Educação de Jovens e Adultos e seus diferentes contextos
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Educação de Jovens e Adultos e seus diferentes contextos - Silvana Cortada
Silvana Cortada (org.)
Educação de Jovens e Adultos e seus Diferentes Contextos
VOLUME 12
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Coordenação Editorial: Kátia Ayache
Revisão: Nara Dias
Capa: André Fonseca
Diagramação: Matheus de Alexandro
Edição em Versão Impressa: 2013
Edição em Versão Digital: 2014
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Conselho Editorial
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Prof. Dr. Antonio Cesar Galhardi (FATEC-SP) (Lattes)
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Sumário
Folha de Rosto
Créditos da Obra
Apresentação
Capítulo 1 : A EJA, um Território de Compassos e Descompassos
Introdução: O que é EJA?
Os aspectos históricos, sociais e legais da EJA
1. O Espaço, os Protagonistas e o Fazer Educativo No Contexto EJA
1.1 A escola: espaço de significação
1.2 O professor da EJA
1.3 Os alunos da EJA
1.4 O jovem na EJA
1.5 O adulto na EJA
1.6 O idoso na EJA
1.7 O fazer educativo na EJA
Considerações Finais
Referências
Capítulo 2: Notas Provocativas Sobre a Sobrevivência da Educação de Jovens e Adultos No Brasil
Introdução
1. Sociedade, Cultura, Conhecimento
2. Mudanças no mundo do trabalho e o público da EJA
3. A Questão Geracional
4. O Papel do Docente da EJA e os Princípios da Andragogia
I. O Adulto é autodiretivo
II. O adulto possui mais experiências
III. A prontidão para aprender é diferente no adulto
IV. O adulto é centrado no problema
Considerações Finais
Referências
Capítulo 3: A Concepção e o Olhar de Pedagogos em Processo de Formação Sobre Adolescentes, Jovens, Adultos e Idosos Não Alfabetizados
Introdução
1. A Educação de Jovens e Adultos enquanto campo de pesquisa
2. Contextualização Histórica da Educação de Jovens e Adultos
3. A visão das(os) estudantes do curso de pedagogia sobre o analfabeto acima dos 14 anos de idade
3.1 O olhar sobre jovens e adultos analfabetos
3.2 O imaginário
acerca do que é ser uma pessoa analfabeta em uma sociedade que se comunica pela escrita
3.3 Diferenças existentes entre o ensino regular e a educação de jovens e adultos
Considerações Finais
Referências
Capítulo 4: As Tecnologias Educacionais – Uma Experiência na Cidade de Jundiaí – EJA e o Século XXI
Introdução
O Projeto Pensado
Relato do Projeto Executado
Projeto EJA e o século XXI
1. Entendendo o que é Inclusão Digital e conhecendo o computador na utilização da leitura e escrita
2. Pesquisando na internet e utilizando material da mesma para confecção de trabalhos, direcionados a disciplina de História e Geografia da cidade de Jundiaí
3. Utilização da rede internet para comunicação
4. Algumas peculiaridades em EJA
Considerações Finais
Referências
Capítulo 5: O Surdo na EJA: Inclusão Frente ao Jogo do Pertencimento
Introdução
O perfil dos alunos da EJA e possíveis interpretações de sua função politica
2. Algumas considerações sobre alguns surdos e seu pertencimento à categoria de analfabeto
3. O surdo na EJA: o aluno que impõe um pensar a prática multicultural
em sala de aula
Considerações finais
Saiba mais
Referências
Capítulo 6: Professores em Formação: Possibilidades para o Ensino de Matemática na Educação de Jovens e Adultos – EJA
Introdução
1. O Ensino Fundamental I ou Séries Iniciais
2. A Formação de Professores
3. Os Jogos No Ensino de Matemática No Ensino Fundamental I
Considerações Finais
Referências Bibliográficas
Capítulo 7: A Inclusão de Alunos Com Deficiência Visual nas Classes de EJA – Educação de Jovens e Adultos
Introdução
A Aprendizagem dos Jovens, Adultos e Idosos
1. Escolarização de alunos com Deficiência na Educação de Jovens e Adultos
2. O aluno com deficiência visual na EJA
Conclusão
Referências
Capítulo 8: Adolescentes em Situação de Risco em Conflito com a Lei
Introdução
1. Medidas Socioeducativas que zvigoram atualmente
1.1 Medidas socioeducativas do estado de São Paulo
1.1.1 Semiliberdade
1.2 As famílias dos adolescentes em conflito com a lei
1.3 O poder público
1.4 A sociedade
1.5 Escola formal
1.6 Em prol aos educadores e professores
Considerações finais
Referências
Capítulo 9: EJA: A Sala de Aula de Como Espaço de Culturas
Introdução
1. Cultura, Diversidade e Multiculturalismo: primeiras reflexões
2. A sala de aula de EJA: espaço multicultural
Considerações finais
Referências
Autores do Volume 12
Coleção Pedagogia de A a Z
Paco Editorial
Apresentação
O volume EJA – Educação de Jovens e Adultos e seus Diferentes Contextos buscou reunir autores que pudessem contribuir com diferentes olhares a respeito desse segmento.
