Os Contos de Cantuária - Geoffrey Chaucer
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Sobre este e-book
Desde sua composição, Os Contos de Cantuária tem sido celebrada por seu retrato multifacetado da natureza humana e por sua inovadora estrutura narrativa em forma de histórias interligadas por um enquadramento comum. Sua exploração de temas universais como honra, luxúria, justiça, redenção e falibilidade humana assegurou seu lugar como um marco fundamental da literatura inglesa. Os personagens, com suas vozes distintas e histórias entrelaçadas, continuam a ressoar com leitores, oferecendo reflexões intemporais sobre o comportamento e os desejos humanos.
A relevância duradoura da obra reside em sua capacidade de iluminar as complexidades das relações humanas e os dilemas éticos que surgem na busca de poder, prazer ou salvação. Ao examinar as interseções entre ambições pessoais, crenças religiosas e realidades sociais, Os Contos de Cantuária convida os leitores a refletirem sobre os significados mais profundos de suas próprias escolhas, revelando a riqueza e a diversidade que compõem qualquer comunidade
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Os Contos de Cantuária - Geoffrey Chaucer - Geoffrey Chaucer
Geoffrey Chaucer
OS CONTOS DE CANTUARIA
Título original:
The Canterbury Tales
Primeira edição
img1.jpgSumario
INTRODUÇÃO
APRESENTAÇÃO
PRÓLOGO
O CONTO DO CAVALEIRO
O CONTO DO MOLEIRO
O CONTO DO FEITOR
O CONTO DO COZINHEIRO
O CONTO DO MAGISTRADO
O CONTO DO HOMEM-DO-MAR
O CONTO DA PRIORESA
O CONTO DE CHAUCER SOBRE SIRTOPÁZIO
CANTO I
CANTO II
O CONTO DE CHAUCER SOBRE MELIBEU (Excertos)
O CONTO DO MONGE
O CONTO DO PADRE DA FREIRA
O CONTO DAMULHER DE BATH
O CONTO DO FRADE
O CONTO DO BELEGUIM
O CONTO DO ESTUDANTE
O CONTO DO MERCADOR
O CONTO DO ESCUDEIRO
O CONTO DO PROPRIETÁRIO DE TERRAS
O CONTO DO MÉDICO
O CONTO DO VENDEDOR DE INDULGÊNCIAS
O CONTO DA OUTRAFREIRA
O CONTO DO CRIADO DO CÔNEGO
O CONTO DO PROVEDOR
O CONTO DO PÁROCO (Excertos)
INTRODUÇÃO
img2.pngGeoffrey Chaucer
1343 – 1400
Geoffrey Chaucer foi um escritor, poeta e funcionário público inglês, amplamente reconhecido como o Pai da Literatura Inglesa
e um dos autores mais importantes da Idade Média. Nascido em Londres, Chaucer é conhecido principalmente por sua obra Os Contos de Canterbury, que retrata a sociedade inglesa de seu tempo com profundidade, humor e realismo notáveis, estabelecendo as bases para a literatura em língua inglesa.
Primeiros anos e educação
Geoffrey Chaucer nasceu em uma família de mercadores de vinhos, o que lhe proporcionou uma vida relativamente confortável e oportunidades de educação. Ainda jovem, entrou para o serviço real como pajem na casa de Elizabeth de Ulster, esposa de Lionel de Antuérpia, filho do rei Eduardo III. Essa posição lhe abriu portas para a corte inglesa e possibilitou seu contato com a literatura, línguas e cultura continental, especialmente francesa e italiana. Chaucer também trabalhou como diplomata, auditor e funcionário público ao longo de sua vida, adquirindo conhecimento sobre a diversidade social e humana que mais tarde retrataria em seus escritos.
Carreira e contribuições
A obra mais famosa de Chaucer, Os Contos de Canterbury (The Canterbury Tales), é composta por uma coleção de histórias contadas por peregrinos que viajam até o santuário de Thomas Becket em Canterbury. Escrita em inglês médio, a obra utiliza diferentes estilos literários e apresenta personagens de diversas classes sociais, como o Cavaleiro, a Esposa de Bath, o Frei e o Moleiro, traçando um panorama vívido da sociedade inglesa do século XIV.
Chaucer também escreveu outras obras notáveis, como Troilus and Criseyde, uma tragédia amorosa ambientada durante a Guerra de Troia, considerada por muitos como sua obra-prima literária pelo refinamento psicológico dos personagens e sua complexidade narrativa. Em The Book of the Duchess e The House of Fame, ele demonstra influência da poesia francesa e italiana, especialmente de Dante, Boccaccio e Petrarca, combinando elementos clássicos com o desenvolvimento de um estilo distintamente inglês.
Impacto e legado
Chaucer foi revolucionário por utilizar o inglês médio em uma época em que a literatura culta era predominantemente escrita em latim ou francês. Sua escolha consolidou o inglês como língua literária e promoveu o desenvolvimento de uma tradição nacional. Sua capacidade de representar tipos humanos universais com humor, empatia e ironia inspirou escritores posteriores como Shakespeare, Dryden e até poetas modernos.
A estrutura narrativa de Os Contos de Canterbury, com histórias dentro de uma história (frame narrative), influenciou profundamente a literatura ocidental, sendo retomada em obras como o Decameron, de Boccaccio, e, mais tarde, em romances do século XX. Sua mescla de realismo, alegoria e sátira social criou modelos que continuam sendo estudados pela crítica literária contemporânea.
Geoffrey Chaucer morreu em 1400, aos cerca de 57 anos, e foi sepultado na Abadia de Westminster, tornando-se o primeiro escritor a ser enterrado no que viria a ser conhecido como Poets’ Corner
. Sua influência permanece viva, sendo considerado o principal poeta inglês antes de Shakespeare. As edições e traduções de Os Contos de Canterbury continuam a atrair estudiosos e leitores interessados em literatura medieval, história social e na formação da língua inglesa.
