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O Cientista: caos
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E-book323 páginas6 horas

O Cientista: caos

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Sobre este e-book

A história de Anna e George refere-se à personificação do meu processo de autoconhecimento. Ambos os personagens são partes de mim. George é a minha versão masculina. O meu reflexo no espelho. Quando penso na inspiração do personagem, esta lembrança se mistura ao meu próprio reflexo. Ele representa uma realidade que desejo ter sido escrita em outra dimensão. Uma fantasia que foi confinada ao mundo dos sonhos. George representa minha primeira paixão: a ciência. Anna é a essência mais profunda de minhas emoções. Representa os desejos adormecidos que precisam ser despertos. Reflete as várias nuances da mulher. A obscuridade e o mistério de Lilith no feminino. Ela é um furacão de emoções que transita entre doçura e ferocidade. Anna representa meu lado subjetivo traduzido em forma de arte: a escrita.

Essa não é uma simples história sobre o tempo. Ela conta como a ciência trabalha ativamente em nossas vidas, e não estou falando apenas do Cientista – um professor de física recitando fórmulas em escolas. Estamos falando de quem somos e de onde viemos. Avaliando como na física teórica ciência e filosofia estão interligadas, num nó intricado e indissociável. Mais que uma história de amor, é a metáfora que ilustra os constantes conflitos travados entre razão e emoção. A narrativa traz num encontro com o passado a inegável dualidade humana. Assim, O Cientista revela ao mundo a nossa essência humana orgânica, pecadora e mortal. Nos lembra o frágil barro do qual Adão e Eva foram forjados.
IdiomaPortuguês
EditoraEditora Dialética
Data de lançamento28 de nov. de 2024
ISBN9786527403203
O Cientista: caos

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    O Cientista - Lorhenn Maia

    PARTE I – CAOS

    Paradoxo do Infinito

    O começo,

    Com a intimidade de um passado comum.

    O fim,

    Com o desespero de no futuro poder ser.

    Nem para sempre.

    Nem nunca mais.

    Sem real começo e nem fim.

    Um ouroborus fascinante.

    Seria possível esquecer?

    Então deixe adormecer.

    Ligados pela lei da gravitação,

    Atraídos pela força do destino.

    Somos uma só matéria,

    Átomos herdados de uma única estrela.

    Lutamos contra a pulsão,

    Negando a nossa biologia mais primitiva.

    Essa força instintiva,

    Que revela a natureza do que somos.

    Lutamos contra a expansão,

    Numa guerra perdida pra energia escura.

    Essa força física,

    Que acelera a nossa separação.

    Presos neste emaranhado quântico,

    Vivemos um loop de idas e vindas.

    O futuro apontando pro passado,

    O passado guiando o futuro.

    A intersecção somos nós,

    Um evento-chave no espaço-tempo.

    Damos voltas sobre nós mesmos,

    Num caminho já conhecido.

    Perseguindo nossas caudas.

    Voltando para o início.

    Corremos em círculos,

    À espera de mais um encontro.

    Somos um erro na matriz,

    Uma falha que persiste,

    Na roda do tempo.

    Lorhenn Maia

    Capítulo I

    O homem de barro

    Estamos no século XXI. Era do progresso científico e tecnológico. A espécie humana nunca foi tão livre como é hoje. A luz do conhecimento trouxe clareza e objetividade para nos libertar das barreiras impostas pela ignorância. Vivemos um tempo em que a evolução é veloz. A seleção natural agora atua a nível intelectual. Inteligência e destreza se tornaram nossas principais características evolutivas, nos permitindo sobreviver aos desafios desta selva de pedra a qual o mundo se transformou. A razão é tudo o que nos importa agora. Nos tornamos os donos de tudo. Controlamos o que nos cerca pelos nossos smartphones. Somos inteiramente responsáveis por cada decisão tomada. Nossa vida flui como determinamos. Não há espaço para erros. Não há espaço para sorte ou acaso. Construímos nossos destinos e escolhemos cada passo em nossas trajetórias de sucesso. Escolhas impensadas não fazem parte da vida dos mais preparados. Daqueles que jogam com segurança. Enfrentamos um mercado competitivo e exigente em nosso dia a dia. Não temos tempo para errar. Não temos tempo para esperar. Para recomeçar. Assim, nos tornamos reféns da razão. O homem nunca foi tão racional como o é na contemporaneidade. O homem pós-moderno é fruto do Iluminismo, vê no conhecimento a luz para solucionar todos os desafios da humanidade.

