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Desdobrar alíngua: Inconsciente, gozo, escrita
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Desdobrar alíngua: Inconsciente, gozo, escrita
E-book232 páginas2 horas

Desdobrar alíngua: Inconsciente, gozo, escrita

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Sobre este e-book

Se a trama especulativa em jogo neste ensaio de Deborah Tenenbaum enlaça com rigor inconsciente, gozo e escrita, termos que se tornaram incontornáveis na tradição lacaniana de reflexão sobre a língua – e, mais especialmente, sobre alíngua – , ela envolve também, de maneira singular, uma experiência que, embora tenha sido basilar para a psicanálise desde Freud, nem sempre foi posta no primeiro plano das articulações conceituais do campo: a experiência da tradução.

Afinal, o que seria, em qualquer circunstância, "desdobrar a língua", senão traduzir, senão fazê-la continuar a falar para dizer – em outras ou mais palavras – aquilo que se pretende que ela diga – e que, em última instância, ela nunca dá a ler ou a ouvir inequivocamente? Nessa perspectiva ampla, toda fala, ou escrita – do mesmo modo que o sonho –, já é desde sempre tradução e não pode remeter a outra coisa que não a um original ainda por vir, e que não cessa de intraduzir-se, como diriam quase ao mesmo tempo – cada em sua língua – Jacques Lacan e Augusto de Campos, significando, assim, que inevitavelmente se introduz algo no campo do sentido de um original quando se busca traduzi-lo.

Mas o que se coloca mais precisamente em jogo quando é o caso de pensar, nas palavras de Deborah, o "desdobramento" deste "modo singular de produzir equívocos" que é "alíngua", e que "remonta a uma marca de origem que escreve um real da língua"? Ora, comentando o "sistema de escrita desenhado" por Freud no Projeto de 1895, a pesquisadora refere justamente "a tradução como experiência de ciframento das marcas afetivas que o encontro com a língua imprime no corpo do falante". Parece-me que é a partir dessa consideração d'alíngua como experiência, digamos, original, de tradução, por um sujeito, de uma língua estrangeira vinda de alhures – e que se torna, assim, sua "alíngua materna" – que o trabalho traz suas contribuições mais valiosas.

Dos exemplos intraduzíveis de Signorelli por Freud ou de Wolfson por Deleuze às obras de Carroll, Kafka ou Beckett, da escrita na língua materna "adquirida" de Aharon Appelfeld ou na "língua dos assassinos" de Paul Celan ao pretuguês brasileiro definido por Lélia Gonzalez e praticado por Carolina de Jesus, é na reflexão sobre práticas mais ou menos concretas do trabalho entre línguas, na fronteira e no trânsito entre elas, que Deborah Tenenbaum se desdobra, oferecendo-nos uma perspectiva inovadora e produtiva do pensamento d'alíngua.
IdiomaPortuguês
Editora7Letras
Data de lançamento2 de set. de 2025
ISBN9786559059263
Desdobrar alíngua: Inconsciente, gozo, escrita

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    Desdobrar alíngua - Deborah Tenenbaum

    desdobrar-alingua_epub_CAPA-v6.jpg

    conselho editorial

    Augusto Massi (usp)

    Eliska Altmann (ufrj)

    Felipe Süssekind (puc-Rio)

    Henrique Cairus (ufrj)

    Marcelo Jacques de Moraes (ufrj)

    Paloma Vidal (Unifesp)

    Pedro Süssekind (uff)

    Tatiana Bacal (ufrj)

    Sumário

    introdução

    O rumor da língua, alíngua como rumo

    O inconsciente e as línguas: intraduzir

    ... Do que se ouve: um fragmento

    O estudante de línguas

    Traduzir?

    Trânsito de línguas desde Freud

    Anna o.

    Signorelli

    Schreber e a língua fundamental

    Lacan leitor de Freud

    Algoritmo lacaniano

    Linguisteria

    Alíngua

    Letra

    Minha pátria, minha mátria, minh’alíngua?

    O estranho familiar

    O estrangeiro português

    Exílios

    Entre línguas: da fronteira ao litoral

    Práticas da língua

    Joyce, l’elanguas

    Funcionar como escritor: o artífice tecido no papel

    Terra, areia, mar: o litoral em proteu

    Considerações finais

    Agradecimentos

    Referências bibliográficas

    Sobre a autora

    Texto de orelha

    para as queridas Raquel e Sulamita,

    pelas tantas conversas que engatavam no iídiche.

    para Solange, por ter me ensinado a força das palavras.

