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As Descobertas da Madame Cristóvão Colombo
As Descobertas da Madame Cristóvão Colombo
As Descobertas da Madame Cristóvão Colombo
E-book527 páginas6 horas

As Descobertas da Madame Cristóvão Colombo

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Sobre este e-book

Sabemos que os navios navegaram, que os Descobrimentos aconteceram, mas esta é a história que não nos foi contada: o relato fictício mantido pela única mulher com quem Cristóvão Colombo se casou, Dona Filipa Moniz de Perestrelo. Uma das mulheres mais negligenciadas da História, que nenhum de nós conhecia. A sua viagem começa em Portugal, na realeza do século XV, percorre as ilhas atlânticas ensolaradas, as exuberantes florestas tropicais africanas, e depois as novas terras de beleza e vulnerabilidade impressionantes enquanto, a nível pessoal, viaja das expectativas domésticas elementares às circunstâncias épicas: da paixão, à verdade e à autodescoberta. Mais do que uma reflexão de uma esposa e uma narrativa histórica, este romance é um comentário apurado sobre as conquistas que mudaram o mundo para sempre através do olhar da mulher que os viveu, vendo e registando o que mais ninguém viu. É também uma história de casamento e amantes; e uma versão significativamente diferente da de Colombo, que se esqueceu de mencionar a importância do seu casamento para os seus sonhos, o seu sucesso e da fonte da sua inspiração. Tão pessoal como uma única história de amor, tão vasta como a exploração do mundo, As Descobertas da Madame Cristóvão Colombo é um romance lírico e evocativo, mas, simultaneamente, bem atual face aos tempos turbulentos mas apaixonados que vivemos hoje.
IdiomaPortuguês
EditoraCasa das Letras
Data de lançamento1 de mai. de 2023
ISBN9789896616885
As Descobertas da Madame Cristóvão Colombo

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    As Descobertas da Madame Cristóvão Colombo - Paula DiPerna

    1

    O Mar Estranho

    O criado de bordo bateu à porta e eu guardei o papel e a caneta antes de o deixar entrar. Não tinha dado pelo tempo a passar. Ele abriu a porta estreita devagar, desceu cuidadosamente o degrau que rangia e procurou equilibrar-se, como um bailarino ágil, no meio do suave subir e descer do oceano vasto e desconhecido que nos levava rapidamente para longe de casa.

    Pegou na ampulheta que estava em cima da secretária do Almirante e desapertou cuidadosamente o esteio de couro, enquanto uma última e ínfima cascata de areia branca escorria do compartimento de cima para o de baixo. Contávamos com o Juan para virar os relógios de modo a podermos comparar as horas com o movimento do Sol. O vidro fino tilintou contra as cavilhas de madeira dura e trabalhada que o protegiam, uma forma elegante e frágil dentro do que parecia ser um pequeno templo grego a tilintar nas mãos do rapaz, e ele olhou para mim com a expressão tímida e tensa de um jovem que talvez temesse não estar à altura das suas responsabilidades. Não queria deixar cair a ampulheta, muito menos à minha frente. O seu corpo jovem e magro tremia ligeiramente do esforço de manter o equilíbrio apesar da ondulação, mas, mesmo assim, conseguiu virar habilmente o relógio frágil e a areia voltou a cair.

    Regressei com ele ao convés e para o sol brilhante do nosso terceiro dia em alto-mar.

    O Almirante, meu marido, estava a conversar com Chachu, o contramestre, um basco seco e bronzeado, que estava agachado ao sol quente daquela tarde a remendar cabos grossos e cinzentos e a enrolá-los muito bem, como cobras, numa pilha.

    – Foi uma boa escolha. É organizado e enérgico – disse-me o Almirante enquanto nos afastávamos de Chachu para ele não ouvir.

    – Sim, ainda bem que o Pinzón o conhecia – respondi, referindo-me ao capitão de outro navio da nossa frota, a Pinta.

    A Pinta era uma embarcação mais ágil e veloz, mas arrependi-me imediatamente de ter mencionado o outro capitão. O Almirante já tinha precisado de dar ordens a Pinzón para que não se afastasse de modo a que os três navios da nossa frota pudessem navegar lado a lado. O meu marido limitou-se a anuir quando mencionei a Pinta, levantando a gola da camisola castanha, como fazia quando se levantava uma brisa. Apesar de o Almirante ainda ser um homem novo, o seu cabelo comprido e espesso já tinha ficado todo branco e ondeava ao vento como uma nuvem passageira. Os seus olhos azuis e reluzentes desviaram-se dos meus.

    Não disse mais nada e deixou-me no convés com Chachu, que se encarregou de preencher aquele silêncio. O contramestre continuava a conversar no seu estilo familiar e extravagante.

    – Suponho, Madame, que seja possível continuar a navegar sem que cheguemos a parte alguma, ou então que monstros verdes venham erguer-se das ondas para nos engolir de uma só vez.

