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Pessoa & Saramago
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E-book340 páginas4 horas

Pessoa & Saramago

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Sobre este e-book

«Ainda que firmados em dois projetos literários diferentes, em dois tempos mentais diferentes, quase antagónicos, se não mesmo contraditórios, duas caraterísticas são comuns a Pessoa e a Saramago:– A total transgressão dos códigos estéticos do seu tempo, balizando um novo vinco na história da literatura;– Uma representação absolutamente original da língua, do homem e da sociedade – Pessoa, da crise do sujeito literário e existencial do princípio do século, respondendo com a originalíssima multiplicação da identidade autoral e narrativa; Saramago, da situação crítica do mundo ocidental no final do século, postulando uma escrita que funde o romance com o ensaio, uma escrita que não intenta apenas revelar o mundo, mas sobretudo, usando a sua visão pessoal do mundo, problematizá-lo, complexificando o estatuto do narrador, incorporando neste o autor.»É assim que Miguel Real, conhecido ficcionista, crítico literário e ensaísta, que há mais de vinte anos se dedica ao estudo de autores e pensadores portugueses, resume o presente ensaio que, partindo de uma conferência realizada no México, trata do que é próprio e afim.
IdiomaPortuguês
EditoraD. Quixote
Data de lançamento1 de out. de 2021
ISBN9789722073653
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    Pessoa & Saramago - Miguel Real

    Ficha Técnica

    Título: Título: Pessoa & Saramago

    Autor: Miguel Real

    Edição: Maria do Rosário Pedreira

    Revisão: Madalena Escourido

    Design da capa: Rui Rosa / LeYa, S.A.

    ISBN: 9789722073653

    Publicações Dom Quixote

    uma editora do grupo Leya

    Rua Cidade de Córdova, n.º 2

    2610-038 Alfragide – Portugal

    Tel. (+351) 21 427 22 00

    Fax. (+351) 21 427 22 01

    © 2021, Miguel Real e Publicações Dom Quixote

    Todos os direitos reservados de acordo com a legislação em vigor

    www.dquixote.leya.com

    www.leya.pt

    Este volume é uma transcrição revista e muito aumentada da conferência com o mesmo título promovida para professores de Língua e Literatura Portuguesas na Universidade de Guadalajara no âmbito da Feira Internacional do Livro desta cidade, em 2018.

    Este livro segue o Novo Acordo Ortográfico de 1990 e, em conformidade, o autor atualiza também as diversas citações de texto que integram este volume.

    Índice

    Capa

    Ficha Técnica

    APRESENTAÇÃO – Transgressão estética: a heteronímia e o autor-narrador

    1. FERNANDO PESSOA

    1.1. A heteronímia: suprema ficção da ficção do século XX

    1.2. Pessoa e a cultura portuguesa

    1.3. A hermenêutica pessoana

    1.4. Mensagem: a imagética providencialista do Império

    1.5. Barão de Teive, António Mora e Rafael Baldaia

    1.6. A visão do mundo de Pessoa: a representação de uma mónada

    2. JOSÉ SARAMAGO

    2.1. A origem do autor-narrador de Saramago identifica-se com a origem do seu estilo

    2.2. O autor-narrador

    2.3. A ficção como iluminação da História

    2.4. Autor e autor-narrador

    2.5. A visão do mundo de Saramago

    Referências bibliográficas

    FERNANDO PESSOA

    JOSÉ SARAMAGO

    Miguel Real

    PESSOA & SARAMAGO

    Para

    Eduardo Lourenço,

    uma homenagem

    Para Pilar,

    com amizade

    Para Filomena,

    David e Bebé.

    Inês e Hugo,

    Alfa e Noa

    APRESENTAÇÃO

    Transgressão Estética: a Heteronímia e o Autor-Narrador

    Como declara Carlos Reis sobre a obra de José Saramago, relacionando-a com a de Pessoa, «se excetuarmos Fernando Pessoa, não há, neste século que está a terminar [século XX], outro escritor português que tenha dado origem a tão avultado número de ensaios, de dissertações académicas, de entrevistas, de colóquios e de programas de rádio e televisão, para já não falarmos noutras e não menos consequentes formas de amplificação da fortuna do escritor: as traduções e as adaptações» (Reis, «Pref.» a Leão e Castelo Branco, 1999: 9).

