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Recomeço em Nova Terra
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E-book496 páginas6 horas

Recomeço em Nova Terra

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Sobre este e-book

A obra aborda uma viagem de uma caravela, partindo do Porto de Sagres, um distrito no sul de Portugal, rumo às iniciadas colonizações na Terra de Santa Cruz, hoje nosso amado Brasil. Administrada por um frade jesuíta, a viagem tem o intuito de expandir na colônia a divulgação da fé católica aos indígenas, divulgando as essências de vida do Evangelho de Jesus, e continuar o processo de colonização para a prosperidade econômica da região. Muitos diálogos entre o frade o seu discípulo Zener trazem os conflitos de ideias à tona.
Entretanto o livro aborda outra situação, meramente espiritual, na qual esses protetores oriundos e orientados pela divindade suprema acompanham e intervém, manifestando-se sutilmente; envolvendo os passageiros e tripulantes num contato de surpresas que se desenrolam, conforme as aspirações do grupo com um todo, de que tudo correrá bem e para o melhor. Eventos na colônia são também demonstrados pelas incisivas incursões de vários navios, caravelas e corsários na Costa de Santa Cruz, elevando a preocupação dos indígenas pelas incertezas de que o contato com o homem branco possa ser nocivo à sua cultura e liberdade; programando assim uma pajelança, com o propósito de receber orientações dos antepassados de como prosseguir e agir.
O intuito da obra é trazer à flor da pele a ideia e lembrança dos valores que a aceleração do progresso deixou para trás e que são importantes rever nos dias de hoje, porque o avanço social está promovendo uma sociedade moderna, com poucas liberdades individuais, desprovida de vida simples em contato com a natureza e a exuberante natureza divina; dificultando as amizades sinceras e a tranquilidade, pela concorrência imposta pelo cotidiano nas conquistas e realizações; substituindo a fé por um domínio governamental no qual as inteligências criativas não são mais importantes; porque o sistema deseja criar tudo, dominar e controlar todos.
Aqui você encontrará muitas dicas espirituais, sob mensagens do Evangelho de Jesus e de outros líderes, que buscam nortear a vivência em qualquer idade ou tempo, em favor da felicidade e liberdade. Na história humana, desde o século XV, quando a evolução tecnológica era lenta, mas progressista, facilitando uma vida cotidiana baseada em atividades quase exclusivamente de sobrevivência ou subsistência, com alguns personagens que se destacam pelas ilustres contribuições artísticas, culturais, filosóficas e tecnológicas até então notáveis na Europa e Ásia, tivemos várias visões de mundo, hoje passíveis de confusão pela intensidade de informações que a tecnologia nos oferece.
IdiomaPortuguês
EditoraViseu
Data de lançamento20 de jan. de 2025
ISBN9786528005499
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    Recomeço em Nova Terra - Marcos Sales

    Capítulo 1

    Conhecendo a identidade própria e coletiva

    Zener, que sempre se sentira em paz consigo mesmo, buscando nas amizades do dia a dia a construção de sua personalidade e seus valores, de repente… Encontra-se em melancolia.

    O que tenho feito da vida? — pensou ele, dizendo para si mesmo.

    Com o olhar vagueando por entre as ondas e o horizonte profundo, quase não erguendo os olhos para o alto, sente-se confuso, vazio, incompetente.

    — Boa tarde, meu caro! — Uma voz doce desperta o melancólico. — Diga o problema que lhe ajudo a encontrar senão a causa, pelo menos a solução — observa risonhamente Madalena, jovem amiga.

    — Boa tarde, meu encanto, tudo bem?

    — Comigo sim, mas contigo não está parecendo. O que houve?

    — O que te traz aqui? — Dirige-se Zener com atenção para Madalena, sem quase se mover.

    — Gosto de passear pelo cais quando estou de folga e Auli na escola. Aqui vejo pessoas diferentes, vestidos coloridos com vários motivos incomuns e até uma prosa com algum dos estrangeiros que nos trazem notícias de longe, o que me interessa. Mas e você, com esta cabeça baixa… Pensando? Ainda não o vi assim antes!

    — Nada. Tenho me sentido só e perdido, mas não sei por que…

    — Está com algum problema sério ou só é falta de uma bela amizade a compartilhar sorriso, hein?

    — Sinto que estou onde não deveria estar, ou não fazendo o que deveria fazer, só isso…

    — Meu amigo, não deixe a agonia o alcançar, fuja dela. Olhe para o horizonte…

    — Já olhei, fico é mais confuso e perdido…

    — Não com pressa ou desinteressadamente… Olha de novo…

    Madalena pega nos ombros de Zener e posiciona seu tronco e sua cabeça na direção do horizonte, cautelosamente. — Continue olhando profundamente, deixe que a paisagem lhe envolva, copie os desenhos na mente…

    Madalena lhe solta e verifica que ele parece agora estar entregue ao horizonte.

