Literatura infantil na escola: A leitura em sala de aula
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Literatura infantil na escola - Ana A. Arguelho de Souza
Literatura infantil, o que é?
Literatura é, antes de tudo, engenharia de palavras. É por meio da palavra oral ou escrita que ela se realiza. Seu campo é vasto. Ela nasce da necessidade de os homens, desde as origens, registrarem e compartilharem suas experiências, fantasias e, mais do que isso, valores e ensinamentos, transmitindo-os para as gerações vindouras. Desse modo, a literatura existiu antes mesmo da invenção dos códigos escritos, quando os homens só possuíam o recurso da oralidade para estabelecer comunicação e intercâmbio uns com os outros. É, portanto, com a palavra oral, antes da escrita, que a literatura ganha corpo e se realiza. A arte primitiva de colher e narrar acontecimentos de forma fantasiosa adquiriu, ao longo da história, diversas formas, como fábulas, lendas, canções de gesta, rapsódias, cânticos, historietas, parábolas, salmos, provérbios, hagiografias e um sem-fim de relatos orais. Todas essas oralidades, com o decorrer dos tempos, acabaram sendo registradas na forma escrita, compondo o acervo da grande literatura ocidental, mas ainda hoje persistem os relatos orais de causos, lendas e outras formas literárias a ser pesquisadas e registradas.
Na Grécia antiga, foram os rapsodos e aedos¹ que espalharam a palavra por meio de narrativas orais, até serem compiladas em linguagem escrita por Homero (século IX a.C.), ele mesmo uma figura lendária, em dois majestosos poemas, Ilíada e Odisseia. Na Idade Média, as canções de gesta² vão ganhar a forma de novelas de cavalaria; as canções espalhadas pelos trovadores serão reunidas em cancioneiros, como o da Ajuda e o da Vaticana³; os salmos, provérbios e parábolas vão compor boa parte do Antigo e do Novo Testamento; e a vida dos santos ganha registro nas hagiografias, tão utilizadas com fins educativos nas escolas confessionais.
Com o advento do capitalismo, delineou-se um novo cenário para a palavra escrita. Assistiu-se a um movimento de redesenhar a literatura com o fito de torná-la mais saborosa e atraente às crianças burguesas. Um projeto mercadológico que incluiu o resgate e a adaptação de antigas fábulas e lendas populares, o recurso da ilustração, do papel, do projeto gráfico, enfim, de tudo o que concorresse para encher os olhos das crianças, foi posto em pauta.
Esse projeto vigora até os dias atuais, sofrendo naturalmente todas as determinações históricas que a materialidade da vida lhe imputa, inclusive a crise estrutural contemporânea da sociedade que engendrou o livro infantil. Na literatura, essa crise manifesta-se na enxurrada de obras descuidadas e mal produzidas que invade o mercado e chega até as escolas, levando professores, pesquisadores e até mesmo escritores a controvérsias acerca da existência, de fato, de uma literatura infantil, seus limites e possibilidades.
A tarefa que a burguesia realizou de segmentar essa literatura, desprendendo-a do corpo mais amplo da literatura e nomeando-a infantil, tem suscitado algumas indagações. Que a literatura existe é um fato indiscutível, mas o que quer dizer literatura infantil? Narrativas sobre crianças, ou escritas por crianças, ou, ainda, destinadas a elas? Histórias que as agradam? Não seria o momento de passar a questão a limpo? Ou de pelo menos provocar mais controvérsias? Afinal, as crianças estão na sociedade, na escola, em casa, à mercê de livros que nem sempre primam pela qualidade. E o adjetivo infantil, na literatura, tem sido utilizado para qualificar qualquer escrita que se pretenda voltada para crianças, tenha ela ou não qualidade necessária para merecer o estatuto de literatura, o qual envolve valor estético, histórico e pedagógico. Vejamos algumas posições de escritores e da academia acerca da existência, ou não, de uma literatura
