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Dom Casmurro
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E-book346 páginas3 horas

Dom Casmurro

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Sobre este e-book

Capitu, a espantosa menina de "olhos oblíquos e dissimulados", de "olhos de ressaca"; Machado nos legou um incrível mistério, um mistério até hoje indecifrado. Há quase cem anos os estudiosos e especialistas esmiuçam, analisam sob todos os aspectos. Em vão. Embora o autor se tenha dado ao trabalho de distribuir pelo caminho todas as pistas para quem quisesse decifrar o enigma, ninguém ainda o desvendou. A alma de Capitu é, na verdade, um labirinto sem saída, um labirinto que Machado também já explorara em personagens como Virgília (Memórias Póstumas de Brás Cubas) e Sofia (Quincas Borba).
IdiomaPortuguês
EditoraPaulus Editora
Data de lançamento5 de set. de 2014
ISBN9788534940238
Autor

Machado de Assis

Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) is widely regarded as among the greatest Brazilian writers of all time. The grandson of freed slaves, he was born to a poor family in Rio de Janeiro and, with little formal education, took work as a typographer's apprentice and began to write and publish at age 15. Machado went on to a successful career as a government bureaucrat and writer of romantic fiction. From the late 1870s his style became more complex and ironic, and he went onto write the ground-breaking stories and novels that would permanently charge the course of Brazilian letters, among them Don Casmurro, The Posthumous Memoirs of Brás Cubas and 'The Alienist'.

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    Dom Casmurro - Machado de Assis

    CapaRosto

    Table of Contents

    1 • Do título

    2 • Do livro

    3 • A denúncia

    4 • Um dever amaríssimo!

    5 • O agregado

    6 • Tio Cosme

    7 • D. Glória

    8 • É tempo

    9 • A ópera

    10 • Aceito a teoria

    11 • A promessa

    12 • Na varanda

    13 • Capitu

    14 • A inscrição

    15 • Outra voz repentina

    16 • O administrador interino

    17 • Os vermes

    18 • Um plano

    19 • Sem falta

    20 • Mil padre-nossos e mil ave-marias

    21 • Prima Justina

    22 • Sensações alheias

    23 • Prazo dado

    24 • De mãe e de servo

    25 • No Passeio Público

    26 • As leis são belas

    27 • Ao portão

    28 • Na rua

    29 • O Imperador

    30 • O Santíssimo

    31 • As curiosidades de Capitu

    32 • Olhos de ressaca

    33 • O penteado

    34 • Sou homem!

    35 • O protonotário apostólico

    36 • Ideia sem pernas e ideia sem braços

    37 • A alma é cheia de mistérios

    38 • Que susto, meu Deus!

    39 • A vocação

    40 • Uma égua

    41 • A audiência secreta

    42 • Capitu refletindo

    43 • Você tem medo?

    44 • O primeiro filho

    45 • Abane a cabeça, leitor

    46 • As pazes

    47 • A senhora saiu

    48 • Juramento do poço

    49 • Uma vela aos sábados

    50 • Um meio-termo

    51 • Entre luz e fusco

    52 • O velho Pádua

    53 • A caminho!

    54 • Panegírico de Santa Mônica

    55 • Um soneto

    56 • Um seminarista

    57 • De preparação

    58 • O tratado

    59 • Convivas de boa memória

    60 • Querido opúsculo!

    61 • A vaca de Homero

    62 • Uma ponta de Iago

    63 • Metades de um sonho

    64 • Uma ideia e um escrúpulo

    65 • A dissimulação

    66 • Intimidade

    67 • Um pecado

    68 • Adiemos a virtude

    69 • A missa

    70 • Depois da missa

    71 • Visita de Escobar

    72 • Uma reforma dramática

    73 • O contrarregra

    74 • A presilha

    75 • O desespero

    76 • Explicação

    77 • Prazer das dores velhas

    78 • Segredo por segredo

    79 • Vamos ao capítulo

    80 • Venhamos ao capítulo

    81 • Uma palavra

    82 • O canapé

    83 • O retrato

    84 • Chamado

    85 • O defunto

    86 • Amai, rapazes!

