Niterói 450 anos: Capítulos de sua história
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Niterói 450 anos - Andrea Telo da Corte
I. APRESENTAÇÃO
Um projeto de história para Niterói
É com satisfação que trazemos aos interessados na história de Niterói este livro como uma forma de comemorar os 450 anos da cidade. Nada melhor do que um presente como este, que reúne diversas pesquisadoras e pesquisadores qualificados que nos brindam com análises sobre múltiplos aspectos da história da cidade, em diversas temporalidades.
O presente livro é um dos produtos do Projeto Cidadania, turismo e educação através da História de Niterói: explorando novas plataformas
, que consiste numa parceria entre a Universidade Federal Fluminense (UFF), por intermédio do Centro de Estudos do Oitocentos (CEO), do Instituto de História (IH), a Prefeitura Municipal de Niterói e a Fundação Euclides da Cunha, no âmbito do Programa de Desenvolvimento de Projetos Aplicados (PDPA).
A equipe do projeto é formada pelos professores Karoline Carula e Paulo Terra, coordenadora e vice-coordenador, Carlos Gabriel Guimarães, Gladys Ribeiro, Humberto Machado, Ismênia Martins, Jonis Freire, pela pós-doutoranda Andréa da Côrte, além do envolvimento de alunas e alunos das graduações em História e em Cinema da UFF.
O projeto, já em fase de conclusão, pretendeu elaborar uma abordagem da história de Niterói que possa ser utilizada como ferramenta para o desenvolvimento da cidadania, do turismo e dos processos educacionais no município. A sua execução reuniu esforços de estudantes e docentes da UFF, bem como dos habitantes da cidade, para a produção de conteúdos a serem divulgados em plataformas digitais (site e aplicativo), abordando a história desse espaço urbano por intermédio da narrativa dos diversos grupos sociais. Vale dizer que a história da cidade foi pensada não só na sua dimensão acadêmica, mas como uma história pública, elaborada pelos e para os habitantes de Niterói.
Nesse sentido, a dimensão da História Pública destaca-se como elemento chave, tendo em vista ser uma abordagem dos estudos históricos interessada tanto na ampliação do público consumidor de história, como na divulgação dos seus sentidos públicos, a partir da valorização das narrativas de grupos e coletividades plurais sobre suas experiências sociais.
Segundo Joseli Mendonça, historiadores inseridos no campo da História Pública podem se dedicar à produção de conhecimento histórico destinado a leitores não profissionais ou a audiências ampliadas
(MENDONÇA, 2016). Jill Lindgton, por sua vez, apontou que a prática da História Pública realiza a apresentação popular do passado para um leque de audiências, por meio de museus e patrimônios históricos, filmes e ficção histórica
(LINDGTON, 2011). A História Pública enfrenta, assim, o desafio da produção e difusão compartilhada do conhecimento histórico, diante das novas tecnologias que têm modificado o tratamento das fontes de pesquisa e de ensino, associam os saberes acadêmicos e não-acadêmicos.
No caso do nosso projeto, a dimensão pública não está somente na criação de conteúdos voltados para a comunidade mais ampla, mas na participação dessa comunidade na própria criação desses conteúdos. O que se deu, por um lado, através da consulta feita aos moradores por meio das redes sociais, de locais que expressassem as memórias afetivas da população de Niterói. Locais esses que compuseram os Circuitos, explicados abaixo. Por outro, envolveu entrevistas com moradores e visitantes, a fim de elaborar uma narrativa da história da cidade permeada pela memória afetiva das pessoas que nela vivem e circulam.
A memória, como bem lembra Pierre Nora, é um fenômeno sempre atual, um elo vivido no eterno presente
. O componente afetivo da memória faz, segundo o autor, com que ela se alimente de lembranças vagas, telescópicas, globais ou flutuantes, particulares ou simbólicas, sensível a todas as transferências, cenas, censuras ou projeções
(NORA, 1993). Sandra Pesavento, por sua vez, apontou a dimensão da sensibilidade das cidades, tendo em vista que elas são um "fenômeno que se revela pela percepção de emoções e sentimentos dados pelo viver urbano e, também, pela expressão de utopias, de esperanças, de desejos e medos, individuais e coletivos, que esse habitar em proximidade propicia" (PESAVENTO, 2007).
Uma parte fundamental do projeto era justamente contemplar a memória afetiva dos habitantes sobre Niterói, o que se revela nos circuitos construídos, a partir das entrevistas. Pretende-se, dessa forma, que a interação com o material produzido suscite novas lembrança e a própria criação de memórias afetivas.
