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Pequeno mundo antigo
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E-book595 páginas7 horas

Pequeno mundo antigo

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Sobre este e-book

Na segunda metade do século XIX, enquanto os patriotas do Lombardo-Vêneto lutam contra o domínio austríaco, floresce no "pequeno mundo" do Valsolda, uma cidadezinha no Lago de Lugano, norte da Itália, o amor entre Franco e Luísa: ele, poético e sonhador, nobre e religioso, mais apegado ao "mundo antigo", porém com ideias liberais; ela, firme e decidida, dotada de um forte e altivo sentimento de justiça, de origem burguesa e filha de um intelectual com tendências iluministas, mais inclinada para o "mundo moderno". Por causa da oposição da avó de Franco, os dois se casam secretamente e, apesar do forte sentimento que os une, diante de um acontecimento trágico serão obrigados a tomar uma atitude que dividirá os dois mundos.Pequeno mundo antigo é, nas palavras do seu autor, "um romance íntimo, doméstico, cheio de fragrâncias da dor, do amor abençoado por Deus, do sentimento doméstico, da poesia da infância e da velhice". Na tradução do consagrado romancista José Geraldo Vieira, acompanhada de ensaios de Benedetto Croce, Otto Maria Carpeaux e Fausto Zamboni, o leitor conhecerá um dos romances clássicos da literatura italiana.
IdiomaPortuguês
EditoraSétimo Selo
Data de lançamento5 de mai. de 2025
ISBN9786552270900
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    Pequeno mundo antigo - Antonio Fogazzaro

    i. Risotto e tartufos

    Soprava por sobre o lago uma breva ⁹ fria, raivosa, querendo afastar as nuvens cinzentas que pesavam sobre os cumes severos das montanhas. Na verdade, quando os Pasotti, descendo do Albogasio de Cima, chegaram a Casarico, ainda não chovia. As ondas desmanchavam-se pela margem, com fragor, sacolejavam as barcas acorrentadas, mostravam aqui e acolá, até à riba austera do Doi, lá longe, em frente, uma orla de espumas brancas. Mas, para as bandas do poente, aos fundos do lago, se via uma abertura clara, um princípio de calma, onde a breva, exausta, não chegara; e por detrás do sombrio monte de Caprino descia a primeira coluna de chuva. Pasotti, metido num sobretudo preto, de cerimônia, com uma cartola enfiada na cabeça, e com um bengalão de junco nos dedos, caminhava nervoso pelo cais, olhava para a direita, para a esquerda, parava para bater com a bengala ruidosamente no chão, chamando o estupor do barqueiro que não havia meios de aparecer.

    O pequeno barco preto, com almofadas vermelhas e toldo riscado de branco e rubro, com o banco de luxo, removível, arrumado transversalmente, e os remos prontos cruzados na popa, debatia-se, sacudido pelas ondas, entre duas barcaças tão carregadas de carvão que mal oscilavam.

    — Pin! — gritava Pasotti, cada vez mais enfurecido. — Pin!

    A única resposta era o bater igual e repetido das ondas na margem e o entrechocar das barcas. Dir-se-ia que em todo Casarico não se achava nem mesmo um cão vivo. Somente uma voz fraca, de timbre fibroso, velada voz de ventríloquo, gemia lá das trevas do pórtico.

    — Vamos a pé! Vamos a pé!

    Finalmente o Pin apareceu, vindo do lado de San Mamette.

    — Então?!… — gritou-lhe Pasotti, agitando os braços, fazendo com que o Pin corresse.

    — Animal! — goelava Pasotti. — Não foi à toa que te puseram um nome de cão!

    — Vamos a pé, Pasotti! — gemia a voz débil. — Vamos a pé.

    Pasotti descompôs ainda o barqueiro, enquanto este apressadamente desprendia a corrente do barco dum argolão cravado no embarcadouro. Depois se voltou para o pórtico e fazendo uma cara imperiosa acenou para alguém, com um movimento de queixo, ordenando que viesse.

    — Vamos a pé, Pasotti! — gemeu ainda a voz.

    Corcoveando, ele fez com a mão um movimente brusco de ordem, e desceu para o barco.

    Surgiu então, emergindo da arcada do pórtico, uma senhora idosa, com o corpo magro constringido num chale da Índia sob o qual se via a saia de seda preta. Sua cabeça estava encerrada num chapeuzinho de cidade, extravagantemente alto, enfeitado com rosinhas amarelas e rendas pretas. Dois cachos negros lhe ladeavam o rosto rugoso onde se abriam dois grandes olhos suaves, enevoados, e uma grande boca sombreada por um leve buço.

    — Oh, Pin — disse ela juntando as mãos enluvadas de tom canário e se detendo no cais, com os olhos a solicitar misericórdia do barqueiro. — Temos mesmo que ir com o lago assim?

    O marido lhe fez um outro gesto mais imperioso, uma fisionomia mais furiosa do que antes. A pobre mulher despejou-se em silêncio para o vão onde estava o barco e, toda trêmula, deixou que a ajudassem a subir.

    — Que a Madona da Caravina nos conduza, meu caro Pin! — disse ela. — Um lago tão horrível!

    O barqueiro meneou a cabeça, sorrindo; e nisto o Pasotti exclamou:

    — A propósito, tens a vela?

    — Tenho-a lá em cima, em casa — respondeu o Pin. — Devo ir buscá-la? Aqui a senhora talvez fique com medo. Além disso, veja, aí vem água!

    — Vai buscar a vela! — redarguiu Pasotti.