    Chachu engasgou-se com as próprias palavras, como se tivesse acabado de ver as ditas criaturas, as suas línguas ásperas e quentes no horizonte. Tinha uma imaginação vívida. Mas era normal que pensasse no assunto. Todos nós ouvíramos falar do grande Mar de Escuridão que nunca ninguém navegara, de ilhas virgens fantasma que provocavam quem se aproximava e desapareciam à frente dos seus olhos, dos enormes e indómitos remoinhos de água que podiam sugar-nos para o fundo negro do oceano. Porém, o Almirante estava convencido de que nos esperavam vales de ouro, um mundo brilhante de palácios incrustados de pedras preciosas.

    Era uma possibilidade magnífica e tentadora, que nos esperava no fim de um mar intocado, para lá de todos os que eram conhecidos até aqui.

    Enquanto estranhos unidos pela mesma aventura audaz, trazíamos connosco um número de sonhos sem fim, medos e sentimentos, tão vastos, para mim, como o mar que nos rodeava e que levava os meus olhos tão longe quanto podiam ir.

    Ali, a única companhia que realmente tínhamos era a da límpida extensão azul. A proa do nosso navio parecia cortar vidro cerúleo, de tão luminescente que a água era.

    O Almirante registava por escrito muito daquilo que se ia passando. Eu também, apesar de nunca lho ter dito. O meu registo é pessoal, serve para anotar as nossas impressões de uma viagem que nunca ninguém fez, para pôr a flutuar, no mar irrequieto da minha mente, um princípio de cavername a que os pensamentos fortuitos se possam agarrar antes de se afogarem sem que ninguém os escute ou partilhe.

    Além disso, num navio pequeno, a escrita pode bem ser o único meio de privacidade de que disponho.

    Ainda assim, a Santa Maria às vezes conseguia parecer grande, à medida que lhe íamos conhecendo os diferentes recantos e esconderijos. Em pleno curso, com as velas brancas cheias contra o céu, a cruz verde-esmeralda dos reis de Espanha desfraldada e cheia, parecíamos um jovem pajem com uma blusa esvoaçante, a deslizar por sobre o chão de mármore azul da corte.

    No entanto, quando partimos não vínhamos tão elegantes. Havia somente um calor imóvel e opressivo, pelo que os nossos três navios deixaram Espanha puxados apenas pela vazante, a nossa única esperança no meio de todo aquele ar denso e estático.

    Todos nos confessámos e fomos à missa para pedir a proteção divina na nossa viagem. Junto à igreja, uma nascente gasosa desaguava numa pequena fonte, com a forma de uma vieira, onde os homens encheram o último barril para a viagem, enquanto a luz do sol bailava na água benta borbulhante. Depois, passámos da quietude da Igreja de São Jorge para a multidão de habitantes locais que se juntou na margem do rio para nos ver partir, aplaudindo e acenando – vários acenos, transmitidos num toque, numa palavra, centenas de acenos e centenas de caras – marinheiros, famílias, amigos, mulheres. Seria possível estarmos finalmente de partida?

    Nesse momento, uma mão de homem ergueu-se no meio da confusão e atirou uma rosa vermelha, ainda fresca. O Almirante apanhou-a, algo surpreendido, e entregou-ma. A multidão quase que me engolia com os seus aplausos e encorajamento, «Deus abençoe a Dona Filipa», que me enchiam os ouvidos e faziam tremer os ossos, como se aquelas pessoas tivessem entrado no meu corpo e estivéssemos, por um momento, a partir juntos na mesma aventura.

    «Viva o Almirante Colombo», gritavam agora, enquanto o nosso escaler nos levava até ao navio. Seríamos loucos por abandonar assim a segurança deste porto, a benevolência destas pessoas? Uma nova rosa aterrou na água, ao nosso lado, flutuando, inteira e leve, por um instante. Depois o mar soltou-lhe as pétalas aveludadas uma por uma. Dentro de pouco tempo, à medida que outras pessoas iam atirando flores, a superfície azul do mar encheu-se de corolas e pétalas magenta, e cada um daqueles pequenos fragmentos foi um navio fragrante, um símbolo da nossa partida.

    Pouco depois, contudo, as flores que nos atiravam começaram a espalhar-se pelo meio de outros viajantes, de outras pessoas que também iam deixar Espanha para trás, de pessoas que partiam, não com a fantasia de um mundo novo e amplo, mas com o desespero de um exílio desconhecido e sem fim. O nosso momento de glória via-se algo desfeado.

    Meses antes, os reis de Espanha tinham começado a expulsar os judeus espanhóis e, numa coincidência infeliz, a data-limite para que todos os judeus abandonassem o país era o dia da nossa partida. Os refugiados chegavam a Palos vindos de todas as partes de Espanha. Enquanto preparávamos a viagem, ouvi dizer pelo porto que cerca de oito mil famílias tinham partido durante os meses que se seguiram ao decreto e que muitos milhares continuariam a ser expulsos até que os termos da ordem fossem considerados completamente cumpridos.

