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O que contamos ao vento
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E-book262 páginas2 horas

O que contamos ao vento

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Sobre este e-book

Todos temos algo a dizer àqueles que perdemos
Uma história inesquecível da profundidade da dor, da leveza do amor e do desejo humano de manter perto do nosso coração as pessoas que já não estão connosco.
No lado íngreme de Kujira-yama, a Montanha da Baleia, existe um imenso jardim chamado Bell Gardia. No meio há uma cabine, dentro da qual repousa um telefone que não funciona, carregado de vozes sopradas ao vento. De todo o Japão, milhares de pessoas que perderam alguém passam por ali todos os anos e usam o telefone para falar com aqueles que já partiram.
Yui é uma jovem de trinta anos, e 11 de Março de 2011 é a data que a mudou para sempre. Naquele dia, o tsunami varreu o país onde mora, engoliu a sua mãe e a sua filha, tirou-lhe a alegria de estar no mundo.
Ao saber, por acaso, daquele lugar surreal, Yui vai até Bell Gardia e conhece Takeshi, um médico que mora em Tóquio e tem uma filha de quatro anos, que emudeceu no dia em que a mãe morreu.
Quando Yui percebe que aquele lugar precioso corre o risco de ser arrasado por um furacão, decide enfrentar o vento, tanto aquele que sacode a Terra como o que levanta a voz de quem já não está presente.
Os elogios da crítica:
«Uma história sobre a obstinada sobrevivência da esperança quando tudo o resto está perdido. Messina mostra-nos que, mesmo ante uma terrível tragédia, como um terramoto ou a perda de um filho, as pequenas coisas - uma chávena de chá, uma mão estendida - podem oferecer um caminho a seguir. O seu minimalismo meditativo transforma-o num notável haiku do coração humano.»
The Times
«Contada delicadamente e com muito cuidado, esta parece uma história particularmente ressonante para estes dias.»
Stylist

«Com a sua linguagem poética, este belo livro é uma pequena e tranquila história de amor e uma vasta e expansiva meditação sobre o luto e a perda.»
Heat
IdiomaPortuguês
EditoraSUMA DE LETRAS
Data de lançamento5 de fev. de 2021
ISBN9789897842238
O que contamos ao vento
Autor

Laura Imai Messina

Laura Imai Messina nasceu em Roma. Aos 23 anos, mudou-se para Tóquio, onde obteve um Doutoramento na Universidade de Estudos Estrangeiros de Tóquio. É professora em algumas das universidades mais prestigiadas da capital japonesa. Depois de alguns romances publicados em Itália, O QUE CONTAMOS AO VENTO, baseado na existência real do Telefone do Vento, é a sua estreia internacional. Os direitos foram vendidos para mais de 20 países antes da sua publicação em Itália, onde vendeu mais de 30 000 exemplares e se manteve na lista de mais vendidos durante mais de 13 semanas.

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    O que contamos ao vento - Laura Imai Messina

    portadilla

    Para Ryosuke, Sosuke e Emilio,

    para as vozes que vos acompanham sempre

    ADVERTÊNCIA

    Para a transcrição de palavras japonesas, utilizou-se o sistema Hepburn, segundo o qual as vogais se lêem como em português e as consoantes como em inglês. Assinala-se ainda que:

    ch é uma africada surda, como o t na pronúncia do português do Brasil de tia

    g é velar, como o g no português galáxia

    h é aspirado

    j é uma africada sonora, como o d na pronúncia do português do Brasil de dia

    s é surda, como no português silêncio

    sh é uma fricativa, como o x no português xaile

    u precedido de s e ts (su e tsu) é quase mudo e surdo

    w pronuncia-se como um u breve

    y é consonântico e pronuncia-se como a vogal i portuguesa

    z é suave como o s no português silva

    Manteve-se o sinal diacrónico nas palavras que sofrem alongamento.

    Todos os termos passaram para o masculino, em português.

    Segundo a convenção japonesa, o apelido precede o nome.

    Esta história fala de um lugar que existe realmente, no Nordeste do Japão, na prefeitura de Iwate.

    Em 2010, Sasaki Itaru, o guarda de Bell Gardia, instalou uma cabina telefónica no jardim de sua casa, junto ao monte Kujira-yama, mesmo ao lado da cidade de Otsuchi, um dos locais mais atingidos pelo tsunami de 11 de Março de 2011.