    A senhora, surda como o badalo dum sino, não escutou uma só palavra deste curto diálogo, de modo que ficou muito admirada ao ver o Pin sair a correr; perguntou ao marido aonde ia o barqueiro.

    — Buscar a vela! — gritou-lhe Pasotti bem nas bochechas.

    Ela estava ali toda revirada, os beiços muito abertos, a fim de recolher uma sílaba que fosse; mas inutilmente.

    — A vela! — repetiu o outro, mais alto, com as mãos em porta-voz.

    Ela supôs haver compreendido, estremeceu de pavor, fez, com o dedo, no ar, um hieróglifo interrogativo. Já agora Pasotti respondeu traçando porém um arco imaginário no ar e soprando dentro; depois afirmou que sim, em silêncio, com a cabeça. Sua mulher, convulsa, se levantou para desembarcar.

    — Saio desta joça! — disse ela angustiadamente. — Nisto aqui não vou. Vou a pé.

    O marido agarrou-a por um braço, obrigou-a a sentar-se, verrumou-a com um olhar em brasa.

    Já o barqueiro vinha de volta, com a vela. A pobre senhora contorcia-se, suspirava, tinha lágrimas nos olhos, lançava para o cais olhadelas piedosas, mas não dizia palavra. O mastro foi soerguido, as pontas inferiores da vela foram ligadas e a barca estava para zarpar, quando um vozeirão mugiu lá do pórtico:

    — Olá, senhor Fiscal! — e desembocou um imenso padre rubicundo, com uma pança gloriosa, um grande chapéu de palha negra, o charuto na boca e o guarda-chuva debaixo do braço.

    — Oh, paduca! — exclamou Pasotti. — Bravo! Vem ao jantar? Vem a Cressogno conosco?

    — Se me levar! — respondeu o cura de Puria, descendo para o barco. — Olá, temos também a senhora Barborin!

    A carantonha tornou-se amável, amabilíssima, o vozeirão doce, dulcíssimo.

    — A pobre diaba tem no corpo um medo dos infernos! — escarneceu Pasotti, enquanto o cura prorrompia em saudações e sorrizinhos, não parando de se curvar diante da senhora que, com aquela ameaça de peso excessivo, se tranzia num novo pavor. Pôs-se a gesticular, em silêncio, como se os outros fossem mais surdos do que ela. Apontava para o lago, a vela, o corpanzil do enorme cura, erguia os olhos para o céu, punha as mãos sobre o coração, cobria o rosto.

    — Eu cá não peso tanto assim! — disse o padre cura, sorrindo. — Tâs giò, ti! — acrescentou, virando-se para o barqueiro que tivera o desaforo de sussurrar irreverentemente: — Ona bella tenca.

    — Descobri um meio para que lhe passe o medo — exclamou Pasotti. — Pin, tens uma mesinha? E um baralho?

    — Está um pouco besuntado — respondeu o Pin. — Mas… ter, tenho!

    Agora é que foram elas para fazer entender à senhora Bárbara, chamada comumente Barborin, do que se tratava. Não queria entender, nem mesmo quando o marido lhe colocou nas mãos, à força, um maço de cartas nojentas.

    Mas por enquanto não era possível jogar. A barca avançava dificilmente, à custa de remos, para a foz do rio de San Mamette onde então se poderia alçar a vela; ondas maiores, voltando depois de haver batido no parapeito do cais, se chocavam com as que vinham do largo fazendo o batel dançar entre cristas espumosas. A senhora chorava. Pasotti fazia um estardalhaço com o Pin por não haver este procurado alcançar logo o largo. Foi então que o cura, aferrando-se aos dois remos, o corpanzil bem instalado ao centro da embarcação, se pôs a trabalhar com afinco tal que quatro remadas foram mais que suficientes para se safarem daquele trecho incômodo. A vela foi esticada, o barco deslizou prazerosamente, a favor do vento, com um gorgulhar submisso rente à quilha, suave e brandamente inclinado. O padre, então, se sentou sorridente ao lado da senhora Barborin que fechava os olhos e rezava jaculatórias. Mas Pasotti bateu com o baralho em pé sobre a mesinha, impacientando-se; e ela teve que jogar.

    Enquanto isso a chuva cinzenta se aproximava vagarosamente, velando as montanhas, sufocando a breva. E à medida que o vento perdia alento a senhora Pasotti cobrava ânimo, pondo-se a jogar, resignada, aturando em paz o escarcéu do marido ante os seus despropósitos. Quando a chuva começou a sussurrar sobre o toldo da embarcação e sobre a onda que ia molemente lamber os escolhos do Tentiòn, o barqueiro achou mais avisado descer a vela e retomar os remos: então, sim, a senhora Barborin respirou de todo. — Meu caro Pin! — disse ela, com gratidão; e se pôs a jogar as cartas pintadas, com tal brio, com tamanha beatitude no rosto que já não a afligiam nem os próprios despropósitos nem as imprecações resultantes.