    87 • A sege

    88 • Um pretexto honesto

    89 • A recusa

    90 • A polêmica

    91 • Achado que consola

    92 • O diabo não é tão feio como se pinta

    93 • Um amigo por um defunto

    94 • Ideias aritméticas

    95 • O Papa

    96 • Um substituto

    97 • A saída

    98 • Cinco anos

    99 • O filho é a cara do pai

    100 • Tu serás feliz, Bentinho!

    101 • No céu

    102 • De casada

    103 • A felicidade tem boa alma

    104 • As pirâmides

    105 • Os braços

    106 • Dez libras esterlinas

    107 • Ciúmes do mar

    108 • Um filho

    109 • Um filho único

    110 • Rasgos da infância

    111 • Contado depressa

    112 • As imitações de Ezequiel

    113 • Embargos de terceiro

    114 • Em que se explica o explicado

    115 • Dúvidas sobre dúvidas

    116 • Filho do homem

    117 • Amigos próximos

    118 • A mão de Sancha

    119 • Não faça isso, querida!

    120 • Os autos

    121 • A catástrofe

    122 • O enterro

    123 • Olhos de ressaca

    124 • O discurso

    125 • Uma comparação

    126 • Cismando

    127 • O barbeiro

    128 • Punhado de sucessos

    129 • A D. Sancha

    130 • Um dia...

    131 • Anterior ao anterior

    132 • O debuxo e o colorido

    133 • Uma ideia

    134 • O dia de sábado

    135 • Otelo

    136 • A xícara de café

    137 • Segundo impulso

    138 • Capitu que entra

    139 • A fotografia

    140 • Volta da igreja

    141 • A solução

    142 • Uma santa

    143 • O último superlativo

    144 • Uma pergunta tardia

    145 • O regresso

    146 • Não houve lepra

    147 • A exposição retrospectiva

    148 • E bem, e o resto?

    1 • Do título

    Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.

    — Continue, disse eu acordando.

    — Já acabei, murmurou ele.

    — São muito bonitos.

    Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto; estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou. Nem por isso me zanguei. Contei a anedota aos amigos da cidade, e eles, por graça, chamam-me assim, alguns em bilhetes: Dom Casmurro, domingo vou jantar com você.Vou para Petrópolis, Dom Casmurro; a casa é a mesma da Renânia; vê se deixas essa caverna do Engenho Novo, e vai lá passar uns quinze dias comigo. — Meu caro Dom Casmurro, não cuide que o dispenso do teatro amanhã; venha e dormirá aqui na cidade; dou-lhe camarote, dou-lhe chá, dou-lhe cama; só não lhe dou moça.

    Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de fidalgo. Tudo por estar cochilando! Também não achei melhor título para a minha narração; se não tiver outro daqui até ao fim do livro, vai este mesmo. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. E com pequeno esforço, sendo o título seu, poderá cuidar que a obra é sua. Há livros que apenas terão isso dos seus autores; alguns nem tanto.

    2 • Do livro

    Agora que expliquei o título, passo a escrever o livro. Antes disso, porém, digamos os motivos que me põem a pena na mão.

    Vivo só, com um criado. A casa em que moro é própria; fi-la construir de propósito, levado de um desejo tão particular que me vexa imprimi-lo, mas vá lá. Um dia, há bastantes anos, lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga Rua de Matacavalos, dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquela outra, que desapareceu. Construtor e pintor entenderam bem as indicações que lhes fiz: é o mesmo prédio assobradado, três janelas de frente, varanda ao fundo, as mesmas alcovas e salas. Na principal destas, a pintura do teto e das paredes é mais ou menos igual, umas grinaldas de flores miúdas e grandes pássaros que as tomam nos bicos, de espaço a espaço. Nos quatro cantos do teto as figuras das es­ta­ções, e ao centro das paredes os medalhões de César, Augusto, Nero e Massinissa, com os nomes por baixo... Não alcanço a razão de tais personagens. Quando fomos para a casa de Matacavalos, já ela estava assim decorada; vinha do decênio anterior. Naturalmente era gosto do tempo meter sabor clássico e figuras antigas em pinturas americanas. O mais é também análogo e parecido. Tenho chacari­nha, flores, legume, uma casuarina, um poço e lavadouro. Uso louça velha e mobília velha. Enfim, agora, como outrora, há aqui o mesmo contraste da vida interior, que é pacata, com a exterior, que é ruidosa.