Nossa preocupação, em um primeiro momento, foi a de oferecer ao leitor a oportunidade de conhecer a diversidade de uma sala de aula de EJA que transcendesse a ideia reduzida de que a diversidade desta modalidade dá-se apenas pelas diferentes faixas etárias.
Sentimo-nos compromissados, principalmente, com o aluno em formação e em poder ofertar-lhe um material que o ajudasse a compreender a completude, a abrangência dos sujeitos que compõem as salas de aulas formais na Educação de Jovens e Adultos.
Esperamos que o leitor, ao caminhar pelos capítulos, possa refletir que, por trás dessas diferentes faixas etárias, os alunos da EJA levam consigo, em suas mochilas
, uma bagagem bem mais significativa que um caderno com linhas a serem preenchidas.
Nestas mochilas
, os alunos da EJA levam para a sala de aula seus medos, angústias, traumas, histórias de vida, por vezes tristes, por vezes alegres, suas conquistas, lutas, culturas, limitações, potencialidades e, de maneira enfática, suas singularidades. Mas, ao se defrontarem com um professor que por acaso não tenha refletido sobre essas questões, este poderá, com muita probabilidade, reforçar mais uma vez a exclusão, o preconceito e a intolerância.
A falta de conhecimento nos encaminha à cegueira e esta, por sua vez, deseduca.
Respaldamo-nos em José Eustáquio Romão (2007), que afirma que: O professor é um educador... e, não querendo sê-lo, torna-se um deseducador
.
Silvana de Oliveira Cortada (Organizadora) - 2013
Capítulo 1 : A EJA, um Território de Compassos e Descompassos
Silvana Cortada
Sem a curiosidade que me move, que me inquieta, que me insere na busca, não aprendo nem ensino.
(Paulo Freire)
Introdução: O que é EJA?
Definida como Educação de Jovens e Adultos, EJA é uma modalidade de Educação Básica cujo objetivo é o de favorecer oportunidades de estudo a essa parcela da sociedade que não teve acesso aos estudos na idade própria.
Compreender o que é a EJA se faz necessário, devido à sua importância no cenário educacional como instrumento de inclusão da fração da sociedade cujas oportunidades foram subtraídas por efeito da situação política, econômica, social ou cultural do país.
O conceito de EJA é sistematicamente associado ao Ensino Noturno. Um equívoco a ser esclarecido, uma vez que o segmento não é definido pelo turno, mas pelas especificidades dos sujeitos a que é destinado.
