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(Quase) sempre online - Pedro Afonso
Pedro Afonso
(Quase) sempre online
Como a imersão online nos deixou mais sós, ansiosos, deprimidos e desligados do mundo real
Título
(Quase) sempre online – Como a imersão online nos deixou
mais sós, ansiosos, deprimidos e desligados do mundo real
Autor
Pedro Afonso
Edição e copyright
Princípia, Cascais
1.ª edição – novembro de 2025
© Princípia Editora, Lda.
Design da capa Rita Maia e Moura
Princípia
Rua Vasco da Gama, 60-B – 2775-297 Parede – Portugal
+351 214 678 710 • principia@principia.pt • www.principia.pt
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Nota do Autor
Este livro surge como uma análise crítica, oportuna e com rigor científico sobre um dos fenómenos mais definidores da sociedade contemporânea: a constante conectividade digital. Numa era em que os ecrãs se tornaram extensões da nossa própria existência, ele procura oferecer uma exploração aprofundada das consequências de viver num mundo cada vez mais imerso na Internet e nas redes sociais. E aborda um tema de grandes atualidade e relevância social: os dados preocupantes relativos ao tempo que passamos online e às suas implicações.
Sem cair em alarmismos infundados, mas partindo de uma base sólida em evidências, procuro revelar dados que nos ajudem a compreender como a dependência digital se traduz em problemas de saúde física e em sérios desafios à saúde mental, incluindo aumento da ansiedade e da depressão e uma paradoxal sensação de solidão. A dimensão social também é escrutinada, principalmente nas crianças e nos adolescentes, com destaque, por exemplo, para perda de competências sociais; prejuízo do neurodesenvolvimento cerebral; potencial aditivo; adoção de comportamentos de risco; violência online; e dissolução ética e moral resultante da falta de regulação das plataformas digitais.
Um dos pressupostos desta obra é o compromisso com o rigor científico e a visão médica do problema. Embora não seja um tratado puramente académico, cada capítulo e cada afirmação que aqui podem ser lidos são sustentados por artigos científicos, bem como pelo próprio conhecimento clínico de que disponho como psiquiatra, e pela experiência pedagógica adquirida como docente universitário de Psiquiatria na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e na Universidade Católica Portuguesa. A inclusão de um glossário com termos como, por exemplo, troll, ghosting, sexting, entre outros, demonstra a preocupação em contextualizar e clarificar conceitos para o leitor, ao mesmo tempo que sublinha a abordagem sistemática e informada deste assunto.
Apesar da complexidade do tema, procurei adotar uma linguagem acessível ao grande público. A estrutura do livro, com capítulos claramente definidos que abordam questões práticas relacionadas com o tema, facilita a navegação e a compreensão progressiva dos diferentes aspetos do problema. Ao longo do texto, são ainda relatadas histórias reais que ajudam a ilustrar o conteúdo, tornando a leitura mais apelativa, através de casos verídicos tornados públicos de cyberbullying, isolamento social extremo (hikikomori), disseminação de notícias falsas, comportamentos perigosos influenciados pelas redes sociais, etc.
Numa altura em que se discute, em vários países, o aumento da idade mínima de acesso às redes sociais para os 16 anos, esta obra fornece diversos elementos científicos sobre o impacto da utilização destas plataformas na aprendizagem, na violência e na saúde mental de adolescentes e jovens, contribuindo de forma significativa para esse importante debate.
Em resumo, julgo que este livro é mais do que um alerta; é um guia lúcido para compreender as dinâmicas do mundo digital em que vivemos. O seu conteúdo não se limita a diagnosticar os problemas, mas também aponta caminhos para se desligar e viver melhor, explorando a responsabilização das plataformas digitais, dos políticos, dos pais e dos educadores, e sugerindo um equilíbrio e uma ética na utilização das novas tecnologias. Espero que a sua leitura possa ser útil para um público alargado, desde pais e educadores a profissionais de saúde, bem como para qualquer pessoa consciente dos desafios da era digital.
Por fim, agradeço à Fundação A Junção do Bem o apoio dado à edição deste livro.
1.
Introdução
Quando frequentava o 4.º ano do curso de Medicina, na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, recordo-me de um amigo que estudava Física na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa me ter falado, com enorme entusiasmo, sobre uma nova forma de as universidades comunicarem entre si. Na altura explicou-me o processo com algum pormenor, mas confesso que apenas retive três palavras: world wide web. Corria o ano de 1991 quando as primeiras universidades portuguesas começaram a utilizar pela primeira vez a Internet tal como a conhecemos hoje.