    Muitíssimos dias de breva e de chuva, de sol e de tempestades surgiram e tramontaram por sobre o lago de Lugano, por sobre os montes do Valsolda, depois daquela partida de cartas pintadas jogada pela senhora Pasotti, por seu marido, fiscal alfandegário aposentado, e pelo imenso pároco de Puria, no batel que costeava vagaroso, em meio a uma nevoazinha de chuva, os penhascos entre San Mamette e Cressogno. Sempre que na minha memória torno a ver uma casinha escura que espelha agora no lago os seus atavios de rústica endinheirada, algum palacete elegante e alegre que atualmente decai numa desordem silenciosa; a velha amoreira de Oria, a velha faia da Madonnina, tombadas hoje com as gerações que as veneravam; tantas figuras humanas cheias de rancor, que se cuidavam eternas, cheias de argúcias que pareciam inexauríveis, fiéis aos seus hábitos donde somente um cataclisma universal as poderia arrancar, figuras não menos familiares às gerações passadas do que aquelas árvores, e com estas desaparecidas, aquele tempo me parece muito mais longe de nós do que na verdade o é, tal como para o barqueiro Pin, ao se voltar para as bandas do poente, pareciam mais longe do que de fato estavam, por detrás da chuva, o San Salvatore e os montes de Carona.

    Foi aquele um tempo acinzentado e de marasmo bem parecido com o aspecto do céu e do lago uma vez caída a breva que tamanho medo causara à senhora Pasotti. A grande breva de 1848, depois de haver dado poucas horas de sol e lutado deveras com as pesadas nuvens, havia já três anos fora desfeita, deixava cair que nem chuva monótona os dias quietos, foscos, silenciosos por onde caminha esta minha humilde história.

    Os reis e as damas das cartas pintadas, o Mundo, o Coringa e o Bagatto eram naquele tempo e naquela região personagens de importância, minúsculas potências toleradas benevolamente no seio do grande e tácito império da Áustria, onde suas inimizades, suas alianças, suas guerras eram o único argumento político que ali se podia discutir livremente. Até mesmo o Pin, enquanto remava, metia avidamente sobre as cartas da senhora Pasotti o seu curioso nariz adunco e o retirava não por vontade. Momento houve em que parou de remar para enfiá-lo quase nas cartas e ver como iria a pobre senhora se haver num momento difícil, isto é, o que faria com uma dada carta perigosa a jogar e mais perigosa ainda a reter. O marido batia impaciente na mesa, o pároco palpava com um sorriso beatífico as próprias cartas, ao passo que a Barborin apertava as suas de encontro ao peito, rindo e gemendo, deitando olhadelas ora para um ora para outro dos seus companheiros.

    — Ela está com o coringa — sussurrou o pároco.

    — Ela faz sempre assim quando está com o coringa — disse Pasotti, e gritou, dando um soco na mesinha:

    — Vamos, jogue esse coringa!

    — Jogo-o, mas é no lago — disse ela. Lançou um olhar de esguelha para a proa e lhe veio a inspiração de se salvar fazendo ver que se estava chegando a Cressogno, que tinham que interromper o jogo.

    O marido fez um estardalhaço, mas não teve outro remédio senão tornar a enfiar as luvas.

    E enquanto a esposa, humilde, lhe abotoava as luvas, ele disse ao pároco: — Hoje temos truta, pároco. Trufas brancas, francolins e vinho de Ghemme.

    — Disseram-lhe? Disseram-lhe? — exclamou o pároco. — A mim também. Disse-me o cozinheiro, ontem, em Lugano. Que milagre, hein? A senhora marquesa!

    — Milagre, por quê? Jantar de Santa Úrsula, nem mais nem menos! Apenas, a mais, umas senhoras convidadas: as Carabelli, mãe e filha; as Carabelli de Loveno, sabe?

    — Ah, sim! — fez o pároco. — Haverá… algum projeto? Olhe lá dom Franco, na barca. Homessa, de bandeira, o rapaz! Ainda não tinha visto…

    Pasotti soergueu o toldo da embarcação, a fim de espiar. Algo afastada, uma barca, com uma bandeira branca e azul, oscilava embalando-se ao sabor das ondas, numa calmaria conjugada com a superfície das águas. Na popa, debaixo da bandeira, estava sentado dom Franco Maironi, neto da velha marquesa Úrsula que oferecia aquele jantar.

    Pasotti viu-o levantar-se, empunhar os remos e afastar-se vagarosamente para o largo na direção do golfo selvagem de Doi; a bandeira branca e azul se enrugava, desfraldando-se por sobre a esteira de espuma.

    — Onde irá aquele esquisitão? — disse Pasotti. E rosnou por entre os dentes, com um forçado timbre rouquenho de barrabás milanês:

    — Antipático!

    — Dizem que é muito talentoso! — observou o padre.

    — Um cabeçudo, isso sim! — sentenciou o outro. — Muita presunção, ignorantaço até ali, educação nenhuma!

    — E meio viciado — acrescentou. — Se eu fosse aquela senhorita…

    — Qual? — perguntou o pároco.

    — A Carabelli.

    — Uma coisa lhe digo, senhor Fiscal. Se os francolins e as trufas brancas são para a popòla Carabelli, a marquesa os está jogando fora.

    — Motivo há de o senhor ter para dizer isso… Ouviu dizer alguma coisa? — disse baixo Pasotti com uma chama de curiosidade nos olhos.

    O padre não respondeu, porque, justamente naquele instante, a proa arranhou a areia, e bateu no desembarcadouro; ele foi o primeiro a saltar; em seguida Pasotti deu à mulher, com uma rápida mímica imperiosa, quaisquer instruções e saltou também. A pobre mulher saltou por último, toda atrapalhada nas dobras do seu chale da Índia, toda curvada sob o chapelão negro com rosinhas amarelas, se desequilibrando, sem saber onde pôr as imensas mãos metidas em luvas cor de canário. Os dois cachos pendentes que ladeavam a sua plácida fisionomia de rude feiura tinham um particular acento de resignação sob o guarda-chuva do marido, proprietário, inspetor e zeloso custódio de tantas elegâncias.