    Com efeito, duas décadas entradas no nosso século, já podemos afirmar com um grau muito sólido de evidência que Fernando Pessoa (1888-1935) e José Saramago (1922-2010) foram, pela qualidade e singularidade da sua escrita, dois dos maiores escritores portugueses do século XX, se não mesmo os dois maiores escritores do século XX. São, igualmente, e não por acaso ou por manipulação de agências editoriais, os dois autores portugueses cuja obra é editada internacionalmente, atingindo todos os cantos do planeta. A obra de cada um exprime, não um género ou uma especialização literária, mas uma Literatura por inteiro, isto é, dá corpo a uma visão universal da literatura do século XX, expressão do Homem do princípio e do fim deste período, que não poderia existir nos séculos anteriores e certamente também não nos tempos vindouros. São duas metonímias do estado de Portugal e da Europa no século XX. Porém, mais do que reagentes e correspondentes ao seu tempo, que o são, elevaram a literatura a um nível atemporal, aquela que é a verdadeira substância da grande literatura ou da grande arte: uma representação e uma forma estética absolutamente originais da língua, do homem e da sociedade. Por isso, se Saramago foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura, não se duvida de que Pessoa só não o foi por a sua obra só ter encontrado divulgação após a sua morte, em 1935, e sobretudo a partir da década de 1960.

    *

    Pessoa e Saramago podem ser figurativamente representados como as pontas de uma corda esticada, tensíssima, que foi a literatura portuguesa ao longo do século XX. Entre ambos, encontra-se o labirinto de uma centena de autores, que constitui a substância da literatura portuguesa neste século. Pessoa, no início da corda, com um projeto literário simultaneamente profano e sagrado, de dimensão sobretudo poética; Saramago, no final, com um projeto social e ateu, sem, porém, olvidar uma dimensão espiritual e, no final da sua vida, humanista. Ambos, com oficinas literárias diferentes (Pessoa: a heteronímia; Saramago: o autor-narrador), interrogam e problematizam os fundamentos religiosos e filosóficos da nossa civilização, propondo uma outra (Pessoa: o Quinto Império; Saramago: o comunismo e, a partir da década de 1990, o humanismo, cruzamento da valorização dos direitos humanos e dos direitos ambientais).

    Porém, ainda que firmados em dois projetos literários diferentes, em dois tempos mentais diferentes, quase antagónicos, se não mesmo contraditórios, há duas caraterísticas que são comuns a ambos os autores:

    *

    A total transgressão dos códigos estéticos do seu tempo, balizando um novo vinco na história da literatura;

    Uma representação absolutamente original da língua, do homem e da sociedade – Pessoa, da crise do sujeito literário e existencial do princípio do século, respondendo com a originalíssima multiplicação da identidade autoral e narrativa; Saramago, da situação crítica do mundo ocidental no final do século, postulando uma escrita que funde o romance com o ensaio, uma escrita que não intenta apenas revelar o mundo, mas sobretudo, usando a sua visão pessoal do mundo, problematizá-lo, complexificando o estatuto do autor, incorporando neste o narrador. Por respeito ao seu pensamento, quando falamos de narrador referimos sempre «autor-narrador».

    *

    Pelo primeiro ponto, efetuam uma rutura com o passado da história da língua e da literatura; pelo segundo, assumem ambos uma nova visão da essência da humanidade do homem representada esteticamente pela literatura. Nenhum outro autor português do século XX atingiu estes dois patamares com o mesmo nível de excelência, dialogando com os grandes autores do passado português, como Camões, Padre António Vieira e Eça de Queirós, e os grandes autores internacionais do século XX, como Kafka, Joyce e Borges, preparando e exigindo, para o século XXI, uma nova literatura.