Uns anos mais tarde, surgiram em Portugal os primeiros fornecedores privados de acesso à Internet (Internet service providers). Deste modo, começaram a ser criadas as condições para que o grande público pudesse aceder à Internet, que rapidamente se transformou num sistema global e público de redes de computadores. Estavam reunidas as condições para que qualquer pessoa pudesse ligar-se à rede através de um computador.
Desde então o crescimento da Internet foi exponencial, tornando-a um meio omnipresente e universalmente acessível que revolucionou o nosso modo de vida, o acesso ao conhecimento, e a forma como nos relacionarmos uns com os outros. Nesse processo evolutivo assombroso, vale a pena destacar cinco acontecimentos marcantes.
O primeiro diz respeito ao lançamento do motor de busca Google, em 1998. Foi um novo ponto de viragem na história da Internet, proporcionando um acesso rápido e facilitando a procura de uma quantidade infindável de informações, graças aos seus algoritmos complexos e ao seu carácter universal.
Em segundo lugar, o aparecimento das redes sociais também foi outro acontecimento marcante. O Facebook foi lançado em 2004. Embora não tenha sido a primeira rede social (foi precedido por plataformas como o Friendster, o MySpace ou o Hi5), acabou por ser o primeiro caso de grande sucesso na aplicação da Internet como meio de comunicação e informação universal, capaz de fornecer acesso às notícias e de permitir que as pessoas se comunicassem em tempo real.
Em terceiro lugar, a massificação da Internet levou a que as empresas e as instituições financeiras alterassem rapidamente os seus modelos de negócio: mudaram as formas de venda dos produtos e serviços, e a Internet começou a ser utilizada como suporte à transação de operações comerciais e bancárias. O Estado não ficou indiferente e passou a recorrer à Internet para comunicar com os cidadãos, utilizando-a para atividades administrativas, processos judiciais, cobrança de impostos, entre outras funções.
O quarto acontecimento está associado ao facto de a publicidade ter migrado para o mundo digital. Os meios tradicionais de comunicação social foram profundamente afetados nas suas receitas, pois as pessoas começaram a recorrer a fontes gratuitas de informação online, apesar de estas não serem, muitas vezes, fidedignas. Surgiram novas profissões, como a dos youtubers ou a dos influencers, que conseguem gerar receitas bastante consideráveis graças aos patrocínios das marcas e aos pagamentos das plataformas digitais pelo conteúdo publicado.
Finalmente, um dos marcos mais transformadores no desenvolvimento da Internet foi o lançamento do iPhone por Steve Jobs, em 2007. Embora não tenha sido o primeiro smartphone da história, foi o primeiro a tornar o acesso à Internet verdadeiramente móvel, intuitivo e integrado no dia a dia das pessoas. Recorrendo a um design revolucionário, com ecrã multitoque, ausência de teclado físico e navegação por gestos, o iPhone colocou a Internet no bolso dos utilizadores de forma simples e apelativa. Já não era preciso estar à frente de um computador para navegar, enviar e-mails ou fazer compras online, porque tudo isso passou a estar acessível rapidamente em qualquer lugar.
Seguiu-se a criação da App Store em 2008, possibilitando aos programadores a criação de aplicações para todos os fins, desde jogos ao acesso a contas bancárias, passando por redes sociais e notícias. Surgiu um ecossistema digital vibrante e global, onde a Internet deixou de ser apenas uma rede de informação e passou a ser também uma plataforma de serviços personalizados com aplicações para inúmeras funcionalidades, acessíveis a qualquer momento. O smartphone tornou-se o principal veículo de acesso à Internet, mudando profundamente o modo como as pessoas comunicam, trabalham e vivem.
Nas últimas décadas, as tecnologias digitais permitiram que as pessoas se conectassem com mais frequência e de forma mais fácil. As interações sociais aumentaram significativamente, oferecendo uma oportunidade extraordinária de partilha de informações e conhecimentos, ligando-nos de forma rápida e contínua a pessoas em todo o mundo. As celebridades não ficaram indiferentes ao fenómeno e hoje em dia a maioria das figuras públicas está presente nas redes sociais, reunindo milhões de seguidores à escala global.
As redes sociais podem trazer benefícios para alguns jovens, oferecendo a possibilidade de encontrar pares com os mesmos interesses, fortalecendo um espírito identitário de grupo. Através desses contactos torna-se possível ter acesso a informações e expressar ideias, fomentando a expressão individual. A Internet facilita os contatos à distância, possibilitando a criação ou a manutenção de amizades, reforçando os laços sociais e mitigando a autoperceção de isolamento social. Estes são efeitos positivos das redes sociais, que não podem ser ignorados.
