Sobre este e-book
"descobridor" percebendo o substrato alegórico e mítico subjacente, da célebre jornada do herói da Odisséia de Homero, perdido por dez anos por mares e ilhas perigosos antes de conseguir retornar ao seu reino ameaçado. La Welt me embevece (palavra e sentimento tão em desuso). Fiquem, pois, com a Poetisa em suas peripécias antes que eu cometa um spoyler mais grave. A Musa dos Pampas os encantará mais ainda com esta sua inusitada aventura em céus e terras tão distantes de sua estância e vinhedo no seu amado Pampa...VIVA!
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O RETORNO DOS MENESTRÉIS - Alma Welt
© 2024, Thiago Zanetin e Ipê Das Letras
E-mail: geral@ipedasletras.com
Título: Fala Muito (Ou: Diálogos 2)
Editor: Vitória Scritori
Coordenador Editorial: Vasco Duarte
Composição de Capa: Vasco Duarte
Composição Gráfica: Manuela Duarte
Revisão: Daniela Siqueira
1.ª Edição: Setembro, 2024
ISBN: 978-65-5239-111-7
ALMA WELT
O RETORNO DOS MENESTRÉIS,
de Alma Welt
Romance
Brasil | Portugal
Aos meus amores atemporais e aos leitores
que me amem lendo este livro.
As grandes coisas exigem que não se fale delas. A não ser que se fale delas com grandeza. Com grandeza quer dizer: com cinismo e inocência.
Friedrich Nietzsche
Índice
PREFÁCIO 11
PRIMEIRA PARTE
CAPÍTULO PRIMEIRO
15
SEGUNDA PARTE
CAPÍTULO PRIMEIRO
O Retorno dos Menestréis 41
CAPÍTULO SEGUNDO
O Hangar de Josué 81
CAPÍTULO TERCEIRO
O Rei de Serra Talhada 99
Diário de Serra Talhada 121
CAPÍTULO QUARTO
A Pensão em Salgueiro 133
CAPÍTULO QUINTO
Encontro com Ludgero 157
CAPÍTULO SEXTO
A Cigana Rafisa 183
TERCEIRA PARTE
A Casa de Ludger 205
EPÍLOGO
O Retorno 227
PREFÁCIO
E eis que vemos Alma Welt, nossa querida musa gaúcha, em estripulias pelos céus, caatingas e aldeias do Sertão nordestino, inusitadamente a bordo do Pavão Misterioso. Nunca me diverti tanto com o humor satírico e, por que não dizer, o erotismo desabrido da poetisa, que se expõe com a extrema liberdade que lhe é peculiar, escorada na sua beleza física e anímica, que a justificam sobejamente aos olhos dos leitores que a acompanharão em suas aventuras e desventuras espantosas mas de incrível entonação realista, que também nos encantam e enternecem pela sua candura e vulnerabilidade, características que nos aliciam, para além do nosso oculto voyeurismo
.
Estou já há muito tempo, como sabem, apaixonado pela minha musa, a guria dos pampas, que se revelou ao mundo com um livro de contos publicado em 2004 que já continha, entre outros, onze contos de sua fase de auto exílio paulistano o embrião deste romance na forma do conto Na Trilha dos Menestréis
, responsável por conquistar o seu primeiro editor, o psicólogo e analista Paulo Gaudêncio (falecido), que, encantado com ela naquele conto, a publicou às suas expensas (!!!) numa edição de 1.000 exemplares pela sua Palavras & Gestos (agora extinta).
Esta impagável viagem aérea da poetisa a bordo da mítica nave do Pavão Misterioso, a famosa máquina de voar reconstruída e aperfeiçoada pelo engenhoso Josué, a ponto de voar no automítico
(gracioso neologismo) enquanto o jovem herói nordestino possui a nossa diva gaúcha desgarrada, nua, branca e ruiva, em todas as posições do Kama-Sutra, me fez rolar de rir, sem meu ciúme de descobridor
perceber o substrato alegórico e mítico subjacente da célebre jornada do herói da Odisseia, de Homero, perdido por dez anos por mares e ilhas perigosos antes de conseguir retornar ao seu reino ameaçado.
La Welt me embevece (palavra e sentimento tão em desuso). Fiquem, pois, com a poetisa em suas peripécias antes que eu cometa um spoiler mais grave. A musa dos pampas os encantará mais ainda com esta sua inusitada aventura em céus e terras tão distantes de sua estância e vinhedo no seu amado pampa...VIVA!