    Mas o que é a língua? – senão o que recorta no mundo uma Figura estrangeira a ele pelo fato desse próprio recorte: o homem, o falante – isto é, o que vem romper, ao separar-se dela para isolar-se na palavra, a harmônica opacidade do mundo.

    christian prigent

    introdução

    O rumor da língua, alíngua como rumo

    Língua faz barulho. Designa um idioma, mas também uma parte do corpo, órgão necessário para que a palavra, falada, emita um som. Língua é usada. Faz ronrom, zumbido, rumor. Humor e amor. O rumor implica uma comunidade de corpos, indica Barthes (1975/2012), ao articular a musicalidade do balbucio a um ruído de gozo que seria próprio da matéria-prima da linguagem, sua base, desarticulada de qualquer sentido. O barulho da língua também ressoa nas repetidas guerras, já que desde Freud sabemos que a comunidade de corpos não é harmônica. As avassaladoras consequências de perder a morada, que é também a língua, seguem sendo reeditadas nas disputas territoriais contemporâneas.

    Barbara Cassin (2004) abre o Dicionário dos intraduzíveis indicando que um dos problemas mais urgentes colocados atualmente pela Europa é o das línguas. Considera que podemos vislumbrar daí dois tipos de solução: escolher uma língua dominante, na qual se fariam as trocas de agora em diante – um anglo-americano mundializado –, ou então sustentar a manutenção da pluralidade, manifestando o interesse pela diferença. O Dicionário, inscrevendo-se nesta segunda alternativa, se orienta mais ao futuro do que ao passado. Para Cassin, ele não estaria ligado a uma Europa retrospectiva, definida por um acúmulo de tradição, mas a uma Europa en cours [em curso], em atividade, trabalhando suas tensões e apropriações. Ao refletir sobre a dificuldade da tradução de determinados conceitos, a obra atualiza a discussão, situando-os em redes significantes que associam línguas diversas, trabalhando os intraduzíveis justamente nessa articulação. Falar de intraduzível é falar do que não cessamos de (não) traduzir. Afinal o problema das línguas não se restringe ao cenário europeu.

    Quantas pessoas hoje vivem em uma língua que não é a delas? Ou então nem mesmo conhecem mais a delas, ou ainda não a conhecem, e conhecem mal a língua maior da qual são obrigadas a servir? Problema dos imigrados [...]. Problema das minorias. (DELEUZE; GUATTARI, 2003, p. 30).

    Gloria Anzaldúa (2009, p. 305-306) avança a discussão a partir do contexto anglo-mexicano, onde se escutam diversas maneiras de controlar, domar uma língua supostamente selvagem: "Se você quer ser americana, speak ‘American’ [fale ‘americano’]; Se você não gosta disso, volte para o México, que é o seu lugar; e I want you to speak English [quero que você fale inglês]. Pra encontrar bom trabalho tem que saber hablar el inglés bien [falar bem o inglês]. O que vale toda a sua educação se você fala inglés com um ‘accent’ [sotaque]" são alguns dos exemplos de sua experiência no espanhol chicano, língua fronteiriça considerada em sua especificidade de não ser nem inglês, nem espanhol.

    Para um povo que não é espanhol nem vive em um país no qual o espanhol é a primeira língua; para um povo que vive num país no qual o inglês é a língua predominante, mas que não é anglo [...], que recurso lhe resta senão criar sua própria língua? (ANZALDÚA, 2009, p. 307).

    Anzaldúa aponta que essa espécie de língua secreta funciona como terra natal para um povo que fala aproximadamente oito línguas e vive em diversas regiões. Seu trabalho destaca questões cruciais para a problemática engendrada pela língua: lembranças infantis, perguntas sobre a origem, colonizações e segregações – a autora vai articulando língua, fronteira e história. Esse laço, que enoda também o corpo, é caro à psicanálise.

    Língua é terra estrangeira, terreno onde o íntimo, familiar, emerge como estranho, alheio. O poeta francês Christian Prigent brinca com essa ambiguidade ao escrever que toda língua é estrangeira, e em primeiro lugar a materna (PRIGENT apud MORAES, 2015a, p. 63). Partindo da ideia proustiana de que o escritor inventa na língua uma nova língua, fabricando assim uma espécie de língua estrangeira, Deleuze (1997/2006) trabalha a maneira como alguns escritores defendem e atacam o que se convencionou chamar de língua materna. Samuel Beckett, Louis Carroll, Franz Kafka, Paul Celan e James Joyce são alguns nomes da literatura que nos levam a interrogar novamente o que seria uma língua entre outras. Para Deleuze, não se trata exatamente de bilinguismo ou multilinguismo (ainda que os caminhos sejam atravessados por mais de uma língua), mas da invenção de um uso da língua que excederia as possibilidades da fala, atingindo um poder da língua e da linguagem:

    um grande escritor sempre se encontra como um estrangeiro na língua em que se exprime, mesmo quando é a sua língua natal. [...] É um estrangeiro em sua própria língua: [...] talha na sua língua uma língua estrangeira que não preexiste (DELEUZE, 1997/2006, p. 124-125).