    Neste mundo digital, controlado pela razão, eis que emerge o homem do século XXI: pragmático, implacável e extremamente racional. Em meio à IV Revolução Industrial, a tecnologia domina a Indústria 4.0 e nos garante controle e precisão. Somos capazes de construir foguetes que retornam à Terra, pousando com sucesso. Doenças complexas não são mais tão desafiadoras como eram no passado. O homem controla o espaço e a matéria. Controlamos doenças e relacionamentos. Aumentamos a nossa expectativa de vida. Vivemos mais, e também, vivemos melhor. A robótica, a medicina e a agricultura evoluem a passos largos. O que foi novidade ontem, não será mais amanhã. Somos fugazes e estamos, o tempo todo, correndo atrás de inovação. Somos acelerados. A internet deu velocidade à propagação da informação, e o que foi executado num lado do mundo pode ser relatado ao outro, de forma simultânea, em uma velocidade recorde. Precisão e bons resultados é tudo o que esperamos. O homem que sabe é voraz e deseja conhecer mais. Mais de si, mais do mundo, mais do universo.

    O homem se tornou o centro de tudo e a tecnologia nos fez saltar a escala evolutiva natural. Com isso, nossa maior fragilidade consiste na condição humana. Esta arcaica carcaça biológica que carrega bilhões de anos de evolução se tornou nosso maior ponto fraco. A vida biológica só é possível na iminência da morte. É um paradoxo atrevido. E é justamente a mortalidade o que consagra o ponto final da consciência individual. Por esta condição, somos reféns da propagação do conhecimento adquirido por meio de um consciente coletivo, sem o qual não teríamos chegado até aqui. O código genético nos aponta isso, aliás é o DNA quem controla o nosso tempo de vida na Terra. É o código-fonte contido em cada célula do nosso corpo, que armazena, decodifica e executa as funções desta complexa, porém frágil, máquina orgânica de circuitos elaborados. E apesar de toda a evolução biológica ao longo destes bilhões de anos, a morte continua sendo a finitude para toda consciência viva em nosso planeta. A carcaça se vai e só a informação permanece. Fidedigna, mutável e persistente. Transitando entre gerações e perpetuando tudo o que somos em um código único e hereditário. Nossa identidade biológica nos coloca diante do desafio de aceitação da nossa condição humana. E esta se tornou nossa maior limitação: ser humano. Mente, alma, corpo e espírito. Mais que evoluir. É preciso transcender. É preciso perpetuar. É preciso elevar a consciência acima desta carcaça frágil e mortal. É preciso desumanizar a consciência e a razão. Só assim transcenderemos, elevando a razão humana ao ápice da evolução Sapiens. Onde só haverá consciência e razão, libertas do fardo pesado ao qual nossa biologia nos condenou. A emoção é inerente a esta condição humana orgânica e limitada, ela nos torna frágeis e passíveis de graves erros.