Guilherme de Faria
7/7/2024
PRIMEIRA PARTE
CAPÍTULO PRIMEIRO
Montei meu ateliê nesta cidade antiga de Olinda, no Nordeste brasileiro. Sendo uma pintora sulista, tudo aqui me fascina e atrai, mas, sobretudo, sua mistura de culturas, onde até mesmo se ouvem ecos esparsos do colonizador holandês.
Por falar nisso, acabo de ver uma cena digna de um quadro alegórico de Pieter Bruegel. Hoje é o dia do serra-velho, tradição picaresca da cidade que pode, na verdade, remontar à Idade Média ibérica. Alguns jovens reúnem-se com tábuas, serrotes, martelos, pregos e alguns cavaletes, postam-se, de manhã cedo, diante da casa do homem mais velho da cidade e começam a construir um caixão de defunto. Serram e martelam gritando da rua para dentro da porta ou janela da casa: Ô, velho, diga aí pra quem você vai deixar a sua casa! E a cama, velho? O cofre, pra quem vai ficar?
... E roc, roc, roc, pá, pá, pá! Serram e martelam até o caixão ficar pronto.
Invariável e tradicionalmente, o velho leva a mal a brincadeira e sai pela porta com um porrete, furioso, afugentando os gaiatos, que voltam assim que o velho reentra em sua casa. Às vezes, o velho, como desta vez, destrói a porretadas o caixão, logo reconstruído pelos jovens, cuja brincadeira dura até o meio-dia.
Chego então da rua com essa impressão carnavalizada da morte e entro no sobrado colonial que me foi cedido pelo meu marchand para que produza uma série de telas de sua encomenda sobre temas da cidade. É nesse momento que sou envolvida pela voz da mucama contratada por sua mulher, Fiora, minha amiga, para ajudá-la a cuidar de seu bebê. A cabocla da região do Agreste pernambucano, ex-catadora de tomates nas fazendas de Pesqueira, canta com impressionante voz rude, tosca, bem camponesa, com excelente afinação, o Boi da Cara Preta
, antiga canção de ninar comum também no Sul, mas com enorme diferença na melodia. Trata-se nitidamente de um modo medieval:
No meio da canção entra uma estrofe desconhecida no Sul, que fala de um inusitado pavão (xô, pavão, sai de cima do telhado, deixa o menino dormir seu soninho sossegado).
Esses versos, com sua melodia castelã, batem-me na alma, encontrando estranhas ressonâncias arcaicas no meu ser. Fico ali, a uma certa distância, observando a bela cena de acalanto, sem ousar aproximar-me para não interromper a canção ou perturbar o sono do bebê.
Mais tarde vou ter com a mucama, que se chama Anunciada, na cozinha, para conhecê-la melhor, quase como para entrevistá-la, na verdade.
Ela me fala de sua infância no Agreste pernambucano, deixando entrever seus costumes. Quando alguns mitos menores se insinuam, aproveito para perguntar sobre o pavão misterioso da canção. Anunciada diz nada saber sobre essa figura, que, por razões obscuras, apenas lhe metia medo na infância, mas lembra que na adolescência ouvira outra alusão à ave num repente de desafio entre dois cantadores violeiros do Sertão.
Isso me deixou ainda mais curiosa sobre essa estranha entidade insólita numa cultura em que aparentemente ela não devia estar, como ave oriental inexistente no plano real deste Brasil rústico do Sertão. Se se tratasse de uma seriema, de um bacurau, até mesmo de um carcará, seria menos enigmático. Mas um pavão, com aquela cauda luxuriosa, repleta de olhos sobre uma criança em seu berço...
Não consegui mais dados sobre o assunto, mas isso deixou-me mais intrigada ainda, e Anunciada, percebendo isso, disse-me: Dona Alma, vou pedir ao meu irmão Josué que a procure. Ele vai brevemente ao Sertão com a sua caminhonete para levar cantadores até a Paraíba, para um tal de festival. Se a senhora quiser, ele a leva também. Quem sabe a senhora descubra sobre o pavão, já que isso parece importante, não entendo por quê
.
Fiquei tremendamente excitada, comecei mesmo a dar pulos, para surpresa da mucama. Fazia planos com uma velocidade incrível em minha cabeça, quase corri a arrumar um saco de viagem. Logo me toquei que eu ainda nem conhecia o Josué, e ele também não me convidara, ainda, para a viagem. Mas eu sabia que isso não seria problema, em último recurso eu proporia dividir as despesas, a gasolina etc...
