falar em russo com a pronúncia com que falam os franceses depois de viverem dois anos na Rússia. Toda a gente parou: tanta a animação e a insistência com que o príncipe Ippolit pediu atenção para a sua história.

    — Há em Moscovo uma senhora, une dame, que é muito somítica. Precisava de ter dois valets de pied para a sua carruagem. E de estatura muito alta. Era do seu gosto. E tinha ela une femme de chambre, também de grande estatura. Ela disse…

    Aqui, o príncipe Ippolit ficou pensativo, com evidente dificuldade em refletir.

    — Ela disse… sim, ela disse: «Rapariga (à la femme de chambre), veste uma livrée e vem comigo, atrás da carruagem, faire des visites.»

    Aqui o príncipe Ippolit fungou e riu-se às gargalhadas muito antes dos seus ouvintes, o que produziu uma impressão desfavorável para o narrador. No entanto, muitos, incluindo a senhora de idade e Anna Pávlovna, sorriram.

    — E lá foi. De repente levantou-se uma forte ventania. A criada perdeu o chapéu e os seus longos cabelos despentearam-se…

    Então ele já não conseguiu dominar-se e começou num riso entrecortado, dizendo entre esse riso:

    — E todo o mundo ficou a saber…

    Assim terminou a anedota. Embora fosse incompreensível porque a contara ele, e porque precisava de a contar precisamente em russo, Anna Pávlovna e os outros apreciaram a amabilidade mundana do príncipe Ippolit, que encerrava de maneira tão agradável a saída desagradável e nada amável de Monsieur Pierre. Depois da anedota, a conversa fragmentou-se em pequenos comentários insignificantes sobre os próximos e os últimos bailes, os espetáculos, sobre quando e onde voltariam a ver-se.

    47 Seja o homem bondoso que já foi.

    48 Depois de passar para a guarda…

    49 … da coroação de Milão? […] E a nova comédia dos povos de Génova e de Lucca, que vêm apresentar os seus votos ao senhor Bonaparte? O senhor Bonaparte sentado no seu trono a satisfazer os desejos das nações. Não, isto é de enlouquecer. Parece que o mundo inteiro perdeu a cabeça.

    50 «Deus ma dá, e ai de quem lhe toque» […] Diz-se que era muito belo ao pronunciar estas palavras.

    51 Espero finalmente […] que isso tenha sido a gota de água que fará transbordar o copo. Os soberanos já não podem suportar esse homem, que ameaça tudo.

    52 Os soberanos? Eu não falo da Rússia. […] Os soberanos, minha senhora! O que fizeram eles por Luís XVI, pela rainha, por Madame Elisabeth? Nada […]. E acredite, eles sofrem o castigo pela sua traição à causa dos Bourbons. Os soberanos? Eles enviam embaixadores a cumprimentar o usurpador.

    53 Bastão de goles, espiguilha de goles lazúli — casa Condé.

    54 O senhor visconde.

    55 Disse-o Bonaparte.

    56 «Eu mostrei-lhes o caminho da glória» […], «eles não o quiseram; abri-lhes as minhas antecâmaras, eles precipitaram-se em multidão…» Não sei até que ponto ele tem o direito de o dizer.

    57 Nenhum […] Ainda que ele tenha sido um herói para certas pessoas […] desde o assassínio do duque há mais um mártir no céu, e menos um herói na terra.

    58 Como, Monsieur Pierre, acha que o assassínio é grandeza de alma?

    59 Mas, meu caro Monsieur Pierre.

    60 É uma escamoteação que em nada parece a maneira de agir de um grande homem.

    61 É um plebeu, por mais que digam.

    62 Ah! Hoje contaram-me uma anedota moscovita encantadora: tenho de vos regalar com ela. Vai-me desculpar, visconde, tenho de a contar em russo. De outra maneira não se sentirá o sal da história.

    V

    Depois de agradecerem a Anna Pávlovna pela sua charmante soirée⁶³, os convidados começaram a sair.

    Pierre era desajeitado. Gordo, de estatura mais alta que o normal, largo, com umas mãos grandes e vermelhas, não sabia, como se costuma dizer, entrar num salão e ainda menos como sair dele, ou seja, dizer à saída qualquer coisa especialmente agradável. Além disso, era distraído. Levantando-se, em vez de agarrar no seu gorro, pegou no chapéu de três bicos com plumas de um general e ficou com ele na mão, segurando o penacho, até que o general lhe pediu que o devolvesse. Mas toda a sua distração e a sua incapacidade para entrar num salão e falar eram redimidas pela expressão de bonomia, simplicidade e modéstia. Anna Pávlovna voltou-se para ele e, exprimindo com uma docilidade cristã o seu perdão pelo desatino, acenou-lhe com a cabeça e disse:

    — Espero voltar a vê-lo, mas também espero que mude as suas opiniões, meu querido msieur Pierre.

    Quando ela lhe disse isto, ele não deu qualquer resposta, apenas inclinou a cabeça e mostrou uma vez mais a todos o seu sorriso, que não dizia nada, a não ser talvez isto: «As opiniões são opiniões, mas bem veem como eu sou simpático e bom rapaz.» E todos, incluindo Anna Pávlovna, sentiam isso.

    O príncipe Andrei saiu para a antessala e, voltando as costas ao criado que lhe vestia a capa, escutava com indiferença a tagarelice da sua mulher com o príncipe Ippolit, que também saíra para a antessala. O príncipe Ippolit estava de pé ao lado da pequena princesa grávida e olhava persistentemente para ela através do lornhão.

    — Vá para dentro, Annette, não se constipe — dizia a pequena princesa, a despedir-se de Anna Pávlovna. — Cest arrêté⁶⁴ — acrescentou em voz baixa.

    Anna Pávlovna já conseguira combinar com Lise acerca do noivado que queria arranjar entre Anatole e a cunhada da pequena princesa.

    — Conto consigo, minha boa amiga — disse Anna Pávlovna também em voz baixa —, escreva-lhe e diga-me comment le père envisagera la chose. Au revoir⁶⁵ — e saiu do vestíbulo.

    O príncipe Ippolit aproximou-se da pequena princesa e, inclinando muito o rosto para ela, começou a falar-lhe num meio sussurro.

    Dois

    Está gostando da amostra?
    Página 1 de 1