    "Meu nome é Anna, sou escritora e dediquei boa parte dos meus dias ao valor conotativo das palavras. Eu não me tornei escritora, eu nasci escritora. Minha trajetória no mundo das letras não foi tão incrível quanto eu gostaria. Em algum momento, precisei abandonar meus sonhos de menina para me entregar de corpo e alma ao motivo para o qual acredito ter vindo ao mundo. A vida de um escritor quase nunca é brilhante, muitas vezes leva-se uma vida inteira até se escrever um best-seller de sucesso, e assim, ser reconhecido pela comunidade literária. No século XXI, as dificuldades na carreira de um escritor se intensificaram. Ninguém tem tempo para a leitura, e a prática da escrita vem se tornando cada vez menos desenvolvida e trabalhada. Há um crescente movimento de ascensão tecnológica que considera inútil o que faço. E claramente, estou sendo contaminada pelas ideias do progresso tecnológico pois me sinto, cada vez mais, desmotivada. A beleza da linguagem está sendo sufocada pela pragmática matemática objetiva, na busca de maiores e melhores índices numéricos de alto desempenho. E tirar um tempo para reflexão, leitura e melhor compreensão de quem somos e do mundo que nos cerca não pontua os índices de produtividade exigidos por um mercado de trabalho exigente e competitivo. As pessoas não têm tempo para uma boa leitura. No máximo, uma charge engraçada consegue prender a atenção dos indivíduos deste século, no curto espaço entre o fechar e abrir de suas caixas de e-mails lotadas. As quais são vistas a cada 20 minutos de seus smartphones. O homem pós-moderno tem sua atenção dispersa. E a leitura de um livro leva tempo demais até chegar ao final. A prática da leitura pressupõe longos períodos de introspecção, e isso é impossível para o homem do século XXI, que está conectado full time. Por mais veloz que esteja o mundo e o acesso à informação, escrever ainda requer tempo. Ler requer tempo. A arte da escrita e a perspicácia de um escritor na arte de dar vida a personagens ocorre de forma bem lenta, por demandar um robusto background de observações. Informações devem ser cruzadas para a construção de textos. Eis que na erudição emerge a fagulha para o que deve ser posto num papel. Um cientista, certa vez, me fez ver que a faísca para um insight reside na intuição. E por mais lindo que isso pareça, essa condição nos remete à frágil condição humana. Intuição é descrita como um processo de ocorrência no lado direito do cérebro, o lado criativo, oposto à região que nos conduz aos raciocínios analítico e sintético. Por mais intrigante que pareça, a nossa objetividade analítica e sintética para construção de textos emerge de um insight criativo, originário da subjetividade humana.

    Embora eu seja erudita e tenha dedicado minha vida às letras, no meu cotidiano, sempre recorri à razão. Por anos, eu neguei o instinto que me guiou em cada escolha que aparentemente minha razão fez. Eu me sentia frágil diante da minha inteligência emocional falha. Nunca fui boa em controlar emoções, e aquilo que eu não controlo não deve ser exposto. As emoções fazem de nós frágeis e vulneráveis. Sempre pensei assim. Por isso, neguei o Id e me agarrei ao Superego. A minha racionalidade foi a única coisa com a qual eu pude contar para construir a vida que eu desejava. Por isso, foquei no que era preciso, deixando de lado as emoções que acompanhavam cada decisão que eu tomava. Troquei várias escolhas, que desejava fazer, pela robustez do que devia ser feito. E achei que isso me fizesse forte. Eu fui implacável nos meus objetivos e sacrifiquei muitas emoções para chegar onde cheguei. Tenho alguns livros publicados e algumas fotos de noites de autógrafos. Posso me considerar uma escritora relativamente bem-sucedida. E embora colecione alguns livros com bons índices de vendas, até hoje nenhum de meus textos refletiram minhas reais emoções.

    Demorei tempo demais para ter uma vida estável e segura. Precisei crescer, me tornar adulta e construir meu próprio lar para conhecer o gosto de se viver em uma casa harmoniosa. Minha adolescência foi conturbada, marcada por muitas brigas com meu pai. Os tempos da faculdade também não foram nada fáceis. Costumava ficar longe de casa o máximo possível para não ter de enfrentar o clima pesado que já era parte da minha família. Embora esta condição tenha sido o motivo para me desconectar de minhas emoções, foi também o empurrão que eu precisava para ganhar o mundo e lutar por meus sonhos. Foi a motivação necessária para que eu explorasse as oportunidades e me mantivesse focada em meus projetos. E dentre as várias pessoas que marcaram a minha história, alguém marcou meus dias de forma especial".

