Guia de Pesquisa em História da Imprensa
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Guia de Pesquisa em História da Imprensa - Letícia Sabina Wermeier Krilow
INTRODUÇÃO: compondo uma página
Nas primeiras décadas do século XXI, observou-se a efervescência de dois movimentos que têm impactado diretamente a construção do conhecimento histórico. Por um lado, a democratização do acesso a fontes históricas por meio da digitalização de milhões de documentos das coleções da Biblioteca Nacional Brasileira, seguido de sua divulgação na Biblioteca Nacional Digital – BNDigital. Apenas para mencionar o volume de possíveis fontes disponíveis, na data que reviso a escrita desta (17 jun. 2024), somente o acervo da BNDigital conta com 3.011.607 documentos de livre acesso, número que aumenta mensalmente.
Ao mesmo tempo, identificou-se um amplo movimento de negação da História, da ciência, a ascensão do negacionismo. O negacionismo se estruturou no campo da História no final da Segunda Guerra Mundial; seus defensores autointitularam-se revisionistas
e assumiram a missão de revisar e corrigir a historiografia. Algo, em teoria, positivo, porém, esse procedimento não foi baseado [...] na crítica do documento, mas sim na apropriação e na distorção dos fatos pregressos
(Le Goff, 1990, p. 220). Entre as estratégias utilizadas pelos negacionistas, esteve e ainda está a apropriação de documentos que são interpretados de forma deturpada com vista a oferecer crédito às mais distintas teses.
Dentro desse contexto, preocupam-nos os usos que podem ser feitos dessa grande quantidade de fontes digitalizadas presentes na BNDigital, pois, retomando uma reflexão efetuada pelo professor Luciano Aronne de Abreu na disciplina de Introdução aos estudos históricos
[¹], se não for utilizado um método consistente e coerente, o inquiridor pode fazer as fontes falarem exatamente o que ele deseja ouvir
. Dessa forma, o presente livro objetiva ser um guia para os mais diferentes tipos de pesquisadores que desejam utilizar a imprensa como fonte e/ou objeto na pesquisa histórica; um esforço lícito especialmente para reafirmar a especificidade da História e da escrita da História em relação a outros tipos de produções que se utilizam do passado.
Neste movimento, é oportuno retomarmos a perspectiva da historiadora Tânia de Luca (2005), que, ao analisar a relação entre História e imprensa no Brasil, identifica que, até a década de 1970, havia uma relutância por parte de muitos historiadores em utilizar a imprensa como fonte e objeto na escrita da História. Todavia, argumenta a autora, já era feita a História da Imprensa, ou seja, recompunha-se a trajetória da imprensa de modo amplo: a partir de sua chegada ao Brasil, criaram-se diferentes fases e momentos para a imprensa com base nas divisões da História por critérios políticos – do que derivou a História da imprensa no Império, na Primeira República, no Estado Novo, e assim por diante.
A relutância em se utilizar a imprensa como fonte ou objeto pode ser explicada a partir da lógica de produção do saber historiográfico, ou seja, durante boa parte do século XX, a forma predominante de se fazer/escrever História era associada ao ideal de busca da verdade dos fatos
com base em documentos oficiais. Tal concepção estava ligada especialmente à Escola Metódica, que considerava os jornais pouco adequados para a recuperação do passado
, uma vez que forneciam imagens parciais, distorcidas e subjetivas
(Luca, 2005, p. 112); dessa forma, não passavam pela crítica às fontes proposta pela referida escola.
Mas, com as mudanças na perspectiva do fazer historiográfico, principalmente com a Escola dos Annales em sua 3ª geração (composta, por exemplo, por Jacques Le Goff e Pierre Nora), consolidou-se uma proposta de utilização de novos objetos, proposição de novos problemas e de novas abordagens. Nesse contexto, a imprensa deixou de ser um simples elemento auxiliar na construção do saber histórico para ser construída como rica fonte e objeto de pesquisa.
