Sobre este e-book
O xadrez não é apenas um dos maiores jogos alguma vez inventados. Tem também inspirado escritores, pintores e cineastas e sido um motor secreto de revoluções técnicas, como a Inteligência Artificial, que estão a transformar a sociedade. Nesta fascinante história do jogo e do seu impacto no mundo, o aclamado diretor de comunicação e eventos do Chess.com, o jornalista Peter Doggers, revela como os computadores e a Internet reforçaram ainda mais a magia intemporal do xadrez, conduzindo-o a um novo pico de popularidade e relevância. Doggers explora o xadrez enquanto fenómeno cultural, desde os seus primórdios na Índia antiga, passando pelas suas maiores estrelas dos últimos tempos – como Garry Kasparov, Bobby Fischer e Magnus Carlsen – e momentos mais dramáticos, até ao atual impacto da Internet e da IA.
«A Revolução no Xadrez dá uma visão geral, divertida e instrutiva de um jogo que está a ser reinventado.»
Financial Times
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A Revolução no Xadrez - Peter Doggers
índice
Ficha Técnica
Introdução
parte i – O xadrez como fenómeno cultural
Capítulo 1 – 1500 anos de magia: uma história do xadrez na cultura popular
Capítulo 2 – Duchamp, Nabokov, Bogart, Kubrick: o xadrez nas artes
Capítulo 3 – Um entendimento mútuo: o xadrez e a ciência
Capítulo 4 – Esplendor no tabuleiro: as maiores estrelas de sempre
parte ii – O impacto da Inteligência Artificial (IA): como o computador mudou o jogo
Capítulo 5 – A IA e o xadrez: de Babbage ao Deep Blue
Capítulo 6 – Para além do Deep Blue: a era das redes neuronais
Capítulo 7 – O lado negro: batota no xadrez
parte iii – A revolução online: como a Internet mudou o jogo
Capítulo 8 – Os primeiros dias: o xadrez a 28.8 kbit/s
Capítulo 9 – De como a Chess.com chegou, viu e venceu
Capítulo 10 – A revolução do streaming
Epílogo
Agradecimentos
Bibliografia
Apêndice
Peter Doggers
A REVOLUÇÃO
NO XADREZ
O Poder de Um Jogo Antigo
na Era Digital
Tradução:
Miguel Freitas da Costa
Revisão Técnica:
Lourenço Rebelo da Silva
Ficha Técnica
Título: A Revolução no Xadrez
Título original: The Chess Revolution
Autor: Peter Doggers
Edição: Duarte Bárbara
Tradução: Miguel Freitas da Costa
Revisão: Ana Lúcia Parga
Índice remissivo: Gabriella Russano
Design da capa: © DPS Design en Prepress Studio
Imagem da capa: © Shutterstock
Foto do autor: © Femke Berkhout
ISBN: 9789722085328
Publicações Dom Quixote
Uma editora do grupo Leya
Rua Cidade de Córdova, n.º 2
2610-038 Alfragide – Portugal
Tel. (+351) 21 427 22 00
Fax. (+351) 21 427 22 01
© 2024, Peter Doggers e Publicações Dom Quixote
Publicado com o acordo de Sebes & Bisseling Literary Agency
www.leya.com
Este livro segue o Acordo Ortográfico de 1990.
Os direitos de utilização e reprodução da presente obra encontram-se reservados ao seu Autor e à Editora, sendo expressamente proibida qualquer utilização que exceda os limites do art. 75.º do CDADC. É ainda expressamente proibida a utilização da obra ou partes desta com o propósito de integrar bases de dados ou sistemas de inteligência artificial, ainda que com o único intuito de treino.
Para Míria
Introdução
O meu pai ensinou-me a jogar xadrez quando eu tinha oito anos. O meu interesse redobrou na escola primária quando comecei a jogar xadrez contra o meu professor durante os intervalos. Uns anos mais tarde, tinha eu catorze anos, o meu vizinho e amigo Gino perguntou-me: «Vou a casa do meu tio jogar xadrez. Queres vir comigo?» Gerard, o tio dele, com quem ainda me cruzo de vez em quando no café de xadrez De Laurierboom, em Amsterdão, tinha um belo jogo de xadrez e, o que era ainda mais fascinante para um adolescente como eu, montes de livros sobre xadrez. Contava-nos histórias do seu herói Bobby Fischer e eu não me cansava de o ouvir.
Gino e eu não tardámos em jogar regularmente, chegando a imitar «partidas dos campeonatos mundiais» de que tínhamos ouvido falar: disputávamos uma partida por dia, alternando as cores das peças, preenchendo assim, facilmente, umas férias de quinze dias a jogar pelo título de campeão da nossa rua. Em setembro de 1990 inscrevemo-nos no clube local De Eenhoorn (O Unicórnio), onde conheci alguns dos meus melhores amigos. Ainda hoje jogamos pelo mesmo clube.
O primeiro de todos os livros de xadrez que li de uma ponta à outra foi Het Grote Schaakboek («O Grande Livro de Xadrez») de Theo Schuster, de 1987, um panorama geral da história do jogo, das suas regras, dos grandes jogadores do passado e dos seus melhores jogos. Incluía aquela que continua a ser a minha história de xadrez preferida de todos os tempos, sobre a ideia de que a ameaça é mais forte do que a execução, uma das mais conhecidas máximas do xadrez.