    Os três subiram para o pórtico da villeta Maironi, pórtico esse que, do lado do poente, cavalga o caminho de acesso à igreja paroquial de Cressogno. O pároco mais Pasotti farejavam por entre suspiros radiantes certo odor indistinto que se evaporava do vestíbulo aberto da villa.

    — Uhm! Risotto! — sussurrou o padre com vislumbres cúpidos nas bochechas.

    Pasotti, de olfato agudo, meneou a cabeça enrugando as sobrancelhas, com manifesto desprezo para com o outro nariz.

    Risotto coisa nenhuma! — disse ele.

    — Como não? — exclamou o padre, espicaçado. — Risotto sim senhor. Risotto com trufas. Não está sentindo o cheiro?

    Pararam os dois no centro do vestíbulo, farejando o ar que nem perdigueiros, fungando alto.

    — Ora, meu caro pároco! Faça o favor de me falar apenas no que entende, por exemplo posciandra — disse Pasotti depois de uma longa pausa, referindo-se a uma certa iguaria muito forte, regional, de couve e salsichas. — Trufas, sim, mas risotto, não.

    Posciandra, posciandra — resmungou o outro, algo ofendido. — Saiba que, quanto a isso…

    A pobre senhora humilde e plácida compreendeu logo que aqueles dois estavam discutindo, assustou-se e deu em apontar para o teto com o indicador da mão direita, a fim de lhes chamar a atenção, pois lá de cima podiam ouvir. O marido agarrou-lhe a mão no ar, fez-lhe menção de que farejasse também e depois lhe soprou na boca escancarada: — Risotto!

    Ela hesitava, não tendo escutado direito. Pasotti deu de ombros. — Não compreende absolutamente nada. — disse ele. — O tempo está mudando. — E subiu a escada, seguido pela mulher. O gordalhufo pároco quis dar uma outra olhadela à barca de dom Franco. A Carabelli não arranja nada!, pensou ele; nisto se sentiu logo chamado pela senhora Barborin que lhe solicitou que, na mesa, se sentasse perto dela. Estava tão nervosa, pobre criatura!

    Os vapores das cassarolas enchiam até mesmo a escada com suas tépidas fragrâncias. — Risotto coisa nenhuma! — disse baixo quem subia na frente. — Risotto sim senhor! — respondeu no mesmo tom quem subia atrás. E assim continuaram teimando, cada vez mais baixo, "risotto coisa nenhuma, risotto sim senhor", até que Pasotti empurrou a porta da sala escarlate, estadia habitual da dona da casa.

    Um horrendo cãozinho delgado trotou, latindo, ao encontro da senhora Barbo rin que procurava sorrir, enquanto Pasotti arranjava a fisionomia mais obsequiosa possível, ao passo que o pároco, entrando por último com o rosto e a papada muito solícitos, lá por dentro mandava o animalzinho para os quintos do inferno.

    — Friend! Aqui! Friend! — disse placidamente a velha marquesa. — Cara senhora! Caro Fiscal! Senhor cura!

    O vozeirão nasal dirigia-se com a mesma fleugma, com o mesmo tom tanto aos convidados como ao cão. Levantara-se para a senhora Barborin, mas sem dar um passo para fora do canapé; e ali, assim, em pé, ostentava a sua figura nédia mas de olhos baços e lerdos sob a fronte marmórea e a peruca preta que se arredondava sobre as têmporas em dois grandes caracóis. O rosto devia ter sido belo antigamente, e ainda conservava, no seu palor amarelento de mármore antigo, certa majestade fria que não traía nunca, assim como o olhar e a voz, qualquer alteração de ânimo. O obeso pároco lhe fez, à distância, duas ou três inclinações, como se tivesse molas; mas Pasotti lhe foi beijar a mão, e a senhora Barborin, sentindo-se gelar sob aquele olhar morto, não sabia como se mexer nem o que falar. Quando a marquesa se levantara do canapé uma outra senhora fizera o mesmo, e estava agora encarando a Pasotti com ar desdenhoso, observando aquele pobre rolo de trapo humano metido em trapos novos. — A senhora Pasotti e seu marido — disse a marquesa. — Dona Eugênia Carabelli.

    Dona Eugênia apenas fez menção de inclinar a cabeça. Sua filha, dona Carolina, estava em pé, perto da janela, discorrendo com uma favorita da marquesa, sobrinha do seu procurador.

    A marquesa achou que não era necessário incomodá-la a fim de lhe apresentar os recém-chegados e, uma vez os tendo feito sentar, continuou uma pacata conversa com dona Eugênia a respeito de relações milanesas de uma e de outra; enquanto isso Friend rodeava, farejando e espirrando, o chale canforado da Pasotti, se esfregava de encontro à barriga das pernas do vigário e encarava Pasotti com uns olhinhos úmidos e aflitos, sem se aproximar, como se compreendesse muito bem que ali o dono do chale da Índia, não obstante sua fisionomia amável, era homem para de bom grado lhe torcer o pescoço se deparasse com uma oportunidade.