O projeto pretende, também, estimular o turismo histórico-cultural, que segundo Vânia Moletta classificou, é aquilo que garantia o acesso ao patrimônio cultural, isto é, o acesso à história, à cultura e ao modo de viver de uma comunidade e de um povo, a partir do contato com suas tradições e manifestações culturais, históricas e religiosas
(MOLETTA, 1998). Já o historiador José Meneses chama atenção para um elemento importante na discussão relativa ao turismo cultural: os tempos diversos ou, melhor dizendo, a história (MENESES, 2004). O Ministério do Turismo, por sua vez, entende que o turismo cultural abrange as atividades turísticas relacionadas à vivência do conjunto de elementos significativos do patrimônio histórico e cultural e dos eventos culturais, valorizando e promovendo os bens materiais e imateriais da cultura
(Ministério do Turismo, 2010).1
Além das visões explicitadas acima, nossa proposta dialoga com outras experiências, como o projeto Passados Presentes – memória da escravidão no Brasil, organizado por Hebe Mattos, Keila Grinberg e Martha. Abreu. O referido projeto pretendeu estimular o turismo de memória no Rio de Janeiro, em parceria com as comunidades, tendo desenvolvido um aplicativo para celular e exposições permanentes no quilombo do Bracuí, no quilombo de São José da Serra e na cidade de Pinheiral.2
Cidadania, turismo e educação através da História de Niterói: explorando novas plataformas,
como revela o próprio título possui uma interface digital, em que os circuitos serão acessados por meio de site e aplicativo. Existe atualmente um amplo debate acadêmico sobre a importância da internet para a divulgação e aprendizado da História (OLIVEIRA, 2014). Nesse sentido, vimos dialogando, especificamente, com o projeto History Digital - gathering, preserving and presenting the past on the web!
, da Universidade George Mason, que apresenta possibilidades para a produção de um "trabalho histórico on line" (http://chnm.gmu.edu/digitalhistory).
O site e o aplicativo apresentarão um mapa em que alguns pontos da cidade estarão assinalados e o usuário ao clicar em um determinado ponto poderá ter acesso a textos informativos, fotos, recortes de jornais e entrevistas com a população. Todo esse material proporcionará um olhar amplo e diversificado da história da cidade, em que os seus cidadãos também apresentarão as suas memórias afetivas sobre o espaço em que habitam.
O site e o aplicativo foram pensados como meios de incentivar o turismo histórico, mas também na interface com o ensino. À vista disso, objetivou-se que eles possam ser utilizados nas salas de aulas das escolas de Niterói, auxiliando na produção de conhecimento sobre a história da cidade. Propõe-se, ainda, realizar oficinas com professores para que possam relacionar tais dispositivos com seus processos pedagógicos. A intenção é, inclusive, que alunos e professores criem, também, seus próprios circuitos e produzam seus relatos na interação com a cidade e sua história.
No que se refere aos mencionados circuitos, foram temáticos em quatro eixos, nomeadamente, Afetivo
, Conhecimento
, Cultural
e Cívico
. Os locais que integram o Circuito Afetivo
foram selecionados por meio da pesquisa feita em redes sociais. Já o Circuito do Conhecimento
é composto pela Universidade Federal Fluminense, com seus campi Gragoatá, Praia Vermelha e Valonguinho. O Circuito Cultural
é integrado pelo Caminho Niemeyer, o Centro Cultural - Correios, o Teatro Municipal, o Solar do Jambeiro, o Museu Janete Costa, o Museu do Ingá e Centro de Artes da UFF. Por fim, no Circuito Cívico
estão a Assembleia, o Liceu Nilo Peçanha, o Fórum, a Praça da República e o Monumento Triunfo da República. Cada circuito mereceu pesquisas em fontes históricas, bem como o levantamento da produção bibliográfica, visando compor o material que integrará o site e o aplicativo.
Niterói 450: Capítulos de sua história ao abordar temáticas inéditas, pouco conhecidas ou, ainda, revisitando temas já estudados se somará, portanto, às iniciativas do projeto em questão, contribuindo para a construção de um saber coletivo, diverso e plural, corroborando, assim, para uma melhor divulgação do conhecimento da história de Niterói.
Karoline Carula
Paulo Cruz Terra
Agosto de 2023
Bibliografia
BORGES, Vera Lúcia Bogéa. Turismo Histórico-Cultural: volume único. Rio de Janeiro: Fundação Cecierj, 2015.
MENESES, José Newton C. História e Cultura. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.
MENDONÇA, Joseli Maria Nunes. História e memória da escravidão no Paraná: possibilidades de uma produção na perspectiva da história pública. In: Anais do Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional. Curitiba: UFPR, 2015.
MINISTÉRIO DO TURISMO. Dinâmica e diversidade do turismo de base comunitária: desafio para a formulação de política pública. Brasília: Ministério do Turismo, 2010.
NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Revista Projeto História, n. 10, 1993.
OLIVEIRA, N. A. S. de. História e Internet: conexões possíveis. Tempo e Argumento v. 6, n. 12, 2014.
PESAVENTO, Sandra Jatahy.Cidades visíveis, cidades sensíveis, cidades imaginárias Revista Brasileira de História, vol. 27, n. 53, 2007.
1Ver também (BORGES, 2015).