    Durante toda a nossa estadia em Palos, grandes barcas sujas tinham andado carregadas de judeus, seres humanos que, à distância, nos pareciam pilhas de trapos rasgados. A Coroa havia-lhes retirado a cidadania espanhola, apesar de muitos deles viverem em Espanha há muitas gerações. Se não se queriam converter ao cristianismo, tinham de se ir embora.

    Alguns dos mestres das embarcações locais aumentaram escandalosamente o preço das passagens para se aproveitarem das circunstâncias desesperadas daquelas pessoas. Ao mesmo tempo, poucos espanhóis ofereciam aos judeus o valor real das suas propriedades e posses, pelo que, sem outras hipóteses, muitos judeus se viram forçados a deixar tudo para trás ou a aceitar uma ninharia em troca de toda a sua riqueza. O porto de Palos fez bom dinheiro com aquele êxodo, já que a procura por barcos e tripulações superava largamente a oferta.

    Pouco depois de termos chegado a Palos questionei o Almirante sobre a situação dos judeus.

    – Para onde é que eles vão? – perguntei-lhe, enquanto olhava da janela e via escaler atrás de escaler a levar aqueles novos marginais para as suas embarcações malcheirosas.

    – Não tenho como saber – respondeu-me, acrescentando: – Suponho que tenha sido em parte por causa dos afazeres relacionados com os judeus que os reis não nos prestaram a atenção que deviam. Tudo isto custou-nos muito tempo.

    É verdade que os reis Fernando e Isabel não mostraram particular interesse pela Empresa quando o Almirante a propôs inicialmente. Uma certa amargura misturava-se-lhe nas palavras enquanto dizia:

    – Não podemos questionar os reis e ainda bem que a questão dos judeus está ultrapassada.

    – Mas o Luis não é judeu? – perguntei-lhe.

    O Almirante tinha contratado Luis Torres, de Sevilha, para servir de intérprete na viagem.

    – Sim, mas converteu-se – justificou o Almirante. – E fala árabe.

    O meu marido lá teria as suas razões, pensei, para acreditar que o árabe ia ser uma língua útil durante a nossa aventura.

    Sei que o Almirante reparou nas condições degradantes em que os judeus viajavam porque baixava os olhos sempre que nos cruzávamos com um daqueles navios, à medida que nos afastávamos de Espanha. Deles emanavam cânticos tristes, cantados por pessoas cujas caras não conseguíamos distinguir muito bem, com vozes profundas, que ribombavam como tambores desamparados.

    Não insisti no assunto porque não queria estragar o momento de glória do Almirante. Como ele disse, os judeus não eram um problema nosso e, além disso, eu estava a escrever sobre a nossa partida.

    A nossa missão de aprovisionamento teve lugar em Palos porque dois dos navios que íamos usar estavam aportados lá. A vila de Palos tinha tentado recentemente fugir aos impostos escondendo da Coroa o valor dos seus rendimentos mercantis. Os reis descobriram e multaram a vila com o usufruto de duas caravelas ao longo de um ano, bem como o seu aprovisionamento de alimentos e outras necessidades. Este usufruto foi depois transferido para nós. Os cidadãos honestos tinham de pagar pelos crimes dos seus oficiais desonestos, mas talvez toda a vila viesse a ganhar, a longo prazo, com a nossa viagem, já que uma rota que nos ligasse ao Oriente por oeste traria muitos mais anos de comércio ao porto de Palos.

    Palos era fruto da alquimia, um caldeirão onde se misturavam Espanha, África e a Arábia. Embarcações de todos os tamanhos e feitios balanceavam-se no porto, com centenas de marinheiros, que se apressavam como insetos, vergados sob o peso de uma lista interminável de cargas. Vi um rapaz muito novo equilibrar na cabeça uma grade de madeira cheia de bilhas de óleo, cada uma delas pelo menos da altura dele, e descer habilmente pela prancha instável, descalço.

    Os navios carregados viajavam até à Guiné e à África Equatorial, terras exóticas e aromáticas num continente distante e escuro, do qual me parecia que tinha ouvido falar toda a vida.

    O Almirante tivera a esperança de tratar do aprovisionamento em dez dias, mas o facto é que o processo demorou dez semanas. É verdade que a desordem reinava no porto também por causa dos judeus, mas o maior obstáculo que enfrentámos foi o facto de sermos estranhos naquela região e desconhecidos da maior parte das pessoas com que tínhamos de trabalhar.