    A marquesa Úrsula taramelava a sua costumeira voz grossa, sonolenta, e a Carabelli se esforçava, respondendo, por tornar amável o seu vozeirão imperioso. Mas aos olhos penetrantes e ao engenho maligno de Pasotti não passou despercebido, desde logo, que as duas velhas damas dissimulavam um comum aborrecimento, a Maironi mais visivelmente, a Carabelli um pouco menos. Cada vez que a porta se abria, os olhos baços da primeira e os olhos foscos da segunda se voltavam naquela direção. Numa dessas vezes entrou o capelão do Santuário da Caravina com o diminuto senhor Paulo Sala, chamado o Paolin e com o imenso senhor Paulo Pozzi, chamado o Paolon, companheiros inseparáveis. Numa outra vez entrou o marquês Bianchi, de Oria, antigo oficial do reino de Itália; entrou com a filha; era uma nobre figura de velho soldado cavalheiresco ao lado de uma sedutora figura de moça briosa.

    Tanto na primeira como na segunda vez uma sombra de decepção vincou o rosto da Carabelli. Sua filha também voltava imediatamente os olhos para a porta quando esta se abria, mas depois continuava a conversar e a rir mais ainda do que antes.

    — E dom Franco, marquesa? Como está dom Franco? — disse o pérfido Pasotti, com voz melíflua, estendendo à marquesa a sua tabaqueira aberta.

    — Muito obrigada — respondeu a marquesa, inclinando-se um pouco e enfiando dois grossos dedos no tabaco. — Franco? Falar verdade, estou um pouco apreensiva. Esta manhã ele não se sentia bem e agora não o vejo. Lastimaria muito que…

    — Dom Franco? — disse o marquês. — Está na barca. Vimo-lo agora mesmo. Remava decidido que nem um barqueiro.

    Dona Eugênia abriu o leque.

    — Bravo! — disse ela, abanando-se com furiosa vivacidade. — É um belíssimo divertimento.

    Fechou o leque, com um golpe, e se pôs a mordiscá-lo com os lábios.

    — Decerto sentiu vontade de tomar um pouco de ar — observou a marquesa com o seu nariz imperturbável.

    — Ou sentiu vontade de apanhar um pouco d’água — murmurou o capelão de Caravina, com os olhos cintilantes de malícia. — Mesmo porque está chovendo!

    — Lá vem dom Franco, senhora marquesa — disse a sobrinha do procurador, depois de haver dado uma olhadela para o lago.

    — Está bem — disse o nariz sonolento. — Espero que tenha melhorado, do contrário não dirá duas palavras. Um rapaz de esplêndida saúde mas sempre apreensivo. Escute, senhor Fiscal: e o senhor Giácomo? Sumiu?

    — O sior Zácomo — começou Pasotti arremedando o senhor Giácomo Puttini, um velho solteirão vêneto que morava havia trinta anos ali em Albogasio de Cima, ao lado da villa Pasotti. — O sior Zácomo

    — Devagar — interrompeu-o a dama. — Não admito que caçoe dos vênetos; de mais a mais não é verdade que no Vêneto se pronuncie Zácomo.

    Ela nascera em Pádua, e, conquanto morasse em Bréscia havia quase meio século, a sua pronúncia lombarda era ainda cheia de certa maneira de Pádua. Enquanto Pasotti protestava, com cerimonioso horror, de tão somente ter querido imitar a voz do seu ótimo vizinho e amigo, a porta se abriu uma terceira vez. Dona Eugênia, imaginando ao certo quem entrava, não se dignou volver o busto, mas os olhos mortiços da marquesa pousaram com a maior pachorra sobre dom Franco.

    Dom Franco, único herdeiro do nome Maironi, era filho dum filho da marquesa, morto aos vinte e oito anos. Sua mãe morrera ao lhe dar à luz, e ele vivera sempre sob a autoridade da avó Maironi. Alto e magro, tinha uma enorme cabeleira ruiva, em pé, que lhe acarretara o apelido de el scovin d’i nivol, o varre-nuvens. Tinha uns olhos vivazes, dum azul claríssimo, um rosto descarnado muito simpático, movediço, pronto a enrubescer e a ficar lívido. E agora aquele rosto meio carrancudo estava dizendo muito claramente: — Cheguei, mas tratem de não me aborrecer.

    — Estás bem, Franco? — perguntou-lhe a avó, e acrescentou imediatamente sem esperar resposta: — Olha que dona Carolina deseja ouvir aquele trecho de Kalkbrenner.

    — Oh, não, não — disse a senhorita voltando-se para o jovem com ar aborrecido. — Falei por falar, mas não aprecio Kalkbrenner. Prefiro tagarelar com as moças.

    Franco pareceu satisfeito com a acolhida e sem detença foi conversar com o pároco a respeito dum bom quadro antigo que deviam ir ver juntos na igreja de Dasio. Dona Eugênia Carabelli fremia. Viera de Loveno com a filha após uma obstinada e secreta ação diplomática em que haviam tomado parte outras potências. Se aquela visita se deveria fazer ou não; se afetaria ou não o decoro da família Carabelli; se redundaria em qualquer probabilidade de êxito conforme preestabelecia dona Eugênia: tais tinham sido as derradeiras questões atinentes àquela ação diplomática, já que, não obstante as antigas relações da mamãe Carabelli e da avó Maironi, os jovens não se tinham visto senão um par de vezes, quase que de relance apenas, e tinham sido os seus invólucros de riqueza e de fidalguia, de parentesco e de amizade que os haviam atraído como se atraem uma gota d’água marinha e uma gota d’água doce, muito embora as criaturas minúsculas que vivem numa e noutra estejam condenadas a morrer, caso se unam. O ponto de vista da marquesa tinha vencido; formalmente graças à idade, substancialmente graças ao dinheiro, fora aceito que a entrevista prosseguisse em Cressogno, pois se Franco não possuía de seu mais do que o estrito dote materno, dezoito ou vinte mil liras austríacas, a avó repousava, com aquela sua fleumática dignidade, sobre alguns milhões. Agora, porém, dona Eugênia, vendo a atitude do rapaz, fremia de raiva contra a marquesa, contra quem a havia exposto, mais a jovem, a uma tal humilhação. Se pudesse derrubar com um golpe a velha, o respectivo neto, a casa lúgubre e aqueles convidados insípidos, bem que o faria, radiante; mas urgia dissimular, fingir-se de indiferente, engolir o jantar e a afronta.