    Como é evidente pela escrita de ambos, Pessoa e Saramago são dois autores muito, muito diferentes. O primeiro escreve uma obra nublada em sombras (e até em sombras de sombras, como Vicente Guedes, sombra de Bernardo Soares, ou o diálogo crítico de Campos com Caeiro, por sua vez sombras luminosas de Pessoa), em ambiguidades heterorreferenciais que, verdadeiramente, são autorreferenciais, minando o terreno alagadiço e aparentemente esgotado da identidade autoral, penetrando pela floresta (então praticamente virgem) da anfibologia literária, desprezando, ou pelo menos minimizando, a autoria e a identidade autoral únicas, repartindo-se por um jogo tensional, labiríntico e dramático entre os heterónimos, que são Pessoa mas também não são Pessoa; e mesmo quando é Pessoa, o próprio, a escrever, reconhece ser apenas tanto a mão de alguém que por ele escreve («Emissário de um rei desconhecido / Eu cumpro informes instruções de além»; «Não meu, não meu é quanto escrevo / A quem o devo?») como ser, não o cidadão Fernando Pessoa, mas parte constitutiva de um jogo dramático, uma «comunidade só minha», criando assim a nova realidade poética do «drama em gente». Embora mergulhada em sombras e ambiguidades, em penumbras espectrais, em fantasmas literários que são apenas seres de papel, a obra de Pessoa, no final, resulta numa esplêndida luminosidade e originalidade, como nenhuma outra foi criada na civilização ocidental e, presumimos, em todo o mundo.

    Ao contrário de Pessoa, Saramago é transparente, tem um registo claro da ideia que intenta escrever e os seus romances possuem uma mensagem ética apresentada como socialmente verdadeira em tempo de pós-verdade. E, ainda que a sua escrita se complexifique como uma igreja barroca brasileira, resta, no fundo, uma visão autoral clara, geralmente enunciada de um modo límpido e lapidar nas entrevistas de apresentação dos livros. Memorial do Convento e O Ano da Morte de Ricardo Reis são neste aspeto exemplares, a complexidade tortuosa da frase dilui-se na ideia límpida restada na mente do leitor. O primeiro romance reivindica o estatuto de uma épica da mulher e do trabalho (Blimunda e Baltazar) e da criatividade (Bartolomeu de Gusmão e Domenico Scarlatti); o segundo, uma lição ética contra o indiferentismo moral de Ricardo Reis e, por via deste, contra o próprio Pessoa. Cruzando-se os romances, diários e entrevistas de Saramago, constata-se a existência de uma continuidade e uma coerência entre o que diz e o que publica, entre o que escreve na década de 1980 e o que afirma na primeira década do século XXI, em suma, existe uma continuidade e uma identidade autoral mental e estética entre 1974 e 2010. Mas – timbre de grande autor – não se repete, no romance seguinte evidencia uma nova ideia original, nunca anteriormente pensada, de Levantado do Chão e A Jangada de Pedra a A Caverna e As Intermitências da Morte. Do mesmo modo, as denúncias políticas e sociais, embora mudem de destinatário consoante as zonas geográficas (Portugal, Europa, Chiapas/México, Amazónia, Argentina, Sarahoui, Palestina/Israel…), a finalidade é sempre idêntica, combater a exploração económica e a injustiça das desigualdades sociais.

    Porém, a claridade autoral de Saramago (autor único, sem pseudónimos desde a década de 1960 – recorde-se que Claraboia, de 1953, foi enviado à editora, não por Saramago, não com o seu nome verdadeiro, mas por um seu pseudónimo – «Honorato», que assinou igualmente diversos contos para jornais e revistas) é posta em causa pelo próprio quando, em 1998, no discurso perante a Academia Sueca, «De como a personagem foi mestre e o autor seu aprendiz», dá a entender que as suas personagens mais importantes, ainda que não funcionando como verdadeiros heterónimos ao modo pessoano, não só não tinham sido criadas arbitrariamente como o seu estatuto não era independente do autor, pelo contrário, era-lhe, à semelhança dos heterónimos de Pessoa, constitutivo, orgânico, vital. Não eram personagens escolhidas arbitrariamente, mas intrínsecas à sua formação e à sua visão do mundo. Retratou-se retratando-as, narrou-se narrando-as, realizou-se como escritor realizando-as, foram elas, estabelecendo o seu destino narrativo, que ensinaram Saramago, por um lado, a escrever romances e, por outro, a revelarem e a concretizarem a sua visão do mundo. Ficção de ficção ao modo de Pessoa? Não, apenas consciência de que, afinal, a unidade e a identidade autorais de Saramago eram tecidas da multiplicidade de vidas alheias figuradas como personagens: analogicamente, as personagens funcionam na arte poética de Saramago como os heterónimos na de Pessoa.