Numa visão abrangente, a função da Educação de Jovens e Adultos, muito mais do que a recuperação de um tempo de escolaridade perdido, é o de cumprir um papel emancipador e libertar o indivíduo-sujeito das limitações impostas pelo analfabetismo ou pela semialfabetização, facilitando-lhe o processo de escolhas e possibilitando a compreensão e a transformação da realidade. Respaldamo-nos em Romão (2007, p. 55) ao afirmar:
Queremos destacar, primeiramente, que não se pode perder a oportunidade de se definir, de uma vez por todas, a educação de jovens e adultos como parte constitutiva do sistema regular de ensino que propicia a educação básica, no sentido da prioridade de que ele deve ser alvo, com todos seus componentes estruturais, por parte das autoridades e da população. Por outro lado, há que se destacar a qualidade de que deve se revestir a educação de jovens e adultos. Ela não pode ser colocada paralelamente ao sistema, nem como forma compensatória, nem como forma complementar, mas como modalidade de ensino voltado para uma clientela específica.
Cury (2004, p. 2) enfatiza que a Educação de Jovens e Adultos não deve ser encarada como um favor, como a própria legislação ou a prática das políticas educacionais a viam. Nas palavras do autor, é
[…] certo que há um espírito do tempo
que implica a consciência do acesso aos conhecimentos da escola como uma chave importante para se ler o mundo e a sociedade em que vivemos e neles atuar crítica e dignamente.
Por isso, a educação de jovens e adultos é um direito tão importante. Ela é tão valiosa que é uma condição prévia a muitas outras coisas de nossa sociedade: ler livros, entender cartazes, escrever cartas, sentar-se ao computador, navegar na rede mundial de computadores, votar com consciência, assinar o nome em registros, ler um manual de instruções, participar mais conscientemente de associações, partidos e desenvolver o poeta, ou o músico, ou o artista que reside em cada pessoa. Estes últimos aspectos, uma vez reparada a falta social de que tantos foram vítimas, devem ser encarados como o caminho mais qualificado para se falar em educação de jovens e de adultos. Trata-se do desenvolvimento das capacidades de cada um e o usufruto prazeroso delas.
Os aspectos históricos, sociais e legais da EJA
A história da Educação no Brasil começa a se delinear no período colonial com a chegada dos primeiros padres jesuítas, no ano de 1549. Comandados pelo Padre Manoel da Nóbrega, marcam o início da História da Educação do Brasil quinze dias após a chegada em território brasileiro, fundando a primeira escola elementar em Salvador. Nesse período, a economia, baseada na exportação de matéria-prima, necessitava muito do domínio de técnicas agrícolas e trabalhos manuais, sendo a escrita e a leitura atividades voltadas à elite da população da metrópole.
De acordo com Lopes e Sousa (2005), inicialmente a alfabetização de adultos tinha como propósito, para os colonizadores, a instrumentalização da população, ensinando-a a ler e escrever. Essa determinação foi adotada para que os colonos pudessem ler o catecismo, as ordens e instruções da corte, e os índios pudessem ser catequizados e, mais tarde, para que os trabalhadores conseguissem cumprir as tarefas exigidas pelo Estado.
O contorno educacional, com o desembarque da família real no Brasil, em 1808, começou a se expandir, segundo Manfredi (1978). A chegada da primeira prensa trazida por D. João VI, a abertura dos portos, o acervo de livros oferecidos (que mais tarde deram origem à Biblioteca Nacional), a criação do Banco do Brasil e a inauguração da primeira faculdade¹ foram fatos que fizeram com que surgissem novas necessidades técnico-burocráticas. Para atender a essa nova realidade, o sistema de ensino precisava se reorganizar e se adequar, de maneira que fosse capaz de preparar as novas gerações para os novos cargos, porém esse sistema continuava privilegiando a aristocracia. A partir do decreto nº. 7.031 de 6 de setembro de 1878, assinado pelo imperador D. Pedro II, foram criados os primeiros cursos noturnos para analfabetos nas escolas públicas de ensino elementar, para iletrados do sexo masculino.
A educação de adultos no Brasil ganha maior importância em 1932, quando acontece a Cruzada Nacional de Educação com a finalidade de combater o analfabetismo do país.
