Educação para todos: Conforme a vocação e a competência de cada um
De Guillermo J. Creus e Tomas Creus (Editor)
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Sobre este e-book
This book, which deals with education, focuses on harnessing the intelligence of all people in all areas. It is a non-fiction text, aimed at teachers, researchers and education specialists, as well as university leaders, politicians and public policy makers. Its o
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Educação para todos - Guillermo J. Creus
Introdução
Pode me dizer, por favor, qual o caminho para sair daqui?
Isso depende muito do lugar para onde você quer ir
, disse o Gato.
Alice no País da Maravilhas, L. Carroll
Isidoro Tomiak era um menino filho de imigrantes, louro, dentuço e muito quieto. Apareceu quando eu fazia o último ano do colégio primário, em Venado Tuerto, República Argentina. Nesse ano foi feito um teste de inteligência. Tomiak saiu primeiro, eu segundo, os outros muito atrás.
Quando eu estava já no segundo grau, passei na frente da loja de um sapateiro e ali estava o Tomiak, numa cadeira baixinha, a boca cheia de pregos. Nunca mais o vi, mas essa imagem me persegue lembrando as injustiças da vida.
Djenane Pamplona, professora da PUC-Rio, artista e amiga me explica: Cada pessoa é um território e tem internamente um mapa para este território. Se os dois forem compatíveis, será possível um desenvolvimento pessoal com menos conflitos e a plenitude do seu próprio potencial. No caso do teu colega filho de imigrantes, o território incluía um QI muito alto e um grande potencial. Mas não ficou sapateiro por falta de oportunidade e sim porque o mapa com o qual ele descrevia o território dele não passava da sapataria.
Pode ser. Mas não tenho dúvida que com ele se perdeu um grande médico ou um grande engenheiro; e muitos outros, dentre aqueles que cabem no extremo direito da Bell Curve. Nesses anos, eu passava os verões no campo de meu avô, que não tinha diplomas, mas sabia escolher e aproveitar os melhores terneiros e os melhores potrilhos.
Este livro, que trata de educação, está centrado no aproveitamento das inteligências de todas as pessoas em todos os âmbitos. Claro que existem outros valores importantes: beleza, caráter, bondade, coragem. Mas o leitmotiv aqui é inteligência porque o livro não mira a felicidade individual, sempre elusiva, mas a felicidade da nação: uma nação feliz com educação, saúde, moradia, justiça, cultura e liberdade para todos, liderada pelas pessoas mais inteligentes e honestas, preparadas para isso. Pessoas que estarão no governo e nos partidos políticos, mas também e especialmente nas universidades, nos tribunais, nos jornais, na televisão, escrevendo os artigos e os livros que nos instruam, nos inspirem e nos guiem.
Conforme S. T. Coleridge, um autor tem três pontos a decidir: a que espécie pertence sua obra, a que tipo de leitores se destina e seu fim ou objeto específico.
Este é um texto de não-ficção, dirigido a professores, pesquisadores e especialistas em educação, bem como a líderes universitários, políticos e formuladores de políticas públicas. Seu objetivo é juntar algumas ideias úteis para aqueles interessados em fazer as mudanças na educação no Brasil. Pode ter valor também para pessoas interessadas na sua própria educação ou na educação dos seus filhos. O objetivo é analisar o Ensino Básico e o Ensino Superior e assuntos relacionados: igualdade, inteligência, criatividade, publicações.
(Samuel Taylor Coleridge - bipolar, opiômano, anti-escravista - foi um dos mais importantes escritores ingleses. Autor de The Rime of the Ancient Mariner e Kubla Kahn fundou. junto com William Wordsworth, o romanticismo inglês. Seus escritos e palestras sobre Shakespeare levaram ao redescobrimento da genialidade do Bardo. Coleridge é também o autor do conceito da suspensão da incredulidade
no teatro).
O problema
É usual ouvir dizer que a origem dos problemas do Brasil é o ensino deficiente. Não é. Os nossos problemas são múltiplos, antigos e complexos. Mas o ensino é importante e pode e deve ser melhorado. Esse é o tema deste livro. A tarefa não será fácil: quando um sistema ineficiente e injusto persiste por muito tempo, é sinal de que não incomoda à camada social que controla as decisões.
Em um livro anterior (Pesquisa, Inovação, Desenvolvimento) analisamos a sociedade do conhecimento. Aqui, continua o mesmo assunto, mas com informações adicionais e propostas que acompanham uma linha mestra: aumentar a qualidade do ensino, para impulsar o desenvolvimento econômico e a equidade, transformando o conhecimento em valor para toda a sociedade. Devemos conseguir que as pessoas tenham uma formação adequada a sua competência e vocação, quaisquer que sejam sua raça ou nível social e manter as áreas de estudo e pesquisa constantemente calibradas em função das necessidades do mercado e de um desenvolvimento nacional sustentável.
Este é um livro comparativo: compara nossa situação com a de países mais afortunados. Essa comparação indica onde estamos em desvantagem. Isso é positivo, porque mostra onde é que devemos melhorar e como fazê-lo. Todo o material empregado é acessível na internet. Muita informação é de periódicos como a Folha, o Estadão, e a Exame. Tentamos manter um estilo de comunicação simples e aberto, sem sofisticações acadêmicas e sem restrições corporativas. Os argumentos são desenvolvidos com um mínimo de tabelas e gráficos e sem equações. Usar vocabulário e jargões complicados mascara nossa falta de compreensão. Quando você escreve uma ideia do início ao fim em uma linguagem simples, você se força a entender o conceito em um nível mais profundo e simplifica as relações e conexões entre as ideias. Uma análise quantitativa seria interessante, mas está fora da minha competência.
