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Sob O Véu - Karine Seimoha
Sobo Véu Umaguerraquetemrostode mulher
Karine Seimoha
1
SUMÁRIO
Dedicatória ..............................................................................05
Agradecimentos .......................................................................07
Apresentação ...........................................................................09
Sarah Hazeemeh ......................................................................11
Oula Al-Saghir .........................................................................31
Ghazal Baranbo .......................................................................51
Madiha Al Trkwi ......................................................................71
Batuli Khamis ..........................................................................91
Final .......................................................................................113
3
Dedicatória
A todos aqueles que, de alguma forma, recomeçaram.
5
Agradecimentos
Aos meus pais, Amadeu e Suely, por nunca terem desistido de mim.
À minha irmã, Rhaiza, por ter sonhado esse livro junto comigo. À Renata e ao Dimas, que me deram o suporte necessário para que esse livro se tornasse realidade.
À Letícia, que trabalhou arduamente nesses textos e não me deixou desistir.
7
Apresentação
Senti-me profundamente honrada quando recebi o convite da aluna Karine Seimoha para prefaciar o seu Trabalho de Conclusão de Curso. Confesso que mesmo tendo acompanhado a elaboração deste, ainda que a distância,
jamais imaginei encontrar um livro com tanta emoção e respeito por uma causa que me é tão cara.
Ao se interessar por este livro, em uma época em
que a comunidade internacional vive a mais grave das crises humanitárias, o leitor se surpreenderá com relatos bastante envolventes e emocionantes de mulheres sírias que, sem escolha, deixaram seu país pela necessidade de sobrevivência, encontrando no Brasil um porto seguro para recomeçar suas vidas.
O livro oferece aos leitores narrações esclarecedoras sobre uma cultura totalmente distinta da nossa, onde as personagens mostram as dificuldades enfrentadas por serem mulheres e, principalmente muçulmanas, vivendo em um país laico e livre, onde a maioria da população desconhece sua religião, hábitos e costumes, dificultando assim a integração.
Ainda, o que mais chama atenção na obra é a leveza com que os diversos temas são tratados, mostrando claramente que, apesar de todas as dificuldades, o Brasil e seu povo acolhem bem os refugiados.
Desejo à Karine muito sucesso em sua vida.
Angela Tsatlogiannis 9
1
Vim tanta areia andei
Da lua cheia eu sei, uma saudade imensa
Vagando em verso eu vim vestido de cetim
Na mão direita rosas vou levar
(Andança
– D. Caymmi/E. Souto/P. Tapajós)
Em uma farmácia de manipulação, um gerente e uma jovem conversam sobre o processo seletivo. Ela, animada com a possibilidade de ser contratada como estagiária, fala sobre si e sobre o que a motivou a entrar para a faculdade. Ele, contudo, não demonstra a mesma empolgação. Ao final, faz um pedido peculiar: Por favor, tire o lenço
. Tirar o lenço? Como assim? Por que aquele estranho pedia que ela se desprendesse de toda a significação cultural atribuída ao véu que orgulhosamente usa, escondendo a visão de seus longos cabelos castanhos e ondulados? Não, não pode tirar o véu.
O gerente insiste mais uma vez, pede que a jovem tire o véu para trabalhar. Diante da recusa, ele a dispensa, afirmando que o uso do lenço fere as medidas de higiene adotadas pela empresa. Diz que ela era a candidata ideal para a vaga, mas que, se não pode tirar o hijab enquanto trabalha, ele não pode contratá-la. Ela apenas assente com a cabeça e sai, preferindo conservar os costumes de sua religião a conseguir o tão sonhado emprego na indústria farmacêutica.
Sarah Hazeemeh, de 22 anos, é mais uma das refugiadas sírias que vivem nos arredores da conturbada cidade de São Paulo. Mais precisamente, ela está em Guarulhos, cidade vizinha e conurbada à capital. Ela é, também, mais uma das personagens do cenário urbano que se esforçam diariamente para se adaptar a uma realidade tão diferente daquela em que nasceu e passou a maior parte de sua vida. Embora tenha sido vítima de uma xenofobia mais descarada, daquela que grita a plenos pulmões e ofende nas ruas apenas uma vez – quando um vendedor em uma feira livre a viu e disse É terrorista essa aí
–, essa não foi a
primeira vez que a jovem foi recusada para uma vaga de emprego por usar o véu islâmico e se negar a tirá-lo para trabalhar.– É crime, mas eu não quero lutar nesse mundo, eu quero conseguir emprego, né? É isso que eu tô precisando. Então, chegar
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na última etapa para trabalhar e tudo está bom, você é a pessoa que a gente tá buscando, mas tem que tirar o lenço. Já aconteceu
muitas vezes e até agora tô procurando, tendo fé que vai dar certo em algum momento.