Em março de 1933, Chiquinha Rodrigues funda a Bandeira Paulista de Alfabetização, que teve significativo impacto no sistema de ensino do estado de São Paulo. Como presidente dessa entidade, fundou 3.859 escolas primárias, 15 escolas profissionais, 39 clubes agrícolas e 185 hortas escolares. Além disso, distribuiu 25.895 livros didáticos, 1.649 folhetos educativos sobre agricultura e higiene e 389 objetos de utilidade escolar. Em 1937, ainda como presidente da entidade, entregou para escolas rurais e grupos escolares livros para leitura complementar, sementes de hortaliças e um decálogo sobre alimentação e higiene. Criou, também, a Sociedade Luís Pereira Barreto com o objetivo de difundir atividades educacionais.
A Educação de Adultos (EDA) se constituiu como política educacional em meados de 1949, com um discurso pedagógico voltado para a modernização da sociedade. Marcada por uma ideologia política, em 1942, ocorre a reforma do sistema educacional brasileiro, proposta pelo ministro da Educação e Saúde, Gustavo Capanema.
Segundo Menezes e Santos (2002), o sistema educacional na época proposto por Capanema correspondia à divisão econômico-social do trabalho. Assim, a educação deveria servir ao desenvolvimento de habilidades e mentalidades, de acordo com os diversos papéis atribuídos às diversas classes ou categorias sociais. Teríamos, então, a educação superior, a educação secundária, a educação primária, a educação profissional e a educação feminina. Uma educação destinada à elite da elite, outra educação para a elite urbana, outra para os jovens que comporiam o grande exército de trabalhadores e outra ainda para as mulheres. A educação deveria estar, antes de tudo, a serviço da nação, da moral, da política e da economia do país. Nesse período, o Ministério da Educação também aprovou a criação de uma série de órgãos, como o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), o Instituto Nacional de Serviços Pedagógicos (Inep) e o Serviço Nacional de Radiodifusão Educativa².
No ano de 1949, a I Confitea (Conferência Internacional de Educação de Adultos), realizada na Dinamarca, passa a conceber a educação de adultos como uma educação moral, com a ideia de contribuir para o respeito aos direitos humanos e para construção de uma paz duradoura; concepção abstraída do efeito pós-guerra, definindo-se como educação continuada para jovens e adultos.
No contexto nacional, em 1950 Paulo Freire lançou seu olhar sobre o analfabetismo, ao escrever Educação e Atualidade Brasileira. Após breve carreira como advogado, o educador começou a lecionar português em escolas secundárias. Trabalhou com educação de adultos e alfabetização de trabalhadores no Serviço Social da Indústria (Sesi), e foi o primeiro diretor do Departamento de Extensão Cultural da Universidade do Recife. Conquistou reconhecimento internacional, particularmente pela experiência em Angicos, no Rio Grande do Norte, com 300 trabalhadores que foram alfabetizados em 45 dias, por meio dos círculos de cultura. Em 1963, o ministro da Educação Paulo de Tarso, do governo João Goulart, expandiu a experiência para vários estados, organizando Centros de Educação Popular, com a adesão de mais de 6 mil educadores voluntários. Com a ditadura militar, em 1964, o Movimento de Educação de Base foi encerrado, sob a alegação de teor subversivo. O exílio de Paulo Freire durou 16 anos. Da mesma forma, muitos outros professores foram perseguidos por suas ideologias, tendo sido demitidos, presos e exilados.
No cenário internacional, realizou-se, em 1963, na cidade de Montreal, a II Confitea, que abordava dois enfoques distintos: de um lado, a educação de adultos concebida como uma continuação da educação formal, definindo-se como educação permanente; e, de outro, a educação de base ou comunitária. Em continuidade, a III Confitea foi realizada em Tóquio, no ano de 1972.
No Brasil, em 1969, o governo militar lançou o Mobral – Movimento Brasileiro de Alfabetização. Não havia, nesse contexto, a intenção de transformação social do indivíduo por meio da reflexão. O objetivo expresso era acabar com o analfabetismo em dez anos. Afirma Soares (2003, p. 2):
O Mobral – Movimento Brasileiro de Alfabetização – reedita uma campanha de âmbito nacional, conclamando a população a fazer a sua parte – Você também é responsável, então me ensine a escrever, eu tenho a minha mão domável, eu sinto a sede do saber.
O Mobral surge com força e muitos recursos. Recruta alfabetizadores sem muita exigência:
