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O Despertar da Baba Yaga
O Despertar da Baba Yaga
O Despertar da Baba Yaga
E-book549 páginas7 horas

O Despertar da Baba Yaga

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Sobre este e-book

Lara, Yuri e Dimitri estão juntos desde crianças, nunca se separando, mesmo nos momentos de maiores dificuldades. Desde que a menina nasceu, ambos os meninos, com quatro anos, à época, caíram e se renderam aos seus encantos, numa ligação de amizade profundamente sincera e bonita. Sofrimentos e alegrias de um são os mesmos para os outros dois, numa ligação espiritual inquebrantável!

Quando Lara, aos quatro anos, começa a ter estranhos "transes", sem qualquer controle de sua parte, nada mais natural que seus amigos tentem auxiliá-la como podem, sempre dispostos a fazerem isso a qualquer custo.

No trilhar desse caminho, por si só já difícil, conforme vão crescendo, Lara vivencia uma situação de conflito entre a lealdade a um deles e a paixão por outro, o que complica ainda mais sua busca por respostas!

Yuri sempre esteve e assim continuará ao lado de Lara. Se tiver que ir ao fundo do poço para ajudá-la a encontrar o que precisa para entender melhor seu dom, com certeza o fará sem hesitação! Até mesmo abrir mão de sua menina fofa, desde que isso a faça feliz.
Dimitri ama profundamente seus dois amigos de infância, pelos quais é capaz de fazer qualquer coisa. O simples pensamento de ferir um deles já lhe causa uma profunda dor no peito, tão forte quanto a que lhe aperta o coração ao ter pensamentos e desejos insidiosos a lhe invadirem a mente, sem que possa evitar.

Uma história que envolve crises existenciais, tradições que passam de mães para filhas, mistério e paixão, no interior do mundo fantástico do circo, em cidades brasileiras encantadoras, como o Pantanal mato-grossense, e na linda e envolvente Moscou. Venham conhecer a história dessas três lindas criaturas, cuja ligação espiritual transcende o mundo material.

Mais uma história de magia, inspirada na centenária arte circense, na admirável e fantástica cultura russa e nos meandros do sobrenatural.

Senhoras e Senhores, o Gran Circo Asjevilétui (Oживлять - Renascer) apresenta-lhes... O Despertar da Baba Yaga.
IdiomaPortuguês
EditoraQualis Editora
Data de lançamento4 de out. de 2021
ISBN9786587383545
O Despertar da Baba Yaga

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    O Despertar da Baba Yaga - Sue Hecker

    tituloFolha de rosto

    Todos os direitos reservados

    Copyright © 2021 by Qualis Editora e Comércio de Livros Ltda

    Texto de acordo com as normas do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa

    (Decreto Legislativo nº 54, de 1995)

    Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

    G428o

    Gia, Cassandra -

    O despertar da Baba Yaga / Cassandra Gia, Sue Hecker. — [1. ed.] — Florianópolis, SC: Qualis Editora e Comércio de Livros Ltda, 2021.

    Recurso digital

    Requisito do sistema: adobe digital editions

    Modo de acesso: word wide web

    ISBN: 978-65-87383-54-5

    1. Literatura Nacional 2. Romance 3. Ficção I. Título

    CDD B869.3

    CDU - 821.134.3(81)

    qualis

    Qualis Editora e Comércio de Livros Ltda

    Caixa Postal 6540

    Florianópolis - Santa Catarina - SC - Cep.88036-972

    www.qualiseditora.com

    www.facebook.com/qualiseditora

    @qualiseditora — @divasdaqualis

    Agradecimentos

    O maior agradecimento sempre será a Deus, que me guia e direciona para a realização dos meus sonhos e desafios.

    O meu amor, carinho e muito OBRIGADA para o maridão Milton e o filho Gabriel, por toda a força e compreensão. Vocês são fundamentais na minha vida!

    Quero fazer uma homenagem especial para a Cassandra Gia e agradecer a editora Qualis pela confiança em publicá-la.

    Às Suezetes, minha eterna gratidão, amo muito. Vocês são ótimas. Obrigada por fazerem parte da minha história.

    Sue Hecker

    Além do querido Criador, agradeço à minha florzinha Yasmin e à minha mãe Mércia. Sem o respaldo delas, dificilmente eu poderia escrever qualquer coisa. Amo vocês sempre e mais...

    Há, ainda, tanta gente querida a quem sou grata! Entretanto, na impossibilidade de nomear cada uma, destacarei minha talentosa parceira de escrita, Sue Hecker, e ao trio incansável no entusiasmo, Maria Danielle, Beatriz e Taiana.