    O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo. O que aqui está é, mal comparando, semelhante à pintura que se põe na barba e nos cabelos, e que apenas conserva o hábito externo, como se diz nas autópsias; o interno não aguenta tinta. Uma certidão que me desse vinte anos de idade poderia enganar os estranhos, como todos os documentos falsos, mas não a mim. Os amigos que me restam são de data recente; todos os antigos foram estudar a geologia dos campos santos. Quanto às amigas, algumas datam de quinze anos, outras de menos, e quase todas creem na mocidade. Duas ou três fariam crer nela aos outros, mas a língua que falam obriga muita vez a consultar os dicionários, e tal frequência é cansativa.

    Entretanto, vida diferente não quer dizer vida pior; é outra coisa. A certos respeitos, aquela vida antiga aparece-me despida de muitos encantos que lhe achei; mas é também exato que perdeu muito espinho que a fez molesta, e, de memória, conservo alguma recordação doce e feiticeira. Em verdade, pouco apareço e menos falo. Distrações raras. O mais do tempo é gasto em hortar, jardinar e ler; como bem e não durmo mal.

    Ora, como tudo cansa, esta monotonia acabou por exaurir-me também. Quis variar, e lembrou-me escrever um livro. Jurisprudência, Filosofia e Política acudiram-me, mas não me acudiram as forças necessárias. Depois, pensei em fazer uma História dos Subúrbios menos seca que as memórias do Padre Luís Gonçalves dos Santos, relativas à cidade; era obra modesta, mas exigia documentos e datas, como preliminares, tudo árido e longo. Foi então que os bustos pintados nas paredes entraram a falar-me e a dizer-me que, uma vez que eles não alcançavam reconstituir-me os tempos idos, pegasse da pena e contasse alguns. Talvez a narração me desse a ilusão, e as sombras viessem perpassar ligeiras, como ao poeta, não o do trem, mas o do Fausto: Aí vindes outra vez, inquietas sombras?...

    Fiquei tão alegre com esta ideia, que ainda agora me treme a pena na mão. Sim, Nero, Augusto, Massinissa, e tu, grande César, que me incitas a fazer os meus comentários, agradeço-vos o conselho, e vou deitar ao papel as reminiscências que me vierem vindo. Deste modo, viverei o que vivi, e assentarei a mão para alguma obra de maior tomo. Eia, comecemos a evocação por uma célebre tarde de novembro, que nunca me esqueceu. Tive outras muitas, melhores, e piores, mas aquela nunca se me apagou do espírito. É o que vais entender, lendo.

    3 • A denúncia

    Ia entrar na sala de visitas, quando ouvi proferir o meu nome e escondi-me atrás da porta. A casa era a da Rua de Matacavalos, o mês novembro, o ano é que é um tanto remoto, mas eu não hei de trocar as datas à minha vida só para agradar às pessoas que não amam histórias velhas; o ano era de 1857.

    — D. Glória, a senhora persiste na ideia de meter o nosso Ben­tinho no seminário? É mais que tempo, e já agora pode haver uma dificuldade.

    — Que dificuldade?

    — Uma grande dificuldade.

    Minha mãe quis saber o que era. José Dias, depois de alguns instantes de concentração, veio ver se havia alguém no corredor; não deu por mim, voltou e, abafando a voz, disse que a dificuldade estava na casa ao pé, a gente do Pádua.

    — A gente do Pádua?

    — Há algum tempo estou para lhe dizer isto, mas não me atrevia. Não me parece bonito que o nosso Bentinho ande metido nos cantos com a filha do Tartaruga, e esta é a dificuldade, porque se eles pegam de namoro, a senhora terá muito que lutar para separá-los.

    — Não acho. Metidos nos cantos?

    — É um modo de falar. Em segredinhos, sempre juntos. Bentinho quase que não sai de lá. A pequena é uma desmiolada; o pai faz que não vê; tomara ele que as coisas corressem de maneira, que... Compreendo o seu gesto; a senhora não crê em tais cálculos, parece-lhe que todos têm a alma cândida...