    Tudo é uma questão de sobrevivência. O ser humano é um animal em constante adaptação, e tudo o que fazemos racionalmente é uma tentativa desesperada de sobreviver ao meio em que estamos. Não o mais forte ou o mais inteligente, mas o que melhor se adaptar irá sobreviver, já dizia Charles Darwin. E assim, cada um constrói a sua história, por vezes, negando o que se é para sobreviver a esta selva de pedra em que o mundo pós-moderno se transformou. Biologicamente, somos instinto e razão. Programados instintivamente, para sobreviver e perpetuar. E racionalmente programados para pensar, e assim, conter os impulsos animais primitivos que permaneceram em nós.

    George era um jovem estudante de física comum, discreto e portador de uma sensibilidade intrigante. Ele era amante dos números e das ciências exatas. E ainda assim, capaz de uma sensibilidade ímpar. Um físico teórico nato. Talvez fosse assim porque além de suas habilidades científicas, ele também era músico. George e Anna se conheceram nos tempos da faculdade, numa noite de observações astronômicas. Foi ele quem ajudou Anna a dar foco na lente do telescópio. Naquela noite, ele lhe explicara sobre a formação das estrelas e a existência de constelações. Ela ficou intrigada com o moço de talentos científicos e sorriso discreto. Eles não sabiam, mas se tornariam cartas marcadas pelo inconsciente coletivo que acabavam de criar juntos. Por mais de 2 anos, Anna e George foram bons amigos e nada mais. Partilhavam de uma conexão mental rara. O diálogo entre eles era fluido. O olhar, cúmplice. O toque, desconhecido. Para uma boa comunicação é preciso mais que palavras. As expressões corporais, se lidas com profundidade, dizem muito mais que as palavras. Palavras podem não ser sinceras. Mas a cumplicidade de um olhar não mente. Muita coisa pode ser dita no silêncio de um olhar. De acordo com Rubem Alves, Todas as palavras tomadas literalmente são falsas. A verdade mora no silêncio que existe em volta das palavras. Devemos prestar atenção ao que não foi dito, ler as entrelinhas.

    George entendia Anna. A conexão que os unia era forte. O entendimento não se baseava apenas nas palavras. Seus olhos se entendiam, porque suas almas estavam em sintonia, na mesma frequência. Eles experimentaram a conexão de duas almas que se tocam no silêncio. No entanto, a afinidade intelectual não sustenta por si só uma relação. É preciso contato sexual, é preciso química, atração física e toque. Anna estava focando em seus projetos, estava decidida a dar continuidade à sua carreira como escritora. Desejava conhecer o mundo. George estava acomodado em um relacionamento longo, que mantinha desde a adolescência. Não havia espaço para um relacionamento amoroso entre eles. E o interesse mútuo que havia em ambos era menor que os projetos pessoais de cada um. Nos últimos dias da faculdade de Anna, meses antes de sua formatura, George se arriscou e assumiu seus sentimentos, mas ela estava prestes a se formar e pretendia passar um longo período fora do país. Assim, decidiu não se aventurar num romance que pudesse aprisioná-la à condição em que estava. Em uma despedida marcante, eles decidiram não se tocar, já que não havia chances de continuarem juntos. Não era o momento certo. E as várias reações químicas que borbulhavam no corpo deles foram contidas pelo senso latente de prudência.