O legado de Chaucer transcende sua época; ele inaugurou um olhar crítico e humano sobre a sociedade, construindo personagens multifacetados que refletem desejos, contradições e esperanças universais. Seu impacto duradouro faz dele não apenas o Pai da Poesia Inglesa
, mas um dos grandes cronistas da condição humana.
Sobre a obra
Os Contos de Cantuária é uma vívida exploração da sociedade medieval inglesa, suas estruturas sociais, valores morais e aspirações individuais, apresentados no contexto de uma peregrinação à catedral de Canterbury. Geoffrey Chaucer critica as hipocrisias e tensões da época, examinando a interação entre fé, poder, dinheiro e desejo, ao retratar um microcosmo da sociedade inglesa do século XIV. Por meio de personagens como o Cavaleiro, a Esposa de Bath, o Frade e o Moleiro, a obra aborda temas como corrupção religiosa, moralidade, amor, ambição e o conflito entre aparência e realidade.
Desde sua composição, Os Contos de Cantuária tem sido celebrada por seu retrato multifacetado da natureza humana e por sua inovadora estrutura narrativa em forma de histórias interligadas por um enquadramento comum. Sua exploração de temas universais como honra, luxúria, justiça, redenção e falibilidade humana assegurou seu lugar como um marco fundamental da literatura inglesa. Os personagens, com suas vozes distintas e histórias entrelaçadas, continuam a ressoar com leitores, oferecendo reflexões intemporais sobre o comportamento e os desejos humanos.
A relevância duradoura da obra reside em sua capacidade de iluminar as complexidades das relações humanas e os dilemas éticos que surgem na busca de poder, prazer ou salvação. Ao examinar as interseções entre ambições pessoais, crenças religiosas e realidades sociais, Os Contos de Cantuária convida os leitores a refletirem sobre os significados mais profundos de suas próprias escolhas, revelando a riqueza e a diversidade que compõem qualquer comunidade.
APRESENTAÇÃO
1. A Época
Geoffrey Chaucer começou a compor Os Contos de Cantuária em 1386, ou seja, há precisamente seiscentos anos. Naquela época, a Inglaterra era um país misto, meio insular e meio continental, e os seus reis tinham, por vezes, interesses maiores no solo francês do que na própria Grã-Bretanha. Tal situação, advinda da conquista normanda levada a efeito por Guilherme, o Conquistador, em 1066, prolongou-se por todo o período Angevino, ou plantageneta, e terminou apenas em 1453, quando a Guerra dos Cem Anos chegou ao fim.
No entanto, nem todas as preocupações dos soberanos ingleses se prendiam aos seus territórios continentais e à ambição de os preservar ou ampliar. Outros problemas solicitavam igualmente a sua atenção, tanto no conjunto do universo europeu, como as disputas com a Igreja de Roma, como na parte exclusivamente insular do reino, como os duros conflitos com o País de Gales e a Escócia, e os atritos com os barões
, os nobres que pretendiam limitar o poder da coroa para aumentarem o seu próprio poder. À medida que a nação se isolava do mundo exterior (perdendo as possessões francesas e atenuando a sujeição a Roma) e equacionava as suas questões internas, ia adquirindo consciência da sua insularidade e da sua identidade, preparando-se para os esplendores da era Tudor, que marcaria o início da Inglaterra moderna.
Foi no século XIV, o século de Chaucer, que esse processo evolutivo se acelerou, sobretudo no que se refere à luta pelo trono com a aristocracia e ao confronto com a França. A luta dos reis com os barões
, por exemplo, alcançou então os seus momentos mais dramáticos, por vezes trágicos, pois resultou na deposição e morte de dois monarcas: Eduardo II e Ricardo II. Entre um e outro, reinou Eduardo III (1327-1377), o qual, para granjear a simpatia dos nobres, não só lhes concedeu vários dos privilégios que reivindicavam, como também estimulou o seu gosto pela pompa e pelos antigos ideais cavaleirescos, insuflando a sua imaginação e o seu nacionalismo ao dar início à Guerra dos Cem Anos, que inaugurou com as estrondosas vitórias de Crécy e de Poitiers.
É claro que este conflito com a França teve diversas outras causas, sendo uma das mais importantes a defesa dos interesses económicos da Inglaterra no comércio com a Flandres. Graças a isso e a outras medidas que tomou, Eduardo III pôde igualmente contar com o apoio da burguesia. E não era para menos, visto que, no seu tempo, cresceram os intercâmbios, aumentaram as exportações (notadamente a da lã, a principal riqueza do país) e desenvolveram-se as cidades (a população de Londres chegou quase aos 50.000 habitantes). Foi, portanto, uma fase de otimismo e confiança. No entanto, infelizmente, muitos desses avanços eram ilusórios.
Assim, se o comércio prosperava, as estradas (embora melhores que nos dois séculos seguintes) continuavam precárias e perigosas, obrigando as pessoas, à semelhança dos peregrinos de Chaucer, a viajar em grupos para se protegerem dos salteadores. À medida que as cidades se tornavam mais populosas, ficavam cada vez mais apertadas dentro das suas velhas muralhas, com ruas estreitas e fétidas, propícias à propagação de incêndios e epidemias. A pior dessas epidemias, aliás, verificou-se em 1348, quando a Peste Negra, depois de assolá-lo, aniquilou um terço da população do país, provocando escassez de braços para o trabalho nos campos e a queda da produção agrícola. A crise econômica que se seguiu agravou o descontentamento social e levou à falta de recursos para a continuação da guerra com a França.