    A marquesa mantinha a sua externa placidez marmórea, conquanto tivesse o coração repleto de raiva e de descontentamento para com o neto. Tinha ele, dois anos antes, ousado pedir-lhe consentimento para se casar com uma senhorita de Valsolda, bem educada mas pobre e plebeia. A recusa peremptória da avó tornara impossível o casamento e obrigara a mãe da moça a não receber mais em sua casa a dom Franco; mas a marquesa estava mais do que convencida de que aquela gente ainda continuava a chocar com os olhos os seus milhões, razão pela qual se decidira a arranjar esposa para Franco o mais depressa possível a fim de arredá-lo do perigo; visto o quê, procurara uma moça rica, mas não muito, nobre mas não muito, inteligente mas não muito. Havendo achado uma assim, comunicou seu intento a Franco, que se recusou altivamente, afiançando não querer em absoluto se casar. Ora, uma tal resposta era coisa mais do que suspeita; e a avó vigiou, mais do que nunca, os passos do neto e daquela madama Armadilha, conforme alcunhara sub-repticiamente a senhorita Luísa Rigey.

    A família Rigey, constituída já agora apenas por duas senhoras, Luísa e sua mãe, habitava em Valsolda, acolá no lugarejo de Castello. E era coisa fácil vigiar. Ainda assim a marquesa não se deu conta de nada. Verdade é que Pasotti referiu certa noite, à senhora marquesa, e isso com muita hipocrisia de hesitações e de comentários, escandalizadíssimo, que o capelão de Caravina, estando num grupo na farmácia de San Mamette, grupo esse de que faziam parte ele, Pasotti, o Paolin e o Paolon, mais o senhor Giácomo Puttini, tinha dito esta frasezinha capciosa: Dom Franco está a fingir de morto propositalmente até que a marquesa o faça deveras. Ouvindo tão arguta observação, a marquesa não fez mais do que responder com o seu pacífico nariz: Obrigada, muito obrigada, logo mudando de assunto. A seguir, veio a saber que a senhora Rigey, sempre adoentada, piorara por causa de uma hipertrofia do coração, e verificou, simultaneamente, que o ânimo de Franco se ressentira com isso. Foi então que lhe propuseram a Carabelli. Não era a Carabelli a bem dizer do seu gosto, inteiramente; mas ante o outro perigo, não hesitou sequer. Falou a Franco. Desta vez Franco não se irritou, ouviu com ar distraído, respondeu que iria pensar. Foi a única hipocrisia, talvez, de sua vida. A marquesa jogou audazmente uma carta alta: fez vir a Carabelli.

    Já agora via bem que o jogo estava perdido. Dom Franco não somente não assistira à chegada das senhoras, como, ao aparecer bem depois, se demorara apenas alguns minutos. Seus modos, durante aqueles minutos, tinham sido corteses, mas seu rosto não: seu rosto tinha falado, conforme o hábito, tão claramente que a marquesa, muito embora inventasse como imediatamente fizera aquela história de o neto estar com uma indisposição, não conseguira iludir ninguém. Mas a velha senhora não se convenceu que houvesse jogado mal. Já desde a idade dos primeiros critérios ela se pusera em mente que não possuía um único defeito ou que desse um passo em falso, considerando íntegro, por vontade própria, o seu nobre e predileto eu. De forma que lhe agradava agora supor que depois daquele seu sermão matrimonial passado ao neto, lhe sobreviesse no mistério uma palavrinha de mel, de visgo e de veneno. Se no seu desengano houvesse possibilidade de algum leve conforto, provinha isso da atitude da senhorita Carabelli que bem mal ocultava a vivacidade do próprio ressentimento. Isso não agradava à senhora marquesa. Não tinha errado o capelão de Caravina, a não ser na forma, quando sussurrava a respeito dela: L’é on Austria p…. Deveras, como a velha Áustria daquele tempo, a velha marquesa não tolerava, no seu império, os espíritos vivazes. A sua vontade férrea não admitia outras vontades de igual jaez ao seu lado. Já lhe era demais um lombardo-vêneto indócil da têmpera do senhor Franco; e a jovem Carabelli, que dava mostras de sentir e de querer por conta própria, muito provavelmente acabaria se tornando na casa Maironi uma súdita incômoda, uma petulante Hungria.

    Anunciou-se o jantar. Na cara rapada e na roupa cinzenta, mal talhada do doméstico, se refletiam as ideias aristocráticas da marquesa, temperadas com hábitos ecônomos.

    — E esse senhor Giácomo, meu caro Fiscal? — perguntou ela, sem se mover.

    — Temo que não venha — respondeu Pasotti. — Encontrei-o esta manhã e lhe disse: Então, senhor Giácomo, nos veremos no jantar?. Foi como se lhe metesse uma bicha no corpo. Começou a contorcer-se e a assoprar: Acho que sim, não sei, talvez, não digo nada por enquanto, pois, realmente, meu amabilíssimo Fiscal… Não sei… afinal de contas, apf!…. E fiquei na mesma.