2Sobre o projeto, ver: http://passadospresentes.com.br/site/Site/index.php
A Universidade Federal Fluminense e Niterói: um binômio indissociável
É impossível pensar na cidade de Niterói sem destacar, especialmente, a UFF, assim como desconsiderar a importância da conjuntura urbana que possibilitou a criação da Universidade Federal Fluminense em 1960.
Desde as primeiras décadas da República, Niterói vivenciou uma intensificação da vida urbana que se expressava pelo desenvolvimento do comércio, indústria, instalação de diversos bancos além da abertura de colégios, cinemas, balneários e até o famoso Cassino Icaraí. Tal quadro incentivou, de forma contínua e crescente a migração interna, sobretudo oriunda das regiões serrana e norte noroeste fluminense. Engrossava tais correntes, sobretudo, a nova geração que pleiteava maior acesso à educação, especialmente ao ensino superior e à empregos públicos. Em face a tal demanda surgiram, até o ano de 1929 as primeiras faculdades particulares como a de Direito, Farmácia e Odontologia, Medicina que, posteriormente, seriam estadualizadas. Além disso, nas décadas seguintes, por força de decreto estadual, seriam criadas as escolas fluminenses de Medicina Veterinária (1936), Enfermagem (1944), Serviço Social (1945), Engenharia (1952).
A construção de Brasília a partir de 1957 e a efetivação do preceito constitucional da transferência da capital federal para o interior do país, transformaram o destino da cidade do Rio de Janeiro e do Estado em grande debate que, naturalmente, repercutiu em Niterói envolvendo uma vibrante participação da União Fluminense dos Estudantes (UFE).
O Estado do Rio de Janeiro era uma das poucas unidades da federação que ainda não possuía uma universidade federal e apesar da federalização das faculdades de Medicina, Direito, Farmácia e Odontologia não se cumpriam suas dotações orçamentárias. Por outro lado, os governos estaduais nos mandatos de Macedo Soares, Amaral Peixoto e Miguel Couto, propuseram-se à criação da Universidade Fluminense, o que nunca se efetivou, pelo não provimento das verbas necessárias, mas, também, pela pressão da União Fluminense dos Estudantes, em fase de grande visibilidade e prestígio social, tendo sua principal corrente clamando pela criação de uma instituição de ensino federal.
A campanha espraiou-se pela sociedade geral e contou com apoio expressivo da imprensa e de lideranças políticas. Coube ao então deputado federal Vasconcelos Torres encaminhar ao congresso nacional o projeto de criação da universidade, o que se concretizou através de lei sancionada por Juscelino Kubitschek.
A criação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro foi, sem dúvida, impulsionada não apenas pelo anseio de equiparação, neste aspecto, aos outros estados da federação, mas, também, por um projeto de desenvolvimento para região fluminense, além do desejo de afirmação do estado do Rio de Janeiro em relação ao antigo Distrito Federal, sobretudo quanto a autonomia intelectual em relação a cidade vizinha.
A historicidade deste processo justifica-se, não apenas, pelo esforço social na criação da UFF mas, sobretudo, por suas origens que reunindo todas as unidades de ensino superior, não apenas as federalizadas, mas as estaduais caracterizou-a como uma instituição encravada na cidade. Em Niterói são 3 campi (Valonguinho, Gragoatá e Praia Vermelha) e muitas unidades isoladas localizadas em vários bairros - Centro, São Domingos, Ingá, Santa Rosa, Vital Brasil. Por força de seu estatuto, a UFF comprometeu-se, não apenas, com o ensino e pesquisas acadêmicas, mas, também, com o desenvolvimento regional. Assim, além de Niterói, mantém cursos de graduação, 125 presenciais e 8 à distância, em 29 outros municípios fluminenses em todas as regiões do estado, do sul ao norte/ noroeste, passando pela baixada, e na Rocinha a maior favela do Brasil.
A informação mais generalizada nos sites de consulta sobre Niterói é que integra a região do Grande Rio. Se é verdade do ponto de vista geopolítico administrativo é, também, uma realidade que, do ponto de vista econômico, social e cultural, trata-se de uma área urbana, profundamente diferenciada de todos os outros municípios que integram a área metropolitana.
É importante ressaltar que com a perda da capitalidade, vinculou-se à Niterói uma ideia, de provincianismo e de decadência econômica e cultural, responsável por um imaginário sustentado por chargistas e jornalistas que a proclamavam como a cidade sorriso numa boca sem dentes
ou a cidade em que até o urubu voa de costas
! As dificuldades decorrentes do mencionado fato político, foram superadas a partir do final dos anos de 1980, quando se sucederam gestões municipais preocupadas com um Plano Diretor marcado pelo anseio de modernização e desenvolvimento urbano. A expansão da região oceânica da cidade de grande beleza natural e a construção do Caminho Niemeyer, com destaque para o MAC, foram alavancas fundamentais para recuperação do prestígio local e visibilidade nacional. Atualmente, destaca-se na região metropolitana pelos índices de qualidade de vida e maior renda per capita do Estado.