    — Isto, continue olhando, levante a cabeça e não fixe teu olhar nas ondas, mas na linha entre o mar e o céu, entendeu?

    — Sim, e daí? — pergunta Zener com tom suave na voz.

    — E daí? Não está vendo nada?

    — Um enorme mar azulado e um horizonte que vai escurecendo aos poucos…

    — Meu querido, isso todos veem. Não está vendo nada, além disso?

    — Não deverá chegar nenhum navio nas próximas três horas, eu creio…

    — Não se trata disto. Olhe com sua alma e conseguirás ver…

    —Ver o quê?

    —Bem… Olhe calmamente e perceberás as mudanças de colorações que se alternam entre as nuvens, o mesmo com as ondas perdendo aos poucos o reflexo ainda do astro-rei… Nesse exato momento.

    — Agora concordo, é relaxante e tranquilo observar essas nuances… Com esse olhar poético. Mas aquele vazio continua, e sem saber por que e o que fazer para mudar essa situação.

    — Agora pegue o que acabamos de observar e com sua alma transfira para sua vida…

    — Como assim? — pergunta Zener, com tom mais acelerado na voz.

    — O que acabei de mostrar é que você não deve ficar parado, senão se esvazia de vontade. Não deve ficar a sós, senão a tristeza lhe alcança. Não deve se esquecer de que tudo se movimente; se não, pode vir a ser atingido por qualquer coisa. Entretanto, não exceda aos seus limites, pois, como a maré, ora se acelera nas protuberâncias, ora se acalma serenamente na enseada, mas nunca para, compreende? — diz Madalena calmamente, envolvendo o amigo num carinhoso abraço fraterno e, fitando-lhe nos olhos, aguarda que se pronuncie, observando-o.

    Zener ergue novamente a cabeça, fita o horizonte mais uma vez com toda força no seu olhar, com o corpo ereto e estático, e Madalena percebe que ele está tentando ver a vida como ela enxerga, quando observa o horizonte. Pega-lhe pelo queixo como uma mãe sustenta o filho e sussurra:

    — Agora sim… Estás vendo a vida lá longe, irradiando movimento, ação, atitude, postura, beleza, encantamento… Não é verdade? — pergunta, com suavidade, Madalena.

    — Já chega, já entendi! — afirma Zener, voltando-se para Madalena que acaba por se assustar.

    — Calma, amigo, o que houve, atrapalhei sua meditação? Porque esta mudança tão repentina? Irritei-lhe?

    — Não, amiga, fizeste o melhor, acordaste-me… — Zener sorri, despede-se de Madalena com um piscar de olhos e segue para a cidade.

    — Agora o vazio vai ficar comigo, é? — questiona Madalena, sorridente… — Zener volta e lhe diz, meio atrapalhado:

    — Não, amiga, é que entendo agora que posso construir meu destino. É para lá que quero ir… — declara Zener, apontando para o horizonte.

    — É lá que quero estar… É naquele futuro que pode estar o meu destino…

    Sorriem e descem correndo abraçados pelas escadas do cais em direção à quitanda na cidade.

    Escuta-se o soar de um aviso grave e contínuo, como uma roda girando vagarosamente e raspando entre as montanhas do vale, é o toque de uma trombeta anunciando a proximidade do horário de partida de uma nau.

    Na taberna, aguardando atendimento, Zener e Madalena se põem a conversar.

    — Sabe, Madalena, a intenção mais heroica de nossas vidas geralmente vem de há alguns anos, quando na infância, até mesmo na adolescência, surge-nos aquela sensação de poder mudar o mundo, ajudar a curar pessoas, enfim, sentimo-nos como heróis, pequenos guerreiros da verdade e do bem em corpo singelo e puro de uma criança.

    — É, geralmente esse sentimento aflora no início do convívio social familiar, com os pais, irmãos e parentes; depois nas amizades, na escola, na vida religiosa e por aí vai.

    — É, até num tempo da vida adulta, quando ainda não deslumbramos novas possibilidades, e com o conhecimento e descobertas que percebemos nos estudos maternais, nos ensinamentos dos evangelhos e outras inúmeras fontes de saber, na diversidade de livros e culturas que nos chegam.

    — Assim é, um leque de possibilidades nos é oferecido quando as alternativas nos abrem os olhos, quando nos é dado o direito de estudar, aprender a ler, escrever e conviver. Sentimo-nos capazes de descobrir todas as verdades, vencer todas as barreiras e problemas, inventar alguma coisa que mudará ou salvará o mundo. Não é disso que fala? — pergunta Madalena.