    A marquesa chamou o criado e lhe disse qualquer coisa em voz baixa. O criado inclinou-se e saiu. O vigário de Puria oscilava para a frente e para trás, acariciando os joelhos, cheio de gula pelo risotto, mas a marquesa parecia se ter petri ficado ali no canapé, ante o que se petrificou também ele. Os demais se entreolhavam, mudos.

    A senhora Barborin, tendo visto o fâmulo, admirada por isso já agora daquela imobilidade, daquelas caras apaspalhadas, arqueou as sobrancelhas, interrogou com os olhos primeiro o marido, depois o Puria, a seguir o capelão, até que uma olhadela fulminante do Pasotti acabou por petrificá-la também. Ter-se-ia queimado o jantar?!, pensava ela, arranjando uma fisionomia indiferente. Que ótimo, se nos mandassem embora!. Dois minutos depois o servo regressou e fez outra inclinação.

    — Vamos para a mesa — disse a marquesa, levantando-se.

    A comitiva encontrou na sala de jantar um novo personagem, um velhinho diminuto, curvo, com dois olhinhos bons e um comprido nariz pendente sob o queixo.

    — Para ser sincero, senhora marquesa — disse ele todo tímido e humilde —, já jantei.

    — Tome lugar, senhor Viscontini — respondeu a marquesa que era perita em praticar a arte insolente da surdez como todos aqueles que querem, categoricamente, um mundo segundo a sua conveniência e conforme o próprio gosto.

    O homenzinho não ousou replicar, mas nem mesmo assim se atrevia a tomar assento.

    — Coragem, senhor Viscontini! — disse-lhe o Paolin que lhe estava ao lado. — Pois então!? Trate de…

    — Trate de ser o quatorze de copas — murmurou o capelão. E, de fato, o esplêndido senhor Viscontini, afinador de pianos, que viera de Lugano pela manhã a fim de pôr em ordem o piano dos senhores Zelbi de Cima bem como o de dom Franco, tinha jantado à uma da tarde na casa dos Zelbi, tendo então, depois disso, vindo à casa Maironi; e agora lhe cabia substituir o senhor Giácomo, pois, do contrário, os comensais seriam em número de treze.

    Um líquido escuro desprendia fumaça da sopeira de prata.

    Risotto coisa nenhuma! — sussurrou Pasotti ao passar por detrás do Puria, cujas bochechas beatíficas não deram sinal de haver ele escutado.

    As refeições na casa Maironi eram sempre lúgubres e esta agora estava dando mostras de vir a ser ainda mais do que de hábito. Em compensação era muito mais fina. Pasotti e o Puria se entreolhavam de quando em quando, enquanto comiam, para exprimir admiração e a bem dizer para se congratular mutuamente pelo prazer inaudito; e se acontecia uma olhadela do Pasotti passar despercebida ao Puria, a senhora Barborin se encarregava de advertir este último, que estava ao seu lado, coisa que fazia com um toque tímido de cotovelo.

    As vozes que mais se ouviam eram as da marquesa e de dona Eugênia. O grande nariz aristocrático do Bianchi, o seu fino sorriso de cavalheiro galante se voltavam a todo instante para a beleza demasiado madura mas ainda não gasta da dama. Ambos milaneses, e do melhor sangue de lá, sentiam-se unidos numa certa superioridade não apenas relativamente aos pequenos burgueses ali amesendados como com referência aos donos da casa também, que não eram mais do que fidalgos provincianos. O marquês era a afabilidade em pessoa, e conversaria amavelmente até mesmo com o comensal mais modesto; mas dona Eugênia, na amargura do seu ânimo, desgostosa do local e das pessoas, se agarrou a ele como à única personalidade digna, acentuadamente insistindo nessa atitude para magoar os demais. Chegou a embaraçá-lo dizendo alto que não compreendia como pudera ele se ter enamorado pelo horrendo Valsolda. O marquês, que para ali se tinha retirado havia muitos anos em vida sossegada, e que aí vira nascer a sua única filha, dona Ester, ficou, no princípio, um tanto desconcertado ante aquela apreciação algo insolente para com diversos dos convidados; mas logo a seguir fez uma briosa defesa da região. A marquesa permaneceu imperturbável; o Paolin, o Paolon e o capelão, valsoldenses, não diziam nada, meio trombudos.

    Pasotti recitou solenemente um elogio empolado ao Niscioree, à villa Bianchi, nas imediações de Oria. O Bianchi, homem leal, que no passado não tivera muito em que se louvar no Pasotti, não deu mostras de agrado ante o elogio, e convidou a Carabelli a fazer uma visita a Niscioree. — Não a faças a pé, e sim de barca, Eugênia — disse a marquesa, sabendo que sua amiga vivia atribulada pela ideia de engordar. — Não calculas quanto é estreita a estrada que vai da Recebedoria a Niscioree! Ficas encravada no meio — Dona Eugênia protestou com sobranceria. — L’é minga el Cors de Porta Renza — disse o marquês — ma l’é poeu nanca, disgraziatamente, la chemin du Paradis!