A utilização das redes sociais não é, por si só, benéfica nem prejudicial para os jovens¹. Porém, há quatro aspetos que vale a pena considerar no que diz respeito aos potenciais riscos:1) o tempo de utilização; 2) as suscetibilidades individuais; 3) o tipo de conteúdo visionado; 4) o assédio online.
Um estudo longitudinal demonstrou que um grupo de adolescentes (12-15 anos) que permaneciam mais de 3 horas por dia nas redes sociais apresentava o dobro do risco de ter problemas de saúde mental, designadamente sintomas de ansiedade e depressão². Em contraste, limitar o tempo de utilização das redes sociais a 30 minutos por dia evidenciou ter benefícios na saúde mental, num grupo de jovens universitários, face ao grupo de controlo. Neste caso, a restrição do tempo de utilização das redes sociais conduziu a uma melhoria significativa na gravidade dos sintomas depressivos e nos níveis de solidão³. Estas descobertas corroboram a ideia de que limitar o tempo nas redes sociais pode ser uma intervenção prática e eficaz para melhorar o bem-estar psicológico, especialmente entre os jovens adultos.
As suscetibilidades individuais são um fator importante que pode contribuir para que as redes sociais tenham efeitos negativos na pessoa. As raparigas são mais suscetíveis a fazerem comparações sobre o seu corpo com os pares, podendo ser agravada ou mesmo perpetuada uma insatisfação com a imagem corporal.
Neste contexto, as adolescentes correm maior risco de desenvolver perturbações do comportamento alimentar (por exemplo, anorexia nervosa) e sintomas depressivos⁴, ⁵. Este aspeto é relevante, dado que nas redes sociais podem surgir ideais de beleza associados ao peso que não são adequados, e também ser normalizados comportamentos alimentares demasiado restritivos que prejudicam severamente a saúde. Nem sempre existe da parte das adolescentes um espírito crítico suficientemente forte para distinguir estas influências provenientes da Internet.
Os adolescentes com um reduzido bem-estar subjetivo e fracas competências sociais, como baixa satisfação com a vida, baixa autoestima e dificuldades em criar e manter amizades, são mais suscetíveis ao uso problemático das redes sociais. A vida social na Internet pode ser atrativa para adolescentes com estas vulnerabilidades psicossociais, pois, ao contrário dos encontros presenciais, o ambiente online facilita que eles se apresentem de forma positiva. Por consequência, podem desenvolver uma preferência pela interação online em detrimento da presencial e adquirir uma visão desajustada sobre as redes sociais, como a perceção de que só têm uma vida significativa nas redes⁶.
Além disso, os adolescentes com baixo autocontrolo – evidenciado por défices de atenção ou impulsividade – têm maior dificuldade em inibir impulsos imediatos. Por isso, podem não conseguir resistir às tentações ou regular o seu uso das redes sociais, tornando-se mais vulneráveis ao seu uso problemático⁷. Constituem, por isso, uma população de risco para cair numa imersão excessiva no mundo digital.
Foram identificadas outras suscetibilidades individuais que devem ser consideradas. A solidão e a ansiedade social representam fatores de risco para o uso problemático das redes sociais. Os indivíduos socialmente ansiosos e solitários envolvem-se de forma mais disfuncional online, já que buscam nas redes sociais suporte social que muitas vezes lhes falta no contacto presencial. Assim, tanto a ansiedade social quanto a solidão têm o potencial de colocar as pessoas em risco de se envolverem de forma problemática nas redes sociais e de experimentarem consequências negativas dessa utilização⁸. Na verdade, o ambiente social na Internet nem sempre proporciona as conexões significativas desejadas, podendo aumentar inclusive a perceção de isolamento. Considerar estas suscetibilidades é fundamental para compreender o impacto das redes sociais nesta população e orientar estratégias de prevenção e intervenção.
O conteúdo visionado nas redes sociais pode ser bastante prejudicial para crianças e adolescentes. A difusão de conteúdos que incentivam ou promovem comportamentos de risco, tais como automutilação, asfixia parcial ou suicídio, constituem um enorme risco para esta população, particularmente já se encontrar em situação de fragilidade ao nível da sua saúde mental⁹, ¹⁰. O efeito de contágio social, nomeadamente a normalização destes comportamentos, pode ser potenciado pelo «sequestro do algoritmo» das redes