    No interior, colocou um velho telefone preto, desligado, para transportar as vozes através do vento.

    Dezenas de milhares de pessoas dirigem-se todos os anos ao local, em peregrinação.

    É uma transposição de formas de uma vida /

    para outra.

    Concerto em que /

    apenas a orquestra muda. /

    Mas a música permanece, está lá.

    Mariangela Gualtieri

    Levanta-te, vento do Norte, vem, /

    vem, vento do Sul, /

    venham soprar no meu jardim, /

    e espalhem os seus aromas. /

    Que o meu amado entre no seu jardim /

    e prove os seus deliciosos frutos.

    Cântico dos Cânticos 4, 16, 1 Convite à esposa

    Não ofereçais, portanto, o amor à pressa.

    Kojiki

    Prólogo

    Um torvelinho de ar fustigou as plantas do amplo jardim em socalcos de Bell Gardia.

    Para se proteger, a mulher ergueu instintivamente um cotovelo frente ao rosto e arqueou as costas. Subitamente, porém, regressou à consciência, erecta.

    Chegara antes da madrugada, vira surgir a luz, mas o Sol permanecera escondido. Descarregara os sacos volumosos do carro: cinquenta metros de plástico da espessura máxima enrolados num tubo, rolos de fita-cola, dez caixas de pregos de anilha para prender ao chão e um martelo com um cabo próprio para senhoras. No Conan, o enorme supermercado de ferramentas, um empregado pedira-lhe o favor de lhe mostrar a mão; era para medir as dimensões, mas ela sobressaltou-se.

    Aproximara-se, depressa, da cabina telefónica, vira-a, muito frágil, de algodão-doce e merengue, como que provada por uma quantidade incalculável de dedos. O vento já era de tempestade, não lhe restava mais tempo.

    Haviam trabalhado sem descanso na colina de Otsuchi durante umas boas duas horas: ela a envolver com lonas a cabina, o banco, a tabuleta da entrada e o pequeno arco que anunciava o caminho, e o vento, que não parara um só instante de a fustigar. A certa altura, de forma inconsciente, abraçara-se a si mesma como fazia há anos quando a emoção a vencia, mas depois voltara a endireitar-se, alongara a coluna e enfrentara, desafiadora, o cúmulo de nuvens que agora cobria completamente a colina.

    Só no fim parara, quando lhe parecera de facto ter na boca o sabor do mar, como se o ar tivesse subido a tal ponto, vindo de baixo, que invertera o mundo. Sentara-se, exausta, no banquinho envolvido como um bicho-da-seda, as solas dos sapatos já empoladas de terra.

    Se o mundo desabasse, disse para si mesma, desabaria com ele; mas, se ainda houvesse uma possibilidade de o manter de pé, talvez mesmo num equilíbrio precário, gastaria todos os resquícios de energia que lhe restassem para o ajudar.

    Lá em cima, a cidade ainda dormia. Um ou outro candeeiro acendera-se, pintando as janelas, mas, por causa do furacão que se aproximava, a maior parte das pessoas deixara as persianas fechadas, prendera as portadas com ripas de madeira. Algumas haviam deixado sacos de areia do lado de fora das portas, para evitar que a fúria do vento as sacudisse, inundando as divisões.

    No entanto, Yui parecia não se preocupar com a chuva, com aquele céu que lhe descera até aos sapatos. Observou a sua obra: as camadas de plástico e fita-cola com que envolvera e fixara a cabina, o banco de madeira, as lajes em fila indiana do caminho, o arco da entrada e a tabuleta que dizia: «O Telefone do Vento».

    Tudo estava coberto de terra e gotas. Se o furacão soltasse ou arrancasse alguma coisa, ela estaria ali para a devolver ao seu lugar.

    Não lhe ocorreu o mais elementar, ou seja, que a fragilidade não está nas coisas, mas na carne, a ideia de que os objectos materiais podem ser reparados e substituídos, mas de que o corpo não se conserta, de que, sim, talvez seja mais forte do que a alma — a qual, quando quebra, é para sempre —, mas que o é menos do que a madeira, o chumbo, o ferro. Não vislumbrou por um instante o perigo a ameaçá-la.