Todos estes problemas recaíram sobre Ricardo II (1377-1399), neto e sucessor de Eduardo III. Foi no seu reinado que, em 1381, eclodiu a violenta Revolta dos Camponeses, liderada por Wat Tyler. Os camponeses, descontentes com os abusos que lhes eram impostos para compensar a falta de mão-de-obra, estiveram quase a subverter completamente a ordem estabelecida. Foi também no seu reinado que os ingleses, pela primeira vez, foram derrotados na França por Duguesclin, tendo perdido quase todas as conquistas iniciais. No final do século, portanto, o otimismo deu lugar ao desânimo e ao temor. A peste, a miséria, a rebeldia, a derrota, as injustiças — tudo parecia sugerir um mundo em desagregação. E, para piorar as coisas, a própria Igreja, o grande sustentáculo dos valores tradicionais, estava em franco declínio, desmoralizada pela transferência da sede do Papado para Avignon e, mais tarde, pelo Grande Cisma. O clero, tanto o secular (com os seus párocos absenteístas, sempre à procura de postos mais lucrativos nos grandes centros) como o regular (com os seus monges mundanos e frades sem escrúpulos), estava minado pela corrupção. O sentimento anticlerical crescia, levando muitos a ver com bons olhos o movimento reformista de John Wyclif, cujos adeptos, os fanáticos lollards
, chegaram a ameaçar a ordem pública. E todas essas dificuldades, acrescidas de outras (como o recrudescimento dos atritos com os galeses e os escoceses), iriam continuar por muito tempo ainda, até que a Inglaterra finalmente encontrasse o seu caminho. A época de Chaucer termina, portanto, com uma nota de pessimismo.
Naturalmente, todos esses acontecimentos tiveram reflexos na vida cultural, na literatura e na arte do período. No entanto, nenhum deles teve tanto peso nesses setores como a íntima relação com a França. De facto, a própria língua inglesa formou-se sob a influência do país vizinho, pois, tendo perdido o prestígio de que gozara na era anglo-saxónica (o inglês antigo
) e tendo sido abandonada pela corte e pelos letrados em favor do francês e do latim, respetivamente, ressurgiu no tempo dos reis Angevinos com uma sintaxe germânica extremamente simplificada e um vocabulário predominantemente latino, tornando-se o assim-chamado inglês médio
, que iria transformar-se, a partir do século XVI, no inglês moderno
. Graças aos contatos com a França, a métrica inglesa também passou por profundas alterações, substituindo o sistema aliterativo herdado dos anglo-saxões pela contagem silábica e pela rima.
Por fim, foram os modelos franceses que determinaram os géneros e grande parte da temática da literatura em inglês médio. É o que se pode constatar, por exemplo, na poesia lírica, com as suas canções
de derivação provençal (como as reverdies
e as vilanelles
), ou nos seus instrutivos debates
entre animais (como o debate entre A Coruja e o Rouxinol, que contrapõe o pragmatismo racional ao esteticismo emocional), as suas encantadoras visões
(que surgiram na sequência da tradução do Roman de la Rose por Chaucer) e as suas baladas
aristocráticas, fiéis aos moldes da corte de Paris. De facto, a presença francesa está presente em praticamente todas as obras, desde as de caráter popular, como os fabliaux
, maliciosos e às vezes indecentes, até aos romances de cavalaria
, com os seus dois ciclos principais: o Arturiano, sobre o Rei Artur e os Cavaleiros da Távola Redonda, e o Antigo, sobre figuras da antiguidade clássica. Nos trabalhos em prosa, quase nunca se pode sequer falar de imitação ou adaptação, mas sim de tradução direta, como se verifica em inúmeros sermões, tratados morais e relatos de viagens (a começar pelo célebre livro das Viagens de Sir John Mandeville).
Entretanto, os trágicos acontecimentos, as convulsões sociais e as inquietações que perturbaram a segunda metade do século XIV tornaram essa literatura, formalista e artificial, largamente inadequada. É verdade que foi nessa época que a Inglaterra produziu o seu maior romance de cavalaria
, Sir Galvão e o Cavaleiro Verde, atribuído a um autor anónimo conhecido como "o Poeta de Pérola. Porém, com o rápido desaparecimento dos ideais cavaleirescos, tais
romances" já estavam mais voltados para o passado que para o presente. O que o presente exigia era que as velhas formas fossem retrabalhadas com um enfoque mais realista e uma posição mais assertiva. E foi precisamente isso que os maiores escritores do período fizeram, como William Langland, com a sua condenação indignada dos vícios da sociedade em A Visão de Pedro-o-Camponês (The Vision of Piers Plowman), e John Gower, que, embora sem a mesma simpatia de Langland pelas classes menos favorecidas, era também um ferrenho moralista.
Se, porém, esses escritores lograram representar melhor a sua época, não tiveram talento suficiente para a transcender. O único que conseguiu fazê-lo, produzindo uma obra que tinha algo a dizer não apenas aos homens do seu tempo, mas também às gerações futuras, foi Geoffrey Chaucer.
Chaucer, o primeiro nome da literatura inglesa de grandeza universal.
2. O Autor
Pouco se conhece da vida e da personalidade de Chaucer, embora, como já foi referido, haja mais dados a seu respeito do que a respeito de Shakespeare, por exemplo, que viveu duzentos anos mais tarde. A parte mais nebulosa da sua biografia é a inicial. Sabe-se que nasceu em Londres por volta de 1340 e que era filho de John Chaucer, um comerciante de vinhos. O pai deve ter tido alguma influência, pois conseguiu colocá-lo como pajem junto ao Príncipe Lionel, terceiro filho do rei Eduardo III, dando-lhe a oportunidade de se familiarizar com o manejo das armas e a etiqueta da corte, de ampliar os seus conhecimentos de latim e francês e de completar a sua formação com a leitura de autores antigos e contemporâneos. Segundo alguns, Chaucer também terá frequentado uma das duas escolas de Direito então existentes em Londres. Em 1359, esteve a lutar na França. Feito prisioneiro, foi resgatado por Eduardo III, que mais tarde o tornaria um dos seus valetes.
Entre 1360 e 1366, Chaucer desaparece de cena. A primeira informação após esse período é o seu casamento com Philippa de Roet, uma dama ao serviço da rainha. Tem-se igualmente notícia de que desse matrimônio nasceram pelo menos dois filhos: Thomas, que ainda viria a ocupar importantes cargos públicos, e Lewis, a quem o escritor dedicaria o seu Tratado do Astrolábio. Há também indícios da existência de uma filha. Essa união certamente estreitou as ligações do poeta com a corte, visto que a irmã de Philippa, Katherine, convidada para preceptora dos filhos de John of Gaunt — quarto filho de Eduardo III e pai do futuro rei Henrique IV — acabou por se tornar amante e, depois, esposa do patrão.