Conta-se que Aron Nimzowitsch, um jogador de primeira classe dos anos 1920, terá detetado fumo de cigarro numa época em que era permitido e era costume fumar durante os torneios. Antes de começar um dos jogos, o adversário de Nimzowitsch tinha acordado com ele não fumar, mas pouco depois do começo puxou de um charuto e a seguir de uma caixa de fósforos. Nimzowitsch dirigiu-se furiosamente ao árbitro para se queixar, o qual lhe fez notar que o seu opositor não tinha acendido o charuto. «Mas ameaça fumar», disse Nimzowitsch, «e qualquer jogador de xadrez sabe que a ameaça é mais forte do que a execução.»
O livro de Schuster revelava que um mundo mais vasto se escondia por trás daquele «simples» jogo de tabuleiro. Tinha uma tal herança cultural de que eu quis saber mais a respeito. Descobri que o xadrez é muito parecido com o jogo disputado no romance de Hermann Hesse de 1943, O Jogo das Contas de Vidro: um recontro intelectual que incorpora elementos da matemática, da psicologia, da arte, do desporto e até da música. Ao longo da história tem funcionado como metáfora da guerra, da batalha cerebral, da luta estratégica e até para descrever toda a nossa sociedade. Na sua variedade simbólica, o xadrez é o jogo mais rico de todos.
O xadrez tem uma história de mais de 1500 anos e tem sido sempre «popular» no antigo sentido latino da palavra: prevalecente entre o grande público. Mas foi mais do que isso e essa é a parte difícil de descrever. Parece que, como nenhum outro jogo, o xadrez tem sido sempre uma atividade com um certo sortilégio, algo de que se desfruta, mas que também inspira estima e pasmo e deverá ser tratada com respeito. Não é coincidência que as maiores personalidades nos seus respetivos tempos se tenham ligado ao jogo: de Napoleão a jogar contra o Turco Mecânico a Elon Musk a aparecer envolvido no escândalo Carlsen-Niemann de 2022.
Em fevereiro de 2006 comecei o meu primeiro blog de xadrez e em dezembro do ano seguinte já tinha deixado o meu emprego regular, que me proporcionava um rendimento certo e confortável. Queria ver se conseguia tornar o meu website ChessVibes numa empresa rentável. Dei a mim próprio um ano para ver até onde chegava, pensando que poderia sempre regressar ao mercado de trabalho se as coisas não corressem bem. Nos dezoito anos que passaram, nunca me arrependi. O xadrez tem-me levado a recantos do mundo maravilhosos e remotos. Conheci pessoas fascinantes e fãs entusiastas, mas sempre achei que o xadrez tinha potencial para se tornar maior, da mesma maneira como ocorreu no póquer.
Nos tempos modernos, o xadrez tem tido diferentes picos de popularidade. A primeira vez foi em torno do jogo FischerSpassky de 1972, em Reiquiavique, em plena Guerra Fria. Com os jornais do mundo inteiro a cobrirem diariamente a batalha, Fischer tornou-se uma celebridade, centenas de milhares de pessoas viciaram-se no jogo, e os jogos de xadrez esgotaram-se por toda a parte. Não é coincidência que a Islândia, onde foi disputado o jogo, tenha agora o mais alto número de grandes mestres per capita: 16 GM entre uma população de 375 000 habitantes.
Após as emocionantes batalhas entre Anatoly Karpov e Garry Kasparov, nos anos oitenta, o grande público também adorou a história de sucesso de Judit Polgár e suas irmãs. Um verdadeiro novo pico, contudo, foi o match Kasparov-Deep Blue em 1997, ainda visto como o ponto de viragem da história do xadrez, quando os computadores se tornaram fortes de mais para os humanos. (Na verdade, ainda foi preciso algum tempo para os computadores se tornarem realmente invencíveis.)
Nas décadas seguintes, Magnus Carlsen atraiu a maior parte das atenções combinando o seu notável domínio do tabuleiro com a sua qualidade de fã de desporto entusiasta, modelo de moda, e até personagem dos Simpson e do Donald Duck. Foi, porém, uma outra rapariga quem criou o terceiro grande pico de popularidade global do xadrez: Beth Harmon, a protagonista da série da Netflix The Queen’s Gambit, estreada em outubro de 2020 e baseada num romance de 1983 de Walter Tevis
Até à data em que escrevo, o Chess.com tem experimentado um crescimento duas vezes mais rápido do que nos tempos de The Queen’s Gambit – sugerindo que o xadrez nunca foi tão popular como em 2024. Hoje não parece haver uma só razão evidente para este aumento de popularidade, mas sim várias, que se podem apontar. Talvez desta feita não se trate de simples estardalhaço e o xadrez se tenha finalmente tornado uma atividade corrente. Quero acreditar que sim.
O xadrez tem visto uma notável transformação nas últimas décadas, sob a principal influência do computador e da internet. Hoje em dia, tanto grandes mestres como amadores não conseguem imaginar um mundo sem o computador para analisar as suas decisões, preparar-se para os jogos ou jogar online. Ao mesmo tempo, a internet tem atraído mais novos fãs do que nunca e o xadrez tornou-se um desporto popular. O canal Chess.com foi o canal Twitch de língua inglesa mais visto (e o quinto no mundo) com cerca de 11 milhões de horas de audiência. Acrescenta uma dimensão totalmente nova a este antigo jogo de tabuleiro e não é nada menos do que uma revolução digital – uma história que merece ser contada.