Fé. Essa palavra é uma constante no vocabulário (e, principalmente, na vida) de Sarah. Depois de deixar o seu país de origem anos atrás, por conta da violenta guerra civil, a jovem nunca perdeu a fé de, um dia, poder voltar para o lugar que chama de lar – afinal, dizem os populares que lar é onde o coração está. Mesmo no calor do verão brasileiro, não abandona o lenço. Mesmo que esquente bastante, ela se recusa a tirá-lo. Quando questionada pelos colegas se não está com calor, responde que está sim. Mas que já se acostumou e deixou de se incomodar há muitos anos – até porque o verão de sua terra natal costuma ser mais severo que o deste lado de cá do mundo. Já quando faz frio… ah, afirma que não há nada melhor que usar o hijab
e sentir que está protegida não só dos olhares masculinos, mas também, do clima.
Cursando o quarto ano da faculdade de Farmácia na UNINOVE, próximo à região central da cidade de São Paulo, a jovem reside em Guarulhos e ajuda os pais, Oussama e Rajaa, a cuidar do pequeno negócio da família: O Cham Culinária Árabe – um pequeno restaurante de comida síria no centro, perto de onde a família começou a morar alguns anos depois de terem chegado ao Brasil.
Embora a viagem não tenha sido conturbada ou difícil, com uma longa jornada por diversos países, como muitos refugiados enfrentam, isso não livrou a jovem de todas as dificuldades de estar em uma terra estranha e desconhecida, onde a maior dificuldade era a comunicação. A saber: todos os sírios são alfabetizados em inglês e árabe. No Brasil, há uma minoria de pessoas fluentes em inglês para conseguir comunicar-se com os refugiados tranquilamente e há menos ainda pessoas fluentes em árabe.
Caçula de três irmãos homens, a mudança de Sarah se deu por um motivo familiar: para evitar que fossem recrutados a lutar na sangrenta guerra, seus dois irmãos precisavam sair o mais rápido possível do país – apesar de todos os riscos
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envolvidos neste processo. Quando um homem é pego tentando sair da Síria, ele é preso como desertor e torturado. Muitas vezes, ele desaparece sem deixar rastros, e a família não sabe se ele foi morto ou apenas está preso.
Mesmo com a guerra, a família Hazeemeh ainda ficou três anos no país, mas, a saída dos filhos mais velhos, Hussam e Wissam, na época com 24 e 22 anos, respectivamente, abalou a família de uma forma que eles não imaginavam.
– Nós ficamos três anos na guerra lá e, na época tinha duas opções: ou viajar para Europa naquela viagem do mar que a pessoa não sabe se vai chegar ou não, né?! E o Brasil, porque o Brasil, na época a pessoa conseguia visto mais fácil. E aí meu pai falou que eles eram homens e que iam conseguir fazer isso e que eles iam viajar para o Brasil. Bem mais tranquilo, mais seguro e meus irmãos vieram antes da gente. A ideia foi conseguir um visto pra eles, por isso a família toda mandou passaportes para conseguir visto, mas a ideia é que eles iam Sarh conta, com um rastro de tristeza perdido em seu olhar, viajar só.
que se recorda de seus pais sofrendo por estarem longe dos filhos. E toda a dor se intensificou quando, cerca de um mês e meio depois da viagem dos filhos, eles receberam uma ligação dos rapazes, que não tinham boas notícias sobre a nova vida no Ocidente.
Durante a viagem, contaram, eles conheceram uma pessoa que também estava fugindo da guerra, e que seriam recepcionados por uma pessoa da Síria que já morava no Brasil há vários anos. A ideia era passar alguns dias com essas pessoas, em uma casa para receber os sírios que chegavam do país, e depois se organizar melhor e procurar onde pudessem alugar e se manter. Contudo, uma briga fez com que todos os moradores fossem expulsos – mesmo aqueles que não estavam na residência durante a confusão, o que era o caso dos dois jovens, que haviam saído para trabalhar e só