A longa associação com a realeza estimulou a atividade literária de Chaucer, que escreveu todas as suas obras por ocasião, destinadas à leitura perante a corte, e deu-lhe a oportunidade de aprofundar os seus contatos com os grandes centros culturais e artísticos do continente europeu. De facto, o rei frequentemente incumbia-o de missões diplomáticas no estrangeiro, enviando-o ora para Navarra, ora para a Flandres e França, ora para a Itália. As suas duas visitas à península italiana (1372 e 1378) foram particularmente profícuas, já que não só se encontrou com figuras políticas de relevo como Bernabò Visconti, o temível tirano de Milão, como também descobriu uma literatura rica e inovadora nas obras de Dante, Boccaccio e Petrarca, com quem terá talvez estado pessoalmente.
Entre 1374 e 1386, Chaucer exerceu as funções de Inspetor Alfandegário junto dos mercadores de lã. Foi essa a fase financeiramente mais próspera da sua vida, uma vez que, além de auferir uma renda anual apreciável e usufruir de várias outras vantagens, foi autorizado a residir nos aposentos superiores de Aldgate, uma das portas de Londres, com vista para a cidade e para os campos.
Por coincidência ou não, os tempos difíceis começaram para ele quando o Duque de Gloucester e os seus sequazes limitaram os poderes de Ricardo II, de quem Chaucer era partidário, condenando vários seguidores do rei à morte. Nessa época, o escritor já tinha deixado a casa em Aldgate e mudado-se para o Kent, onde fora nomeado Juiz de Paz e, mais tarde, eleito Cavaleiro Representante do Condado no Parlamento. Porém, após ter perdido o cargo de Inspetor Alfandegário, a sua situação econômica complicou-se. E, como se isso não bastasse, em 1387 faleceu-lhe a mulher. Apesar de tantos contratempos, foi nesse período que, aproveitando a tranquilidade do seu confinamento em Greenwich, onde se instalara, começou a compor a sua obra mais ambiciosa: Os Contos de Cantuária.
No entanto, teve de avançar com o livro sem a tranquilidade esperada, pois novos afazeres reclamaram a sua atenção e novas atribuições o aguardavam. Tão logo Ricardo II retomou as rédeas do governo em 1389, nomeou o poeta Fiscal de Obras do Rei, cargo que ocupou até ao ano seguinte e que lhe custou muito trabalho e esforço, dado que, entre os seus deveres, constavam até a compra de materiais de construção e a contratação de artesãos e operários. Além disso, era também da sua responsabilidade guardar o dinheiro para as obras, o que lhe trouxe algumas dores de cabeça. De facto, em setembro de 1390, Chaucer foi assaltado duas vezes no mesmo dia e pelo mesmo bando, tendo de esperar cinco angustiantes meses para ser oficialmente dispensado da obrigação de ressarcir os prejuízos. Depois disso, provavelmente não exerceu outras funções públicas, visto que a sua suposta nomeação para o cargo de Couteiro Auxiliar da Floresta de Petherton, no condado de Somerset, não pode ser comprovada. Envelhecido e com poucos recursos, o poeta chegou a ser processado por várias dívidas. Até o estipêndio anual que recebia da Coroa lhe foi retirado quando Ricardo II foi destronado em 1399. Foi nesse momento crítico que, sem perder o bom humor, enviou ao novo soberano a famosa balada O Lamento de Chaucer pela sua Bolsa Vazia
; Henrique IV, filho do seu amigo John of Gaunt, atendeu-o prontamente, renovando-lhe a pensão. As coisas pareciam estar a melhorar. Chaucer alugou então uma casa junto à Abadia de Westminster, onde se mudou. No entanto, a morte inesperadamente o colheu poucos meses mais tarde, no dia 25 de outubro de 1400. O seu corpo foi sepultado na célebre Abadia, não longe dos monumentos tumulares dos reis do seu país, sendo o primeiro literato a merecer tal honra.
Em suma, estes foram os principais acontecimentos que marcaram a vida do homem Chaucer. Quanto ao poeta Chaucer, relativamente ao qual até agora pouco se disse, a sua carreira costuma ser dividida em três grandes períodos. O primeiro deles foi o Período Francês, durante o qual, para além de traduzir o Roman de la Rose, que tanto o influenciou, produziu: O Livro da Duquesa (1369-70), uma visão
sobre a morte de Blanche, a primeira mulher de John of Gaunt; O Parlamento das Aves (1379-82?), em que o autor retrata um debate das aves sobre o tema do amor cortês; e A Casa da Fama (c. 1379), em que o poeta narra como foi transportado para as Casas da Fama e do Boato por uma águia tagarela. Esta última obra, inacabada, denuncia a transição para a fase seguinte, o Período Italiano. De facto, a importância atribuída a Virgílio e a viagem guiada do nosso poeta a reinos desconhecidos sugerem a influência de Dante, que se acentuaria nas próximas obras, ajudando-o a moldar os seus ritmos e a enriquecer a sua temática.
Nesta fase, foram também muito significativas as contribuições de Petrarca e de Boccaccio. Neste último, Chaucer encontrou os modelos para O Conto do Cavaleiro e para o grande poema Tróilo e Criseida (c. 1385), baseados, respetivamente, na Teseida e no Filóstrato. No entanto, ao contrário do que muitos pensam, Boccaccio não exerceu qualquer influência direta na elaboração de Os Contos de Cantuária. Ao que tudo indica, o autor inglês não chegou a conhecer o Decameron e o único conto deste livro a figurar na sua coletânea, a história de Griselda narrada pelo Estudante de Oxford, foi adaptado a partir de uma versão latina feita por Petrarca. De qualquer forma, a fase propriamente italiana termina com A Legenda das Mulheres Exemplares (c. 1386), uma sequência de relatos sobre as fiéis mártires do amor (as santas de Cupido
), que o poeta escreveu a pedido da rainha Anne, como uma espécie de penitência por ter retratado a falsidade feminina em Tróilo e Criseida. No entanto, não chegou a concluir essa obra, porque outro projeto, muito mais interessante e absorvente, veio ocupar as suas atenções: Os Contos de Cantuária, a cuja composição se dedicou entre 1386 e 1400, ano da sua morte. E este foi o seu terceiro e último período, o chamado Período Inglês, de plena maturidade.
