Nossas histórias em cena: Um encontro com o Teatro Playback
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Nossas histórias em cena - Clarice Steil Siewert
Clarice Steil Siewert
Nossas Histórias em Cena
Um Encontro com o Teatro Playback
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Coordenação Editorial: Kátia Ayache
Revisão: Isabella Pacheco
Capa: Márcio Santana
Diagramação: Márcio Santana
Edição em Versão Impressa: 2014
Edição em Versão Digital: 2014
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
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Aos que amam o teatro porque nele acontecem encontros. Aos que gostam de ouvir e contar histórias porque acreditam que nós moramos nelas.
Agradecimentos
À Trupe da Dionisos Teatro: Silvestre, Andréia, Eduardo, Vinícius e Manoella por dividirem há tanto tempo a cena e embarcarem juntos nessa empreitada.
Marcia, por acreditar no meu trabalho e, principalmente, pelo carinho e amizade.
Antônio Vitorino Cardoso, Magda Miranda, Rea Dennis, Paulien Haackma e Jonathan Fox pelo conhecimento compartilhado.
Cristóvão, Hélio, Silvia e Grupo de Teatro Libração pela contribuição carinhosa.
À minha família e amigos por sempre estarem presentes.
Ao público da Dionisos Teatro, por tantas histórias lindas.
Ao meu companheiro Samuel, por querer contar sua história junto comigo.
Sumário
Folha de Rosto
Página de Créditos
Dedicatória
Agradecimentos
Apresentação: Por que Teatro Playback?
Introdução: Eu Gostaria de Contar uma História Antes...
CAPÍTULO 1: TEATRO PLAYBACK: A HISTÓRIA QUE AS HISTÓRIAS CONTAM
1. Vamos Ver?
1.1 Apresentação Inicial
1.2 As Formas curtas
1.3 A Encenação de Histórias
1.4 Encerramento
1.5 Características e Especificidades
2. O Bom
Teatro Playback
CAPÍTULO 2: A ARTE, O CUIDADO, O CONTO E O DIÁLOGO: ASPECTOS HISTÓRICOS E FUNDAMENTOS DO TEATRO PLAYBACK
1. Aspectos Históricos
1.1 A Expansão pelo Mundo
2. As Raízes do Teatro Playback
2.1 O Teatro Experimental
2.1.1 Interação com o Público
2.1.2 Improvisação
2.1.3 Criação Coletiva
2.1.4 Busca por um Teatro não Elitista
2.1.5 Anseios por um Teatro Transformador
2.2 O Psicodrama
2.3 A Tradição Oral
2.4 O Diálogo Freiriano
2.5 Ampliando o Olhar
CAPÍTULO 3: APLICAÇÕES DO TEATRO PLAYBACK
1. Teatro Playback: Construindo Comunidades
2. Os Campos de Atuação
2.1 Na Educação
2.2 No Ambiente Organizacional
2.3 Na Terapia
2.4 Playback Artístico
CAPÍTULO 4: A ARTE E ALGO MAIS: AS HISTÓRIAS DE FORA DA CENA
1. A Preparação e Escuta dos Atores
2. A Prontidão do Músico
3. Os Papéis do Condutor
CONSIDERAÇÕES FINAIS
REFERÊNCIAS
APÊNDICE
APÊNDICE A – Programa de teatro playback da Dionisos Teatro (2008)
APÊNDICE B – Cartaz de divulgação de teatro playback da Dionisos Teatro (2008)
Paco Editorial
Apresentação: Por que Teatro Playback?
No Brasil, o Teatro Playback ainda é pouco conhecido, o que justifica inicialmente este livro. Trata-se de uma prática presente em todos os continentes e exercida em dezenas de países, que consiste basicamente na improvisação, por um grupo de artistas, de histórias pessoais, contadas por membros da plateia. Desta forma, este livro representa uma oportunidade para quem quer saber o que é o Teatro Playback e quais são os seus fundamentos e raízes históricas.
Pude acompanhar a pesquisa de Clarice, enquanto orientadora, durante o mestrado que serviu de base para este livro. O destaque desta pesquisa é, para mim, a articulação ente a investigação teórica e a prática, ambas bebendo nas fontes internacionais.
Como Clarice explicita, existe um vínculo histórico entre o Teatro Playback e o Psicodrama de Jacob Moreno. Apesar de deixar claras as diferenças e especificidades destas duas abordagens, fica claro também que este vínculo tem aproximado o Playback de abordagens mais psicológicas. Neste sentido, o fato de Clarice ser psicóloga de formação, mas atuar como atriz profissionalmente desde 1997, deu a ela a condição de explorar os aspectos estéticos deste teatro improvisacional para além de seu significado psicológico, o que qualifica a abordagem deste livro.
