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Notas sobre a situação dos padres belgas no Brasil José Comblin
Notas sobre a situação dos padres belgas no Brasil José Comblin
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E-book205 páginas2 horas

Notas sobre a situação dos padres belgas no Brasil José Comblin

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Sobre este e-book

José Comblin (1923-2011) destacou-se como um dos mais importantes teólogos do Brasil e da América Latina, pós-Vaticano II. Nascido na Bélgica, foi ordenado sacerdote em 1947, vindo como missionário para o Brasil, em 1958. Comblin escreveu mais de cinquentas obras, tendo várias traduções. Suas principais contribuições estão relacionadas à teologia da cidade, direitos humanos, formação de lideranças populares entre outras. Grande foi sua contribuição para o movimento da Teologia da Libertação no Brasil e na América Latina. A obra "Notas sobre a situação dos Padres Belgas no Brasil" reúne um pequeno opúsculo, escrito por José Comblin, em setembro de 1960, e enviado ao COPAL (Colégio Pró-América Latina). As notas registram o que ele observou nos dois primeiros anos, em que esteve no Brasil. Essas notas sintetizam sua opinião sobre os limites do projeto missionário desenvolvido pelos padres belgas no Brasil, naquele momento, afirmando que para o projeto ter êxito seria necessária uma maior colaboração com as igrejas locais.
IdiomaPortuguês
EditoraEditora Santuário
Data de lançamento18 de jun. de 2025
ISBN9786555275124
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    Notas sobre a situação dos padres belgas no Brasil José Comblin - Alzirinha Souza

    INTRODUÇÃO

    Na Laudato Si’ (112), papa Francisco elenca uma série de medidas que evocam uma resistência à exacerbação do paradigma tecnocrático, que vê a realidade a partir da quantificação, da utilidade e da transformação dos elementos naturais em lucro. Abre-se, aqui, o espaço à espiritualidade, presente até mesmo entre os agnósticos, que resiste aos mecanismos de governamentalidade da população. Esses mecanismos determinam as condutas por meio de instituições, procedimentos, discursos analíticos e reflexivos, propagandas e hábitos cada vez mais atrelados aos aparatos tecnológicos, utilizados de forma globalizada pela sociedade neoliberal. As pesquisas atuais não deixam de nos alertar para a dependência crescente do uso do celular pelas novas gerações, e os aparatos tecnológicos são apresentados como objetos de desejo, em meio a uma sociedade cada vez mais dinamizada pelo ciclo do consumo e do descarte. Por meio de aparelhos celulares, minúsculos, mas potentes aparelhos de rastreamento, jovens e adultos são localizados e vigiados cotidianamente em seus hábitos, gostos e suas conversas. A resistência a não se deixar conduzir por aqueles que nos observam e nos mapeiam, no entanto, passa antes por um processo de conversão. Para os cristãos, trata-se, como disse papa Francisco, fazendo suas as palavras do Patriarca Bartolomeu de Constantinopla, a passar do consumo ao sacrifício, da avidez à generosidade, do desperdício à capacidade de partilha, em uma ascese que significa aprender a dar, e não simplesmente renunciar. (…) de passar pouco a pouco do que eu quero àquilo de que o mundo de Deus precisa (LS, 9). Trata-se, como diz Comblin, do advento do Reino de Deus que pede uma conversão, uma mudança: Qual é essa conversão? Mudar de vida, dedicar-se a anunciar o reino de Deus a todos. Fundar uma vida social de irmãos na qual ninguém domina nem explora outros. (…) Os discípulos vão começar essa vida entre eles e convidar os outros a fazer a mesma coisa.²

    Há mais de 60 anos, ainda que em um contexto diferente e sob os auspícios da Guerra Fria, José Comblin partia com esse mesmo espírito ao encontro das terras brasileiras. O jovem doutor em teologia finalmente acalmava seu coração, que, havia anos, batia ansiosamente por levar a boa notícia de Jesus aos mais distantes rincões. O desejo do apóstolo Paulo, de disseminar práticas e valores pautados no modo de ser de Jesus, ele o faria seu. Finalmente, depois de muita insistência, tornar-se-ia missionário. Por duas vezes, em 1955 e em 1957, expusera a seu Cardeal Joseph Ernest van Roey a vontade de partir em missão. Certamente, sua inteligência e capacidade teológica retardaram o assentimento do Cardeal. Talvez Sua Eminência tivesse outros planos para ele no interior da Igreja de seu país ou mesmo na famosa Universidade Católica de Lovaina, que apresentava ao jovem teólogo a possibilidade de uma carreira promissora. Os apelos de Pio XII, na Encíclica Fidei Donum, de abril de 1957, exortando os bispos a enviarem padres, religiosos, religiosas, leigos e leigas, missionários e missionárias à América Latina, para fazer frente ao comunismo e ao aumento do protestantismo nessas terras, deram o impulso necessário ao atendimento de seus desejos. O Cardeal van Roey, atento aos clamores da Santa Sé, finalmente se dobrou. Comblin tinha agora a permissão de partir. Mas para onde? Sua inclinação o levara a pensar em outras possibilidades além da África, onde se encontrava seu irmão André, missionário dos chamados Padres Brancos, por causa da cor do hábito que trajavam. Pensara na América Latina. Por coincidência, um bispo do Estado de São Paulo solicitara três padres doutores, formados em Lovaina, ao diretor do Colégio Pró-América Latina (COPAL), fundado em 1953 e instalado, em 1955, em um prédio neogótico na Tervurensestrasse, n. 56.

    D. Paulo de Tarso Campos sonhava em tornar cada vez mais expressiva a jovem Universidade Católica, fundada na cidade de Campinas, quinze anos antes de Comblin chegar a terras paulistas, em 30 de junho de 1958. Nada melhor do que a presença de três doutores formados na Universidade na qual ele próprio estudara, para arejar o corpo docente e servir de contraponto às orientações firmes do reitor, Monsenhor Emílio José Salim (1903-1968) (cf. MUGGLER, 2013). Por meio do Convênio estabelecido entre as duas instituições, a UCL enviaria professores para lecionar em Campinas, ao passo que as dioceses enviariam padres, seminaristas e leigos para estudarem na famosa universidade. Comblin foi um dos três professores solicitados por D. Paulo de Tarso e enviados pelo COPAL. Os outros missionários foram os Padres Carl Laga e Michel Schooyans. Não levaria muito tempo, dois anos apenas após sua chegada, para que o jovem teólogo, missionário e educador tomasse consciência dos graves problemas que afligiam a sociedade brasileira e da falta de projetos claros para os missionários belgas que chegavam.

    Suas impressões ele as registraria em um opúsculo intitulado Notas sobre a situação dos padres belgas no Brasil. Escritas em setembro de 1960 e enviadas ao COPAL, essas notas sintetizam sua opinião sobre os limites do projeto missionário desenvolvido pela instituição belga e as sugestões para transformá-lo em mais um projeto de colaboração com as igrejas locais. O corpo das Notas é composto de seis grandes parágrafos, contando na totalidade com 92 páginas. No parágrafo 4, por exemplo, dedicado à educação em onze páginas, Comblin apresenta uma pequena abordagem histórica dizendo que a Igreja católica, a partir de 1870, começou a perder a função de inspiração da intelectualidade brasileira. Isso se deu com o advento do republicanismo, introduzido nos meios intelectuais por Tobias Barreto (1839-1899), jurista da Faculdade de Direito de Recife. Depois dessa época, veio somente o declínio, em função das ideias científicas importadas da Europa e dos EUA. Somente o clero ainda não se dera conta disso, ao viver nos meios tradicionais, por falta de recuo, falta de intuição ou simplesmente falta de inteligência. Na verdade, segundo Comblin, os clérigos não conseguem elaborar uma representação do que os ameaça. Para as famílias tradicionais, a formação intelectual não passa de um luxo a mais. Serão delas os futuros doutores formados em uma das inúmeras faculdades de direito espalhadas pelo país, das quais algumas somente são sérias. As outras não passam de uma mistificação do ensino. Perplexo, ele acrescenta: distribuem-se mil pequenos truques para passar bem nos exames, sem dever estudar. Muitos padres são advogados também. O ápice da carreira deles é saber falar bem, tipo clássico do orador sagrado do século passado (Ibidem). As jovens gerações bocejam ao ouvir seus sermões. Porém, dizem os mais velhos, entre os jovens padres do clero de São Paulo, não há um só orador; o que leva nosso teólogo a lamentar a perda da cultura da oratória, não por sua utilidade, mas por não terem adquirido outra em seu lugar. Em relação à cultura teológica, Comblin constata que ela é livresca e os argumentos, mesmo os aprendidos em Roma, apresentam-se mal assimilados. Observa, ainda, que a consciência de superioridade na qual vive o clero o impede de examinar seriamente as outras posições. Porém, diz o jovem teólogo, com alguns argumentos bem trabalhados, demonstra-se que também a má-fé deles é evidente. Outra característica: os padres brasileiros não aceitam discussões e não sentem a necessidade de ler. Espanta-lhe o fato de não terem livros, e os professores de seminários e de faculdades não cultivarem o hábito da leitura. Eles têm manuais, cursos já feitos, afirma Comblin. O clero ignora tudo: escritores clássicos, sociólogos, escritores contemporâneos brasileiros e, não só eles, todo o meio católico. Ao falar das consequências dessa indiferença cultural, Comblin diz que a força do catolicismo naquela época estava na fraqueza dos adversários (comunistas, protestantes, espiritualistas). Porém, segundo ele, isso não duraria muito tempo, a não ser que a Igreja venha a retomar, enquanto os concorrentes são fracos, uma verdadeira direção intelectual. Comblin perpassa então os meios intelectuais da época, desde a maçonaria, de espírito positivista, até discorrer sobre a Universidade de São Paulo. Não obstante o espírito científico desses meios, ele constata o fato de não serem necessariamente anticlericais, como se via acontecer na Europa. No entanto Comblin não tem ideia de o quanto esse clima de tolerância iria durar. Analisa o fato de, mesmo em ambientes intelectuais em que se professa a fé católica, não existir um pensamento que seja efetivamente cristão e esclarecido. Fora Jackson Figueiredo, fundador do Centro D. Vital, e seu sucessor, Alceu de Amoroso Lima, não há outros cristãos que possam fazer a diferença nos meios intelectuais. A multiplicação de universidades católicas pelo país também lhe chama a atenção, tanto que ele se questiona sobre o grau de influência na sociedade dos alunos ali formados e da consciência dos bispos sobre o que será feito dessa multiplicação de faculdades. Comblin observa que a maioria dos professores (número total estimado entre 5 mil a 6 mil na época) não possui qualificação especial e permanece na ignorância do que seja verdadeiramente um ensino universitário. Como as faculdades têm poucos recursos, e os recursos públicos são parcimoniosos, elas praticamente saem à caça dos alunos, obrigando-se a serem indulgentes para com eles. Os melhores alunos estão nas faculdades públicas, ao passo que os não tão bons se concentram nas faculdades católicas. Assim, os professores não passam de simples executores de cursos que recitam o manual para os quais os estudantes não são exigidos, pois se tem necessidade deles para a manutenção financeira da instituição. Por fim, Comblin fala da dispersão de forças no que diz respeito às escolas de teologia em São Paulo – todas improdutivas e ineficientes, de tal maneira que se todas elas desaparecessem não deixariam nenhum vazio no Estado.

    Nas sete páginas do parágrafo 5, ao falar da catequese ou do ensino religioso oferecido nas escolas, Comblin começa a abordar o ensino fundamental e médio, uma vez que muitos professores formados nas universidades referidas passam a nelas lecionar. Comenta que, salvo em algumas escolas religiosas e de uma classe social mais elevada, o ensino religioso é praticamente inexistente e, quando existe, é feito em condições pouco favoráveis. Trata-se de pura possibilidade. Sem falar nos meios populares. Como o ensino de religião é praticamente dado na forma de voluntariado, sem remuneração, o resultado é que as jovens da burguesia, que tiveram um ensino religioso razoável, acabam não se deslocando para as periferias, deixando as crianças pobres sem a educação religiosa. Aliás, é preciso notar que 50% das crianças não frequentam a escola e permanecem, portanto, analfabetas, pontua ele. Quanto ao secundário, no qual o ensino religioso é facultativo, os professores voluntários, por não serem remunerados, não têm os meios necessários a sua qualificação. Segundo Comblin, "a formação de professores de religião voluntários (bénévoles), mas de cultura elevada, seria a coisa mais importante após a formação dos padres, a coisa de maior eficácia, de maior repercussão a longo termo". Nosso teólogo conclui aludindo à falta de preocupação dos bispos com a formação dos catequistas e, consequentemente, dos professores de religião para as futuras gerações que, em certos setores da sociedade, certamente serão mais exigentes e menos crentes.

    As Notas de Comblin registram, assim, o que ele observou nos dois primeiros anos em que esteve no Brasil. Apesar da datação, algumas observações nos deixam estarrecidos, pois, se houve um avanço nas duas décadas seguintes na formação dos leigos, realizadas por meio das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), hoje vemos um verdadeiro retrocesso do ponto de vista eclesial e nos perguntamos se não nos dirigimos ao que éramos há 60 anos. Guardadas as devidas proporções, parece que retornamos a um cenário sociorreligioso pré-conciliar. A volta do anseio pelo miraculoso e do padre taumaturgo, analisado por Comblin no parágrafo 2, ao tratar das estruturas do catolicismo brasileiro, não favorece a formação religiosa consistente de crianças, jovens e adultos e priva as futuras gerações da riqueza que brota do Evangelho. Comblin aponta para a necessidade de um projeto de cooperação dirigido pelo COPAL no lugar de um projeto de missão, entendido por ele como um programa reservado aos locais onde a vivência cristã é quase nula. Esse pequeno percurso teve por escopo a análise refinada de Comblin sobre o que verdadeiramente deveria ser um projeto de missão que venha a responder a uma verdadeira evangelização e promoção dos povos em vias de desenvolvimento. Avant la lettre revelando sua contemporaneidade, Comblin vivenciou o projeto de uma Igreja em saída, idealizado pelo papa Francisco, denunciando a violação do direito dos pobres à cultura e a uma boa educação. Como o negativo de uma foto, ele mostra os elementos sombrios necessitando de uma coloração. Ao trazer à luz os elementos negativos, convida-nos a pensar, por meio de uma nova postura diante da realidade, as formas concretas de reverter tal situação. Antes de mais nada, trata-se de ir ao encontro dessa realidade e, com os pés no chão e a partir dos meios que estão em nossas mãos (Igreja Samaritana), sarar as feridas daqueles que sofrem com as péssimas condições não somente no tocante à educação, mas com a violação de seus direitos elementares (Igreja como Hospital de Campanha).

    Profa Dra. Alzirinha Souza (ITESP)

    Prof. Dr. Edelcio Ottaviani (PUC-SP)

    NOTAS SOBRE A SITUAÇÃO DOS

    PADRES BELGAS NO BRASIL

    As notas que seguem são inevitavelmente bem incompletas. Elas são fatalmente inspiradas pelos pontos de vista particulares e limitados de onde foram tomadas. Elas não pretendem oferecer uma visão exaustiva dos problemas. No entanto, tais como se apresentam, talvez elas não sejam sem valor.

    Elas parecerão pessimistas. Efetivamente, elas insistem bem mais nos aspectos negativos que nos aspectos positivos. Mas nós não quisemos fornecer um quadro completo do Brasil católico. O pessimismo aparente é um efeito do gênero literário [adotado]. Procuramos compreender como e onde os padres belgas poderiam ser mais utilmente empregados no Brasil. Essa perspectiva exigia a procura dos pontos fracos. Nós não viemos para aplaudir o que está bem. O que vai bem não precisa de nós. Não há

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