    Naquele discurso, Saramago atribui ao poder de transfiguração estética das «pessoas» de carne e osso em «personagens» (o avô Melrinho, a avó Josefa, o bisavô mouro, temas de crónicas para o jornal A Capital em 1968) o efeito de ter vencido a «biologia» e de ter penetrado no edifício da literatura. Nas crónicas, «com tintas de literatura», assim o fizera para os elementos da sua família e, deste modo, «sem o perceber», traçava a rota da sua vida: criar personagens literárias provindas do seu íntimo, como se elas revelassem, cada uma e todas, mesmo aquelas que considerava negativas, a sua visão do mundo:

    […] que viesse a inventar as outras, as efetivamente literárias, que lhe trariam «os materiais e as ferramentas que, finalmente, no bom e no menos bom, no bastante e no insuficiente, no ganho e no perdido, naquilo que é defeito mas também naquilo que é excesso, acabariam por fazer de mim a pessoa em que hoje me reconheço: criador destas personagens, mas, ao mesmo tempo, criatura delas. Em certo sentido poder-se-á mesmo dizer que, letra a letra, palavra a palavra, página a página, livro a livro, tenho vindo, sucessivamente, a implantar no homem que fui as personagens que criei. Creio que, sem elas, não seria a pessoa que hoje sou, sem elas talvez a minha vida não tivesse logrado ser mais do que um esboço impreciso, uma promessa como tantas outras que de promessas não conseguiram passar, a existência de alguém que talvez pudesse ter sido e afinal não tinha chegado a ser (Saramago, s/d: 11).

    Como diz Saramago a Carlos Reis, «No caso dos romances, nenhuma personagem minha é inspirada por pessoas reais» (Reis, 1998: 131). Neste sentido, mais do que inspiradas em pessoas reais, como «títeres» da mente do autor e das conveniências do autor-narrador, ajustadas a esquemas narrativos formatados, as personagens transformaram-se em autênticos «mestres»: criando-as, com elas aprendia, nelas extravasava e unificava o seu pensamento (sem nunca o subordinar a propaganda política) e, como autor que também era cidadão, projetava o seu entendimento da sociedade e do mundo. Tal como os heterónimos de Pessoa, as personagens de Saramago são-lhe constitutivas, e eram, segundo as suas palavras, os seus verdadeiros mestres porque por elas, na sua multiplicidade e diversidade, na sua superficialidade e profundidade, no seu contraste e na sua unidade, espelhava-se a si próprio, atingindo assim a natureza universal do homem. Não se tratava de seres independentes do autor, mas de realizações literárias do autor. Eram simultaneamente o símbolo e a alegoria do seu pensamento. Pessoa necessitou de se multiplicar, Saramago, como autor, necessitou igualmente de se multiplicar sem que criasse outras figuras autónomas (a heteronímia pessoana): foi-lhe suficiente o ato operativo, quase demiúrgico, da criação das personagens, vistas, não como inventados seres de papel, mas como seres com um fundo real na mente do autor. Dito de outro modo, Saramago, incorporando as personagens, desenvolvendo-as física, psicológica, social e mentalmente, vai reconhecendo-as, não como imagens de si, não como títeres narrativos, mas como partes integrantes do seu eu, da sua visão do mundo, concorrentes para a sua formação. Daí o título do discurso: «De como a personagem foi mestre e o autor seu aprendiz.»

    Este processo de incorporação, de assimilação da personagem pela consciência do autor é prática estética comum, vista, porém, com um sentido contrário: o autor é um rei (costuma dizer-se: é um Deus) a criar e a manipular as personagens. Saramago diz o contrário: de tal modo elas são eu, fazem parte constitutiva do meu eu, da minha visão do mundo, que, criando-as e desenvolvendo-as, vou-me conhecendo, vou-me revelando a mim mesmo – de tal modo que elas se tornam, sem exagero, os meus mestres. Por isso, na sua tentativa de minimizar o narrador, substituindo-o pelo autor, Saramago diz: «o autor está no livro todo, o autor é todo o livro, mesmo quando o livro não consiga ser todo o autor.»