Em Pesquisa, Inovação, Desenvolvimento descrevemos como o brigadeiro Montenegro criou o ITA, o engenheiro Coimbra criou a COPPE e o engenheiro Bevilacqua criou a UFABC, instituições da maior qualidade. Outras boas lideranças aparecerão para prosseguir a tarefa, que sempre estará incompleta.
Picture 3O tema apresenta paradoxos ou dilemas, as vezes associados à figura de Janus: objetivos desejáveis aparecem em oposição.
É o dilema dos médicos, que devem oferecer o melhor tratamento pelo menor custo, a dos músicos, que devem manter sua integridade e fazer dinheiro, a dos professores, que devem incentivar a imaginação dos alunos e manter a disciplina. O dilema na área da educação é compatibilizar igualdade e qualidade. Devemos dar a todos os cidadãos a mesma educação? Todos os cidadãos têm direito a ser doutores? Ou cantores de sucesso? Ou craques de futebol? Uma resposta razoável vem da filosofia do utilitarismo: agir sempre de forma a produzir a maior quantidade de bem-estar. A comunidade precisa de doutores, cantores de sucesso e craques de futebol e precisa também de operários, agricultores, comerciantes. A educação e o ordenamento social devem prover educação e trabalho da maneira mas adequada para o conjunto sem privilegiar classe, raça ou gênero. Pretensões de igualitarismo apenas atrapalham a procura pela qualidade.
Vejamos o caso do futebol, caro a tantos brasileiros. Ninguém com bom senso postula que os times e o selecionado nacional devem ter uma política igualitária, com participação proporcional de brancos, negros, judeus, LBGTs. Todos concordamos em que o importante é que os jogadores sejam competentes. Os clubes estão organizados, conforme a sua performance, em divisões que têm um número máximo de participantes; os jogadores mudam de clube, de divisão e de país conforme suas vontades e possibilidades e negociam seus salários individualmente.
Assuntos abordados
Capítulo 1, Ensino básico: O ensino básico compreende a educação infantil (de 0 a 6 anos), o ensino fundamental (de 7 a 14 anos) e o ensino médio (de 15 a 17 anos). Apesar de estar disponível em todo o território e ser gratuita, ainda é grande a quantidade de analfabetos funcionais. Os resultados alcançados pelos estudantes brasileiros na prova internacional PISA não são bons: o 53o lugar entre 65 países, enquanto os estudantes chineses ficaram em primeiro lugar. Naturalmente, também houve brasileiros com resultados melhores do que os de alguns chineses, porque esses números não significam características nacionais, mas unicamente a eficiência dos respectivos sistemas de ensino.
Martin Carnoy, um especialista americano que analisou o sistema, mostra os problemas de nosso sistema e recomenda soluções. Aqui mostramos um breve resumo de suas ideias. Os livros de Carnoy devem ser consultados por qualquer um interessado no tema da educação.
Um outro problema de nosso ensino básico é que, contrariamente aos sistemas da maioria dos países organizados, não seleciona e encaminha os alunos conforme suas aptidões e vocações. O sistema brasileiro é igualitário, com aquela igualdade que G. K. Chesterton criticava: tanto pobres como ricos tem a liberdade de dormir embaixo das pontes. Para comparação, são incluídas curtas descrições do sistema alemão e do sistema chinês.
Durante muito tempo o Brasil teve alguns colégios excelentes (Dom Pedro II no Rio, Aplicação em Porto Alegre) aos que os alunos ingressavam por concurso. Depois, a ideologia igualitária levou a que o ingresso fosse por sorteio e a qualidade baixou. Temos que entender que alunos aprendem dos outros alunos e que os professores ensinam melhor quando ensinam a alunos inteligentes e interessados. Tratar desiguais como iguais não é bom. Já disse Montaigne, no seu famoso ensaio sobe Educação, que tentando ensinar a um aluno burro, um professor virou burro.
Capítulo 2: Este capítulo trata da inteligência, suas características e aplicações. Este é um tema muito popular em Estados Unidos, mas não no Brasil. Também foi muito popular na Rússia depois da revolução bolchevique, que usou do xadrez como pedra de toque na sua educação, que era comunista, mas nunca foi igualitária. Centramos nossa análise no QI, que é dominante no sistema americano, e nas inteligências múltiplas de Gardner. Nosso principal argumento é que, obviamente (e contrariamente ao que muitos aficionados predicam), a prova de QI não enxerga cor, gênero ou classe social. Por isso é um bom método para selecionar estudantes nas melhores universidades, como se faz nos EUA. E pode ser empregado, como na China e na Alemanha, no ensino básico. Se alguém teme que isto leve nosso país a ser dominado pelas pessoas mais inteligentes, pode ficar tranquilo: falta muito para isso.
Capítulo 3: Universidades Líder. O título é inspirado no livro de J. A. Douglass, The New Flagship University. A tradução de Flagship ao português é Nau Capitã, a embarcação líder de uma esquadra. O inglês e o alemão herdaram de línguas nórdicas a facilidade de construir palavras compostas muito úteis, facilidade que não tem o português. Falar em universidade capitã não parece apropriado e por isso adoptamos o nome Universidade Líder. Mas a ideia é boa, traduzível e adotável. A ideia é avançar desde o modelo de Universidade de Pesquisa (a Research University de Humboldt) e da competição nos rankings para um modelo que equilibre a excelência em pesquisa com a excelência no ensino de pós graduação e a interação com a sociedade. E ainda avançamos incorporando as ideias de Clark Kerr sobre Comunidades de Ensino.
É importante lembrar que as universidades de excelência são sempre um subconjunto pequeno do total. Os Estados Unidos têm