Naquela noite, tive um maravilhoso sonho com o Sertão mítico da alma, lugar indefinido onde pairava o pavão com suas asas abertas e a cauda como um céu estrelado sobre um berço voador, onde eu estava de pé com minha imagem atual mas em miniatura, contando as estrelas-olhos ao som do acalanto medieval não cantado, mas tocado em rabecas e flautas por músicos sem rosto que me rodeavam dentro do próprio berço flutuante.
De manhã bem cedo, acordei com Fiora e o pequeno Mateus em cima de mim. Ela com risos e perguntas, enquanto fazia o bebê montar em meu ventre, queria saber que história era essa da viagem do pavão misterioso, o que é que eu ia aprontar agora, deixando-a sozinha para aventurar-me, como sempre, como uma louca, patati, patatá...
Antes que eu respondesse qualquer coisa, adiantou-me que o Josué se encontrava lá embaixo na cozinha, tomando café e esperando para falar comigo.
Pulei da cama rodopiando com o Mateus, cantarolando: Xô, pavão
... E com ele no colo desci até a cozinha para falar com Josué.
Era um belo rapaz de tipo sertanejo, mais claro que Anunciada, com um olhar forte e seguro, que me olhou penetrantemente mas, ao mesmo tempo, com respeito, eu percebi. Parecia querer medir com o olhar a minha determinação onde quer que ela se encontrasse na minha pessoa física, foi o que pensei.
Combinamos o horário da saída e tudo o mais, mas ele não queria saber de eu dividir despesas. Ficaria ofendido. Dizia que eu era sua hóspede, desde já, nessa jornada em que posaríamos por uma noite, pelo menos, em sua casa no Agreste, antes de tomarmos a trilha do Sertão. Ele dizia que sua família ficaria honrada com isso, mas eu já suspeitava que a honra seria minha, percebendo um toque de fidalguia nas maneiras simples do rapaz.
À hora combinada, despedi-me de Fiora, do pequeno Mateus no colo de Anunciada, que também recebeu um beijo que a deixou emocionada. Fiora agarrava minhas mãos, não querendo me deixar ir. Entrei na caminhonete ao lado do motorista, que era o Josué. E partimos à aventura.
Nossa primeira parada, ainda em Olinda, foi numa pequena casa na praia, para recolher dois cantadores, um deles cego, os primeiros de uma lista de mestres que devíamos coletar e conduzir rumo ao Sertão com destino a Campina Grande, na Paraíba, onde se daria um grande encontro de cantadores e repentistas de todo o Nordeste.
Seguimos alegremente após os cumprimentos, em que um deles descreveu-me para o outro, o cego, de maneira altamente lisonjeira, dizendo: Mas é uma princesa, Severiano! Tal e qual! Tem de ver! O cabelo dela é de ouro! E os olhos verdes, de botar fogo no espinheiro da caatinga!
...
O cego tirou um acorde sugestivo da viola, sorriu e nada disse.
Ao anoitecer chegamos a uma usina de açúcar já na região do Agreste pernambucano, onde assistiríamos ao duelo de dois repentistas que depois se juntariam a nós para seguirmos adiante na nossa trilha programada.A peleja foi antológica. O cego Severiano e seu companheiro receberam homenagens e juntaram-se ao duelo, formando duplas. O povo da usina assistia empolgado, sentado sob um telheiro, em bancos enfileirados, fixos, próprios para esse fim. Percebi que aquilo era o cinema, o teatro, o concerto, enfim, todo o entretenimento daquele povo. Por isso mesmo, mais surpresa e honrada fiquei quando o cego Severiano, iniciando o desafio da dupla, dedicou-a em homenagem à princesa-pintora do Sul, cujo cabelo de ouro tinha aberto sete guerras no Sertão e cujos olhos verdes fizeram um filho de coronel enforcar-se numa jaqueira depois de duelar à faca com um rival que fugira numa máquina voadora com formato de um pavão.
Arrepiei-me ouvindo a alusão ao pavão misterioso que eu buscava.
Josué olhava-me muito com aquele olhar que eu ainda não aprendera a desvendar.
Após a peleja dos violeiros, seguimos, agora com mais dois viajantes.
No caminho, a confraternização e a alegria eram cativantes, apenas Josué mantinha-se calado o tempo todo. Atravessávamos, agora, a fronteira do Agreste e penetrávamos no Sertão de Pernambuco, transição que percebi por uma gradativa aridez na paisagem. O verde ia nos abandonando, quando Josué tomou coragem de fazer um galanteio, rompendo seu silêncio para dizer que o