Durante esta trajetória, não era hábito de Chaucer abandonar as conquistas de uma fase ao entrar noutra; ele simplesmente acrescentava novos elementos aos elementos antigos, que tratava, porém, com maior senso crítico. Por isso mesmo, até ao fim da vida, as formas básicas da sua poesia permaneceram as que recebera do período francês; no entanto, ele ampliou-as com o passar do tempo e, em algumas ocasiões, inovou-as, desenvolvendo a estrofe de sete versos (rhyme royal
), o pentâmetro jâmbico, de tão brilhante futuro, e o poema herói-cómico. Também o emprego dos métodos retóricos, típicos da literatura medieval, permaneceu constante, tanto assim que praticamente todas as suas histórias foram reelaborações de textos existentes, com os cortes, os acréscimos e os embelezamentos de praxe, como a hipérbole, a invocação, a prosopopeia, a occupatio (ou recusa a narrar), o exemplum (ou história ilustrativa), a preterição (dizer algo enquanto afirma que não vai dizê-lo), foram perdendo o seu caráter artificial, integrando-se cada vez mais no contexto dramático da narração. É o que se verifica, por exemplo, em Os Contos de Cantuária: se, por um lado, as invocações retóricas de Dórigen, no final do Conto do Proprietário de Terras
, quase arruínam uma bela história, por outro, a incontinência oratória da bruxa velha no Conto da Mulher de Bath
, ou as amargas diatribes que retardam o Conto do Mercador
, encontram justificativa nos temperamentos e nos estados de alma dos respetivos narradores, reforçando o efeito dramático do todo.
Quanto aos aspetos novos que Chaucer adquiriu na sua maturidade, poderíamos lembrar, entre outros, a flexibilidade métrica, a frequente precisão e adequação das imagens, o uso de trocadilhos, a sutil ironia verbal, a eficiente ironia dramática e, principalmente, a atitude objetiva, que permite vida própria às suas personagens, boas ou más, a profundidade da observação psicológica, que lhe permite retratar um indivíduo com apenas alguns traços essenciais, e a variedade e o enfoque realista. Se as primeiras qualidades devem ser atribuídas ao contacto com outros autores, sobretudo os italianos, as últimas devem ser exclusivamente atribuídas à sua genialidade, que o levou a tirar o máximo proveito de tudo o que aprendeu no seu convívio com homens de todas as classes sociais, reis, fidalgos, mercadores e artesãos. No entanto, falar dessas coisas já é falar de Os Contos de Cantuária.
3. O Livro
Os Contos de Cantuária têm como ponto de partida uma romaria que vinte e nove peregrinos, aos quais se associa o próprio Chaucer, fazem juntos à cidade de Cantuária, para uma visita piedosa ao túmulo de Santo Tomás Becket. O albergueiro do Tabardo
, a estalagem ao sul de Londres onde pernoitam, sugere-lhes que, para se distraírem na viagem, cada um conte duas histórias na ida e duas na volta, prometendo ao melhor narrador um jantar como prémio. São essas histórias, juntamente com os elos de ligação entre uma e outra, mais o Prólogo Geral em que os romeiros são apresentados um a um, que constituem o livro na sua essência.
Se Chaucer tivesse sido fiel ao seu plano, a obra deveria conter nada menos que 120 histórias. O plano não era, contudo, rígido (tanto assim que o Cônego e o seu Criado se juntaram à comitiva no meio da estrada). Além disso, o próprio autor depressa se apercebeu da sua impraticabilidade, havendo no texto claros indícios de que alterou o ambicioso projeto original a meio caminho, substituindo-o por uma concepção mais modesta, onde a cada peregrino caberia o encargo de apenas um ou dois contos. Mesmo com esta redução, a coletânea ficou incompleta, limitando-se a vinte e quatro histórias, duas das quais inacabadas: O Conto do Cozinheiro
e O Conto do Escudeiro
. Além disso, o nível artístico desses contos é bastante desigual, visto que o poeta enxertou na obra vários dos seus escritos anteriores, como O Conto do Cavaleiro
, O Conto da Prioresa
, O Conto de Chaucer sobre Melibeu
, O Conto da Outra Freira
, etc., que, à exceção dos dois primeiros, são geralmente imaturos, inadequados e, portanto, de qualidade inferior. Por fim, há diversas incongruências, lacunas e repetições, mostrando que o autor não teve tempo de fazer a revisão necessária e disfarçar os remendos.
No entanto, mesmo com defeitos, o texto, graças à ligação lógica e psicológica das partes e ao cuidado de Chaucer em dar um final conclusivo a um dos fragmentos (que culmina com O Conto do Pároco
), não só tem um sentido de unidade inegável, como também gratifica o leitor como poucos monumentos literários polidos e acabados conseguem fazê-lo.