    Gratidão, também, às administradoras e aos membros do grupo do Facebook (Cassandra Gia Katyusha) pelo apoio logístico, incentivo e carinho e aos meus companheiros leitores, fundamentais a cada passo de minha caminhada literária.

    Enfim, desejo que meu melhor agradecimento seja perceptível no cuidado e preocupação que eu e Sue tivemos na construção desta obra de amor, amizade e magia.

    Cassandra Gia

    Em conjunto, nossos agradecimentos vão para nossas queridas betas, Suzete Frediani Ribeiro, Maria Augusta Farias, Geisla Medeiros e Elaine Mendes, bem como à escritora Mari Sales, grande apoiadora à época do lançamento do e-book. Obrigada pelo respaldo e empenho incondicionais, meninas!

    Não poderíamos deixar de dizer obrigada a todos os Blogs; IGs Literários; Grupos de Facebook, WhatsApp, Twitter, Telegram; parceiros e divulgadores, entre outros, que ajudaram esta história a se tornar conhecida. E, claro, à Qualis por apostar na versão impressa, confiando em nosso trabalho.

    Sue e Cassandra

    Apresentação

    O que é o SOBRENATURAL?

    A palavra deriva do vocábulo latino supernaturālis, usado como um adjetivo que qualifica aquilo cujas características ou propriedades transcendem os limites da natureza. Então, grosso modo, sobrenatural é tudo aquilo que não pode ser explicado pelas leis naturais, certo? Ou, para entender melhor ainda, podemos considerar atos do ser humano como caminhar, correr ou saltar como coisas naturais, mas o ato de voar, não! Hum! Então, um homem voador seria, definitivamente, algo sobrenatural, porque esta é uma característica que está além da capacidade natural da espécie.

    Sendo assim, no cinema, na literatura ou em outras artes, qualquer coisa abordada que não pertença ao dito mundo natural – como, por exemplo, mortos-vivos, animais que falam ou viagens no tempo, entre outros –, torna a obra uma ficção, justamente por ter esses ditos componentes sobrenaturais. Livros e romances que explorem o poder divinatório, a magia, as conversas com mortos e as maldições, então, nem se fale! Ora, se não existe nenhuma demonstração científica que comprove a veracidade de algo, esse algo é sobrenatural, certo? Sim, para alguns... não, para outros...

    Esses outros, que pensam que nem tudo o que não é comprovado cientificamente é algo sobrenatural, são aqueles que acreditam que eventos paranormais não são a mesma coisa que eventos sobrenaturais, porque paranormal seria o que é inexplicável dentro dos conhecimentos científicos que existem em determinado momento, mas que, nem por isso, deixam de pertencer à natureza. Para defender essa posição, citam coisas como, por exemplo: o submarino que, quando foi citado pela primeira vez por Júlio Verne, era algo que não existia, mas que poderia algum dia vir a existir; o trovão que, para os indígenas, num determinado momento, por não conhecerem a explicação natural, o consideravam um deus; o fogo, na época em que havia aqueles que ainda não o conheciam nem dominavam a técnica para o criar.

    Sem falar na questão da religião, em que fiéis creem em ações sobrenaturais, chamadas de milagres. Para essas pessoas, as divindades não só podem como atuam no mundo natural (físico), produzindo o sobrenatural. Um grande exemplo disso seria Jesus ao multiplicar peixes e pães para alimentar milhares de homens, o que, apesar de, para a ciência não ser fisicamente possível, o é para muitos que, tendo como base a fé, acreditam que ele o fez.

    E o que isso tudo tem a ver com esta história que agora lhes apresentamos?

    Em primeiro lugar, o que é claramente óbvio é o fato de, embora ser esta uma obra de ficção, não é por isso que, necessariamente, será desprovida de valores, respeito e princípios, haja vista ser criada por pessoas que têm opiniões e um conjunto de regras morais e filosóficas que norteiam seu comportamento, isto é, nós duas, Cassandra e Sue. Este é o motivo pelo qual queremos deixar claro que respeitamos TODAS as correntes, opiniões, crenças religiosas, pesquisas científicas e outros pensamentos relacionados à questão do natural e do sobrenatural e não estamos aqui para criticar ou defender nenhuma delas.

    A despeito disso e do nosso objetivo principal ser, como os leitores de A Fênix de Fabergé¹ já sabem, o de apresentar um romance bonito, cativante e profundamente envolvente, que traga ingredientes que permeiam nossa realidade e nosso dia-a-dia e, dentre eles, sim, estão incluídas questões chamadas sobrenaturais. Repetimos que, uma vez mais, mesmo assim a prioridade em nossa história é sempre o romance, o qual aborda, com a máxima seriedade possível, assuntos como clarividência, premonição, mediunidade, entre outros.