    Foi assim que conhecemos o Martín Alonso Pinzón, o capitão da Pinta, e o seu irmão mais novo, Vicente Yáñez, responsável pela Niña, as duas caravelas que puseram à nossa disposição em Palos. O Almirante também fretou a Santa Maria para ser o nosso navio principal.

    Os irmãos Pinzón tinham vivido em Palos todas as suas vidas, pelo que eram conhecidos de todos nas ruas e no porto. Martín Alonso era um cavalheiro à altura de qualquer desafio, de porte alto e discurso cativante, capaz de manobrar as palavras para ganhar rapidamente a simpatia dos seus interlocutores. Pinzón conhecia o meu marido havia alguns anos e tinha discutido com ele a ideia da Empresa, apesar de eu não saber ainda, no princípio da viagem, até que ponto o Almirante lhe teria confiado os seus segredos.

    Ao saber que os reis haviam finalmente concordado em apoiar a expedição e que iríamos partir de Palos, Pinzón ofereceu-se para se juntar a nós e para ajudar o Almirante a recrutar homens de confiança.

    Pinzón era claramente muito inteligente, mas, por vezes, conseguia ser enigmático, até mesmo misterioso, apesar de não ser capaz de dizer exatamente porquê. Tinha uns olhos castanhos muito escuros que prendiam o seu objeto de interesse com intensidade, mas que depois o soltavam num súbito lampejo de afeto.

    O seu cabelo castanho e espesso encaracolava-se-lhe ligeiramente à volta do colarinho e tinha o hábito de passar os dedos pela barba negra e densa. O Almirante e eu passámos horas com Pinzón no porto e ele apresentou-nos às pessoas dizendo que éramos seus velhos amigos e que tínhamos uma missão importante pela frente. Abordava cada potencial recruta como se o homem fizesse já parte da Empresa e como se as palavras que tinha para lhe dizer fossem as palavras mais importantes a ser pronunciadas em Palos naquele dia.

    Pinzón andava de um lado para o outro, ao longo do cais, distribuindo elogios como se fossem cubos de açúcar. «Como manobras bem essa estralheira, camarada... Marinheiro, que estás a construir aí?... Apresento-te o Almirante Colombo, de quem certamente já ouviste falar... Para navegar? Sim... Talvez eu consiga ajudar.» Desta forma, Pinzón espalhou a notícia da nossa Empresa e, dentro de pouco tempo, também nós passámos a ser conhecidos no porto de Palos como se lá tivéssemos nascido. Eu perguntava-me se o Almirante se importaria com a forma como o Pinzón tendia a chamar a atenção para si próprio, já que o Almirante estava habituado a ser o ator principal. Porém, não tínhamos grande escolha se queríamos despachar-nos e partir.

    O Almirante confiou-me a tarefa de abastecer os navios de mantimentos. A principal carga era de biscoito de bordo, um pão feito de cereais moídos, óleo e xarope, ensosso e seco, mas duradouro e nutritivo. Depois havia sacas de feijões e ervilhas, vinho, azeite, vinagre, muita água, obviamente, peixe seco, carne de vaca e de porco salgada, galinhas e porcos vivos para termos carne fresca durante a viagem, sal, arroz, queijo, figos, amêndoas – oh, toda uma lista! Foi enquanto eu tratava de juntar todos estes quilos e litros de coisas que se deu o que chamei o primeiro incidente Pinzón.

    Uma certa manhã, por volta das oito, o Sol já estava muito alto e amarelo e quente, visitei um mercador de óleos para provar o que vendia. O homem rechonchudo, um pouco mais pequeno que os barris lisos e pesados que cobriam as paredes da sua loja atulhada, cumprimentou-me simpaticamente, talvez sabendo já quem eu era e que a minha visita podia significar um negócio considerável. Esgueirando-se com dificuldade por entre as suas mercadorias, deixou alegremente que eu experimentasse, primeiro de uma, depois de outra bilha.

    – Este aqui, estimada senhora, mantém a textura até mesmo no calor intenso do verão – gabava-se, passando-me uma colher e pondo a mão debaixo do meu queixo enquanto eu provava.

    O óleo tinha de facto um sabor delicioso, como um mel que não era doce.

    Enquanto eu calculava o melhor que podia quanto devia encomendar, o basco Chachu passou pela loja, viu-me e entrou para ajudar. Ele fora membro da tripulação original da Santa Maria antes de o Almirante a ter fretado.

    Chachu e o mercador combinaram uma data de entrega, mas foi Chachu que ditou as condições.

    – A Madame vai pagar-lhe depois de eu inspecionar a mercadoria a bordo. Mas não tenha medo – acrescentou Chachu para não preocupar o vendedor –, todos os nossos pagamentos estão garantidos por ordem da Coroa.

    – Deixe-me acompanhá-la a casa, Madame – disse-me depois Chachu.