    Como situar o problema da língua no campo psicanalítico? Essa é a pergunta que surgiu a partir da decantação da clínica, do que se ouviu de uma experiência. Tomando o rumor da língua como uma questão que se apresenta no singular, propomos desdobrá-lo a partir do que Lacan nomeou como lalangue [alíngua], nome dessa coleção única que cada um, ao falar, dobra e articula (Llansol, 2011). Apostando que uma língua não se coletiviza, trabalharemos com a hipótese de que o trabalho com língua pode funcionar como letra, fazendo borda ao Real. Entre línguas, escreve-se o que não se traduz.

    Abrir a investigação com o fragmento de uma análise marca uma posição que procuramos adotar ao longo do trabalho: a de nos deixarmos conduzir pelo inédito que a hipótese freudiana do inconsciente inaugura. Cada caso interroga o saber teórico da psicanálise de tal modo que somos levados a reinventá-la a cada vez, já que Freud desvinculara a prática clínica tanto da compreensão quanto de um acúmulo de saber. É justamente a partir do furo no saber atestado pelo real da experiência, no singular que ela implica, que propomos ler Freud e Lacan.

    Desde os primeiros estudos sobre a histeria, Freud detalhava as razões que o levavam a escrever e publicar – descrevia impasses, deslizes, pontos insondáveis e limites da clínica enodando o trabalho do inconsciente, a posição do analista e o avanço da psicanálise enquanto novo discurso (Vidal, 2015). Ao final dos textos, não é raro encontrar mais perguntas do que conclusões quanto ao que se passou ao longo do tratamento. As questões que restam são fundamentais porque desafiam a teoria, afirmando a psicanálise como uma práxis que considera a função da palavra no campo da linguagem.

    Nossa primeira parada, no primeiro capítulo, traz uma pergunta sobre o funcionamento das línguas no inconsciente. Será que trabalhar uma língua pode servir a alguma função psíquica? Veremos duas situações que, da fala à escrita, nos remetem a uma dinâmica que se aproxima do campo da tradução, de suas tensões e obstáculos. Trataremos do intraduzível a partir dos primeiros esboços do aparelho psíquico freudiano, começando pelos primeiros manuscritos que vão inscrevendo-o como um aparelho de escrita. Tradução e transcrição aparecem como operações que se desenrolam na fronteira entre os registros, que por sua vez não são equivalentes. Não falam a mesma língua, o que nos leva a considerar sobre a perda e o resto que fica dessa travessia.

    O resto ressoa e se faz escutar no trabalho analítico. Dos sonhos aos sintomas, passando pelos esquecimentos e atos falhos, Freud ensina que há um trânsito entre línguas a ser lido. É o que faremos ao longo do segundo capítulo, retomando três escritos nos quais as línguas parecem ter a função de escrever o que não se traduz. Anna O. intriga Breuer esquecendo o alemão, passando determinados períodos falando inglês, francês ou italiano. Signorelli é o famoso caso de esquecimento que, junto a outros exemplos da vida cotidiana, indica que o inconsciente está na ponta da língua. Por fim, chegaremos ao caso Schreber que, com suas Memórias, destaca a estranheza que experimenta na língua.

    A tarefa de ler é relançada no movimento lacaniano de retomar Freud. Nessa leitura, fica destacada a estrutura da linguagem que a experiência do inconsciente revela. Com os aportes teóricos da linguística de Saussure e Jakobson, Lacan ressalta do texto freudiano a primazia do significante sobre o significado. A subversão do signo linguístico anunciada em 1957, com A instância da letra no inconsciente, dá sequência a outro modo de ler também a língua, considerada na dimensão de gozo que veicula. Veremos que linguisteria e alíngua são os termos que localizam esse outro uso desta matéria linguageira que não serve para comunicar. Ess’alíngua que não se compara a nenhuma outra é aquela que foi recebida, depositada e não aprendida, não se confundindo com idioma algum. O inconsciente passa a ser definido como o que se sabe fazer com alíngua, o que se elucubra. Passamos ainda pela letra, ponto nó do ensino de Lacan. Com ela, retomaremos a discussão sobre fronteira, margem, litoral.