    Nossa personagem central, a doce e espevitada Lara, tem visões que, infelizmente, ainda não consegue entender e dominar. Sendo assim, junto com ela, vamos tentar aprender minimamente o que significa esse dom (ou será maldição?!), de maneira que ela possa entender o que lhe acontece e como deve administrar essa sua habilidade inata, manifestada em algumas gerações de sua família. Nessa jornada, ela trilhará uma estrada palmilhada de acontecimentos felizes e revezes, tendo ao seu lado pessoas que a apoiam e entendem, bem como aquelas que não a compreendem e acabam por estigmatizar nossa vulnerável vidente!

    Venham conosco mergulhar nessa história envolvente de magia, mistérios e autoconhecimento, sem preconceitos ou ideias equivocadas, porque estará sobretudo recheada de momentos de paixões intensas, encontros e desencontros, bem como de cenas sensuais.

    E garantimos que não será tão complicada quanto esta apresentação... rsrsrs...

    Cassandra Gia e Sue Hecker


    1 Livro publicado pela Editora Harlequin do Brasil.

    SUMÁRIO

    CAPA

    FOLHA DE ROSTO

    CRÉDITOS

    AGRADECIMENTOS

    APRESENTAÇÃO

    PRÓLOGO

    CAPÍTULO 1

    CAPÍTULO 2

    CAPÍTULO 3

    CAPÍTULO 4

    CAPÍTULO 5

    CAPÍTULO 6

    CAPÍTULO 7

    CAPÍTULO 8

    CAPÍTULO 9

    CAPÍTULO 10

    CAPÍTULO 11

    CAPÍTULO 12

    CAPÍTULO 13

    CAPÍTULO 14

    CAPÍTULO 15

    CAPÍTULO 16

    CAPÍTULO 17

    CAPÍTULO 18

    CAPÍTULO 19

    CAPÍTULO 20

    CAPÍTULO 21

    CAPÍTULO 22

    CAPÍTULO 23

    CAPÍTULO 24

    CAPÍTULO 25

    CAPÍTULO 26

    CAPÍTULO 27

    CAPÍTULO 28

    CAPÍTULO 29

    CAPÍTULO 30

    CAPÍTULO 31

    EPÍLOGO

    prologo

    "Em cada coração há uma janela para outros corações.

    Eles não estão separados, como dois corpos;

    Mas assim como duas lâmpadas que não estão juntas,

    Sua luz se une num só feixe." 

    Jalaluddin Rumi²

    — Respeitável público!! Hoje teremos um final de sessão diferente! Nossa linda trapezista e nosso destemido globista vão trocar anéis e morar num mesmo trailer! Não percam!

    — Ah, Dimi... nós vamos nos casar, seu bobo! Vem logo! Você tem que ficar perto da gente por causa dos anéis!

    — Calma, Lara! Eu mal acabei de fazer o anúncio! Você é muito apressada, menininha!

    — Eu não sou menininha! Já tenho quatro anos! Ah, Dimi, nós temos que ser rápidos porque daqui a pouco começa o ensaio do povo grande!

    — Sua maluquinha... Você é muito ansiosa, sabia?

    Lembro-me daquele dia como se fosse hoje! Como poderia esquecer? Além de ter sido uma data declarada muito importante por Lara, foi o dia em que a bruxinha entrou em transe na minha frente pela primeira vez, embora fôssemos muito novos para compreender as coisas direito naquela época. Sorrio só de lembrar de Lara, com os olhinhos deslumbrados, coberta por uma malha em que caberiam duas dela. A menina tentava adotar a postura de uma adulta e era a coisa mais linda de se ver! Segurava, nas mãos, uma jaqueta de couro preta e um capacete, gritando para que eu os vestisse rapidamente, senão não poderíamos ficar juntos para sempre...

    Claro que atendi ao desejo dela rapidamente, porque jamais decepcionaria minha bruxinha linda ou me arriscaria a perder a eternidade com ela...

    Foi um momento emocionante, lindo e enternecedor, que amarrou definitivamente meu coração àquela criatura tão doce. Ao estender sua mãozinha para colocar o anel feito de capim em meu dedo, senti meu coração bater tão forte que parecia que ia saltar do meu peito.

    Dimi, como ela pronunciava o nome do nosso amigo Dimitri, o padrinho na brincadeira, pulava impaciente, de um pé para outro, após entregar nossos anéis, como se não visse a hora de sair dali. Mas, para mim, tudo em volta desapareceu quando, ao pôr o frágil anelzinho em meu dedo, ela ficou de olhos arregalados e disse:

    — Uli, eu e você teremos algumas brumas entre nós, por um longo tempo, mas nada vai ser capaz de quebrar a aliança que estamos fazendo neste momento. Esta nunca poderá ser rompida, apenas estremecida. Muitas águas passarão, muitas estrelas se apagarão e muitas nuvens chorarão, mas as brumas, no momento certo, serão dissipadas e o sol reinará, forte, intenso e muito quente... porque, então, todos os frutos estarão devidamente amadurecidos. Do alto, a luz que vai trazer-lhe ainda mais brilho do que você já tem quedará em seus braços e, num cavalo prateado, você, seu cavaleiro brilhante, a levará ao infinito.