    Um andaluz nunca teria sido tão atrevido, mas os bascos, mais liberais, não tinham esse tipo de escrúpulos. Chachu era sempre um cavalheiro, apesar de ser por vezes excessivo nos gestos, utilizando tanto as mãos como as palavras para exprimir os seus pensamentos.

    – Está a ver aquela colina maravilhosamente fértil? – fez um gesto que indicava a paisagem dourada do outro lado, por cima do porto. – Foi para lá de tudo aquilo que eu nasci.

    Chachu falava à vontade, como se me conhecesse desde sempre.

    – Francamente, Madame – confessou-me –, tinha as minhas dúvidas em relação a esta viagem e pensei em deixar a Santa Maria para ir trabalhar para um dos barcos dos judeus. – Depois, basco dos quatro costados, explicou-me: – Não queria viajar no meio de tantos espanhóis.

    Talvez ele já soubesse que eu era portuguesa.

    – Bem, Chachu – respondi-lhe, sem me ofender –, que sorte a nossa ter mudado de ideias.

    – Na verdade, Madame, aconteceu por pura coincidência. Quando estava prestes a despedir-me do meu navio, passei uma noite com alguns marinheiros aqui de Palos. Eles falaram-me da ideia do Mestre Pinzón, por isso decidi ficar, porque não é todos os dias que uma expedição destas arranca.

    Fiquei espantada quando ele disse «a ideia do Mestre Pinzón», mas não o interrompi. Continuou a contar-me que a possibilidade de encontrar ilhas envoltas em nevoeiro, a oeste, em rota para o Japão, o seduzia, assim como a promessa de uma corte opulenta presidida pelo próprio Grão-cã.

    – Quem se importaria de ter rubis a crescer nas árvores? – especulava Chachu. – Talvez um dia eu queira casar, Madame, ou simplesmente tirar partido da minha riqueza sozinho.

    Acabou o seu relato dizendo que fora apenas a confiança que as pessoas de Palos pareciam ter no Pinzón que o levara a juntar-se a nós. Depois acrescentou, num esforço um pouco óbvio para ser cortês:

    – Apesar de nunca ter ouvido falar no Almirante até há pouco, estou certo de que a sua reputação deve ser tão distinta como a do Pinzón, talvez até mais.

    Fez uma grande vénia quando me deixou à porta. Decidi que devia dar o benefício da dúvida a Pinzón, mas o que é que Chachu teria querido dizer com «a ideia do Pinzón»? Pensei que talvez Chachu estivesse a embelezar o relato ou tivesse ouvido mal o que lhe disseram, mas uma conversa posterior trouxe-me novas dúvidas.

    Um certo dia, não muito depois da minha conversa com Chachu, Pinzón e eu estávamos a ver as provisões serem carregadas na Pinta. Chachu conversava alegremente com o contramestre da caravela, oferecendo sugestões perspicazes sobre a distribuição do peso. Pinzón comentou bem-humoradamente que invejava a nossa nau por poder contar com os serviços do basco.

    – Chachu estava tão entusiasmado com a viagem que mal precisou de ser convencido – disse-me espontaneamente, acrescentando: – Estava particularmente impressionado com as ideias e o talento do Almirante.

    Isto era o contrário do que me tinha dito o contramestre. Não sabia em que versão acreditar. As palavras mudavam de forma como mercúrio à medida que passavam de pessoa em pessoa naquele porto, as impressões transformavam-se em factos.

    Pinzón falara de forma tão convincente aos marinheiros da importância de reunir uma tripulação de confiança para o Almirante que me custava acreditar que ele pudesse pôr a sua própria glória à frente da glória da Empresa. Seria a sua simpatia apenas para me impressionar? Era uma perplexidade em que não podia ficar, a menos que estivesse disposta a discuti-la com o meu marido, que não era o caso. Ia ficar irritado e achar que estava a protegê-lo demasiado. E que razões é que eu tinha para me preocupar? Até então, Pinzón não fizera nada senão ajudar-nos.

    Também não podia dizer ao Almirante aquilo que posso confessar aqui, nomeadamente, que não conseguia deixar de sentir um certo fascínio pela personalidade de Pinzón. Parecia viver apenas para o que lhe dava gozo, obtendo um prazer evidente das suas próprias palavras. Eu apreciava a sua maneira de ser despreocupada, apesar de me sentir aliviada por viajarmos em navios diferentes, já que a sua autoconfiança me perturbava ligeiramente.

    Porém, não planeava falar tanto de Pinzón por enquanto.

    Aconteceram muitas coisas dignas de relato no curto espaço de tempo desde que nos fizemos ao mar, incluindo termos estado perto de naufragar.

    – O Almirante diz que o vento vai soprar a sério esta noite, e eu acho que tem razão – disse-me Chachu, enquanto acabava o seu trabalho com os cabos e se preparava para passar a outra tarefa.

    Parecia constantemente atarefado, sem dúvida porque era responsável pela manutenção de todo o equipamento do navio, por manter as cobertas limpas, os cabos secos e as velas, as nossas asas, intactas.