Para além da expressão dos setores médios e do poder de compra de sua população, no que diz respeito à educação, cultura, assistência social e saúde e até urbanização, a relação com a UFF é relevante. Não caberia nos limites deste texto apresentar, e muito menos enumerar, as diferentes ações acadêmicas da UFF em todos esses campos citados, que se viabilizam, sobretudo, por projetos departamentais, através da Pró-Reitoria de Extensão.
Nas epidemias do HIV e Dengue, de lembrança traumática, com a rede estadual e municipal de saúde despreparadas para tal enfrentamento, a UFF foi da maior importância recrutando professores e alunos para assistência médica e sanitária além da assistência social e participação ativa nos grupos de apoio aos aidéticos como o PELA VIDA. O Hospital universitário Antônio Pedro é uma referência da cidade, mantendo além das atividades hospitalares e extensivas, serviço ambulatorial para a população. É importante ressaltar que outras unidades da área de saúde como Odontologia e Nutrição, também, mantêm esta prática.
No campo educacional as atividades da UFF ultrapassam as salas de aulas e oferecem reciclagem de docentes das redes de ensino municipal e estadual e, também, com eles, desenvolvem projetos de cooperação visando a produção de materiais para uso didático pedagógico. Nas áreas de assistência social, psicologia, assim como na pedagógica, os estágios práticos supervisionados por docentes, além de prepararem os futuros profissionais, atendem importantes necessidades da população. As Ciências Sociais aplicadas, da mesma forma, dialogam e prestam serviços à comunidade niteroiense destacando-se, na Faculdade de Direito, o Centro de Assistência Jurídica dirigido sobretudo à população carente e nos cursos de Sociologia e Antropologia o apoio especializado aos movimentos sociais.
Neste ano em que se comemoram os 450 anos de Niterói, ao departamento de História reservava-se um papel de destaque e dele muito se espera, pois seu Programa de Pós-Graduação desde quando foi criado é referenciado como um dos mais importantes no país e o que mais recebeu notas máximas de avaliação da CAPES por anos consecutivos.
Nos seus cursos sempre se discutiu que a história do passado simplesmente, é pura erudição e não atende as demandas da sociedade contemporânea e que, sem dela abrirmos mão, temos que visitar os outros tempos com questões do presente, o que dá vida a História! Ensina-se, também, que a produção do conhecimento histórico exige preparo teórico e metodológico e, sobretudo, o exercício da crítica e que o historiador não é um repetidor e deve produzir, sempre, novos conhecimentos ou atualizá-los.
A cidade é entendida como um espaço socialmente construído e permanentemente reconstruído e ressignificado e os trabalhos de história local refletem a preocupação de não aprisioná-la dentro de seus limites geopolíticos pois, as questões podem ultrapassá-los, sobretudo, no mundo contemporâneo e capitalista. É importante, ainda, reafirmar que neste campo a história positivista de personagens e fatos, foi inteiramente ultrapassada pela história crítica.
Assim, o livro que se segue, talvez seja o projeto mais importante, pois duradouro, do grupo de trabalho, indicado pelo Magnífico Reitor, Antônio Cláudio Lucas da Nóbrega, para coordenar a participação da UFF nas comemorações dos 450 anos de Niterói. Todos os autores têm expressiva relação com a Universidade Federal Fluminense. Muitos docentes e pesquisadores de prestígio nacional e internacional, que foram seus alunos no nível da graduação, mestrado ou doutorado e pesquisadores de gerações mais jovens que participam ou dialogam com os grupos de pesquisa da Pós-Graduação. Enfim, um conjunto de textos que sem dúvida, adensará o conhecimento histórico sobre Niterói, questionando o passado atentos ao presente de forma instigante e criativa.
Ismênia de Lima Martins
Professora Emérita da UFF
Coordenadora do Grupo de Trabalho da UFF nos 450 anos de Niterói
Niterói 450 anos: Capítulos de sua história
Do alto dos bastiões de Zaira, uma das cidades do império do grande Kublai Khan, Marco Polo, diz:
Poderia falar de quantos degraus são feitas as ruas em forma de escada, da circunferência dos arcos dos pórticos, de quais lâminas de zinco são recobertos os tetos; mas sei que seria o mesmo que não dizer nada. A cidade não é feita disso, mas das relações entre as medidas de seu espaço e os acontecimentos do passado (…). (CALVINO, 1990, p.14)
O recurso à obra prima de Ítalo Calvino parece óbvio quando o objetivo é pensar as cidades. Ninguém o fez por ângulos mais diversos, nem com a intensidade e o refinamento que o autor italiano. Mas, muito além das descrições fictícias, Calvino proporcionou a leitores de tempos distintos, perspectivas novas para entender as complexas relações entre as medidas do espaço e os acontecimentos do passado. Memórias de cidades invisíveis que transbordam para o presente por meio de restos materiais grafados no espaço urbano.