    Saramago faz a descrição das personagens mais importantes dos seus romances escritos até 1998, isto é, até Todos os Nomes. É um texto deveras interessante porque sintetiza em quatro/cinco páginas o que pensa daqueles romances e das personagens principais. Por exemplo, indica que, desde Manual de Pintura e Caligrafia, os seus romances cavam «para o fundo, para baixo na direção das raízes. As minhas, mas também as do mundo» (Idem: 12): «creio ser hoje patente que todo o meu trabalho, de aí para diante, obedeceu a esse propósito e a esse princípio»: as raízes, suas e do mundo, que são, ao fim e ao cabo, as raízes da civilização ocidental pelas quais a Europa (e, através desta, o «mundo») se desenvolveu, se distorceu, se adulterou, se deturpou, enfim, se perverteu, em suma, as raízes da enformação mental e cultural que Saramago sofreu no todo da sua existência. Serviram de exemplo para esta perversão as raízes do Alentejo, da sua pobreza e da repressão e esmagamento a que os seus habitantes foram sujeitos; Luís de Camões de Que Farei com este Livro?, e a raiz do ser histórico de Portugal («humildade orgulhosa», Idem:13); o Memorial e «[…] os sonhos que seguram o mundo na sua órbita», sobretudo o sonho da igualdade contra a vaidade e presunção das camadas poderosas; a necessidade de contestar a apatia das elites, a crítica ao indiferentismo social em O Ano da Morte de Ricardo Reis, mostrando os horrores e os desequilíbrios do mundo; o estabelecimento de uma alternativa civilizacional à tecnologia fria e ao espírito contabilístico da Europa em A Jangada de Pedra; a denúncia do domínio permanente dos povos do Norte sobre os do Sul em História do Cerco de Lisboa, que é igualmente uma crítica à história de Portugal desde a sua raiz; e o romance português do século XX mais escandaloso, O Evangelho segundo Jesus Cristo, ou seja, a análise da raiz do cristianismo como uma das mais importantes perversões da nossa civilização, as raízes do mal, do fanatismo e da intolerância no seio da religião, prolongada em In Nomine Dei, e, enfim, as raízes antropológicas da atual perversão civilizacional em Ensaio sobre a Cegueira, a Razão, a raiz de uma Europa cega, e, em Todos os Nomes, a raiz do labirinto burocrático em que a Europa se tornou. Saramago conclui:

    Termino. A voz que leu estas páginas quis ser o eco das vozes conjuntas das minhas personagens. Não tenho, a bem dizer, mais voz que a voz que elas tiveram. Perdoai-me se vos pareceu pouco isto que para mim é tudo (Idem: 21).

    Em síntese, Saramago escreveu o que viveu, ou, melhor, escreveu desbravando narrativamente as constantes da sua formação e da sua personalidade, ora valorizando-as, ora criticando-as. É neste sentido que, tal como os heterónimos eram, segundo palavras de Pessoa, «uma comunidade só minha», assim as personagens em Saramago são a sua «comunidade» literária, o «outro» criado pelo próprio, tão dependente como independente da sua autoria, tão real como ilusório. Como autor uno e múltiplo, Saramago confessa ser «o eco das vozes conjuntas das minhas personagens», e acrescenta não ter «mais voz que a voz que elas tiveram», ao contrário de Pessoa que, encenando o «drama-em-gente» da sua heteronímia, guardou para si, ortónimo, uma longa obra poética, mítica (Mensagem) e esotérica. Por isso, ainda que múltiplo como múltiplas são as personagens, Saramago é uno, e Pessoa, ainda que uno, é sobretudo múltiplo, isto é, plural.

    Constituem, assim, os dois autores duas ontologias ficcionais, a de Saramago centrada na unidade, no Ser; a de Pessoa, na pluralidade sem centro, isto é, no Nada, como veremos ao longo desta volume.