O primeiro e mais óbvio mérito do livro é o de nos proporcionar um vasto e animado panorama da vida medieval, desde o Prólogo, com a sua incomparável galeria de tipos representativos das diferentes camadas da sociedade. Alguns críticos, para os quais a grandeza de um escritor parece ser diretamente proporcional ao seu grau de envolvimento político, gostam de frisar que, de facto, toda a sociedade medieval está presente em Chaucer, à exceção das classes mais altas e mais baixas. O que querem sugerir com isso é que, como bom burguês, o autor, por um lado, temia ofender a aristocracia e, por outro, não simpatizava com os pobres. Gardiner Stillwell (cf. Schoeck e Taylor, Chaucer Criticism, p. 84) chega mesmo a insinuar que, se o Lavrador é uma das quatro únicas figuras idealizadas no Prólogo (ao lado do Cavaleiro, do Estudante de Oxford e do Pároco), é só porque o poeta pretende dá-lo como exemplo para as massas camponesas sublevadas por Wat Tyler (?!). Estas colocações exigem, sem dúvida, uma análise mais cuidada. Chaucer não era um reformador social e o próprio facto de ter iniciado Os Contos de Cantuária com o Cavaleiro, símbolo dos ideais cavaleirescos, e concluído com o Pároco, símbolo do ideal cristão, mostra claramente os seus parâmetros.
É necessário, porém, ter em conta outros fatores, tais como: 1.º) a inclusão de fidalgos e mendigos na romaria iria ferir os princípios do realismo, visto que os primeiros dispunham de séquitos próprios e os segundos não dispunham dos recursos mínimos para suportar as despesas da viagem, pelo que nenhum representante desses dois grupos extremos se teria integrado na comitiva descrita; 2.º) Embora ausentes do Prólogo, os aristocratas e os pobres são abordados no corpo de vários contos, completando assim o quadro social da época; e 3.º) A aceitação das bases ideológicas da sociedade em que vivia e a preferência por uma atitude estética objetiva (em vez de panfletária) não significam que o escritor ignorasse a realidade do seu tempo. Pelo contrário, apenas um leitor obtuso, obcecado por ideias pré-concebidas, deixaria de perceber o quanto Chaucer, no seu livro, é sensível aos problemas e às mazelas sociais da época. Nada escapava à sua observação e sátira. No Conto de Chaucer sobre Sir Topázio, por exemplo, o escritor aponta para a decadência dos ideais cavaleirescos, ridicularizando, na figura do efeminado e pusilânime protagonista, a usurpação das prerrogativas da nobreza pela burguesia mercantil.
Como se vê, ele não defende nem se identifica plenamente com a sua própria classe. De facto, no Prólogo, esboça um Mercador que esconde os seus fracassos e falcatruas atrás de uma máscara de dignidade pomposa, um Proprietário de Terras Alodiais fascinado pela fidalguia
da nobreza a que deseja ascender, um Magistrado que vive comprando terras para satisfazer a mesma ambição e um Médico mancomunado com os boticários na exploração dos pacientes. Se é duro com a burguesia, também não poupa a aristocracia bem-nascida, duvidando, no Conto da Mulher de Bath e noutros, da validade das suas pretensões de superioridade (ainda que repetindo objeções de Boécio). Por outro lado, recusa-se a idealizar as classes baixas, revelando abertamente as trapaças de figuras como o Moleiro, o Feitor e o Provedor. No entanto, é na exposição dos males da Igreja que o poeta mais se esmera, deixando entrever um pouco da sua simpatia pelos lollards
(confirmada, aliás, por fontes extraliterárias). Tal é visível no retrato da Prioresa, uma típica filha de família nobre sem recursos, que, não dispondo de dote para o matrimônio, é destinada ao convento, onde leva uma vida de dama requintada, compadecendo-se mais dos cachorrinhos que dos pobres; ou nos retratos do Monge amante do luxo e da caça, do Frade libidinoso e corrupto, ou daqueles verdadeiros rebotalhos humanos que são o Beleguim (ou seja, o Oficial de Justiça Eclesiástica) e o Vendedor de Indulgências.
Além da sociedade, também estão presentes no livro a cultura e a literatura medievais, visto que, à semelhança do Ulysses de James Joyce, onde cada capítulo tem uma arte
e um estilo
, cada história de Os Contos de Cantuária ilustra um género literário diferente (geralmente adequado ao narrador) e focaliza com certa minúcia uma ciência ou atividade humana. Desta forma, podemos dizer que O Conto do Cavaleiro, como era de esperar, é um romance de cavalaria
, pertencente ao Ciclo Antigo; O Conto de Chaucer sobre Sir Topázio, que parodia um romance
independente, é um poema herói-cômico
; e O Conto do Proprietário de Terras é um lai de Bretagne
, um género desenvolvido por Marie de France, não claramente definido, cuja ação se passa obrigatoriamente na região da Bretanha. Ainda no âmbito da literatura profana, O Conto do Padre da Freira
é uma fábula
, mais ou menos no estilo dos debates
entre animais; O Conto do Magistrado
segue a tradição das então populares histórias de esposas caluniadas
; O Conto do Escudeiro
lembra os relatos das Mil e Uma Noites; e os Contos do Estudante e do Mercador podem ser classificados como novella
, uma forma narrativa que Chaucer trouxe da Itália. Por sua vez, as histórias daquelas personagens desbocadas — o Moleiro, o Feitor, o Cozinheiro, o Homem-do-Mar, o Frade e o Beleguim — são típicos fabliaux.
Como amostras da literatura religiosa, temos O Conto da Prioresa
, uma narrativa dentro da tradição dos milagres de Nossa Senhora
, e O Conto da Outra Freira
, uma legenda
ou vida de santo. O Conto do Vendedor de Indulgências
, que não passa de um exemplum
dentro de um sermão religioso (assim como O Conto da Mulher de Bath
se caracteriza como exemplum
profano); O Conto de Chaucer sobre Melibeu
, que não passa de um tratado moral
; e O Conto do Pároco
, que exemplifica o sermão
. Por fim, há narrativas de difícil classificação, ou porque devem ter sido criadas pelo próprio Chaucer (O Conto do Criado do Cônego
), ou porque são meras adaptações de Tito Lívio (O Conto do Médico
) ou de Ovídio (O Conto do Provedor
). O Conto do Monge
, ao oferecer uma sequência de historietas, reproduz, em menor escala, as coletâneas medievais, à semelhança de A Legenda das Mulheres Exemplares ou do próprio livro em que se insere. Nem mesmo a poesia lírica é esquecida, aparecendo aqui e ali sob a forma de invocações
, baladas
etc. A propósito, convém recordar que os versos iniciais da obra constituem uma reverdie
, anunciando o renascer da natureza e o renascer espiritual da humanidade na primavera (e mostrando que, para Chaucer, abril não era o mês mais cruel
).