Niterói, cuja origem remota se deu com a doação da sesmaria de São Lourenço dos Índios ao cacique Temininó Arariboia, de nome cristão Martim Afonso de Souza, em 1673, guarda em seu espaço as marcas do tempo que passou. Algumas expressivas como igrejas, fortalezas, traçados de ruas. Outras, mais discretas, como o piso pé de moleque que coexiste com o asfalto em certas regiões. Além da paisagem, montanhas sinuosas debruçadas sobre a Guanabara, serras e lagoas transformadas pela ação humana no decorrer dos séculos. Como diria o Marco Polo imaginário do autor italiano, Niterói de 2023 é toda a Niterói do passado que subsiste na memória do presente, é toda uma onda que reflui das recordações e se dilata
, dialogando com marcos temporais e regimes jurídicos diferentes.
Nesse sentido, o livro que se apresenta neste que é o 450º aniversário de Niterói, é uma oportunidade para investigar a relação entre a cidade e os acontecimentos do seu passado remoto e do recente. Vale dizer que a historiografia sobre a antiga capital fluminense avança a passos lentos. Ainda é marcante entre nós a influência do livro, Cidade Múltipla. Temas de História de Niterói, organizado por Ismênia de Lima Martins e Paulo Knauss, em 1997 (NITERÓI LIVROS). Tal obra pode ser considerada o primeiro esforço acadêmico coletivo a tematizar questões da história local, como a sua capitalidade, a organização de seu espaço urbano, a produção de alimentos, sua industrialização, o movimento sindical, entre ouras questões, transformando-se em importante referência para pesquisas que se seguiram à sua publicação e que contemplaram sua história.
Entre aquele livro e este que também pretende pensar coletivamente a cidade, vinte e seis anos se passaram. Nesse período, algumas dissertações e teses foram escritas em diversas áreas do conhecimento sobre Niterói, parte das quais transformadas em livros.
No que se refere exclusivamente ao âmbito do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense, cuja abrangência nacional atrai pesquisadores de todo o país, multiplicando e diversificando os temas de pesquisas, em 1997, ano da publicação de Cidade Múltipla, registravam-se apenas 8 estudos, entre dissertações e teses de doutorado sobre Niterói. Quase trinta anos depois, esse número pouco mais que dobrou chegando a 17, revelando um avanço vagaroso da pesquisa sobre a cidade. Ressalte-se que no universo do PPGH, entre 1974 e 2022, 1988 trabalhos foram defendidos, desses, 211 (10,6%) contemplaram a cidade do Rio de Janeiro como recorte espacial e 17 (0,8%) a cidade de Niterói!1
Considerando-se que o referido programa, assim como a reitoria estão sediados em Niterói e que em seu regimento, a universidade compromete-se a gerar conhecimento sobre a região em que se insere2, e vale dizer que durante décadas o campus da UFF misturou-se às ruas da cidade, o percentual de estudos sobre a história local segue reduzido.
Não surpreende que tais dados reflitam a importância nacional da cidade do Rio de Janeiro como recorte espacial privilegiado de pesquisa, uma vez que foi corte e capital federal. Embora não haja termo de comparação entre as duas cidades, os números são massacrantes em relação a Niterói! Evidenciam, de forma contundente, a grande lacuna historiográfica que encobre a antiga capital fluminense, que se oferece, assim, como um campo vasto à investigação.
Importante lembrar que se Niterói teve um papel de destaque no passado por sua condição de capital da Província e do antigo estado do Rio, continua, no presente, a se destacar como cidade da região metropolitana do Rio, pelos seus altos índices de qualidade de vida conquistados em seu passado recente, particularmente no pós Constituição de 1988.
Tal período, ainda fresco na memória, caracterizou-se por seu papel de vanguarda no desenho de políticas públicas que se tornaram modelares para o país, tanto no que se refere à saude como à atenção básica, tornando-se referência para implantação do Sistema Único de Saúde. Além disso, inovou na mobilidade urbana ao unificar a tarifa de ónibus e concentrar o transporte público no Terminal João Goulart. Foi referência, também, na implementação de programas de urbanização de favelas no lugar de removê-las. No presente, volta a destacar-se na mobilidade urbana, através da construção de uma vasta malha cicloviária que recorta suas ruas, e também, no meio ambiente ao dar andamento a projetos inéditos de despoluição das lagoas e criação de parques ambientais. Gestões ousadas que mudaram a percepção da cidade sobre si própria. Há muito Niterói não é a cidade onde o urubu voa de costa3, mas uma cidade com elevada autoestima e que aponta os caminhos para o futuro.
São muitas as questões que fazem de Niterói uma fonte ilimitada de temas para pesquisa histórica. Não apenas as destacadas acima por sua grande e positiva visibilidade social. Grilagem de terras, motins urbanos, ditadura, repressão e resistência popular, traumas, protagonismo indígena, negro e imigrante, entre outros, são problemas que aguardam um número maior de pesquisadores para sua investigação. Assim como sua história politico-partidária, as mencionadas políticas públicas e sua crítica.