Diz-se que nenhum desporto tem mais livros publicados a seu respeito do que o xadrez. No entanto, a vasta maioria deles é destinada a um público de conhecedores que já sabe o que significa 1.d4 f5 (a Holandesa, uma abertura que eu nunca joguei!) ou quem é Wilhelm Steinitz (o primeiro campeão do mundo oficial). O que falta é um livro que sirva o contingente de novos fãs do xadrez que travaram conhecimento com o jogo como espetadores da Netflix ou subscritores do YouTube e, desesperadamente, precisam de uma boa introdução a este desporto e ao mundo que está por trás. Um livro que inclua muitas das suas famosas (ou famigeradas) histórias e episódios, demonstre os seus laços indestrinçáveis com a cultura ocidental, fale sobre os seus maiores heróis e descreva a incrível história das mudanças que o xadrez atravessou para chegar aonde está hoje. Espero ter escrito esse livro.
Os que estão dentro do mundo do xadrez poderão reconhecer muitas das histórias e muitos dos episódios, mas ainda têm também muito o que descobrir. E, visto que o último livro que tentou abarcar toda a história do xadrez foi publicado em 1985, talvez este possa cobrir o intervalo até hoje, reunindo o passado, o presente e o futuro do xadrez num só lugar e traçando o mapa da sua relação com a cultura e a tecnologia. Dizer que o xadrez é uma arte, uma ciência e um desporto é algo bem conhecido. É também, até certo ponto, um cliché, e algo limitado. Por trás deste jogo de tabuleiro aparentemente simples, com 64 quadrados e 32 peças, há ligações diretas com muitas mais áreas da vida, bem como uma história incrível cheia de episódios interessantes e personalidades extraordinárias. Os leitores que são novos no xadrez têm neste livro um mundo único a descobrir que é tão fascinante como inspirador. Não fazem ideia!
parte i
O xadrez como fenómeno cultural
Capítulo 1
1500 anos de magia: uma história
do xadrez na cultura popular
«O xadrez foi praticamente o único jogo conhecido em que era possível algum exercício mental. Foi também reconhecido como alegoria da guerra, enquanto as suas peças podiam ser tomadas como emblemáticas dos vários elementos da sociedade.»
H. J. R. Murray, A History of Chess, 1913
A 19 de novembro de 2022 houve uma imagem no Instagram que rapidamente se tornou uma das mais apreciadas publicações de sempre. Era véspera da abertura do Mundial da FIFA, no Qatar, e a famosa casa Louis Vuitton partilhou uma fotografia de Lionel Messi e Cristiano Ronaldo a jogar xadrez. Acompanhavam-na estes dizeres: «A vitória é um estado de espírito.» A fotografia tinha sido tirada por Annie Leibovitz e publicada no Instagram de Messi, de Ronaldo, e da Louis Vuitton. A imagem, que reuniu mais de 84 milhões de likes , mostrava as duas estrelas de futebol a usarem como tabuleiro uma das malas axadrezadas da Louis Vuitton. Dois anos depois da saída de The Queen’s Gambit , o xadrez fazia uma nova aparição na cultura popular que poderá ter chegado a mais gente ainda do que a série incrivelmente bem-sucedida da Netflix.
Diga-se de passagem que na imagem – que foi fotografada em diferentes momentos, sem que Messi e Ronaldo tivessem estado juntos no estúdio – a posição das peças fora tirada de um jogo verdadeiro. O treinador do número um mundial Magnus Carlsen, o dinamarquês Peter Heine Nielsen, tweetou que a posição vinha de um jogo entre Carlsen e Hikaru Nakamura, as duas maiores estrelas do xadrez, disputado na Noruega em 2017. Carlsen retweetou o tweet de Nielsen com um comentário jocoso: «A segunda maior rivalidade do nosso tempo a imitar a maior.»
Messi e Ronaldo a jogar às damas ou às cartas era muito pouco provável. E não teria resultado. As possibilidades visuais, o simbolismo, a tradição e complexidade do xadrez davam-lhe força. O xadrez fascinou imperadores, reis, marajás, xás, czares, generais e presidentes. Inspirou pintores, poetas, dramaturgos, romancistas, realizadores, argumentistas, atletas e políticos. O sortilégio do xadrez enfeitiça-nos há 1500 anos.
As origens do xadrez
Era uma vez, na Índia, uma rainha astuta chamada Jushir que enfrentava uma rebelião. Enviou um dos seus filhos para combatê-la, mas um rebelde matou-o, deixando consternado o povo do reino. Temendo dar a notícia à Rainha, reuniram-se na presença de um dos seus sábios, Qaflān, e contaram-lhe o sucedido. Ele disse «Deem-me três dias», e foi pensar. Depois, pediu a um dos seus discípulos: «Traga-me um carpinteiro e madeira de duas cores diferentes, branca e preta.» O carpinteiro fabricou peças de xadrez, sob instruções de Qaflān, que voltou a pedir: «Tragam-me coiro curtido.» Foi feito um tabuleiro de xadrez com 64 quadrados e Qaflān começou a jogar com um dos seus pupilos até todos perceberem o jogo e se tornarem proficientes. Disse ao seu pupilo: «Eis aqui uma guerra sem perda de vidas.»