    Com todas estas responsabilidades, não sei quando é que Chachu dormia. Mas sei que não o fez naquela noite.

    Sem qualquer aviso, pouco antes da hora de jantar, o vento levantou-se de repente, com mais força do que o Almirante esperava. No que me pareceram poucos minutos, o mar ergueu-se em muros altos à nossa volta.

    Ao ver-me, o Almirante ordenou-me que abandonasse o convés e que voltasse aos nossos aposentos.

    – Vou ter muito com que me ocupar aqui e tu não terás força para te agarrares sozinha às coisas – avisou-me.

    Tinha razão. Instantes depois, o vento juntara todas as suas forças para nos açoitar e enormes paredes de água negra abatiam-se com estrondo por cima das amuradas. Era como se tivéssemos confiado demais na calmaria e agora o oceano se erguesse furiosamente para nos mostrar que as coisas nunca são o que parecem. Antes de obedecer ao Almirante, olhei na direção da Niña e da Pinta, perdendo-as rapidamente de vista no meio das ondas e da chuva pesada. A Santa Maria estava sozinha e o céu e o mar eram uma só máscara cinzenta.

    Chachu e o resto da tripulação corriam como loucos pelos conveses, recolhendo as velas para não se rasgarem com o vento e prendendo melhor toda a carga, barris e mesas, porque não nos podíamos dar ao luxo de que caíssem borda fora nem de os deixar soltar-se e partir a madeira do convés ou de alguma parede do navio.

    A desordem também já se instalara na nossa cabina. Apressei-me a prender a bússola e os outros aparelhos de navegação do Almirante, assim como os seus livros e os meus. Os papéis caíam como neve dos armários. Ainda não tinha entrado água, mas as paredes de madeira que me separavam do oceano pareciam finas como papel e prestes a ceder. Baixei-me para tentar apanhar coisas e ouvi de repente, atrás de mim, uma explosão selvagem de vidro, madeira e areia, o estilhaçar agudo da ampulheta, que se soltara do esteio e rebentara no chão. Tentei usar uma folha de papel para varrer os detritos para cima da minha saia.

    No entanto, seguiu-se mais destruição. O navio adornou bruscamente e um banco virou-se e caiu-me em cima do pé. Fugi das coisas que caíam e rolavam subindo para cima da nossa cama, já que não havia maneira de manter o equilíbrio nem de voltar a pôr os objetos no sítio. Esfreguei os dedos doridos e escondi-me debaixo da madeira velha e inclinada, tudo o que ficava entre mim e aquele mar que gritava e uivava.

    O fim de tarde transformou-se em noite. Durante todo esse tempo, a água insistia lá fora, com cada onda a procurar furiosamente uma entrada, a menor racha no corpo da Santa Maria por onde se pudesse enfiar, que pudesse erodir e forçar para acabar por correr livremente. Mas o navio não perdeu a passada. Contra a pressão das ondas que rebentavam, parecia uma montanha à deriva. E durante todo aquele tempo o Almirante não veio cá abaixo.

    Tentei ficar acordada, mas a tempestade deixou-me exausta e acabei por me deitar. Doía-me o pescoço de estar dobrada – não havia espaço para me sentar direita na nossa cama, aninhada nas paredes baixas da cabina – e, assim que me deixei descontrair e parei de resistir a cada safanão e sacudidela, caí num sono superficial e agitado.

    Fiquei a ouvir o bater do meu coração através do colchão de palha da cama, tal como um soldado cercado se esforça por ouvir os cavalos do inimigo, com o ouvido encostado ao chão – o pum, pum, pum regular, o rosnar e o deslizar da tempestade, depois outra vez o coração, depois o movimento de mais uma longa onda.

    Perguntei-me se os que morrem conseguem sentir a pulsação desvanecer. O que aconteceria primeiro, a última pulsação ou ouvi-la? Remexi-me entre a vigília e sonhos agitados até que me pareceu ouvir o coração parar, um silêncio gélido no colchão. Abri ansiosamente os olhos.

    A porta da cabina tremeu e entreabriu-se e vi luz, finalmente, e não água, a passar por entre as tábuas da parede. O mar parecia ter-se acalmado. O Almirante chegava assim como o novo dia.

    Veio deitar-se e aproximei-me dele. Pôs a minha mão sobre o peito e ficou a segurá-la. Todo o seu corpo parecia quente e acelerado, como se recuperasse de uma corrida.

    – Já começou a acalmar – disse-me, respirando um pouco mais devagar. – E conseguimos aproximar-nos dos outros navios. O leme da Pinta soltou-se com as ondas.