    «Já estamos em Setembro», sussurrou Yui, contemplando o negro do céu que se aproximava do Oriente. Nagatsuki , o «mês das noites longas», como sugeria o nome que lhe fora atribuído na Antiguidade. E, contudo, lembrava-se de ter repetido aquela mesma fórmula, todos os meses, declinando-a para Novembro e para Dezembro. Já estamos em Abril, dissera, e, depois, estamos em Maio e por aí fora, na contagem minuciosa dos dias, desde 11 de Março de 2011.

    Cada semana fora um sofrimento, cada mês apenas tempo acumulado no sótão, para uma utilização futura, que talvez nunca viesse a ocorrer.

    Yui tinha cabelo comprido, muito preto e ainda louro nas pontas, como raízes que partissem do fundo para chegar à parte de cima. Desde que a mãe e a filha haviam sido arrebatadas pela tragédia no mar, nunca mais os tinha pintado. Na verdade, cortara-os um pouco, várias vezes, acabando finalmente por os deixar crescer assim, como uma auréola caída. A cor do cabelo, a distância entre o amarelo de um tempo e o preto original acabara por reflectir a duração do luto. Tornara-se uma espécie de calendário do acontecimento.

    Se sobrevivera, devia-o sobretudo àquele jardim, à cabina branca com a porta dobrável e ao telefone preto pousado na prateleira, ao lado do caderno. Os dedos marcavam um número ao acaso, o auscultador era encostado ao ouvido, e a voz projectava-se lá para dentro. Umas vezes, chorava, outras, pelo contrário, ria, porque a vida sabe ser engraçada mesmo quando acontece uma tragédia.

    E agora tinha o furacão quase em cima. Yui sentia-o aproximar-se.

    Naquela zona, os furacões eram habituais, especialmente no Verão. Remexiam a paisagem, reviravam os telhados e espalhavam as telhas pelo chão, como sementes, e, de cada uma das vezes, Suzuki-san, o guarda de Bell Gardia, protegia o jardim com o habitual desvelo amoroso.

    No entanto, desta vez, o furacão prenunciava-se terrível, e Suzuki-san não estaria presente. O rumor de que estava doente espalhara-se depressa. A natureza do achaque não era clara, mas sabia-se que estivera internado no hospital para realizar exames.

    Se não defendesse aquele lugar, quem o faria?

    A Yui, o furacão parecia uma criança que se preparava, com ar maldoso, para despejar um balde de água sobre um castelo de areia de outro menino, menos preparado, mais ingénuo; observava-o de longe, de trás de uma pedra, pronto a atacá-lo.

    A posição das nuvens estava sempre a mudar, tudo lá em cima corria, depressa, e a luz parecia deslocar-se, rápida, para ocidente. A cada minuto, descia um pouco mais na sua direcção, caía como uma mão sobre a testa da colina, para sentir se estava realmente quente ou a fingir.

    Quando o silvo do vento se abateu sobre o jardim, na sua fúria, tudo pareceu esmagar-se. Não me faças mal, pareceu sussurrar.

    A cabeleira de Yui despenteou-se, inchou como uma medusa, dividiu-se em muitos pontos e depois voltou a amontoar-se. Bastava olhar para aquela cabeça feminina para deduzir o efeito do vento, o sopro sinistro que antecipava a agitação das plantas, do higan-bana que crescia, escarlate, a flor do Nirvana, a flor dos mortos; da hortênsia, que florescera e se transformava em arbusto; da inflorescência branca do fusenkazura, com os seus frutos verdes que as crianças tocavam como se fossem sinos.

    Apesar de já ser difícil permanecer de pé, sentiu a necessidade de se dobrar ainda mais para assegurar que tudo estava protegido. Ora arrastando-se pelo chão, ora opondo todo o seu peso contra aquela massa de ar, avançou um dos pés para a última laje do caminho. Passou novamente em revista os ganchos com que prendera as lonas da cabina. Penetrava no vento de bruços, como quem nada.

    Uma laje do caminho estalou, e Yui lembrou-se das palavras da filha, que chamava bolachas aos blocos de pedra que cobriam o escoamento da sarjeta, perto de casa.

    Sorriu, grata por ter recuperado aquela memória.

    Quando se é criança, a felicidade é encarada como uma coisa. Um comboiozinho que espreita de dentro de um cesto, a película que envolve uma fatia de bolo. Ou talvez mesmo uma fotografia em que as crianças são retratadas, no centro da cena, quando só há olhos para elas.