Este livro pretende chamar atenção para alguns desses temas, e para realizar essa tarefa reuniu-se aqui pesquisadores das mais diversas formações e filiações institucionais, e ainda, professores das redes públicas de ensino. Tais autores se debruçaram sobre questões que contemplam o passado, em suas diversas medidas, o remoto e o recente e, também, a história do tempo presente por meio de abordagens e fontes que procuraram capturar distintos fragmentos da experiência urbana local. Algumas questões foram revisitadas com novas perspectivas, outras são inteiramente originais. Não há dúvida, entretanto, que os leitores encontrarão nesta obra artigos instigantes, textos de leitura fluida que descortinarão as múltiplas camadas de tempo e de memória que coexistem na cidade e poderão, diferente do grande khan, condenado apenas a imaginar as cidades do seu império, pensar Niterói e seus passados como uma construção social em permanente elaboração.
A obra divide-se em seis partes que se conectam a partir da memória. Na primeira, Protagonismo indígena na história da cidade
, destaca-se o artigo de Maria Regina Celestino de Almeida: Niterói Indígena: do mito a-histórico ao protagonismo indígena na história fluminense
. Nele, a autora, baseada na tese de Fredrik Barth de que as culturas e identidades dos povos indígenas devem ser vistas como produtos históricos, dinâmicos e flexíveis que continuamente se transformam na dinâmica de suas interações
apresenta, de forma nova para o grande público, as trajetória de Arariboia e dos Temiminós e o processo histórico de construção da cidade de Niterói, permitindo aos leitores, também, expandir essa reflexão para a província fluminense e, de modo amplo, para o Brasil.
Na 2ª parte, o rural e o urbano em Niterói a partir das transformações das relações de trabalho no Brasil, no início do século XX
, é composta por dois artigos. Em Niterói rural: novas indagações, velhas inquietudes
, Alan Dutra Cardoso e Márcia Maria Menendes Motta, refletem, tomando como base a centralidade da questão agrária no processo de territorialização da sociedade niteroiense – e do próprio estado do Rio de Janeiro, as especificidades do seu passado rural, em face às regional e nacional.
Andrea Telo da Côrte, por seu turno, em Niterói na Primeira República: imigração urbana e mundos do trabalho
, aborda a presença imigrante na cidade e sua interação com os trabalhadores nacionais nos contextos cruzados do pós-abolição, de formação da classe trabalhadora local e da modernização urbana da capital fluminense.
A terceira parte do livro intitula-se, Niterói: Cidade e Estado. Desafios da sua Capitalidade e traz três artigos de fôlego que abordam a trajetória politica de Niterói em seu duplo papel de município e capital. Em Niterói e as disputas pela Capital Fluminense: 1893-1903
, Ismenia de Lima Martins aborda o debate sobre a transferência da capital fluminense a partir da análise da imprensa entendida como um dos agentes do processo. Maria Ana Quaglino, em Uma prefeitura para Niterói
, problematiza o contexto em que se deu a criação do executivo municipal, as dicussões em torno do cargo de prefeito e a turbulenta
administração Paulo Alves.
Em "Niterói e a fusão: a capital fluminense na formação do novo estado do Rio", Marieta de Moraes Ferreira e Felipe da Silva Barbosa oferecem aos leitores um artigo sobre o tema da fusão, a partir de uma mirada geral sobre a trajetória política da capital fluminense até 1975, da análise dos personagens e interesses que cercaram a tese da fusão e, sobretudo, seus impactos para a política da cidade e do novo estado.
Niterói entre a Experiência Democrática e a Ditadura, tema da quarta seção do livro apresenta três artigos que convergem para a ruptura institucional de 31 de março de 1964. Em O Fakir e o Caneco: trabalhadores e trabalhadoras fluminenses nas lutas contra a carestia e alta do custo de vida (anos 1950/60)
, Luciana Pucu Wollmann, trata dos movimentos sociais em Niterói, particularmente, dos sindicatos, apresentando o movimento contra a carestia que marcou aquela quadra, e sua articulação com o contexto político nacional.
Andressa do Carmo, por seu turno, em "O impeachment do governador fluminense Badger Silveira (1963-1964) e o Golpe Civil e Militar de 1964, em Niterói", detalha o processo de destituição de Badger Silveira no período, analisando a atuação do trabalhista durante a crescente radicalização política que marcou o início dos anos de 1960 e sua relação com o governo João Goulart (1961-1964).
Por sua vez, em Niterói, 1964: memórias sensíveis
, Paulo Knauss, retoma sua pesquisa sobre os traumas da cidade e a construção do esquecimento como prática do Estado para falar da Operação limpeza
e do estádio Caio Martins como prisão. Aborda, também, o projeto nunca efetividado do memorial da resistência à ditadura na cidade.
História ambiental, conflitos de terra e resistência na atual Região Oceânica de Niterói
é o título da quinta seção deste livro que reúne quatro artigos dedicados a debater, por prismas diferentes, as dinâmicas históricas da referida região. Embora o lugar, também, seja pensado na sua longa duração, é o passado recente da cidade que se evidencia para o historiador e mobilizará o leitor. Assim, em Ambientalismo em movimento: reflexões sobre a criação do Parque Estadual da Serra da Tiririca
, Alba Simon e Cainã Carneiro Gusmão rememoram os passos percorridos pelo movimento ambientalista em Niterói, surgido na década de1980, suas transformações e a sua maior conquista: a criação do mencionado parque.