    Pinzón, disse-me ele, tinha voltado a prendê-lo, mas fora arrancado outra vez. Agora o Almirante tinha de escolher entre voltar a Espanha, onde era certo que fariam uma boa reparação, e continuar até às Ilhas Canárias, que ficavam muito mais perto, mas onde não sabíamos se haveria o estaleiro necessário.

    – Decidi que vou arriscar ir até às Canárias – referiu o Almirante. – Mas a tripulação está exausta e preferia de certeza que eu aproveitasse para voltar para casa.

    Preocupava-o que os homens pudessem estar já demasiado desmoralizados para continuar.

    – Talvez já esteja tudo perdido – disse, em voz alta, mas como se falasse consigo mesmo.

    Aproximei-me mais, para que partilhasse comigo os seus problemas. Estava certa de que os homens o admiravam por ter enfrentado a tempestade ao lado deles.

    – Não te vão abandonar – segredei, e quis muito que me abraçasse.

    Tínhamos sido discretos durante todos os preparativos e na viagem até agora. O Almirante não queria ostentar à frente dos seus homens que não lhe faltava uma mulher. Receava que a sua mulher se pudesse tornar numa cunha que o separasse da tripulação.

    – Peço-te que compreendas – pedira-me na altura.

    Eu compreendera, mas não agora. Nesta noite de tempestade que começava a transformar-se em dia, queria estar com ele. Senti o sal da tormenta na sua cara quando o beijei e encostei levemente a minha boca à sua, às suas faces, olhos, até que em breve, desapertando as minhas roupas e as suas, ele respondeu ao meu desejo e colocou todo o seu peso sobre mim.

    Perdi-me então, como me perco agora que o relato, no seu poder, no seu desejo, na sua boca, aberta e quente sobre a minha, e nas memórias dos nossos primeiros dias e noites em Lisboa.

    Transbordando de vida e de paixão, visitava-me todos os domingos no convento, enchendo as minhas tardes de flores e de histórias maravilhosas sobre os sítios onde estivera. África e Itália e centenas de lugares de que eu apenas tinha ouvido falar, mas que sonhava ver. Por fim, depois de muitas semanas daquelas tardes, houve uma mudança irresistível, um abraço que não acabou, o primeiro contacto dos dedos com a carne, o nosso início.

    Lembro-me de que foi assim que aprendi que os pássaros começam a cantar cedo, quando ainda está escuro, tão cedo como as três ou quatro horas da manhã, muito antes do nascer do Sol. Durante a nossa primeira noite juntos não dormi. Ele estava cheio de desejo por mim e, depois, deixei-me ficar acordada ao lado dele a noite toda. Sabia que aquilo que tínhamos acabado de fazer ia contra todas as convenções, tinham-me dito toda a minha vida, desde a infância, que era pecado.

    No navio, depois da tempestade, senti-me outra vez como naquela primeira noite fremente. Só que agora, enquanto ele dormia e eu não, não se ouvia o canto dos pássaros, porque estávamos no mar alto, longe de terra e longe de qualquer outro tipo de vida ou som, exceto o da nossa respiração e o dos movimentos quase doces do mar estranho a que tínhamos sobrevivido.

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    O Governador Deve Ser Um Homem Curioso

    Tão bruscamente como tinha fervido de raiva, o mar acalmou. No dia que se seguiu à tempestade, éramos uma tripulação exausta parada num mar exausto. O vento, como uma criança que deixámos de conseguir entreter, ignorava-nos por completo. Havia uma calma cálida. A fúria esgotara-se e dera lugar ao silêncio e ao remanso.

    Alguns homens ainda dormiam quando o Almirante se levantou, com os corpos cansados embrulhados em cobertores ao longo dos lados do convés, numa série de casulos volumosos. Até mesmo Chachu tinha finalmente encontrado tempo para dormir. Outros estavam a começar a arrumar o navio, a remover lonas ensopadas, a desatar cabos e destapar a carga. O navio voltava à vida.

    Quando subi ao convés, pensei por um instante aterrador que o navio tinha pegado fogo, mas era apenas o fumo negro e amargo de alcatrão que ardia, porque o ajudante de Chachu, Falguero, o calafate, já estava a derreter breu para fechar os intervalos que o mar conseguira abrir entre as tábuas.

    Contudo, em lugar da galhofa amena e da conversa típica dos marinheiros, em vez dos gritos frequentes e da ocasional canção, os homens estavam em silêncio. Até o Terreros, o despenseiro, tinha deixado de tocar música. Desde que partíramos que, de vez em quando, tocava uma pequena flauta feita à mão para passar o tempo e para animar o resto da tripulação. Agora, porém, o instrumento permanecia enfiado na faixa que tinha à cintura, como um punhal esquecido.

    – O espírito deles foi-se com esta falsa partida – comentou o meu marido, que reparara no mesmo que eu, enquanto tomávamos o nosso chá de manhã. – Consigo senti-lo.