Dentro desse amplo quadro, os primeiros trabalhos de pesquisadores brasileiros que utilizaram a imprensa como fonte datam do início da década de 1960. Entretanto, nesses trabalhos – hoje considerados clássicos –, os periódicos ainda eram vistos com suspeição. Porém, já não se questionava o uso do jornal em função de sua possível falta de objetividade
, mas buscava-se alertar para o uso instrumental e ingênuo que tomava os periódicos como meros receptáculos de informações a serem selecionadas, extraídas e utilizadas ao bel prazer do pesquisador
(Luca, 2005, p. 116).
Isso quer dizer que os historiadores, no início da década de 1960, observaram a riqueza do estudo a partir da imprensa, mas já apresentavam preocupações metodológicas de como fazer uso desse tipo de fonte que também se tornou objeto de estudo. Principalmente, passaram a se preocupar em desconstruir a visão criada pelo "habitus profissional dos jornalistas que consideravam o jornalismo como
espelho da realidade".
Porém, se os historiadores criticaram a perspectiva da imprensa como espelho da realidade
, de outro lado, as pesquisas iniciais e muitos trabalhos recentes trazem implicitamente uma visão simplificada dos processos comunicacionais e das relações entre a imprensa e os diferentes grupos políticos, econômicos e sociais. Predomina a perspectiva de que a imprensa seria subordinada ao capital econômico ou ao universo político; isso implica a concepção de que conteúdos e formas jornalísticas seriam determinados por fatores externos ao fazer jornalístico. Tais afirmações não significam que o pesquisador deva desconsiderar as pressões externas; apenas deve-se ter o cuidado de não compreender essas pressões sempre como determinantes, especialmente quando se trabalha com a chamada grande imprensa
.
Ambas as perspectivas – espelho da realidade
ou subordinada
–, praticamente opostas, não permitem que se apreenda a justa potencialidade da imprensa como objeto e/ou fonte. Dessa forma, o pesquisador precisa de um referencial teórico-metodológico que possibilite a identificação da riqueza e do potencial da imprensa para a escrita histórica, ou seja, é necessário compreender, como fazem as historiadoras Heloisa Cruz e Maria Peixoto (2007, p. 259), que a imprensa, desde o século XIX, auxilia: no fomento à adesão ou ao dissenso, mobilizando para a ação; na articulação, divulgação e disseminação de projetos, ideias, valores, comportamentos, etc.; na produção de referências homogêneas e cristalizadas para a memória social
, bem como na formação do chamado grande público
, na formação de nossa visão imediata de realidade e de mundo; na formação do consumidor, funcionando como vitrine do mundo das mercadorias e produção das marcas
.
Para sintetizar a relação entre imprensa e historiografia, Tânia de Luca (2005, p. 118) afirma que na década de 1970 o estatuto da imprensa entre os historiadores sofreu um importante deslocamento, pois, ao lado da História da imprensa (mapeamento da trajetória da imprensa), passou a ser feita a História por meio da imprensa (imprensa como fonte), assim como o próprio jornal tornou-se objeto da pesquisa histórica.
Então, há aqui um alerta: não se pode deslocar a forma como a imprensa é concebida no fazer historiográfico da própria trajetória desta área de conhecimento no campo dos saberes. A História não foi escrita sempre da mesma maneira, seus objetos mudaram, suas fontes se ampliaram e, com isso, os métodos de análise documental estão em constante processo de aprimoramento.
De modo geral, tal alerta indica que o/a pesquisador/a, para analisar criticamente tanto as pesquisas já efetuadas como os documentos tornados fontes na investigação histórica, precisa realizar alguns questionamentos: qual o status de um determinado documento atualmente e no momento em que foi analisado? Qual tratamento foi aplicado a esse documento? Qual arcabouço teórico-metodológico os/as pesquisadores/as possuíam a seu alcance no momento da análise e, dentre estes, qual foi utilizado?
Essas questões remetem a uma problemática mais profunda do campo historiográfico, isto é, a constatação de que documento é tudo aquilo que um determinado momento decidir que é um documento
(Karnal; Tatsch, 2009, p. 20). Dessa forma, "o documento não é um documento em si, mas um diálogo claro entre o presente e o documento (Karnal; Tatsch, 2009, p. 12). E a utilização da palavra
diálogo" remete a uma dupla rejeição: de um lado, a visão da Escola Metódica do século XIX que via no documento e