O povo do reino apercebeu-se de que estava a testemunhar uma peça de sabedoria a que mais ninguém chegara. Quando a Rainha Jushir ouviu falar no jogo, convocou Qaflān para lho mostrar. Ele apresentou-se no palácio com o seu pupilo e começaram os dois a jogar xadrez. Um derrotou o outro, dizendo «Xeque-mate!»
Percebendo o que Qaflān queria dizer, a Rainha perguntou-lhe: «O meu filho foi morto?»
«Tu o disseste», respondeu ele.
Ela então pediu ao seu mordomo: «Deixa o povo entrar, para que possam dar-me as condolências.» Depois voltou-se para Qaflān: «Pede o que precisares.»
A resposta de Qaflān vai certamente ser reconhecida por muitos leitores. «Vossa Majestade, não procuro grandes riquezas ou poderes. Em vez disso, peço uma recompensa singela: peço apenas um grão de trigo pelo primeiro quadrado do tabuleiro, dois pelo segundo, quatro pelo terceiro, oito pelo quarto quadrado e assim sucessivamente.»
Inicialmente, a Rainha riu-se do pedido como magra recompensa pelo seu brilhante jogo, e concordou de bom grado. Os seus conselheiros, porém, depressa apontaram as assombrosas consequências do pedido de Qaflān. O tabuleiro de xadrez tem 64 quadrados, e por causa da duplicação dos grãos de trigo em cada quadrado a quantidade total de trigo pedido seria 2⁶⁴-1, uma quantidade que não estava disponível nem sequer no mundo inteiro. (Um cálculo recente indica que seria mais de 1600 vezes a produção mundial de trigo.)
A lenda dos grãos de trigo e o tabuleiro de xadrez, que serve, ainda, no ensino da matemática, como exemplo do poder do crescimento exponencial, existe sob várias formas. Uma delas envolve grãos de trigo e o Deus indiano Krishna, enquanto a versão mais famosa da história tem o matemático brâmane Sissa a inventar o xadrez para dar uma lição de humildade ao seu Rei. Exatamente como no jogo, o seu destino está ligado ao mais fraco dos seus súbditos e, como Rei, é a entidade mais poderosa, mas continua a ter necessidade da proteção de todas as outras peças.
A versão que prefiro é a mais antiga, «que remonta aos dias pré-maometanos», segundo H. J. R. Murray, um reputado e incrivelmente erudito historiador do xadrez que publicou a sua monumental A History of Chess em 1913. A lenda foi contada por Ibn Wadih al-Ya’qubi, um funcionário imperial muçulmano e polímata do século ix cujas obras representam alguns dos escritos históricos e geográficos mais antigos da literatura arábica sobrevivente. É interessante que al-Ya’qubi se refira a uma Rainha (Jushir) em vez de um Rei; e a sua história sugere que o xadrez já era usado como metáfora no momento em que foi inventado. Desde a sua infância que o xadrez era mais do que xadrez.
*
Que seja uma história verdadeira ou não, não é importante. Uma coisa em que a maior parte dos historiadores do xadrez estão de acordo é que o jogo tem a sua origem na Índia. Nasceu originalmente de um outro jogo de tabuleiro chamado chaturanga, aparecendo pela primeira vez no Império Gupta por volta do século vi d.C. Crê-se que o Xiangqi (xadrez chinês), o janggi (xadrez coreano), o shogi (xadrez japonês), o sittuyin (xadrez birmanês) e o makruk (xadrez tailandês) têm todos o chaturanga como antepassado comum.
A palavra do Sânscrito chaturanga significa «ter quatro membros/ /partes» – de chatur, que significa quatro, e anga, que quer dizer partes – e refere-se às quatro divisões de um exército: soldados montados em elefantes, soldados em carros, cavalaria e infantaria. O jogo era disputado num tabuleiro de oito por oito com 64 quadrados – note-se que eram todos da mesma cor. Os tipos de peças eram semelhantes às do xadrez: havia um Rei, um ferz (conselheiro do Rei), um carro (torre), um elefante (uma forma primitiva de bispo), um cavalo (cavalo) e um soldado raso (peão). Trata-se claramente de um jogo de tabuleiro que imita a luta entre dois antigos exércitos indianos. (Note-se que, mil anos depois, algumas línguas ainda usam os mesmos nomes para certas peças. Um bispo é em russo cлoh, que significa elefante.)
Bozorgmehr (fila de baixo, segundo a contar da esquerda) ministro do rei da Pérsia do século
vi
Cosroes I, joga xadrez com um enviado indiano, tal como representado num folio de c. 1330-40 do Shahnama (Livro dos Reis) de Ferdowsi.
Metropolitan Museum/Domínio Público
O xadrez expandiu-se para a Ásia e a Pérsia (o Irão atual) provavelmente no mesmo século vi. Como isso aconteceu envolve uma outra lenda que aponta a Índia como lugar de nascimento do jogo. Foi contada no Shahnama (Livro dos Reis), composto pelo poeta persa Ferdowsi e completado por volta do ano 1010.
Uma missão de enviados do Rajá da Índia ricamente equipada chegou certo dia à corte do Rei Cosroes I de Anūshīvān, o rei sassânida que governou a Pérsia de 531 a 579. Entre os muitos tesouros que levaram contava-se um belo tabuleiro axadrezado. Uma mensagem escrita em seda descrevia o tabuleiro e o tipo de peças que lhe pertenciam e notava que se alguém conseguisse detetar como se devia jogar aquele jogo o Rajá de bom grado pagaria os impostos pedidos. Depois de um dia e uma noite de estudo, Bozorgmehr, ministro do Rei, deu uma descrição completa das regras do xadrez, para horror dos emissários indianos. Para tornar tudo ainda pior, passou a inventar o jogo de nard (uma forma antiga de gamão) e enviou um desafio semelhante ao Rei indiano – um desafio que os seus conselheiros não conseguiram resolver. 2-0 para os persas.
Depois da conquista muçulmana da Pérsia, em meados do século xvii, os árabes tomaram conhecimento do xadrez, a que os persas tinham chamado chatrang, nome que eles mudaram para shatranj. O xadrez cresceu em popularidade e difundiu-se através de todo o mundo árabe-muçulmano. Nos séculos ix e x já o xadrez era amplamente conhecido no mundo árabe, da Índia até Espanha. Os primeiros livros sobre xadrez foram escritos contendo muitas lendas, poemas e expressões. Um exemplo descrevia a embriaguez: «Veio por uma senda de torre, mas foi-se embora por uma senda de cavalo.» A rica literatura árabe sobre xadrez referia ainda as suas ligações com a matemática, com o pensamento lógico, e até com o erotismo, a par do ensino do xadrez.
Foram introduzidos também os manṣūbāt: problemas de xadrez em posições de final de jogo com tarefas bem definidas, tais como encontrar um xeque-mate forçado em poucos lances. Um deles, famoso, é o Dilaram, que supostamente vem de um jogo disputado por um nobre chamado Murwardi. Numa situação financeira desesperada, tinha apostado num jogo a sua linda mulher Dilaram e acabou por ganhá-lo graças a ela. Quando a posição do problema surgiu, foi ela quem descobriu a solução, dizendo ao marido: «Sacrifica as duas torres e não a mim.»
O xadrez na Idade Média
Os jogadores árabes levaram o xadrez para a Europa através da Península Ibérica e do Império Bizantino, provavelmente durante o século x. Espalhou-se também ao norte da Europa, seguindo muitas vezes as rotas dos exércitos vitoriosos. Quando os normandos conquistaram Inglaterra, o xadrez foi com eles.
Uma das mais antigas referências ao xadrez europeu é uma famosa carta de 1061 enviada pelo Cardeal-Bispo Petrus Damiani ao Papa-eleito Alexandre II e ao Arquidiácono Hildebrand (mais tarde Papa Gregório VII). Na carta, Damiani sugeria que alguns membros do clero tinham pecado ao participarem em certas atividades de recreio, incluindo o xadrez. O Bispo de Florença defendeu-se apontando que, ao contrário de outros jogos que envolviam a sorte, o xadrez era um jogo de habilidade.
Até meados do século xiii, a Igreja proibiu regularmente jogar xadrez (demostrando assim, também, a sua popularidade) pois não fazia distinção entre o jogo de xadrez e o de dados. Isto é mais compreensível se tivermos consciência de que, nesses anos, o xadrez era muitas vezes jogado com dados, com os números a indicar que peça tinha de ser jogada. Mas a certo ponto a atitude da Igreja mudou. Murray escreveu: «Em 1250 o preconceito inicial da Igreja contra o xadrez já tinha começado a enfraquecer em vista do patrocínio real e nobre do jogo, e as ordens monásticas aceitavam livremente o xadrez como bem-vindo alívio da monotonia da vida conventual, ao mesmo tempo que o conhecimento do xadrez tinha descido dos habitantes dos castelos e dos mosteiros para os mais abastados burgueses e comerciantes das cidades.» Por outras palavras, as tentativas para erradicar o jogo falharam miseravelmente, pois o xadrez não podia simplesmente ser travado.
O xadrez tornou-se uma presença regular na vida cortesã da Europa nobiliárquica no decurso de apenas dois séculos. Reis, sacerdotes, cavaleiros e outros membros da nobreza feudal gostavam de o jogar. Na sua influente obra do século xii, Disciplina Clericalis, o físico, astrónomo e escritor espanhol Pedro Alfonso incluía-o na lista das sete aptidões que um bom cavaleiro devia adquirir: equitação, natação, arquearia, pugilismo, falcoaria, versificação e xadrez. A fama do jogo cresceu depressa, como claramente mostram as centenas de alusões ao xadrez na literatura do século xiii em diante. Vou citar outra vez Murray: «Durante a última parte da Idade Média, e especialmente do século xiii ao século xv, o xadrez alcançou uma popularidade na Europa ocidental que nunca foi ultrapassada e provavelmente nunca igualada em qualquer data posterior.» Bem, o livro que estão a ler tem alguma coisa a dizer sobre esta última asserção…
Um livro historicamente essencial é o Libro de los Juegos (Livro dos Jogos) encomendado pelo Rei Alfonso X de Castela e Leão em 1283. Este belíssimo manuscrito, conservado na biblioteca do Mosteiro do Escorial, perto de Madrid, consta de 97 folhas de pergaminho, muitas delas com lindas ilustrações a cores, e mais de uma centena de problemas de xadrez a resolver pelos leitores, na sua maior parte tirados de fontes árabes mais antigas (incluindo o problema Dilaram). Os problemas são consistentemente mostrados num tabuleiro no meio das ilustrações, com jogadores tanto masculinos como femininos à esquerda e à direita do tabuleiro. Este importante livro trata de xadrez e de outros jogos, como os dados e uma forma primitiva de gamão, mas anota: «Dado que o xadrez é o mais nobre dos jogos, o que mais destreza requer em comparação com todos os outros jogos, falaremos dele em primeiro lugar.» O xadrez depressa emergiu como o jogo mais popular devido à sua complexidade e parecença com a cultura medieval.
Dois homens jogam xadrez nesta ilustração do histórico manuscrito espanhol com iluminuras Libro de los juegos (Livro dos Jogos) ou Libro de axedrez, dados, e tablas (Livro de Xadrez, Dados e Tábuas), 1283.
Wikipedia
A mudança de nome de várias peças ajudou o xadrez a tornar-se ainda mais popular. Onde o Rei do chaturanga tinha a seu lado o ferz arábico, o xadrez europeu substituiu esta peça por uma rainha (a peça a que chamamos dama). Outras peças foram também ocidentalizadas: o cavalo tornou-se, em inglês, um knight (cavaleiro), o carro tornou-se um castelo ou torre, e o elefante um bispo. Tínhamos agora peças aparentemente destinadas a corresponder aos papéis sociais europeus.
O nascimento do xadrez moderno
Enquanto o xadrez alastrava da Índia para a Pérsia, para o império árabe e para a Europa medieval, a maneira como se jogava permaneceu essencialmente a mesma. Deram-se algumas alterações menores, tais como colorir os 64 quadrados para criar um tabuleiro «axadrezado». E os peões foram autorizados a avançar dois quadrados em vez de um só, do primeiro movimento, para acelerar o jogo.
Jogavam-se múltiplas versões do jogo em diferentes territórios, mesmo dentro da Europa, com regras específicas que muitas vezes variavam de uma área para outra. Mas depois, por volta de fins do século xv, o xadrez sofreu mudanças significativas e alcançou uma forma mais ou menos unificada em todo o continente, e que é a maneira como hoje o jogamos.
Duas modificações envolveram os movimentos do bispo e do rei. Em vez de saltar diagonalmente dois quadrados, o bispo passou a poder mover-se para qualquer quadrado em diagonal. O rei foi autorizado a refugiar-se num movimento conjunto com uma das torres, que se conhece por «roque». Uma mudança realmente inovadora, porém, envolveu a dama. Como o ferz árabe, a dama, até então, só podia mover-se um quadrado em diagonal de cada vez, tornando-a a peça mais fraca do tabuleiro. Contudo, na viragem do século xv, passou a poder mover-se até onde quisesse, diagonalmente ou em linha reta. Naquilo a que geralmente se chama «xadrez moderno», tornou-se mais poderosa do que qualquer outra peça do tabuleiro. Como isto aconteceu continua a estar rodeado de um certo mistério.
Uma teoria, já refutada, é a de que a nova e poderosa dama teria sido inspirada por Joana d'Arc, a jovem camponesa que afirmava ter recebido visões divinas quando ajudou França a derrotar Inglaterra em Orleães, em 1429, durante a Guerra dos Cem Anos. A maioria dos historiadores do xadrez, porém, concorda em que a mudança respeitante à dama foi mais do que provavelmente inspirada pelos novos poderes de uma rainha da vida real: a Rainha Isabel I, que reinou em Castela de 1474 até à sua morte em 1504. Apropriadamente, era considerada mais poderosa do que o seu marido, Fernando II, Rei de Aragão.
O primeiro torneio de que há registo, disputado provavelmente com as novas regras, teve lugar em Heidelberg, na Alemanha, em 1467. Jogava-se xadrez em muitas cidades alemãs nos últimos tempos da Idade Média e Heidelberg já tinha um Clube de Xadrez. Patrocinado por Frederico I, Conde Palatino do Reno, as condições incluíam alojamento e prémios para os vencedores. O xadrez tinha um elemento de desporto, como a poesia e a esgrima desses tempos.
As novas regras tornavam o jogo mais rápido, mais complexo e bastante exigente. No entanto, a popularidade do xadrez praticamente não declinou nos séculos seguintes, segundo o historiador Richard Eales no seu livro Chess: The True Story of a Game, de 1985: «Se a literatura técnica de xadrez preservada nos manuscritos e livros impressos dos séculos xvi e xvii ou se as referências acidentais ao jogo em testamentos, inventários, cartas e literatura em geral dos dois períodos se comparam entre si, não há nada que indique um declínio sensível de popularidade.»
Isto explica-se em parte pelo facto de que o estatuto social do xadrez também pouco mudou. Continuou a ser uma atividade respeitada entre as classes altas (embora também amplamente conhecida entre as classes mais baixas), tida em alta estima, inclusive em consideração à sua longa história e muitas interpretações e analogias, nas quais mergulharemos um tanto mais fundo no capítulo que se segue.
Um mercado de maior dimensão
No século xviii, o xadrez já competia com vários jogos de cartas, especialmente o whist, que estava na moda. Mesmo assim, o número de pessoas que jogavam xadrez continuava a crescer. Como explicou Eales, havia um geral aumento da prosperidade, dando às pessoas mais tempo e dinheiro para dedicar a atividades de lazer. Em termos económicos, o tamanho do mercado estava a aumentar. A decisão de jogar xadrez tornou-se questão de gosto, que deu início a uma nova fase do jogo e de como era tratado.
O xadrez começou a ter uma atratividade mais vasta do que nunca e passou a assumir formas mais organizadas. Tornou-se cada vez mais, por exemplo, um passatempo desfrutado em cafés. Em Londres, tínhamos o Old Slaughter’s Coffee House, em St Martin’s Lane, que abrira em 1692 e era frequentado por arquitetos, pintores, poetas e políticos. Ainda mais famoso era o Café de la Régence, em Paris. Inaugurado em 1681, o café acolhia uma ampla variedade de intelectuais e muitos famosos mestres de xadrez, incluindo o melhor jogador do seu tempo, François-André Danican Philidor (1726–1795). No Régence, Philidor conheceu Voltaire e Robespierre e jogou xadrez com Rousseau. O xadrez de café em breve levou à fundação dos primeiros clubes de xadrez de gentlemen em Londres e Paris, em fins do século xviii. Começaram a florescer em princípios do século xix e não tardaram a abrir em países como a Holanda, a Alemanha e os Estados Unidos.
Enquanto o xadrez ia crescendo, nesta altura tornava-se também um desporto de homens. As mulheres raramente frequentavam os cafés e muitas vezes não eram autorizadas nos clubes de xadrez. O xadrez estava a tornar-se também cada vez mais uma atividade séria (havia até quem começasse a considerá-lo um desporto), estimulando ainda mais a discriminação contra as mulheres no meio. A sociedade industrial teve também sem dúvida o seu papel nisto. Enquanto os homens trocavam o trabalho remunerado em casa pelo trabalho nas fábricas, as mulheres mantiveram-se na esfera privada. Os dois sexos viviam vidas mais separadas, e às mulheres não era concedido muito tempo para atividades de lazer em casa.
A primeira metade do século xix assistiu também à organização dos primeiros grandes eventos de xadrez, aumentando o prestígio do jogo. Os maiores mestres muitas vezes disputavam matches entre si (séries de múltiplos jogos entre dois adversários), como os que se deram entre Louis-Charles Mahé de La Bourdonnais de França e Alexander McDonnell da Irlanda, ou Howard Staunton da Inglaterra contra o francês Pierre de Saint-Amant – batalhas que foram publicadas no mundo inteiro e seguidas de perto por fãs do xadrez de todo o mundo. Staunton foi também o principal organizador por trás do primeiro grande torneio internacional de xadrez, em Londres, em 1851.
O aumento do interesse no xadrez refletiu-se no crescente número de livros relacionados com o jogo, assim como a primeira de todas as colunas de jornal de xadrez (no Liverpool Mercury, em 1813) e a primeira revista da especialidade (Le Palamède, em 1836). Foram feitas também as primeiras tentativas para cobrir sistematicamente o que se sabia sobre aberturas de xadrez, em panorâmicas como a Encyclopedia of Chess de Aaron Alexandre, de 1837. Os torneios de xadrez começaram a ter lugar regularmente em muitos países, especialmente Inglaterra e Alemanha.
Ao mesmo tempo, o jogo tornou-se em geral mais organizado e regulado à medida que eram fundadas federações oficiais, no mesmo espírito de desportos como o futebol, o atletismo e o cricket. O primeiro Campeonato Mundial de Xadrez realizou-se em várias cidades dos Estados Unidos em 1886, quando Wilhelm Steinitz venceu Johannes Zukertort para ganhar o primeiro título de Campeão Mundial de Xadrez.
Este campeonato em particular deu início a uma longa e maravilhosa tradição que continua até hoje: uma crescente lista de lendários encontros, batalhas de dois adversários pelo mais alto trono e uma eterna glória. O match Fischer-Spassky, em 1972, com a Guerra Fria como pano de fundo, é a mais célebre. Todos os estudiosos sérios do jogo sabem que essa tradição remonta a muito antes e podem elencar todos os campeões do mundo (e talvez até pela ordem certa). Dou-os abaixo, seguidos pelos anos em que conservaram o título:
1. Wilhelm Steinitz (1886-1894)
2. Emanuel Lasker (1894-1921)
3. José Raúl Capablanca (1921-1927)
4. Alexander Alekhine (1927-1935, 1937-1946†)
5. Max Euwe (1935-1937)
6. Mikhail Botvinnik (1948-1957, 1958-1960, 1961-1963)
7. Vasily Smyslov (1957-1958)
8. Mikhail Tal (1960-1961)
9. Tigran Petrosian (1963-1969)
10. Boris Spassky (1969-1972)
11. Bobby Fischer (1972-1975)
12. Anatoly Karpov (1975-1985)
13. Garry Kasparov (1985-2000)
14. Vladimir Kramnik (2000-2007)
15. Viswanathan Anand (2007-2013)
16. Magnus Carlsen (2013-2023)
17. Ding Liren (2023-2024)
18. Gukesh Dommaraju (2024-)
(Note-se que esta lista não menciona os campeões do mundo da FIDE Alexander Khalifman, Ruslan Ponomariov, Rustam Kasimdzhanov e Veselin Topalov, que ganharam os seus títulos durante uma complicada situação do xadrez mundial, descrita no Capítulo 4.)
A par dos Jogos Olímpicos de 1924 em Paris, a Federação Francesa de Xadrez organizou um torneio internacional de equipas, com 54 jogadores de 18 países. Em 20 de julho, dia da última ronda, 15 jogadores formaram a Federação Internacional de Xadrez sob o acrónimo francês FIDE (Fédération Internationale des Échecs). Essa federação começou a organizar umas olimpíadas de xadrez no modelo dos Jogos Olímpicos, e de 1948 em diante tornou-se a entidade oficial responsável por esses campeonatos mundiais, com uma categoria separada para mulheres. Eis as campeãs:
1. Vera Menchik (1927-1944†)
2. Lyudmila Rudenko (1950-1953)
3. Elisaveta Bykova (1953-1956, 1958-1962)
4. Olga Rubtsova (1956-1958)
5. Nona Gaprindashvili (1962-1978)
6. Maia Chiburdanidze (1978-1991)
7. Xie Jun (1991-1996, 1999-2001)
8. Susan Polgár (1996-1999)
9. Zhu Chen (2001-2004)
10. Antoaneta Stefanova (2004-2006)
11. Xu Yuhua (2006-2008)
12. Alexandra Kosteniuk (2008-2010)
13. Hou Yifan (2010-2012, 2013-2015, 2016-2017)
14. Anna Ushenina (2012-2013)
15. Mariya Muzychuk (2015-2016)
16. Tan Zhongyi (2017-2018)
17. Ju Wenjun (2018-)
Todos esses jogadores sempre arrastaram consigo uma aura especial quando entravam numa sala de jogo: entrou no edifício um campeão do mundo. São o equivalente, no xadrez, aos antigos residentes no Monte Olimpo, e é mais do que natural que o leitor venha a encontrar muitos dos seus nomes ao longo deste livro.
O xadrez está em toda a parte
Phoebe e Joey estão a disputar um jogo de xadrez rápido. Ao moverem as peças com uma das mãos, batem num relógio de xadrez com a outra. Depressa se torna visível que nem um nem outro sabem o que estão a fazer.
Joey: «Devíamos mas era aprender como se joga a sério.»
Phoebe responde: «Eu gosto desta nossa maneira. Olha!» Mexe uma peça, saltando por cima de várias das peças de Joey como se estivessem a jogar às damas. Remove uma das peças de Joey e grita triunfantemente: «Xadrez!»
Joey faz um ar impressionado e diz: «Bom movimento!»
A série Friends passou na NBC entre 1994 e 2004, mas, duas décadas depois, ainda é vista no mundo inteiro por via das reposições e dos serviços de streaming. Naquele que é um dos programas cómicos mais populares de todos os tempos, o xadrez faz múltiplas aparições, mais destacadamente no episódio 20 da oitava temporada, «The One With Rachel’s Big Kiss». Não é preciso uma análise muito profunda para perceber que o xadrez era retratado como um jogo complicado, enquanto Phoebe e Joey não eram exatamente conhecidos pelos seus dotes intelectuais.
Jerry Seinfeld, em contrapartida, o personagem que dá o título dessa outra «comédia de situações» enormemente popular nos anos 1990, Seinfeld, era bastante esperto. No episódio 9 da terceira temporada, intitulado «The Nose Job», descreve uma mulher com quem começou a sair: «A Isabel é a mulher mais desprezível que alguma vez conheci em toda a minha vida. Nunca me senti tão enojado mentalmente por alguém e ao mesmo tempo tão atraído fisicamente. É como se o meu cérebro estivesse a defrontar o meu pénis num jogo de xadrez.» No fim do episódio vemos um jogo de xadrez verdadeiro entre dois Jerry Seinfelds (por meio de alguns efeitos especiais), um a representar o seu pénis e o outro o seu cérebro. Ganha este último, enquanto o primeiro se queixa de sua falta de energia.
Na mesma série, George Costanza, o amigo de Seinfeld, é, por assim dizer, um tipo menos esperto. No começo de «The Engagement», o primeiro episódio da sétima temporada, George está a jogar xadrez com sua namorada atual, Alice. A cena de abertura foca o tabuleiro de xadrez. George faz uma jogada com as peças pretas, recosta-se muito satisfeito consigo mesmo e diz: «Bom, não tens para onde ir. Eu digo-te qual é o problema: avançaste a tua dama cedo de mais. O que é que pensas? Que ela é uma dessas feministas que querem sair de casa? Ná, a dama é à antiga, gosta de ficar em casa, cozinhar, tomar conta de um homem, certificar-se de que ele se sente bem.» Com um olhar severo, Alice mexe uma peça e diz: «Xeque-mate». George estuda a posição atentamente e diz: «Acho que não devemos continuar a dar-nos um com o outro.»
De The Big Bang Theory e Frasier a Cheers e The Simpsons, as cenas de xadrez aparecem em muitas séries populares – na verdade, há mesmo uma aparição especial na 28.ª temporada desta última: nada menos que Magnus Carlsen. É quase impossível, hoje em dia, ver uma série de televisão e não deparar com o xadrez numa altura qualquer. Acontece com tanta frequência que em minha casa já criámos o hábito de dizer «Não há volta a dar!» quando estamos sentados no sofá e descobrimos uma referência ao xadrez.
O meu amigo e colega