A fazenda do Engenho do Mato, encostada na Serra da Tirirca, é o tema de Lucia Maris Velasco Machado de Mendonça, em Engenho do Mato: recortes de um bairro pela metade
. Nele, é possivel afirmar que a micro e a macro história se cruzam ao evidenciar a ocupação que vem de tempos coloniais da região e o loteamento dos anos 50, do século passado, marcado pelo conflito entre assentados e grileiros. A história dos seus últimos proprietários reverbera a ação das elites esclarecidas dos anos 20, empreendedoras de ações de melhoramentos sanitários que incidiram diretamente na vida dos sitiantes, remanescentes de familias de escravizados e migrantes. A lenta urbanização da capital fluminense também se revela nas marcas de um bairro que experimentou uma reforma agrária e permanece, ainda hoje, metade rural, metade urbano.
Ancestralidade é o tema de Maria De Simone Ferreira em O Museu de Arqueologia de Itaipu e o patrimônio ancestral de Niterói
, em que aborda a antiguidade da presença humana na região, em face dos diferentes sítios arqueológicos locais e das distintas formas de ocupação do espaço. A autora destaca, ainda, como a comunidade local de pescadores artesanais irá demandar que sua luta pelo reconhecimento da identidade ancestral do grupo seja articulada à narrativa da instituição sobre o patrimônio arqueológico milenar da localidade.
Itaipu e a ancestralidade também estão presente no artigo de Ademas Pereira da Costa Jr. Em Imagem e memória dos gestos da pesca tradicional de Itaipu
, o autor apresenta um repertório de gestos, saberes e caminhos internos que tecem as memórias da comunidade de pescadores artesanais. Ademas ouviu as histórias que correram gerações e falam de uma praia de Itaipu que remonta à ocupação colonial, e cujas fronteiras alcançavam boa parte do que hoje é a região oceânica, incluindo o Engenho do Mato. Fronteiras definitivamente transformadas pela abertura do canal de Camboatá, fruto das ações da Veplan Residência & Empreendimentos, no final dos anos de 1970, e que geraram um interminável conflito de terras e ameaça permanente à pesca artesanal.
Na última parte, três artigos contemplam o tema da Memória Negra. Em Caminhos de Darwin em Niterói: diálogos entre o passado e o presente
, Martha Abreu e Sandra Escovedo Selles, consolidam vinte anos de pesquisa sobre os caminhos de Darwin em Niterói. A travessia da Serra da Tiririca até a Fazenda Itaocaia, em Maricá, proporcionou reflexões que vão reverberar na obra do cientista inglês, mas vão também, como apontam as autoras, contribuir para recontar a história da população negra na região.
Se o artigo de Martha Abreu e Sandra Selles nos faz partilhar das emoções da expedição de Darwin e observar o Engenho do Mato hoje, Henrique Barahona em Histórias esquecidas: o desembarque ilegal de africanos escravizados nas praias de Niterói no período do tráfico ilegal (1831-c.1860)
, torna clara a histórica amnésia que encobre o referido período no Brasil, assinalando o lugar da cidade nesse processo.
Da pena do autor, Niterói emerge como um dos destinos privilegiados do desembarque e comércio ilegal de africanos a partir de uma intrincada rede de agentes que envolvia grandes e pequenos proprietários, burocratas do império, capitães de navios e comerciantes dos dois lados do atlântico que se acumpliciaram para manter o infame comercio
. Henrique retira o véu de nossa inocência ao descobrir as praias oceânicas como pontos de desembarque e apontar os caminhos percorridos por eles até os barracões onde seriam vendidos próximos às praias da Guanabara. Eis que Niterói, sempre descrita como pacata, provinciana e sorridente, revela sua face escravagista. Certamente, haverá um antes e depois dessa leitura.
A presença negra tão vivamente narrada por Henrique, é a memória que Teones França nos convida a visitar ao percorrer a Rua Noronha Torrezão e parar numa roda de samba na quadra da Acadêmicos do Cubango. Nesse trajeto, as lembranças e os restos materiais da presença negra revelam a constituição do Cubango como um bairro negro, da mesma forma que nos revela, como no presente a acelerada especulação imobiliária ameaça tal memória.
Finalmente, retomando a citação que abre essa apresentação, por mais que os especialistas se esforcem para oferecer interpretações cientificamente confiáveis e coerentes sobre a história da cidade, essa é infinitamente maior e mais fragmentada para que possamos alcançar. Não é possível apreendê-la em seu todo, pois há sempre um objeto que escapa à medida que apenas algumas das suas histórias são visíveis nas ruas, pórticos e tetos
. Isso porque como diz o Marco Polo de Ítalo Calvino, (…) a cidade não conta seu passado, ela o contém como as linhas da mão, escrito nos ângulos das ruas, nas grades das janelas, nos corrimãos das escadas, nas antenas dos para-raios, nos mastros das bandeiras, cada segmento riscado por arranhões, serradelas, entalhes, esfoladuras
.