    O meu marido não podia recorrer ao apoio de Pinzón porque a Pinta e o Martín Alonso já tinham rumado à Grande Canária para fazer reparações, ao passo que nós nos dirigíamos para Gomeira, outra ilha do arquipélago das Canárias, onde o Almirante ia investigar a possibilidade de arranjar outro navio, para o caso de nos vermos forçados a substituir a Pinta.

    O Almirante decidiu comunicar o seu plano a toda a tripulação e voltou ao convés para reunir os homens. O grande navio baloiçava suavemente, normalmente, numa regularidade reconfortante. Todos os olhos tentavam ler as notícias na expressão do meu marido.

    Juntou-se à tripulação no convés principal em vez de lhes falar de cima, do castelo da proa.

    – Caríssimos viajantes – saudou-os o Almirante, num tom de camaradagem –, graças à vossa força e coragem, sobrevivemos ao primeiro perigo que enfrentámos juntos. Cada um de vós deve sentir-se orgulhoso. Satisfeito. Recuperem as vossas forças. Hoje ninguém tem deveres.

    Os homens mexeram-se e pareceram mais animados. O meu marido sabia como começar um discurso.

    – O nosso navio, a Santa Maria, aguentou bem as coisas. Mas a Pinta, como talvez já todos saibam, segue sem leme e cheia de rombos pelo mar fora. Não vai poder continuar a navegar no estado em que está, pelo que decidi aportar nas Ilhas Canárias, que não ficam longe daqui, para a reparar ou para arranjar outro navio.

    Um murmúrio de desilusão percorreu a tripulação, mas o Almirante já esperava que assim fosse.

    – Eu sei, eu sei – reconheceu à frente de todos –, também eu teria preferido voltar a ver Espanha, poder dormir na minha cama, estar em casa. Mas não é altura para pensarmos no passado, naquilo que conhecemos. Devemos pensar na grande missão que temos pela frente. Espera-nos, a todos nós, um destino grandioso. Não podemos voltar para trás antes de termos realmente começado. As Ilhas Canárias, particularmente Gomeira, são conhecidas pela sua hospitalidade. O governador de Gomeira vai certamente ajudar-nos a reparar o navio, a reaprovisioná-lo e a recuperar as nossas forças.

    Foi então que ouvi a voz duvidosa de Cristóbal Caro, o ourives grisalho.

    – Com todo o respeito, senhor Almirante, mas o que é que acontece – perguntou ele – se não for possível reparar nem substituir o navio?

    Caro, originário de Aviga, uma aldeola perto de Palos, fora dos primeiros a alistar-se como membro da tripulação. Desde que partíramos, não lhe tinha prestado grande atenção, apesar de ter notado que parecia disposto a dividir o trabalho no convés com Chachu sempre que o basco lhe pedia e sem qualquer má vontade.

    Na verdade, o Almirante não tinha considerado seriamente a hipótese que o ourives agora levantava, por estar completamente convencido de que resolveríamos o nosso problema nas Canárias. Assim, pareceu hesitar enquanto formulava uma resposta. Não podia prometer a toda aquela assembleia que regressariam a Espanha tão cedo.

    – Uma excelente pergunta, Caro – começou o Almirante, perfeitamente consciente do que estava em jogo e da importância da sua resposta.

    Porém, ouviu-se primeiro a voz de Diego de Arana, o meirinho da Santa Maria, um cavalheiro elegante de Córdoba, que o Almirante conhecera durante a espera interminável pela decisão da rainha espanhola. Segundo o meu marido, a família de Arana ajudara-o muito durante a sua estadia em Espanha, dando mostras de grande hospitalidade e amizade quando ele estava mais só.

    – Permita-me, senhor Almirante, que responda ao nosso amigo – interveio o jovem Arana, voltando-se para o ourives.

    – Porque não, Caro, perguntar a Deus o que vai acontecer se não houver sol nem nuvens amanhã? Decerto que, face a uma situação dessas, Deus nosso senhor encontraria a alternativa necessária, mas não antes. Os planos do Almirante baseiam-se nos seus anos de experiência de navegação neste oceano. Ele conhece estas ilhas. Estou disposto a apostar que o Almirante Colombo vai ser recebido com tanta cerimónia nas Canárias como é em Espanha e que os oficiais destas ilhas poriam os seus navios ao nosso dispor se precisássemos deles. Acredito que tudo vai correr bem.

    Antes que Caro pudesse responder, ou mesmo que o Almirante tivesse tempo de dizer alguma coisa, ouviram-se outras palavras bem-vindas. Juan de la Cosa, o proprietário da Santa Maria e braço-direito do Almirante, falou também, aproveitando as palavras do Diego de Arana.

    – Sim, cavalheiros, é certo que em qualquer território da Coroa nos vão dar tudo aquilo de que precisarmos. Bem vistas as coisas, navegamos em nome do rei e da rainha e eu não teria fretado este navio

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