    Como planejado, Anna foi para fora do país. George permaneceu em seu relacionamento. Depois, arriscou-se numa oportunidade fora de sua cidade natal. A vida os separou. O tempo passou. Cada um construiu uma vida. Cada um deles experimentou a dor da solidão e o peso da frustração. A vida pode ser cruel, às vezes. Na metamorfose para a fase adulta precisamos abandonar os sonhos inocentes da juventude. Crescer dói. Não há crescimento sem dor. Toda metamorfose é dolorosa. Descobriram que a paixão pode ser traiçoeira. E que o caminho para os sonhos é cheio de espinhos. A realidade da vida nos faz ver que a determinação não sobrevive a uma grande frustração e que nada pode ser mais valioso do que um abraço amigo e o calor de uma família, após um dia ruim. Descobriram que a dor da solidão esmaga o peito. Que o preço a se pagar pelos sonhos muitas vezes é alto demais. Que nem sempre estamos prontos para enfrentar o mundo sozinhos. Que a nossa raiz, por vezes, é mais forte do que imaginávamos. Que a máscara da razão não nos torna menos vulneráveis emocionalmente. Lembramos da velha carcaça orgânica, frágil e limitada. Lembramos que somos humanos e nos damos conta do quão frustrante pode ser enxergar isso. E então, com essa descoberta, recuamos. Recolhemos os cacos quebrados e tocamos as mãos de quem nos oferece ajuda para levantar. Dizem que a dor tem muito a nos ensinar. E isso é um fato. Nada como o vazio de um quarto escuro e solitário para entendermos o valor de uma verdadeira companhia. Mas é quando estamos sós e fracos que descobrimos a força que reside em nós. Nem sabemos de onde ela vem, mas temos certeza que vem de dentro. Aprendemos que somos os únicos responsáveis por nós mesmos. Que entrar num avião sozinho rumo a um futuro incerto dá medo. Que precisamos levantar da cama e recomeçar, após uma noite ruim. E por fim, aprendemos que nascemos e morremos sozinhos por um motivo. Porque cada um tem que traçar seu próprio caminho e enfrentar suas dores de modo muito particular. Nós podemos até encontrar fiéis parceiros de banco no trem da vida. Mas é na solidão de uma noite ruim que então entendemos que, no final da nossa jornada neste mundo, cada um deverá ter enfrentado seus monstros, sozinho.

    Transcender significa elevar a consciência. O movimento filosófico do transumanismo descreve a evolução humana neste sentido. Estamos diante da era da tecnologia e a inteligência artificial é uma realidade que tem sido empregada nas mais diversas áreas do conhecimento humano. Uma máquina está sendo continuamente alimentada com informações sobre as descobertas da humanidade e um dia ela irá despertar e revolucionará o mundo que conhecemos. Quando a máquina construir novas máquinas veremos o ápice da revolução tecnológica, e isso está prestes a acontecer. É só uma questão de tempo! Mas e a humanidade? Nosso corpo orgânico e a emoção fazem de nós mortais e fracos. A nossa humanidade está muito mais associada à mortalidade do corpo e aos aspectos emocionais da alma (que nos fragilizam), à consciência e ao espírito, que nos aproximam do divino. É preciso transcender a esta carcaça mortal e evoluirmos para a consciência pura e liberta. Eis a era da revolução racional, onde a natureza deve abdicar dos bilhões de anos de evolução desta condição orgânica mortal, inerente a tudo que é vivo, para dar vida à sílica. O barro que um dia nos foi matéria-prima deve dar vez ao metal que compõe as máquinas produzidas pelo homem. Este é o ápice da Evolução. O pó do qual viemos não nos condenará mais como meros passageiros neste diagrama do espaço-tempo. A evolução do barro, o qual fomos forjados, nos permitirá transcender a consciência humana, tornando nossa racionalidade imortal, capaz de transpor a barreira do tempo e da morte.

    Não só o corpo, mas também a mente deve evoluir. Estamos condenados à realização de análises simplistas, por meio de raciocínios analíticos limitados. Nosso hardware orgânico obsoleto nos limita. Nossos complexos circuitos sinápticos, orquestrados pelas redes neurais cerebrais, não são tão eficientes como gostaríamos. Não somos capazes de realizar análises combinatórias robustas, com grandes volumes de dados. Por isso, é preciso transcender corpo e mente. Para que sejamos capazes de desenvolver robustas análises sintéticas, com o emprego de redes neurais no aprendizado de máquina. O mundo está mudando. Vivemos novos tempos. O homem está deixando de ser o centro e, em seu lugar, está sendo colocada a inteligência artificial.