    — Mas, Sr. José Dias, tenho visto os pequenos brincando, e nunca vi nada que faça desconfiar. Basta a idade; Bentinho mal tem quinze anos. Capitu fez quatorze à semana passada; são dois criançolas. Não se esqueça que foram criados juntos, desde aquela grande enchente, há dez anos, em que a família Pádua perdeu tanta coisa; daí vieram as nossas relações. Pois eu hei de crer?… Mano Cosme, você que acha?

    Tio Cosme respondeu com um Ora! que, traduzido em vulgar, queria dizer: São imaginações do José Dias; os pequenos divertem-se, eu divirto-me; onde está o gamão?

    — Sim, creio que o senhor está enganado.

    — Pode ser, minha senhora. Oxalá tenham razão; mas creia que não falei senão depois de muito examinar...

    — Em todo caso, vai sendo tempo, interrompeu minha mãe; vou tratar de metê-lo no seminário quanto antes.

    — Bem, uma vez que não perdeu a ideia de o fazer padre, tem-se ganho o principal. Bentinho há de satisfazer os desejos de sua mãe. E depois a igreja brasileira tem altos destinos. Não esqueçamos que um bispo presidiu a Constituinte, e que o Padre Feijó governou o Império...

    — Governou como a cara dele! atalhou tio Cosme, cedendo a antigos rancores políticos.

    — Perdão, doutor, não estou defendendo ninguém, estou citando. O que eu quero é dizer que o clero ainda tem grande papel no Brasil.

    — Você o que quer é um capote; ande, vá buscar o gamão. Quanto ao pequeno, se tem de ser padre, realmente é melhor que não comece a dizer missa atrás das portas. Mas, olhe cá, mana Glória, há mesmo necessidade de fazê-lo padre?

    — É promessa, há de cumprir-se.

    — Sei que você fez promessa... mas, uma promessa assim... não sei... Creio que, bem pensado... Você que acha, prima Justina?

    — Eu?

    — Verdade é que cada um sabe melhor de si, continuou tio Cosme; Deus é que sabe de todos. Contudo, uma promessa de tantos anos... Mas, que é isso, mana Glória? Está chorando? Ora esta! Pois isto é coisa de lágrimas?

    Minha mãe assoou-se sem responder. Prima Justina creio que se levantou e foi ter com ela. Seguiu-se um alto silêncio, durante o qual estive a pique de entrar na sala, mas outra força maior, outra emoção... Não pude ouvir as palavras que tio Cosme entrou a dizer. Prima Justina exortava: Prima Glória! Prima Glória! José Dias desculpava-se: Se soubesse, não teria falado, mas falei pela veneração, pela estima, pelo afeto, para cumprir um dever amargo, um dever amaríssimo...

    4 • Um dever amaríssimo!

    José Dias amava os superlativos. Era um modo de dar feição monumental às ideias; não as havendo, servia a prolongar as frases. Levantou-se para ir buscar o gamão, que estava no interior da casa. Cosi-me muito à parede, e vi-o passar com as suas calças brancas engomadas, presilhas, rodaque e gravata de mola. Foi dos últimos que usaram presilhas no Rio de Janeiro, e talvez neste mundo. Trazia as calças curtas para que lhe ficassem bem esticadas. A gravata de cetim preto, com um arco de aço por dentro, imobilizava-lhe o pescoço; era então moda. O rodaque de chita, veste caseira e leve, parecia nele uma casaca de cerimônia. Era magro, chupado, com um princípio de calva; teria os seus cinquenta e cinco anos. Levantou-se com o passo vagaroso do costume, não aquele vagar arrastado dos preguiçosos, mas um vagar calculado e deduzido, um silogismo completo, a premissa antes da consequência, a consequência antes da conclusão. Um dever amaríssimo!

    5 • O agregado

    Nem sempre ia naquele passo vagaroso e rígido. Também se descompunha em acionados, era muita vez rápido e lépido nos movimentos, tão natural nesta como naquela maneira. Outrossim, ria largo, se era preciso, de um grande riso sem vontade, mas comunicativo, a tal ponto as bochechas, os dentes, os olhos, toda a cara, toda a pessoa, todo o mundo pareciam rir nele. Nos lances graves, gravíssimo.