    De facto, o vínculo entre autor e personagem é tão forte em Saramago (como o existente entre Pessoa e os heterónimos) que, quando escrevia o Memorial do Convento, teve uma «visão» do Terreiro do Paço no século XVIII. Ele conta-a a Baptista-Bastos:

    Quando estava a escrever o Memorial, aconteceu-me, um dia, passar no Terreiro do Paço, ao longo da muralha [que separa a praça das águas do rio Tejo]. Ia distraído, provavelmente a pensar no padre Bartolomeu de Gusmão [personagem que, na vida real, morou numa das casas do corredio de edifícios existentes onde hoje se encontra a arcada que suporta o Arco da Rua Augusta], ou na Passarola [«máquina voadora» ou «fábrica etérea» de padre Bartolomeu que foi elevada aos ares justamente no torreão real do Terreiro do Paço], ou em Baltasar e Blimunda, quando de repente olho para o lado da Rua Augusta e vejo, com estes olhos vi, não o terreiro como é hoje, mas o terreiro como era antes do Terramoto [de 1755, que arrasou toda aquela zona de Lisboa], ou como o representam as gravuras e pinturas da época. Foi, claro está, uma imagem fugidia, mas vivíssima. […] Vou mesmo mais longe, irracionalmente mais longe: a minha impressão, ainda hoje, é que fui eu, autor, assunto pelas [das] minhas personagens, assumido, tomado, possuído por elas, como se as criaturas pudessem afinal de contas criar o criador. Desconfio que podem, para não dizer que é essa a minha convicção (entrevista a Baptista-Bastos, Correio do Minho, 12 de fevereiro de 1983).

    As personagens revelam a estrutura mental do criador – frase que sintetiza o que temos tentado demonstrar. Como explicar esta «visão» de Saramago? Obsessão tão forte pela investigação do século XVIII português que substitui na sua mente a nova Praça do Comércio pelo antigo Terreiro do Paço? Devaneio de um cérebro encantado pela escrita do novo romance? Visão alucinada das personagens em ambiente real, sabendo que elas ali viveram há duzentos anos? O leitor encontrará a sua explicação, certamente. Pela nossa parte, damos o acordo ao conjunto das três hipóteses.

    Assim, se Pessoa é indubitavelmente o original criador dos heterónimos, cuja rede de relações estéticas e semânticas, porém, o ultrapassam e condicionam a interpretação que hoje fazemos do autor; melhor: mais do que uma rede, um autêntico labirinto de visões do mundo, que, cruzadas, nos dão a mentalidade social do princípio do século XX e um retrato temporal da humanidade do homem, em Saramago inverte-se o processo heteronímico, são as personagens que criam o autor, isto é, revelam a visão do mundo una e plural do autor José Saramago. Aliás, Pessoa, na «Tábua Bibliográfica» escrita por si próprio para o número 17 da Presença, em 1928, identifica igualmente os heterónimos como «personagens»: «a obra pseudónima é de autor em sua pessoa, salvo no nome que assina; a heteronímia é do autor fora da sua pessoa, é de uma individualidade completa fabricada por ele, como o seriam os dizeres de qualquer personagem de qualquer drama seu.» Em síntese, o estatuto dos heterónimos e das personagens aproxima Pessoa e Saramago, sem, porém, os identificar tanto na sua raiz como nos resultados estéticos (a obra).

    Com efeito, se a obra e a espiritualidade em Pessoa são determinadas por «seres superiores», em Saramago, filosoficamente materialista, nascem do que designa por sua «intimidade», a qual não separa da «realidade». Em 1986, José Saramago escreveu uma folha datilografada contendo seis «Verificações» que, aparentemente, se destinavam a uso próprio, isto é, um conjunto de seis parágrafos ensaísticos intitulados «O íntimo e o real: simulações e iluminações», nos quais regista as suas ideias sobre a relação entre a realidade e a sua representação. Transcrevemos de Aguilera, A Consistência dos Sonhos (Aguilera, 2008: 102), cada uma das «verificações», comentando-a de seguida. A palavra «verificação» tem, neste texto de Saramago, tanto o sentido de «averiguação», como de «interrogação», como ainda o de «prova», isto é, numa palavra, de «ensaio»:

    «O Íntimo e o Real: Simulações e Iluminações – Primeira verificação. O real opõe-se ao aparente, ao fictício, ao ideal, ao ilusório, ao possível, ao potencial, etc. Não se opõe ao íntimo. Logo, realidade e intimidade não são conceitos antinómicos.» Saramago explicita que a realidade material, tanto a física como o conjunto de possibilidades a ela inerentes, não se opõe à consciência que a percebe e interpreta, sendo

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