    — Sim, mas ao longo da existência essa intenção varia de intensidade e/ou alterna de valores de uma pessoa para outra, isto como se houvesse várias pessoas pensando juntas, sonhando diferente, desejando várias coisas ao mesmo tempo, brigando, discutindo, atacando-se, enfim: construindo-se aos poucos — diz Zener, sinalizando seu pedido ao servidor.

    — Verdade, mas essas situações todos passamos para nos aperfeiçoarmos, para alcançarmos a verdadeira liberdade que o espírito deseja, rumo à felicidade. E salvar o mundo não pode ser o objetivo principal, acredito que salvar a si mesmo é o primeiro passo na caminhada — diz Madalena.

    — Pois esse é o dilema que proponho, pois que meu trabalho com estudos de observação que faço e anoto das pessoas que entram e saem no porto, a fim de determinar as propagações de várias pestes, principalmente a Negra, que a tantos já dizimou; levam-me a crer que o saber e a cultura, ao invés de ajudarem a pessoa a estruturar sua personalidade e identidade única, permitem que, às vezes, ocorra o inverso em muitos casos, nos quais algumas pessoas ficam com a mente mais apagada, obscura, inerte; preferindo optar por serem ou terem uma identidade mais comum à coletividade, contentando-se com o que o mundo tem a lhes oferecer ou possibilitar possuírem…

    — O vazio de uma fé é o que as leva para lá, essa tal zona de conforto ou ociosidade. Pois a fé, verdadeira, sempre dá motivações para o progresso e o engrandecimento de todos coletivamente. Algumas pessoas sem essa motivação, sem essa fé num futuro melhor, respiram porque é um ato involuntário, vivem porque veem os outros viverem, podem até trabalhar e construir, mas, em resumo, não passam de autômatos. Percebi isto no convívio que tive com alguns indivíduos da corte.

    — Pois bem, as pessoas que nos rodeiam, e com as quais nos relacionamos, percebem ou pressentem em nós, e no nosso íntimo, o que nem sempre conseguimos esconder nem compreender. São elas que mais nos conhecem, às vezes até mais do que nós mesmos — observa Zener.

    — Então, buscarmos nos próximos a base para nossa identidade me parece ser o primeiro caminho para o que deseja se descobrir, a partir da sociabilidade do espírito de comunidade e de equipe.

    — Ótimo, minha cara, bem disse. Por acaso também estuda em casa literatura de sociologia?

    — Nem tanto. Se bem que aprecio toda leitura que traz compreensão. Porém, na verdade, esses pensamentos não são meus, apenas os repeti para você, apesar de concordar com eles em profundidade, pois foram passados a mim por meus pais. Muito do que somos trazemos de um passado distante, não acha? — explica-se Madalena.

    — Às vezes sim, às vezes não. Principalmente agora, estou vivendo um conflito interno entre um tipo de identidade coletiva, onde deva continuar meu trabalho, e uma identidade própria, onde deva buscar orientar meus atos, meu trabalho e meus pensamentos para meu futuro — concluiu Zener, com a chegada dos pedidos à mesa.

    Um frade Jesuíta, percebendo o alcance que a conversa tomava, sem querer ser indiscreto, aproxima-se e tenta participar do diálogo.

    — Com licença, cavalheiro. Perdão, nobre dama. Desde que saí do mosteiro, há duas semanas de carroça e a pé, por vários vilarejos, entre curiosas almas transeuntes que encontrei, não vi ainda uma conversa tão interessante e entusiasmada… — interveio o frade. — A propósito, desculpem-me a intromissão, mas vocês são moradores locais?

    — Sim — respondeu com graça, Madalena. — Precisa de algo, senhor viajante?

    — Querida jovem, na verdade estou aguardando a chegada, por esse mês, de uma nau, mas não tenho com quem conversar ou que seguirá viagem comigo, pelo menos até agora. Assim, até lá, gostaria de trocar ideias, ou algo assim. A conversa de vocês muito me interessa, por isto me aproximei. Espero não estar sendo inconveniente ou inoportuno e atrapalhando vossas refeições — diz o frade, ainda de pé.

    Risos de Madalena e Zener.

    — De maneira alguma nos atrapalha, nobre sacerdote. Fique à vontade — convidou Zener o frade a se sentar à mesa, com assentimento cordial de Madalena, expondo o semblante encantadoramente. Ao que se sentou o frade e disse:

    — Percebi que falavam sobre identidade pessoal e coletiva, e este assunto muito me interessa, desde cedo quando ingressei na missão cristã e jesuíta. A identidade humana em relação à divina desperta no ser humano o interesse próprio e coletivo… Ora, estou a falar e nem nos apresentamos. Bem, qual o labor de vocês, são professores?