    Quando se cresce, tudo se torna muito complicado. A felicidade é o sucesso, o trabalho, um homem ou uma mulher, tudo coisas vagas, laboriosas. Quando existe e quando não existe, torna-se sobretudo isto, uma palavra.

    «No entanto», pensou então Yui, «a infância ensinava outra coisa, ou seja, que bastava estender a mão na direcção certa e que seria alcançada.»

    Sob o tumulto cinzento do céu, uma mulher com cerca de trinta anos permanecia erguida, apesar de tudo. Matutava em quão prática pode ser a felicidade, perdia-se naquele pensamento como outrora se perdera nos livros, nas histórias dos outros, que, desde criança, lhe pareciam todas, sem excepção, mais belas do que a sua. Perguntou-se até se não teria sido por esse motivo que decidira trabalhar na rádio. Fascinava-a extraordinariamente ouvir as vidas dos outros, perder-se nos seus relatos.

    Para Yui, há vários anos, a felicidade nascia daquele objecto preto e pesado que marcava, em círculo, os números do 1 ao 0. Com o ouvido encostado ao auscultador, perdia-se na visão do jardim, naquela colina remota do Nordeste do Japão. Do decote em V da terra, também divisava o mar, intuía o seu odor encrespado de sal. Ali, Yui sonhava falar com a filha de três anos e com a mãe, que a mantivera abraçada até ao fim.

    E, quando a felicidade se torna uma coisa, qualquer outra que atente contra a sua segurança é o inimigo. Seja algo impalpável como o vento, seja chuva a cair do céu.

    Mesmo que tivesse de dar a sua vida oca em troca, Yui nunca deixaria que acontecesse algo de mal àquela coisa nem ao lugar que lhe entregava a voz.

    I

    1

    Fora na rádio que ouvira falar nele, pela primeira vez.

    Um ouvinte interviera no fim do programa para contar o que o fazia sentir-se melhor depois do desaparecimento da mulher.

    Tínhamos discutido longamente o assunto na redacção antes de definir o tema do programa. Todos a conhecíamos, sabíamos que dentro de si tinha o abismo. Mas Yui insistira: fosse o que fosse que surgisse, estava protegida. Precisamente por ter sofrido tanto, já nenhuma dor a atingia.

    «O que vos ajudou a levantarem-se de manhã e a irem para a cama, à noite, depois de um grande luto? O que vos permite estar bem quando se sentem atormentados?»

    No entanto, o programa fora muito menos pesado do que o previsto.

    Uma mulher de Aomori contara que, quando estava triste, cozinhava: confeccionava bolos e pratos salgados, macarons, compotas, pequenas iguarias, como croquetes ou peixe grelhado em açúcar e molho de soja, legumes cozidos para levar no bento; chegara a comprar uma arca para poder congelar os alimentos quando lhe apetecesse. Pelo Hina-matsuri, o festival das meninas que tinha sempre lugar a 3 de Março, um dia que, dantes, comemorava com a filha, dava-se a todos os cuidados para a descongelar com precisão. Tinha a certeza de que, quando visse a exposição das bonecas na sala, o pequeno altar em escada com as várias figuras que simbolizavam a família imperial, sentiria a necessidade premente de descascar, cortar e escaldar. Cozinhar fazia-a sentir-se bem, disse, ajudava-a a voltar a pôr as mãos no mundo.

    Uma jovem empregada de Aichi telefonou, por seu turno, para dizer que ia aos cafés para fazer festas a cães, gatos e furões, sim, sobretudo furões. Bastava que lhe esfregassem os focinhitos nas mãos para sentir de novo a alegria de estar viva. Um idoso sussurrando, para que a voz não chegasse ao quarto da mulher, confessou que jogava pachinko; um funcionário com um cargo pouco importante numa empresa, que vivera a separação da noiva como um luto, começara a beber chávenas de chocolate quente e a petiscar sembei.

    Todos sorriram quando uma dona de casa de Tóquio, uma mulher com cerca de cinquenta anos que perdera a melhor amiga num acidente, contou que começara a estudar Francês e que só aquele modular diferente da voz, aquele arranhar na garganta e aquela acentuação complexa lhe davam a ilusão de ser outra pessoa. «Nunca hei-de aprender a língua, não tenho jeito nenhum, mas se soubessem como me faz sentir bem dizer bonjouuurrrrrrr

    O último telefonema veio contudo de Iwate, de um dos locais atingidos pela tragédia

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