"Quando o mês de abril com as suas horas quentes
Percorrer o caminho da primavera,
E banhar cada veia com um licor tão puro,
Daí o fruto da virtude e o seu poder...
... Então, as pessoas desejam partir em peregrinações."
No entanto, como já foi dito, cada conto não só ilustra géneros literários diferentes, mas também parece focalizar propositadamente uma ciência ou mais, proporcionando-nos assim uma visão ampla da cultura da época. Consequentemente, encontramos extensas referências à medicina (O Conto do Cavaleiro
), à alquimia (O Conto do Criado do Cônego
), à teologia (O Conto do Frade
) e à magia (O Conto do Proprietário de Terras
), ao comércio e às finanças (O Conto do Homem-do-Mar
), à filosofia, à retórica, etc., para não falar da astrologia, à qual o poeta era um estudioso apaixonado e à qual faz alusões em quase todas as narrativas.
Naturalmente, todo este conteúdo social e cultural não tem apenas valor histórico. Ao rirmos das limitações e da carga de superstição da ciência daquele tempo, ou ao espantarmo-nos com os casos de opressão, espoliação e corrupção descritos, somos levados a imaginar como verão a nossa ciência daqui a seis séculos, ou a questionar-nos se há realmente diferenças sensíveis, para melhor ou para pior, entre as injustiças e os abusos praticados então e os que se praticam agora. Os contos de Chaucer oferecem-nos, portanto, um referencial precioso para avaliar o nosso progresso e compreender a nossa própria sociedade. Mesmo porque a época retratada pode ser a medieval, mas a humanidade é a mesma de sempre.
Isso acontece devido ao facto de, ao lado desse primeiro mérito de interesse essencialmente sociológico, o livro ostentar outro, não menos importante, de interesse basicamente psicológico, que decorre da sua exploração do ser humano como indivíduo e, num segundo momento, da sua análise da relação do indivíduo com a sociedade. Vejamos, inicialmente, o método utilizado por Chaucer na caracterização do indivíduo.
Para compreender o seu método, devemos sempre cotejar a descrição dos peregrinos no Prólogo com o seu desempenho na narração dos contos. Quando o fazemos, deparamo-nos com personagens que parecem pessoas de carne e osso, dotadas de uma individualidade própria. Em outras palavras, não são personagens planas, mas esféricas, por vezes bastante complexas, contraditórias e intrigantes. Tomemos, por exemplo, a gentil Prioresa. A ironia sutil da sua apresentação no Prólogo, que a descreve como uma dama vaidosa e delicada, compelida pelas circunstâncias da vida a tomar o hábito sem ter vocação religiosa; por conseguinte, o seu conto sobre o menino assassinado denuncia (como bem insinua o excesso de diminutivos) uma piedade apenas convencional. Contrastando, porém, com toda a sua aparente suavidade, ela revela, ao mesmo tempo, um ódio antissemita tão intenso que chega a surpreender-nos, ainda que não os seus ouvintes, pois (como constatou R. J. Schoeck em Chaucer Criticism, pp. 245-58), quando ela termina a história, paradoxalmente pedindo ao Senhor a piedade que recusa aos malditos judeus
, a sua audiência fica igualmente comovida, sem se dar conta das suas contradições. Esta reação é muito sugestiva, dado que não só completa a imagem da freira, inserindo-a no seu meio, como também nos informa sobre a natureza do seu contexto social. Trata-se, portanto, de um retrato de corpo inteiro, composto, como num jogo de espelhos, pela superposição da atitude da narradora em relação à sua história, da atitude dos romeiros em relação à história e à narradora, e da atitude do peregrino Chaucer em relação à narradora e aos romeiros.
Mais intrigante ainda é o retrato do Vendedor de Indulgências, pois o próprio autor não especifica se este é homossexual, bissexual ou eunuco. De qualquer modo, estamos diante de um pervertido que, ao chegar a sua vez de narrar, talvez estimulado pela bebida, se atira sem acanhamento a uma confissão pública, em que, tal como o Ricardo III de Shakespeare, parece vangloriar-se dos seus vícios e da sua desonestidade. Depois, faz uma demonstração da sua técnica de ludibriar os incautos com sermões insinceros, ilustrados por um exemplum ironicamente moralista (que é o seu conto), chegando finalmente, por excesso de empolgação ou por simples troça, ao atrevimento de tentar impingir as suas relíquias
aos próprios companheiros de viagem, como se a realidade e a ficção se misturassem. Também aqui temos o hábil jogo de espelhos, com o conto ominoso a refletir o sermão, o sermão a iluminar a confissão e a confissão a desnudar a personagem, no meio da superposição habitual de impressões do autor, do narrador e da plateia.
Foi com esse processo básico, fundamentado no princípio da união indissolúvel do narrador com a narrativa, que Chaucer foi o primeiro a aplicar na literatura inglesa (e quiçá europeia), que ele pôde criar uma caracterização não apenas complexa e convincente, mas também de inigualável variedade.
Se a análise dos contos individuais nos fornece a psicologia dos protagonistas, dando-nos uma visão bastante realista da natureza humana, o estudo comparativo de certas histórias, reunidas em grupos, permite-nos descobrir a existência de grandes linhas temáticas que, para além de garantirem a unidade da obra, nos esclarecem sobre o pensamento de Chaucer a respeito, sobretudo, de questões atinentes ao relacionamento do indivíduo com outros indivíduos e com a sociedade em geral. É importante salientar que estas linhas, que por vezes formam verdadeiras tramas, não dependem apenas dos encadeamentos mais óbvios, como os determinados pelas rixas entre o Moleiro e o Feitor, ou entre o Frade e o Beleguim. Além desses elos fortemente dramáticos, há também elos mais sutis e profundos, frequentemente psicológicos e de tom irónico. É através destes que o autor aborda problemas que continuam atuais, como a natureza do amor, a mulher perante o sexo e a vida conjugal.
O primeiro tema citado, por exemplo, é amplamente discutido em O Conto do Cavaleiro
, com o seu tom dignificado e a sua colorida e pomposa parada medieval de rigorosa simetria. Neste, o narrador, por força da sua condição, deve admitir a viabilidade do amor como sentimento platônico e como devoção incondicional à mulher idealizada. Reconhece, entretanto, que, no mundo real, essa sublimidade dificilmente subsiste, descambando, por vezes, para a brutalidade das paixões carnais (como quando, por causa de Emília, Palamon e Arcita se esquecem do próprio código de honra da cavalaria) e, noutras, expondo-se ao ridículo (como quando Teseu lembra que Emília sabia do ardor dos dois rivais tanto quanto os cucos e as lebres
). Só muito tempo depois, após sacrifícios e tragédias, é que a dignidade cavaleiresca foi finalmente reconquistada e o amor-cortês
reafirmado. Logo a seguir, porém, vem O Conto do Moleiro
, que, ironicamente, também discorre sobre dois rivais, Absalon e Nicholas, em luta pelo o amor
de Alison, a bela camponesa. Esta história, uma das mais divertidas e obscenas da literatura inglesa, narrada pelo Moleiro, que está bêbado e conta a história com o intuito de pagar
o conto do Cavaleiro, lança nova luz sobre este, envolvendo-o numa atmosfera de irrealidade. O contraste entre ambos sugere que, pelo menos na vida real, o sexo pode prescindir do amor, mas o amor raramente pode prescindir do sexo.
Se as coisas são assim, por que razão é que a sociedade reprime a vida sexual da mulher e estimula a do homem? É precisamente esta questão da posição da mulher perante o sexo que dá vida a outra linha temática do livro. Alguns contos, como o do Moleiro, o do Feitor e o do Homem-do-Mar, apresentam-nos mulheres que aceitam ou procuram espontaneamente a atividade sexual, mas, de uma forma ou de outra, deixam implícito que não merecem muito respeito. Outros, como os contos do Cavaleiro, do Magistrado e do Médico, para não falar da história de Zenóbia em O Conto do Monge
, procuram inculcar-nos a velha ideia de que a única mulher digna do nome é a virgem. Em todos eles, portanto, parece que à mulher só cabe optar por esses dois pólos extremos: ou prostituta, ou santa. A reconciliação de tais opostos, a síntese dessa tese e dessa antítese, é finalmente alcançada no Prólogo de O Conto da Mulher de Bath
, onde a narradora, uma das maiores figuras femininas de toda a literatura universal, mesmo sem contestar abertamente os conceitos morais predominantes, demonstra, com abundância de argumentos, que os prazeres sexuais não devem ser privilégio exclusivo dos homens.
Ao mesmo tempo que alcança tal síntese, O Conto da Mulher de Bath
inaugura uma nova linha temática, visto que os pontos de vista daquela personagem sobre o casamento provocam a reação dos restantes peregrinos, daí surgindo os contos que George L. Kittredge chamou de grupo conjugai
. A tese da Mulher de Bath, muito bem ilustrada pela sua história, é que o matrimônio só pode ser feliz quando quem manda é a mulher. A antítese é apresentada em O Conto do Estudante
, que descreve a submissão dócil de Griselda, a esposa ideal
, aos mais absurdos caprichos do marido. No entanto, o Estudante, sentindo que a sua história é falha como contra-argumento por se afastar demasiado da realidade, invoca timidamente como justificativa o seu caráter simbólico (a submissão de Griselda ao marido é como deve ser a submissão do cristão a Deus) e, num envoi
irónico, finge apoiar a mulher de Bath e defender o direito que a esposa tem de tornar o homem miserável. As suas palavras tocam fundo na ferida de outro romeiro, que, lembrando-se de como era infeliz na vida conjugal, decide desabafar o seu rancor contando a história mais impiedosamente cínica de toda a coletânea. Com efeito, em O Conto do Mercador
, não é só a mulher, a jovem Maio, com o seu espírito mercenário, que é condenada; mais que ela, merece desprezo o marido egoísta, o velho Janeiro, que se torna ainda mais cego depois de recuperar a visão. Para o mercador, as mulheres são inescrupulosas e os homens são tolos; o matrimônio é uma ilusão. Finalmente, O Conto do Proprietário de Terras
retoma o debate e oferece uma síntese, demonstrando que o casamento feliz é possível, mas apenas quando há confiança mútua entre os cônjuges e nenhum manda no outro: Quando surge a imposição, o deus do Amor bate asas e então, adeus! Vai-se embora.
Concluindo estes comentários sobre Os Contos de Cantuária, lembramos que, para além do nível naturalista, onde a temática prevalecente é a sociedade, o indivíduo e a forma como este se relaciona com os outros e com a sociedade, o livro encerra também um nível simbólico, geralmente de fundo religioso. Este nível pode ser detetado não apenas nos contos individuais, mas também na própria estrutura da obra. No primeiro caso, infelizmente, a exegese tem-se revelado incerta e vaga. O Conto do Padre da Freira
, por exemplo, que é a deliciosa fábula do galo Chantecler, da galinha Pertelote e de Dona Russela, a raposa, narrada por um dos Padres que acompanham a Prioresa, tem sido interpretado de diversas maneiras quanto às suas implicações simbólicas: Para alguns, a história ilustra a necessidade que tem o cristão (o galo) de se manter em guarda contra o demônio (a raposa); para outros, que compararam as cores dos animais do enredo com as cores heráldicas do rei e dos barões
, trata-se de uma sátira política; para outros, finalmente, a obra contém uma crítica às dissenções internas do clero (abertamente mencionadas por Chaucer no início de O Conto de Beleguim
), de modo que a viúva, dona de Chantecler, representaria a Igreja, o galo, os padres seculares, e a raposa,