Na sua prática como atriz, Clarice integra o grupo Dionisos Teatro, de Joinville. Todos os seis integrantes conseguem sobreviver do teatro, o que é um grande diferencial especialmente para grupos que estão fora do eixo Rio/São Paulo e denota a seriedade da companhia. Toda a experiência do grupo foi colocada a serviço da investigação prática sobre o Teatro Playback, que complementou a realização do livro, dando exemplos concretos para as situações estudadas.
Todo o grupo investigou o Teatro Playback, buscando dialogar com fóruns internacionais, participando de congressos e financiando sua formação com diversos profissionais. Desta forma, o livro apresenta o Teatro Playback enquanto uma abordagem teatral baseada em histórias.
Aqui vale destacar o significado deste tipo de teatro no contexto da globalização neoliberal, na qual a indústria cultural se apropria das produções culturais, transformando-as em mercadoria massificada. A especificidade do Playback está na sua contraposição a esta tendência, em função da sua valorização das histórias de pessoas comuns. O ato de testemunhar uma história de vida confere uma atualidade para seu conteúdo.
Destaca-se aí, também, a forma como o Playback inova a relação entre teatro e história. Desde o aparecimento do cinema, o teatro tem estado em desvantagem quanto à sua forma de contar as histórias, em relação aos recursos técnicos de outras mídias para representar as situações cotidianas. A quantidade de histórias que as outras mídias despejam diariamente sobre nós, também nos leva a questionar o sentido do teatro para contar histórias. O Teatro Playback traz como diferencial a concretude das histórias da vida compartilhadas. Sabemos que a história contada é baseada na vida daquela pessoa que optou por compartilhá-la com o público.
Complementarmente, se estamos sendo bombardeados por histórias, por outro lado, estamos cada vez mais isolados nas grandes cidades. Na correria do dia a dia, acabamos por não saber mais quem são as pessoas que cruzamos nas ruas, as pessoas com quem trabalhamos. O Teatro Playback contribui para a estruturação de uma comunidade através do conhecimento do outro, são aproximações que podem gerar um sentimento de pertencimento, através do compartilhamento de histórias pessoais.
Outra justificativa para o livro é seu potencial na formação de outros grupos de Teatro Playback. A circulação da informação sobre essa forma teatral pode ser potencializada pela associação do conteúdo do livro à prática de oficinas.
A atitude da Dionisos Teatro tem sido de generosidade na disseminação do Playback em Santa Catarina, que está de acordo com a crescente demanda pelos mais variados grupos.
No início, as propostas de oficinas de Playback, apresentadas pela Clarice no curso de Teatro da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), eram uma absoluta novidade para os alunos. O interesse foi crescendo progressivamente. Anualmente, organizo, em conjunto com o grupo de Formação de Facilitadores (FOFA), uma Oficina Intensiva de Tetro direcionada para integrantes de grupos teatrais comunitários de Florianópolis. Em 2011, convidei a Clarice para oferecer o Playback como uma das oficinas. Nela percebi que foi gerado um interesse muito grande por essa forma teatral, a ponto de um dos grupos manifestar o desejo de se tornar um grupo de Playback, de escolhê-lo como identidade do grupo, na comunidade.
Em 2013 convidei a Clarice para ministrar uma formação mais aprofundada para capacitar multiplicadores em Teatro Playback. Esta formação aconteceu em três módulos, ao longo do ano. Nesta oficina tive a oportunidade de ser aluna da Clarice e dos demais integrantes do Dionisos Teatro, que ministraram a formação. A partir dela pude criar um grupo de Playback, do qual faço parte, e é composto por alunos do curso de Teatro da UDESC e integrantes de grupos teatrais vinculados a comunidades (Fofa Jovem). O grupo já se apresentou com Teatro Playback em várias comunidades de Florianópolis e inclusive no Congresso INDRA: desenvolvimento internacional de reconciliação através da arte, que aconteceu em Derry, na Irlanda do Norte, Reino Unido, em julho de 2013. Neste evento, tivemos um público mais habituado ao formato do Teatro Playback, que identificou nossa abordagem como diferente, em função da proposta estética do nosso grupo, que segue a linha dos nossos professores. Neste sentido, acredito que mesmo comparada com abordagens internacionais, este olhar sobre o Playback é especial e merece ser destacado.
A partir desta experiência, pude entender outras dimensões do Playback, do ponto de vista de uma praticante. Neste momento, ficou mais evidente o significado da opção estética do grupo, e pude entender a dimensão ética do papel do condutor, e a demanda por uma ampliação do entendimento sobre a estrutura e o significado das histórias, que são discutidas no terceiro capítulo do livro.
Tenho também participado de trocas entre grupos de Playback, organizadas ou pelo menos partilhadas pela Dionisos Teatro. São encontros em que um grupo apresenta para o outro. Como o conteúdo da peça vem da plateia, termina que cada grupo atua com as histórias do outro grupo. No Fofa Jovem tivemos duas experiência excepcionais, uma com o Teatro Libração, formado por atores surdos, e outra com o grupo Abismo, composto por jovens do bairro Itinga, de Joinville.