    Era nosso agregado desde muitos anos; meu pai ainda estava na antiga fazenda de Itaguaí, e eu acabava de nascer. Um dia apareceu ali vendendo-se por médico homeopata; levava um Manual e uma botica. Havia então um andaço de febres; José Dias curou o feitor e uma escrava, e não quis receber nenhuma remuneração. Então meu pai propôs-lhe ficar ali vivendo, com pequeno ordenado. José Dias recusou, dizendo que era justo levar a saúde à casa de sapé do pobre.

    — Quem lhe impede que vá a outras partes? Vá aonde quiser, mas fique morando conosco.

    — Voltarei daqui a três meses.

    Voltou dali a duas semanas, aceitou casa e comida sem outro estipêndio, salvo o que quisessem dar por festas. Quando meu pai foi eleito deputado e veio para o Rio de Janeiro com a família, ele veio também, e teve o seu quarto ao fundo da chácara. Um dia, reinando outra vez febres em Itaguaí, disse-lhe meu pai que fosse ver a nossa escravatura. José Dias deixou-se estar calado, suspirou e acabou confessando que não era médico. Tomara este título para ajudar a propaganda da nova escola, e não o fez sem estudar muito e muito; mas a consciência não lhe permitia aceitar mais doentes.

    — Mas, você curou das outras vezes.

    — Creio que sim; o mais acertado, porém, é dizer que foram os remédios indicados nos livros. Eles, sim, eles, abaixo de Deus. Eu era um charlatão... Não negue; os motivos do meu procedimento po­diam ser e eram dignos; a homeopatia é a verdade, e, para servir à verdade, menti; mas é tempo de restabelecer tudo.

    Não foi despedido, como pedia então; meu pai já não podia dispensá-lo. Tinha o dom de se fazer aceito e necessário; dava-se por falta dele, como de pessoa da família. Quando meu pai morreu, a dor que o pungiu foi enorme, disseram-me, não me lembra. Minha mãe ficou-lhe muito grata, e não consentiu que ele deixasse o quarto da chácara; ao sétimo dia, depois da missa, ele foi despedir-se dela.

    — Fique, José Dias.

    — Obedeço, minha senhora.

    Teve um pequeno legado no testamento, uma apólice e quatro palavras de louvor. Copiou as palavras, encaixilhou-as e pendurou-as no quarto, por cima da cama. Esta é a melhor apólice, dizia ele muita vez. Com o tempo, adquiriu certa autoridade na família, certa audiência, ao menos; não abusava, e sabia opinar obedecendo. Ao cabo, era amigo, não direi ótimo, mas nem tudo é ótimo neste mundo. E não lhe suponhas alma subalterna; as cortesias que fizesse vinham antes do cálculo que da índole. A roupa durava-lhe muito; ao contrário das pessoas que enxovalham depressa o vestido novo, ele trazia o velho escovado e liso, cerzido, abotoado, de uma elegância pobre e modesta. Era lido, posto que de atropelo, o bastante para divertir ao serão e à sobremesa, ou explicar algum fenômeno, falar dos efeitos do calor e do frio, dos polos e de Robespierre. Contava muita vez uma viagem que fizera à Europa, e confessava que, a não sermos nós, já teria voltado para lá; tinha amigos em Lisboa, mas a nossa família, dizia ele, abaixo de Deus, era tudo.

    — Abaixo ou acima? perguntou-lhe tio Cosme um dia.

    — Abaixo, repetiu José Dias cheio de veneração.

    E minha mãe, que era religiosa, gostou de ver que ele punha Deus no devido lugar, e sorriu aprovando. José Dias agradeceu de cabeça. Minha mãe dava-lhe de quando em quando alguns cobres. Tio Cosme, que era advogado, confiava-lhe a cópia de papéis de autos.

    6 • Tio Cosme

    Tio Cosme vivia com minha mãe, desde que ela enviuvou. Já então era viúvo, como prima Justina; era a casa dos três viúvos.

    A fortuna troca muita vez as mãos à natureza. Formado para as serenas funções

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