    Risos novamente.

    — Madalena é uma ótima dançarina, meu caro, conhece todos os movimentos das culturais teatrais desde a Dinamarca até a Itália. Já viveu entre os nobres, mas agora representa belissimamente por meio de sua dança, artes culturais, alegrando a alma e os corações dos menos afortunados… — denuncia Zener, oferecendo os quitutes ao frade.

    — Exagero dele, senhor… Somente sou uma aprendiz na arte de representar… — Madalena interrompera Zener pra não ficar encabulada. — Minha filha que me acompanha em algumas apresentações é quem realmente encanta a plateia, ela é contorcionista, muito jovem e encantadora. Mas nosso amigo aqui é um contínuo estudante, inclusive já formado em Sociologia — diz, alegremente, Madalena.

    — Pelo que pude perceber, ambos são muito bem instruídos pelas terras dessa costa. Supus que fossem professores pelas colocações que pude lhes escutar sobre identidade.

    — Na verdade, senhor, somos leitores de toda literatura que possamos ter em mãos, o que nos ajuda muito a compreender a vida de tantos quantos passam por este vilarejo — explica Zener. — Mas e o senhor, é frade, professor ou viajante?

    — Sou frade, vim do seminário no Mosteiro São José, povoado de Firenze. Meu nome é Francisco Nicola Montes de Assunção. Fui criado desde órfão pelos confrades e me integrei ao seminário desde cedo. Lá leciono para os jovens seminaristas, porém fui recentemente designado a participar de mais uma missão jesuíta, para catequese de silvícolas e indígenas. Mas e você, minha jovem?

    — Eu sou Madalena do Carmo Rodrigues… Filha de portugueses. Sou atriz, dançarina e mãe.

    Risos.

    — Ser mãe é realmente uma profissão divina! — exclama o frade com descontração e segurança no falar, ao que todos sorriem.

    — Eu sou Zener Lucius de Assis, mãe grega e pai português. Sou sociólogo e trabalho no cais para a coroa.

    — Prazer imenso em conhecê-los — anuncia o frade, sorridente e entusiasmado.

    — Mas e a nau que estás a esperar? — pergunta Madalena.

    — Pois sim, é nela que seguirei para outras terras distantes, recém-incluídas à Coroa Portuguesa.

    — Ah sim, então irá levar as palavras do cristianismo aos povos incultos e selvagens. Por isto esse interesse em discutir identidades? — pergunta Zener.

    — Isto, veja bem. Para nós, os indígenas em geral são selvagens. Mas entre eles há os que se destacam por possuir uma identidade única, individual, que os fazem diferentes, nem melhor ou pior, mas com seu potencial inclinado a chefiar, organizar ou exercer inúmeras funções na comunidade de uma tribo em prol dos interesses comuns. Nisto não há selvageria, acontece que é uma identidade distinta da qual estamos acostumados. Pois a identidade é o que nos caracteriza como pessoas, seres humanos, criaturas diversas em todo o universo… — disse o frade.

    — Verdade, cada pessoa sabe por si que não é igual a nenhuma que existiu ou vai existir, por fatores ambientais, sociais, culturais ou temporais. Este diferencial pode agradar ou não, pois nem sempre somos ou estamos felizes conosco mesmo; seja por nossos conceitos, nossas atitudes, aparência, conquistas, realizações e outros tantos motivos reais; os quais fazem parte da existência, e até os motivos imaginados por nós mesmos, que mesmo assim podem ameaçar nossa identidade — acrescenta Zener, interrompido por Madalena que diz:

    — Se somos algo, outros não o são; se queremos algo, outros não querem; se desejamos, outros já desprezam; se acreditamos, outros são céticos; se esperamos, outros se desesperam; se vemos, sentimos, entendemos, outros já nem percebem… — Interrompida pelo frade.

    — A identidade sendo a soma de tudo que nos caracteriza como criatura, ser vivo, ser humano, pessoa, indivíduo social com suas qualidades e defeitos etc., sempre será única, sempre. A identidade de um ser não se completa com a identidade de outro ser, mas em conjunto; compartilhando experiências, cada um se completa por si até a perfeição; mas, ainda assim, na perfeição, terá identidade própria, pelos caminhos próprios e distintos pelos quais evoluiu — observa o frade; ao que Zener, concordando, balança a cabeça.