O objetivo final da obra que ora se oferece aos leitores é, justamente, o desafio de apreender, ao menos parcialmente, algumas dessas histórias invisíveis.
Andrea Telo da Côrte
Julho de 2023
1SARAIVA, Luis Fernando; OLIVEIRA, Thiago Alvarenga. Dissertações e Teses do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense-1974-2022. Niterói, PPGH-UFF, 2023.
2Estatuto da Universidade Federal Fluminense, título I, Artigo I, Inciso V.
3Refere-se à famosa frase criada por Stanislau Ponte Preta, pseudônimo do escritor Sergio Porto.
II. O PROTAGONISMO INDÍGENA NA HISTÓRIA DE NITERÓI
Niterói Indígena: do mito a-histórico ao protagonismo indígena na história fluminense
Maria Regina Celestino de Almeida1
Introdução
Dois monumentos a Araribóia2 situados em Niterói simbolizam as origens indígenas da cidade. Até que ponto, porém, eles refletem, de fato, a presença e a participação dos povos indígenas na história local? O que pensam os moradores de Niterói sobre seus antepassados indígenas? Como são vistos esses povos no imaginário social da cidade e em nossos livros de história?
A rigidez das estátuas do grande chefe expressa, como bem observou John Monteiro (2013), a forma como os povos indígenas foram, por longo tempo, representados em nossa historiografia. Enrijecidos em imagens estereotipadas e preconceituosas, os inúmeros e diversificados povos originários do Brasil parecem ter se perpetuado em nossa história entre os extremos de bons ou maus, mansos ou selvagens, conforme o olhar e os interesses dos colonizadores.
Araribóia e os Temiminós que se aliaram aos portugueses em suas guerras figuram entre os bons e tiveram destaque na História do Brasil, porém como bravos guerreiros do passado. Fiéis e devotados aliados dos portugueses, uma vez inseridos na sociedade colonial, não tardariam a desaparecer. Em 1568, após a conquista da região, Araribóia atendeu ao pedido de Mem de Sá para ficar no Rio de Janeiro e garantir sua defesa. Escolheu as terras nas Bandas d’Além que lhes foram passadas em sesmarias e ali se estabeleceu com sua gente, na aldeia de São Lourenço, que daria origem a Niterói3. Desde então, integrados à ordem colonial como índios aldeados, os bravos Temiminós e seu prestigiado chefe não tiveram mais lugar em nossa história. Na perspectiva historiográfica que não considera os indígenas como sujeitos históricos capazes de agir por interesses próprios, eles só poderiam lutar, como aliados, em benefício dos portugueses e, quando instalados nas aldeias, só lhes restava a submissão passiva a um contínuo processo de perdas culturais e identitárias.
Seu lugar em nossa história só podia ser o de heróis idealizados do passado, tal como nos foram apresentados pela historiografia do século XIX, em grande parte, reproduzida até os nossos dias. Em oposição a esses índios fiéis e devotados, estavam os chamados selvagens que deviam ser combatidos e legalmente escravizados. Uns e outros, na condição de aliados ou de inimigos vencidos, entravam no mundo colonial misturando-se, respectivamente, aos despossuídos da colônia e aos escravizados e desapareciam da história. Essas imagens equivocadas e preconceituosas sobre os povos indígenas construídas desde os primórdios da colonização ganharam força e se consolidaram ao longo do oitocentos, através dos discursos políticos, intelectuais, artísticos e históricos. Enquanto o índio do passado era idealizado e transformava-se em símbolo do estado nacional, os rebeldes nos sertões ou nas antigas aldeias coloniais, que lutavam em defesa de suas terras e reivindicavam direitos, eram vistos preconceituosamente como selvagens, primitivos, degradados e indolentes. Três imagens de índio foram construídas e consolidadas no decorrer do século XIX: o idealizado do passado, o rebelde dos sertões e o degradado, preguiçoso, indolente, misturado e desaparecido das antigas aldeias coloniais. De acordo com a política indigenista do Império, com a qual comungavam intelectuais, artistas e políticos do período, todos deveriam caminhar para a extinção. O século XIX construiu a ideia do desaparecimento dos indígenas. Foi, por excelência, o período da extinção das antigas aldeias coloniais e do apagamento das identidades de seus habitantes (ALMEIDA, 2012).
Chegamos, então, aos séculos XX e XXI com a ideia de que os índios inseridos na colônia estavam no passado e tinham desaparecido junto com suas antigas aldeias. São Lourenço, a aldeia de Araribóia e primeira da capitania do Rio de Janeiro, foi extinta apenas em 1866, com a justificativa de que os índios já estavam civilizados e misturados à massa da população. Seus habitantes, no entanto, que já haviam saído da história desde que ali se estabeleceram, solicitariam,