    Estabelecidas as bases conceituais, propomos discutir a dimensão política que se exerce com/na língua. Faremos esse percurso nos dois últimos capítulos a partir das questões do exílio, da colonização e da segregação. A formação do português falado no Brasil também remonta a uma política que visa ao apagamento da diferença que o constitui – é o que relatam Daniel Munduruku, Nei Lopes, Ana Maria Gonçalves, Lélia Gonzalez, Conceição Evaristo e Carolina Maria de Jesus, afinal guerras se fazem também com língua, aspecto que se destaca nas escritas de Aharon Appelfeld e Primo Levi. Silêncio, gagueira, muitas línguas, sem língua. Comando estrangeiro. Sonho. Cicatricement [cicatrizmente], escreve Paul Celan em um francês que utiliza para nomear essa ferida que não fecha.

    Da fronteira ao litoral, seguimos, com Lacan para a obra de James Joyce. Joyce é, mais do que um escritor, um artífice. Trama n’alíngua uma tessitura que remete ao que se passa em uma análise: corte e costura. Jacques Aubert nos faz notar que o que está em questão em Joyce é a língua, inseparável da questão irlandesa. Origem, filiação, pai. Do jovem Retrato ao Ulysses, passearemos pelo riverrun que flui em Finnegans wake. Pa(i)tria incriada, prática d’alíngua.

    O inconsciente e as línguas: intraduzir

    Esta língua não é minha,

    qualquer um percebe.

    Quando o sentido caminha,

    a palavra permanece.

    Quem sabe mal digo mentiras,

    vai ver que só minto verdades.

    Assim me falo, eu, mínima,

    quem sabe, eu sinto, mal sabe.

    Esta não é minha língua.

    A língua que eu falo trava

    uma canção longínqua,

    a voz, além, nem palavra.

    O dialeto que se usa

    à margem esquerda da frase,

    eis a fala que me lusa,

    eu, meio, eu dentro, eu, quase.

    paulo leminski

    Leminski (2009) faz poesia com a língua que diz não ser sua. A língua que lusa remonta a uma canção longínqua, remetendo à voz, além-palavra. O inconsciente atesta que a experiência com a língua não se coletiviza. No entanto, a relação com a língua pode se dar no encontro com uma pluralidade de idiomas, dialetos, línguas. Dizer as línguas significaria considerar uma reunião de línguas? Como conjugar esse plural no âmbito do inconsciente?

    A escrita de um caso destaca questões fundamentais sobre o uso das línguas e a função de recurso que pode ter no caminho da articulação de um sujeito na linguagem. Do caso passaremos aos escritos de Louis Wolfson, autor americano que escreve em francês. Ao intitular-se um estudante de línguas, Wolfson inventa um procedimento sistemático de estudos que permitem aliviá-lo da dominação operada por palavras inglesas. Ao longo do percurso, lançaremos perguntas que nos encaminham para a teoria com a intenção de investigar, desde as primeiras formulações de Freud sobre o aparelho psíquico, de que modo o trânsito entre as línguas poderia ser lido na práxis psicanalítica.

    D’Elia (2019), trabalhando um caso da clínica com refugiados afetados pela violência de Estado, no Centro Primo Levi, destaca uma especificidade na escuta dos ditos exilados: cada analista trabalha junto a um tradutor, que acompanha um mesmo sujeito a cada sessão, desde a primeira. Se no início do tratamento fala-se ao tradutor, ao longo do trabalho uma transição se produz, sendo a palavra e o olhar endereçados ao analista, ainda que não se fale a mesma língua. Seria o inconsciente translinguístico?

    ... do que se ouve: um fragmento

    Uma língua estrangeira que diz ter aprendido sozinho e que pontualmente lhe serve. Esse recorte de uma das sessões de B. intriga e instiga. A língua aprendida lhe serve para um trabalho. De que trabalho se trataria? A escuta do analista se orienta em torno desta pergunta, do que se recolhe da experiência – um escrito se produz.

    B. é um rapaz de trinta e poucos anos que buscara análise pela primeira vez anos antes, por conta de uma depressão que surge quando começaria sua vida profissional. Até então havia cursado alguns períodos da faculdade de Letras – inicialmente inglês, depois chinês. Após algumas interrupções nos cursos, decide não retomar nenhum deles, realizando cursos de tradução on-line. Inaugura-se uma possibilidade de trabalhar, acompanhada de um medo de não sustentar o trabalho; de largá-lo, como havia feito com a faculdade.

    Há uma dificuldade de estar com muitas pessoas. Nunca teve muitos amigos. Adolescente, sentia-se ignorado em rodas de conversa. Sente um desinteresse da parte dos outros e fala de uma dificuldade para suportar e manter laços. Esse era um dos problemas que

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