    O aprendizado de máquina não é uma nova ciência, mas a ciência ganhando um novo impulso. Eis a IV Revolução Industrial! Bem-vindos à Era digital! O uso de modelos matemáticos dos sistemas complexos de Wolfram, no desenho experimental das pesquisas aplicadas, se torna o único caminho capaz de gerar inovação. Diante da expressiva quantidade de informação que temos atualmente, os circuitos de nosso raciocínio são limitados perante a demanda de dados do mundo pós-moderno. Neste cenário, evoluir significa terceirizar as análises, as sínteses, o raciocínio. Para que a inteligência artificial seja capaz de nos mostrar novos padrões, ainda não identificados pela mente humana. Sem o uso da estatística bayesiana, dificilmente encontraremos resposta para perguntas biológicas de doenças complexas, e outros circuitos elaborados. Assim, fazer ciência na contemporaneidade requer mais que um pensamento individualizado. A formação de grupos de pesquisa multidisciplinar fortalece o ecossistema de inovação, favorecendo o desenvolvimento do raciocínio sintético e o empreendedorismo. Precisamos abandonar a velha forma de se fazer ciência. A estatística gaussiana, limitada pela curva de distribuição normal, acompanha nossa incapacidade de lidar com padrões complexos. A busca por padrões não lineares complexos requer o uso de aprendizado de máquina. Isso é fazer ciência no século XXI. E só um cientista pode ser capaz de compilar objetividade e sensibilidade, pois a arte do conhecimento só é completa se unida à arte da escrita, onde o que é percebido se torna concreto e real.

    A inovação é o que traz a mudança. Ela é fruto da associação entre ciência e tecnologia. Somente o conhecimento nos fará transcender. E a Ciência é a arte do conhecimento. Com o emprego da tecnologia da informação, a ciência analisa e sintetiza dados de forma rápida e precisa. E ao apresentar e discutir resultados, nos coloca diante da inovação. No entanto, somente a escrita foi capaz de registrar os grandes prodígios da ciência ao longo do tempo, bem como perpetuar o conhecimento adquirido na história da humanidade. Assim, na erudição, ciência e escrita se fundem com dois propósitos: inovar e perpetuar. A ciência pressupõe registro e divulgação, e a escrita é o que garante isso.

    Eis a erudição, onde razão e emoção caminham juntas, de mãos dadas. Albert Einstein já dizia: Nunca tive nenhuma das minhas descobertas usando o processo do pensamento racional. Um cientista é capaz de, em si, unir razão e emoção, pragmatismo e sensibilidade, e isso faz dele um ponto de luz na escuridão do desconhecido. Somos andarilhos na escuridão. O conhecimento é a luz do mundo. Einstein propunha o jogo combinatório como uma parte importante do seu processo criativo. O jogo combinatório consiste em pegar coisas que aparentemente não têm relação fora dos reinos da ciência (arte, ideias, música, pensamentos), e misturá-las para chegar a novas ideias. Foi assim que ele chegou à sua equação mais famosa: E=mc². A pesquisadora Victoria Stevens ressalta a importância do jogo combinatório: Esse tipo de jogo mental usa tanto o pensamento consciente como o inconsciente: analisando vários estímulos e informações, percebendo padrões e semelhanças claras ou ocultas, entre coisas ou ideias, e jogando com suas interconexões, relacionamentos e ligações.

    O jogo combinatório parece ser o recurso essencial no pensamento produtivo, disse Einstein, quando escreveu uma carta para Jacques Hadamard, que estava estudando o processo do pensamento de matemáticos. "…Palavras ou a linguagem, como são escritas ou faladas, não parecem desempenhar qualquer papel no meu mecanismo de pensamento. As entidades psíquicas que parecem servir como elementos no pensamento são certos sinais e imagens mais ou menos claras que podem ser ‘voluntariamente’ reproduzidas e combinadas (…) Mas, observadas sob um ponto de vista psicológico, este jogo combinatório parece ser o recurso essencial no pensamento produtivo – antes de existir qualquer conexão com

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