    — Não é o quê! Que não é o quê! Eu que o diga! — exclamou o Viscontini, afogueado, pobre dele, por sucessivos copos de Ghemme. Todos os olhares se voltaram para ele e o Paolin lhe disse qualquer coisa em voz baixa. — Se estou maluco? Nient del tütt! Absolutamente! Le dico che ona bolgira compagna non la mi è mai più toccata in vita mia. — E então contou que, naquela manhã, vindo de Lugano, e sentindo um pouco de frio na barca, descera em Niscioree para prosseguir o resto do trecho a pé; que entre aqueles dois muros, onde um asno não conseguiria se voltar, encontrara os guardas aduaneiros, os quais o insultaram por não haver descido no desembarcadouro da Recebedoria; que levava consigo, na mão, um rolo de música manuscrita e que o animal do guarda fiscal, tomando as colcheias e as semicolcheias por código político secreto, ficara com a música.

    Silêncio profundo. Após alguns momentos a marquesa sentenciou que o senhor Viscontini tinha feito muito mal. Que não devia ter desembarcado em Niscioree, já que isso era proibido. Quanto ao guarda fiscal, que esse senhor era uma pessoa respeitabilíssima. Pasotti confirmou, com uma cara severa. — Ótimo funcionário — disse ele. — Ótimo canalha! — murmurou o capelão por entre os dentes. Franco, que no começo parecia muito distraído, teve uma espécie de sobressalto e lançou um olhar de desprezo para Pasotti.

    — De mais a mais — acrescentou a marquesa —, acho que com o pretexto de música manuscrita se poderia muito bem…

    — Claro! — disse o Paolin, austriacante por medo, ao passo que a dona da casa o era por convicção.

    O marquês que em 1815 havia quebrado a espada para não servir aos austríacos, sorriu, dizendo apenas:

    Là! C’est un peu fort!

    — Mas se todos sabem que esse guarda fiscal é uma besta! — exclamou Fran co.

    — Desculpe, dom Franco, mas… — fez Pasotti.

    — Desculpo coisa nenhuma! — interrompeu-o o outro. — É um bestalhão!

    — É um homem consciencioso — disse a marquesa —, um funcionário que cumpre o seu dever.

    — Então bestas são os seus patrões! — retrucou Franco.

    — Caro Franco — replicou a voz fleumática. — Essas palavras na minha casa não se pronunciam. Graças a Deus, aqui não estamos de modo algum no Piemonte. — Pasotti mostrou todos os dentes num arreganho de aprovação. Nisto Franco agarrou furiosamente no próprio prato, com as duas mãos, e o quebrou com um golpe sobre a mesa. — Jesusmaria! — exclamou o Viscontini; e o Paolon, interrompido assim nas suas laboriosas operações de comilão desdentado, fez: — Ui! — É isso mesmo! — disse Franco, levantando-se, com o rosto alterado. — O melhor que tenho a fazer é me retirar! — Todas as senhoras, com exceção da Pasotti, foram atrás dele por uma das portas enquanto o criado entrava por uma outra trazendo um empadão de risotto. O Puria olhou para o Pasotti com um riso de triunfo, mas Pasotti fingiu não se dar conta. Todos estavam de pé. O Viscontini, causa involuntária de tudo aquilo, como um réu, continuava a dizer: — Mi capissi nagott, mi capissi nagott — e o Paolin, fulo da vida por haver gorado o jantar, lhe rosnava: — Cosse l’ha mai de capì lu? — O marquês, muito sério, não dizia palavra. Por fim o Pasotti, réu de fato, assumindo um ar de afetuosa tristeza, disse, como para si mesmo: — Mas que coisa! Pobre dom Franco! Um coração de ouro, uma cabeça esplêndida, mas um temperamento, credo! É uma pena!

    — Uhm! — fez o Paolin. E o Puria, todo contrito: — É uma lástima, é uma lástima!

    O tempo passava, todos esperavam, e nada das senhoras voltarem. Então primeiro um, depois outro, todos começaram a se mover pela sala. O Paolin e o Puria se encostaram vagarosamente, com as mãos para trás, na credência, ficaram a contemplar o pastelão de risotto. O Puria chamou candidamente o Pasotti, mas este não arredou pé donde estava. — Queria apenas dizer-lhe — observou-lhe o vigário, expondo o seu triunfo ao mesmo tempo com modéstia e rudeza — que, conforme eu afirmei, ali estão as trufas brancas.

    — Direi que não faltam também as de cor preta, habitualmente chamadas tartufos — observou o marquês, acentuando um pouco o final da frase.

    ii. No limiar duma outra vida

    — C analha! — fremia dom Franco subindo a escada que dava para o seu aposento. — Austríaco ordinário! — vingava-se no Pasotti já que não podia insultar a avó; e as próprias consoantes da palavra austríaco tanto lhe serviam para triturar entre os dentes a sua cólera como para lhe espremer e sentir o sabor. Ao chegar ao quarto, a raiva amainou.

    Jogou-se numa poltrona, defronte da janela escancarada, ficando a olhar o lago triste na tarde nevoenta e, para lá do lago, os montes solitários. Emitiu um grande suspiro. Ah! Como estava bem, ali, sozinho! Ah! Que paz, que ar diferente do do salão, que atmosfera agradável, cheia dos seus pensamentos e dos seus amores! Sentiu um grande desejo de se abandonar a eles. E eles o tomaram imediatamente, afastando-lhe da mente as Carabelli, o Pasotti, a avó, o bestalhão do guarda-fiscal. Muitos? Não; era um pensamento só, um pensamento feito de amor e de raciocínio, de ânsia e de júbilo, de uma porção de lembranças suaves e ao mesmo tempo de expectativa anelante, porque algo de solene se aproximava e se converteria

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