Todas estas experiências comprovam as qualidades do Teatro Playback e a importância de livros como este para deixar acessível aos brasileiros este outro jeito de fazer teatro.
Profa. Dra. Marcia Pompeo Nogueira
Universidade do Estado de Santa Catarina
Introdução: Eu Gostaria de Contar uma História Antes...
A uva e o vinho
Um homem dos vinhedos falou, em agonia, junto ao ouvido de Marcela. Antes de morrer, revelou a ela o segredo:
- A uva – sussurrou – é feita de vinho.
Marcela Pérez-Silva me contou isso, e eu pensei: Se a uva é feita de vinho, talvez a gente seja as palavras que contam o que a gente é.
(Galeano, 2000, p. 16)
Numa apresentação de teatro playback, os atores improvisam histórias reais contadas por pessoas da plateia, tendo a figura do condutor como elo entre os artistas e o público. O nome, playback theatre, deriva da ideia de representar de volta (playing back) as histórias das pessoas da plateia (Fox, 2003, p. 3). É uma prática realizada desde 1975, ano em que foi desenvolvida, com grupos de vários países, inclusive do Brasil.
Meu primeiro contato com o teatro playback foi no curso de Psicologia, em 2001, quando assisti a uma apresentação na faculdade. O grupo que apresentou era formado por terapeutas, professores e outros profissionais; porém ninguém era ator profissional. A apresentação que assisti foi emocionante, as pessoas contaram histórias dramáticas, outras engraçadas. As encenações, apesar da falta de total domínio dos elementos cênicos por parte dos integrantes do grupo, foram muito aplaudidas. Por causa do caráter das histórias contadas e do contexto em que eu estava inserida, entendi a prática como sendo mais do domínio da psicoterapia do que das artes.
Alguns anos mais tarde, retornei meu olhar sobre o teatro playback como objeto de estudo do mestrado em teatro. Como atriz, busquei compreender esta prática e, para tanto, a pesquisa tratou sobre seus objetivos, técnicas e procedimentos. O principal questionamento diz respeito à formação necessária para a atuação em termos artísticos e éticos. Este livro é o resultado desta pesquisa, apresentada em 2009 na Universidade do Estado de Santa Catarina tendo como orientadora a Profa. Dra. Marcia Pompeo Nogueira.
Para maior entendimento do contexto deste livro, apresento minha trajetória com o teatro playback, que inclui o contato com a prática internacional e o trabalho junto à Dionisos Teatro¹, companhia teatral de Joinville/SC, da qual faço parte.
Após entrar no programa de mestrado, em agosto de 2007 fui ao IX Festival Internacional de Teatro Playback, realizado em São Paulo, com a participação de grupos e praticantes de playback do mundo todo, inclusive com a presença de Jonathan Fox, criador da prática. Nesse encontro, fiz workshops, assisti a comunicações e apresentações de teatro playback. Também foi um importante momento para conhecer a comunidade internacional e os praticantes brasileiros.
A minha prática de playback propriamente dita começou em janeiro de 2008, quando a Dionisos Teatro convidou o Prof. Antonio Vitorino Cardoso de Curitiba, para fazer um workshop. Nesse primeiro contato, pudemos conhecer as formas curtas e experimentar a improvisação de histórias. Nosso grupo optou por aprofundar essa investigação e, após alguns ensaios com plateia, começamos a fazer apresentações de teatro playback em diversos lugares.
No meu estágio de docência, em maio de 2008, proferi aulas de teatro playback para alunos da disciplina Metodologia do Ensino do Teatro III, da graduação em Artes Cênicas da Udesc – Universidade do Estado de Santa Catarina. Nessa ocasião, pude sistematizar as experiências práticas que tive até então, ministrando uma oficina para esses alunos.
Em julho de 2008, chamamos Magda Miranda, de São Paulo, e a australiana Rea Dennis, doutora em teatro aplicado, ambas experientes praticantes de playback, para ministrar um workshop para o grupo. Nesse trabalho, aprofundamos nosso conhecimento em condução, formas curtas e improvisação, além de proporcionar um pequeno encontro com os praticantes e pessoas interessadas de Curitiba, Joinville e Florianópolis. A partir desse encontro, a Dionisos Teatro se filiou ao IPTN (International Playback Theatre Network), que é a rede internacional de teatro playback, que congrega grupos de vários países.
Em setembro desse mesmo ano, com a aprovação de projeto no Edital de Apoio às Artes, com o patrocínio da Prefeitura de Joinville e da Fundação Cultural, a Dionisos Teatro circulou com teatro playback em sete comunidades de Joinville. Este foi um período de intenso crescimento do trabalho, quando realizamos apresentações de teatro playback em diversos lugares: galpão de igreja, associação de moradores e escolas.
Em 2010, a Dionisos Teatro ainda promoveu uma oficina ministrada por Paulien Haackma, da Holanda, na qual pudemos trabalhar novas formas, condução e atuação no teatro playback.
Depois de terminado meu mestrado em