    — Como então pretende catequizar indígenas? Não corres o risco de assumir uma postura mais selvagem, longe da civilização e do cristianismo que estás acostumado? — perguntou Madalena.

    Risos.

    — Interessante, não pensei nessa hipótese, mas vou investigar. Já se ouviu dizer que o Homem é produto do meio em que vive, mas isto não é verdade, ou pelo menos não deverá ser em todos os lugares. Só se torna produto do meio aquela pessoa que não se entusiasma em mudar as coisas, aquela que não sonha mais, aquela que desistiu de salvar o mundo; ou ainda as pessoas inexperientes e/ou pouco observadoras. Mas a pessoa que ainda procura ver nas próximas, suas boas qualidades adormecidas e as coloca em ação para fora; que interagindo com seu próximo descobre as fraquezas humanas e as supera, sem ter que vivenciá-las ou sofrê-las na pele; aquela que acredita que o possível se faz e o impossível será feito um dia por alguém; esta, sim, certamente não é produto do meio em que vive, mas é produto da sua identidade também, é produto da prática de suas características distintas, pessoais, únicas. É produto de seu próprio livre-arbítrio, sujeito às leis da vida, da criação e do universo — disserta o frade, com tanta ênfase que até outros frequentadores da taberna discretamente observam a sua explanação com interesse.

    — Assim, caro frade, poderás ter um trabalho bastante difícil na colônia tribal que irá encontrar, pois pelo que tenho pesquisado entre os viajantes que passam por este porto há três anos, sendo este o serviço que me mantém e aos meus estudos, posso lhe assegurar que existem selvagens capazes das mais absurdas atrocidades com estrangeiros que se aproximam de suas terras. Há outras histórias de que existe baixo grau de civilidade, onde andam nus, sem vergonhas ou cuidados — observa Zener, com interesse na postura do frade em relação ao futuro incerto que o espera.

    — Verdade, amigo, mas bem sabes que muitas dessas histórias são divulgadas justamente para inibir os aventureiros e desbravadores à procura de novas riquezas, não sabes? — intervém Madalena.

    — Certamente, amiga. Apenas acredito que inúmeras possibilidades desvantajosas acompanharão nosso amigo frade na empreitada que se impõe. As viagens são perigosas, o ambiente dos navios é perigoso à saúde; os climas são imprevisíveis, isto sem admitir a ideia de ter que aprender um idioma diferente para catequizar alguma tribo ou colônia que talvez nem queira se dar conta da civilização que há por trás de tudo. A sociologia me ensinou que, num mesmo momento, várias comunidades se encontram em níveis culturais e sociais tão distantes que qualquer contato ou aproximação, pode gerar conflitos bastante relevantes e inesperados entre elas… — acrescenta Zener.

    — Meu caro, não estou literalmente me impondo tal tarefa. Cumpro o dever de evangelização e meus superiores entenderam que serei útil nesta missão. Aceito em favor do cristianismo que pretendo ver divulgado cada vez mais entre os filhos de Deus. Para isto, pretendo ajudar as pessoas a moldarem sua identidade individual na história e nos ensinamentos do Cristo Jesus. Nossa comunidade, a despeito de muito evoluída, ainda contém cidadãos contrários ao progresso alheio, em favor do próprio; contrários ao bem-estar da comunidade, em favor do próprio bem-estar. Muitos ainda não se deixaram alcançar pelas palavras do evangelho, compreende? — pergunta o frade, ao que Zener assente com o semblante concordando, mas sem se expressar. Ao que intervém Madalena:

    — A identidade coletiva em nossa sociedade deveria ser a soma das identidades próprias individuais das pessoas que a compõem; como uma família é a participação e interação de todos os familiares. Assim, tão melhor será a coletividade quanto melhores forem as pessoas que as caracterizarem. Mas nem todas as famílias são cristãs, muitas pessoas nem conseguem entender o porquê das palavras do evangelho, por muito que ouvem ou ficam sabendo — responde Madalena com ar de melancolia, pela lembrança do tempo em que vivera na corte, olhando para Zener para que se manifeste também.

    — E, ainda, na coletividade poucos têm acesso ao poder, poucos detêm os recursos necessários aos empreendimentos; poucos conseguem se destacar de forma a mudar o sentimento e progresso coletivo. Isto porque o ideal comum não é tão comum como parece, os ideais próprios estão sobrepujando os ideais coletivos. Se não concordamos com algo na coletividade, é porque percebemos que algo precisa ser mudado — acrescenta Zener.

    — Isto mesmo, e geralmente muitas pessoas percebem o que está desajustado na coletividade, têm até solução particular para cada caso de frustração coletiva; todos nós somos um pouco de médico para os problemas humanos da saúde. Um pouco evangelizadores para os problemas do espírito e até políticos para os problemas sociais e econômicos. Mas a grande maioria não faz nada de concreto. A maioria nem sequer dedica algum tempo em buscar soluções, em criar alternativas, em despertar nos próximos essas preocupações para, a partir de diálogos, buscarem atitudes… Como estamos fazendo agora — observa o frade, em tom alegre e descontraído, mas interrompendo por perceber que a maioria voltava a atenção para o cais.

    A grande nau finalmente partira. Da taberna, via-se logo abaixo no cais os últimos tripulantes a manobrarem. Novinha, estreando mais uma obra do estaleiro local. Sagres tinha essa maravilha de obras realizadas por grandes artesãos contratados pela Coroa, ponto estratégico para produzir e lançar ao mar novas embarcações. A enseada muito perigosa, apesar do conhecimento local de todos os recifes tanto em maré alta como baixa, era um teste perfeito que todos gostavam de apreciar em silêncio, observando aquela majestosa nave romper as ondas em manobras, que fazia qualquer um sonhar estar em alto-mar em grande tempestade, mas com a consciência de estar com os pés em terra.

    — Por favor, continue frade, estamos ouvindo com atenção. — Ao que Madalena intervém.

    — Então… A grande maioria está em busca mesmo é do pão de cada dia e só! — exclama Madalena. — E ao ver que ambos os senhores lhe enviam o olhar de curiosidade, continua a falar. — Para muitos, não há tempo nem sequer para pensar em outra coisa que não seja comida. Na corte pude ver que o status, a moda e a etiqueta são o que importa à grande parte da nobreza, que de nobre mesmo tem pouco… A nobreza, considerando-se superior, perde em não conhecer os desafios e as conquistas que muitos dos pobres alcançam, com imenso valor moral para si mesmos. Ah se a nobreza dispensasse maiores atenções e incentivos aos pobres! Ajudaria muitos artistas e cultos a despertarem para uma luz comum em conhecimento das verdades. Poucos saem da repetida mesmice para inovar e mudar o mundo para melhor… Que pena! — conclui Madalena, com um denotado desapontamento. Mas Zener e o frade se entreolham e sorriem.

    Risos.

    Tal diálogo causou nos presentes certa curiosidade, acompanhando com os ouvidos e de certo modo se encontraram como que participantes passivos dos diálogos. Há muito não havia um frade ou sacerdote que animasse a fé dos cidadãos. Alguns aguardavam a finalização, mas esperando que se demorasse; tão interessante estava em ouvir. Assim, sem preocupação com os resultados, mas medindo as palavras, os três interlocutores continuavam juntos nas explanações, mas tanto Zener quanto Madalena aguardando a pronta fala do frade; muito culto e animado para falar.

    — Então a grande maioria vai vivendo assim, tanto nobres quanto pobres, perdendo sua própria identidade e assumindo a identidade coletiva implantada no meio em que vivem, que sem perceber lhes é imposta sistematicamente. A grande maioria é condicionada a viver para os propósitos da coletividade, mesmo que não digam respeito à construção de seus próprios interesses diretos. Uma grande parte das pessoas chega a perder sua própria identidade para a sociedade em que vive, porque perdeu tempo demais com a coletividade e se esqueceu de si mesma. E reconstruir agora parece desanimador, porque faltam a fé, a saúde ou as oportunidades; e aí a sociedade lhe abandona, porque já não serve mais para contribuir com os propósitos coletivos — diz o frade, com o olhar buscando o movimento dos pedestres lá na rua…

    Assim faz o frade uma pausa, como que procurando as palavras certas para concluir, até que prossegue.

    — Na história da Humanidade, verifica-se que sempre houve problemas sociais devido a variados fatores. Entretanto alguns buscam mudanças, alterações, inovações que possam unificar os habitantes do planeta em algo comum. Alguns que não puderam salvar o mundo no seu momento no passado; não conseguiram ainda: mas suas experiências, sua história e seus ensinamentos com conceitos e verdades, continuam alimentando as esperanças de outros tantos, que agora não conseguem salvar o mundo, mas salvam a si mesmos e aos seus mais próximos com seus exemplos — fala o frade, com clareza e profundidade.

    Pausa novamente para se concentrar, alimenta-se com os outros e continua:

    — Assim, vemos a importância das palavras que o Cristo deixou a todos. Quando nos sentirmos abandonados, derrotados, desiludidos, magoados e frustrados conosco mesmo ou com a sociedade ou alguém, aí deve começar a surgir em nós o desejo de que a nossa identidade tenha forma e força. Alguns se desesperam exatamente nesse momento, em que estão prontos para agir e reiniciar a caminhada. Outros se dão por vencidos sem recorrer à luta. Muitos não percebem que sempre é possível recomeçar quando se tem vontade interior. Outros param e dormem no tempo, dizendo aguardar algo novo, acomodando-se numa zona de conforto, e se paralisam nas realizações. Esse descuido acontece normalmente porque estamos acostumados a servir à coletividade, esquecendo-nos de servir a nós mesmos. Precisamos aproveitar alguma parte da integridade que sempre existe bem lá no íntimo, usá-la para que nos desperte novamente a relembrar a infância de nossa identidade, buscar os valores, resgatar os desejos e aspirações para agora, não salvar o mundo, mas salvar a nós mesmos da inércia e da paralisação — relata o frade, buscando com o olhar a jovem Madalena, como que a lhe pedir que continue a conclusão, demonstrando ansiedade para que possa também falar.

    — É nesses momentos que a educação, a família, a sociedade e a sensação de religiosidade, que revela nossa pequenez ante o criador e toda sua criação, ensina-nos a humildade para com todas as suas leis — acrescenta, avidamente, Madalena.

    — Verdade, leis divinas e imutáveis da vida às quais começamos a entender no seio familiar onde crescemos… Se não conseguirmos ter tido um lar normal, então é nessa percepção que as amizades sinceras conquistadas ou por conquistar é que nos revelam e poderão revelar que ainda e sempre teremos valores adormecidos, mas nunca apagados; ensinando-nos que é necessário respeito e a verdadeira humildade para buscar um ombro amigo — diz Zener.

    — Leis que disseminam a humana e pacífica convivência entre os seres. É ainda nesse instante que todo nosso conhecimento adquirido fará o diferencial em nossa existência. Mesmo nos sentindo sozinhos e sem fé, sem familiares por perto, sem amigos, sem ninguém a quem recorrer, sem conseguir nem sentir a presença de nenhum ente da natureza; e ainda pudermos respirar: é bom perceber este pequeno movimento, que se faz humildemente presente e constante, mesmo sem nossa vontade expressa, porque ele foi determinado e programado para a autossobrevivência, para que existíssemos, sob as mais terríveis condições emocionais e intelectuais, e, ainda assim, continuar colhendo na natureza o oxigênio que encherá nossos pulmões com energia e alimenta nosso sangue, que regará nosso cérebro e músculos, que percorrerá nossos sentidos e nervos, que nos erguerá e fará nos lembrar de que sempre haverá a lei natural a nos demonstrar que nossa identidade é única, é importante e nunca se perde — finaliza Madalena, com a atenção de todos voltada às suas palavras.

    — Segundo a doutrina cristã que professa, caro frade, com seus valores e ensinamentos cristãos, quais são os pontos determinantes de suas ideias de leis divinas e naturais? Pois confesso que preciso de um maior detalhamento, pois me pareceu que sua teologia inclui conhecimentos de química e física, fui claro? — pergunta Zener, depositando algumas moedas à mesa e chamando o servidor.

    Sem perceber, fizeram a refeição bem demoradamente na taberna e, adiantadas as horas, o proprietário recolhe a conta e os talheres. Elegantemente Madalena pede licença, pois tem que ir ao encontro da filha, buscá-la na escola e ir para casa. O frade percebe a inquietação da jovem e os convida a sair até a calçada, mas não pretende deixar Zener sem resposta.

    — Vamos indo, amigos. Enquanto lhes mostro onde estou acomodado. Podemos continuar?

    — Tudo bem, mas… Só mais um pouco de tempo, pois tenho que buscar minha filha na escola… — fala Madalena, referindo-se a Auli, procurando com os olhos ver o relógio do recinto.

    — Caros jovens, o que posso lhes dizer das leis naturais criadas por Deus, segundo meu entendimento, as quais carecem possuir manifestação de caráter constante, que regem todo o universo! Posso sim. Com a simplicidade que meus conceitos apreendem e meu escasso saber, resumidamente distingue, as leis podem ser nomeadas em: movimento, providência e luz.

    — Gostaria mesmo de ficar, mas é melhor que vá mais cedo. Com a licença dos senhores, até mais. Vou agora cuidar do meu anjinho e dos afazeres do lar. Até mais ver. — Madalena despede-se de Zener e do frade, com um sorriso.

    — Claro, minha jovem, esteja sempre à vontade. Espero confabularmos ainda um pouco mais noutra hora, pode ser?

    — Sim — responde Madalena, sorrindo ao sair.

    — Encantadora essa jovem. Parece ter sofrido muito e aí está: jovem, inteligente e cheia de disposição para continuar prosperando. Um belo coração deve ter — acrescenta o frade, ambos observando a jovem graciosamente sair da taberna e descer a alameda.

    — Certamente, meu caro frade… Não fôssemos amigos desde muito tempo, não sei como teria me virado por aqui. Sempre fora um braço-direito e um ombro amigo em todos os momentos de dificuldades e transições que enfrentei. Devo-lhe muito do que sou — diz Zener acompanhando-a já ao longe.

    Madalena desce uma estreita rua, calçada com pedras da própria região, uma das antigas, cercada de casarões imponentes que resistem bravamente aos ventos vindos do mar. Edificadas por antigos moradores que mantiveram a sede da cidade bem construída e preservada, como um forte, a resguardar a segurança da elite local. Uma arquitetura que encanta a tantos quantos chegam pelo porto, como um convite à segurança, paz e tranquilidade.

    — Espero a ver novamente antes de minha partida. Pretendo corresponder com ela enquanto estiver noutras terras, será interessante trocarmos notícias… Uma jovem apreciadora das pessoas, da cultura, e já com tanta responsabilidade, provavelmente saberá identificar todas as mudanças culturais e sociais que passarem pelo porto; assim, com suas cartas, sentir-me-ei ainda nestas terras.

    — Com certeza, vai vê-la. Ela não perde uma partida de embarcação no porto, ao menos como hoje que se tratava de um teste da nau recém-produzida e navegada para testes. Ela adora observar as saídas e chegadas de pessoas de tantas nacionalidades e culturas diferentes, apreciando a emoções das pessoas em busca de novas aventuras, ante as incertezas que possam surgir. Bom, poderíamos voltar ao assunto anterior?

    — Certamente — responde o frade enquanto despedem-se acenando com a cabeça aos demais frequentadores da taberna que já se retiravam também; alguns ansiosos em espalhar a notícia de que há um sacerdote na Vila de Sagres e que poderá ministrar missas, há tanto tempo sem serem realizadas.

    — Como pode me esclarecer acerca das leis de movimento, providência e luz? — Continuaram a breve caminhada pelas ruelas cujas lamparinas já começavam a serem acesas, antecipando a chegada de mais uma noite, antecedida pelo nevoeiro que se impõe no momento.

    — Chegamos, aqui que estou instalado. Vamos, entre e continuaremos nossa conversa enquanto preparo um chá — convida o frade.

    — Ótimas instalações, meu caro, pouca bagagem e muitos livros, hein!

    — Oh sim, não vivo sem os livros — observa o frade enquanto acende o fogão.

    — Mas voltando às leis, poderia as resumir?

    — Ah sim. Movimento, providência e luz. Movimento é a lei de atividade e dinamismo que sempre gera e transforma vidas. É a fonte de energia propulsora de todas as forças, conhecidas ou não, que ordena as mudanças que acontecem nos astros e até mesmo no interior das moléculas, pois não há nada continuamente parado na natureza.

    — Entendo, mas o que ele tem a ver com o ser humano diretamente? — pergunta Zener.

    — Estamos todos sujeitos e envolvidos por essa lei, com a mente em funcionamento e acompanhando este movimento, nos ciclos do presente. O passado não tem volta, o presente é a soma das experiências preparatórias para o futuro, cujos bons ensinamentos e aprendizados devemos aplicar no aqui e agora. O futuro é incerto, mas pode ser preparado e programado em parte. Não existe o ato de se esquecer do passado, na verdade ninguém o esquece. Ao contrário, quanto mais o pretendemos apagar da memória, mais ele se apresenta vivo e forte em nossas mentes. Entende o dinamismo do movimento?

    — Como aproveitar esse movimento para nos melhorarmos então? — pergunta Zener, mais curioso ainda.

    — O movimento nos tira da ociosidade, leva-nos ao fluxo das coisas que se sucedem, embala-nos nas experiências profundas, ensina-nos que tudo se dirige e caminha para a luz, com movimento lento, acelerado ou equilibrado. O movimento é uma das leis que conseguimos perceber com nossos sentidos numa limitação restrita a alguns fenômenos na matéria bruta em nosso planeta, mesmo sem podermos compreender a complexidade de inúmeros movimentos que ocorrem no universo, na expansão das galáxias e que certamente são importantes de alguma forma na construção da elevação dos mundos e dos seres — afirma o frade com entusiasmo, sempre apreciado por Zener e seu aparente deslumbramento.

    O fogo já aqueceu o suficiente para que a vasilha de água sofra a fervura na medida certa e o chá fique apropriado ao paladar.

    — Mas onde está o cristianismo no meio disso tudo? Não compreendo… Como

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