    Nossa! Naquela hora, confesso que fiquei assustadíssimo. Ela não conseguia pronunciar o meu nome nem o de Dimitri direito, mas falou todas essas palavras, algumas, inclusive, que eu nem sabia o que significavam, sem errar nenhuma delas.

    Ficamos nos encarando por alguns instantes, só que foi tudo tão rápido que, quando ela se levantou em seus pezinhos, dando um beijo estalado na minha bochecha, já nem me importava mais com isso, apenas com a emoção estranha que me dominava.

    Não me canso nunca de recordar esse momento, porque é a única forma de suportar o fato de ela estar namorando o falastrão do Dimitri, que não sabe fazê-la feliz nem lhe dar o devido valor. Obviamente não os deixo perceber que sei que não estão contentes juntos. Como não posso dizer nada, tento minimizar minha frustração com as lembranças dos nossos bons momentos: de nós três sempre companheiros e do carinho que tenho principalmente por ela. Porra! Nós passamos por tantas coisas boas juntos!

    Quando tínhamos quatro anos, os pais de Lara, que trabalhavam há muito tempo com os meus e os de Dimitri, mesmo depois do incêndio do circo onde se conheceram, colocaram aquela bebezinha maravilhosa e encantadora num cesto aos nossos pés.

    — Ela é tão bonitinha ­— disse Dimi.

    ­— Parece uma boneca se mexendo ­— respondi, encantado diante do cesto. Como se estivesse hipnotizado, um bem-estar pareceu me tomar só por estar perto dela.

    Nesse dia, a ligação entre nós três foi definitivamente estabelecida, porque, a partir de então, até que ela pudesse andar, eu e Dimitri estávamos com a pequena sempre que podíamos. Depois disso, ela nunca mais deixou de nos seguir em todas as oportunidades que surgiam.

    Crescemos ouvindo os adultos contarem histórias da mitologia russa. Apesar de todas as outras que envolviam o sobrenatural encantarem-me, uma delas sempre chamou a minha atenção – a da Baba Yaga, que diziam ser uma bruxa velha e feia... Porque acabei inventando a minha própria Baba Yaga, que, na verdade, era bem diferente daquela das histórias que ouvíamos. A minha era a bruxinha mais linda e vivaz que já conheci. Mas havia um ponto em comum entre elas: o apetite extremo! De acordo com a mitologia, a bruxa teria uma fome considerável por carne humana, o que é descrito também em diversos livros. E, embora não fosse pelo mesmo tipo de alimento, minha Baba Yaga com certeza também sempre teve e ainda tem disposição de peões de obras para comer, a ponto de tirar o fôlego de pobres mortais como eu! 

    Dei-lhe esse apelido na primeira vez em que meus olhos encontraram os seus, e eu já estava crescido e maduro o suficiente para ser por eles enfeitiçado. Conhecendo a história da verdadeira Baba Yaga, sempre me perguntei se a minha bruxinha não fazia uso de sua magia comigo e, por isso, com medo de estar enganado e me desiludir, tentei fugir desse feitiço... contudo, quando química e magia são reunidas no relacionamento entre duas pessoas que estão sempre próximas, é impossível sair ileso da situação.

    Para a minha sorte... ou será infortúnio?... Lara não tem consciência de seu poder e parece não perceber o feitiço que lançou sobre mim há tanto tempo, desde o dia em que pôs aquele anel em meu dedo!

    E é bom que não saiba, já que preferiu estar com a pessoa errada... Dimitri é uma boa pessoa, e eu amo o cara como a um irmão, mas ele não tem vigor e determinação suficientes para namorar alguém especial como ela, mesmo que viva a me dizer que estou enganado e que Lara é também sua alma gêmea...

    Aff... alma gêmea dele o cacete!

    Não dá para entender o que o amor significa para ele, porque se torna enigmático quando conversarmos a esse respeito. Então, fico muito bravo nessas ocasiões, porque não quero que ele a faça sofrer.

    E como evitará isso se nem entende as previsões de nossa menina, feitas em estados inconscientes de sua mente? Estas já a apavoram, na maior parte das vezes, imagina quem as ouve!

    Ah, mas o mesmo não acontecerá com a séria previsão que farei agora: Lara tirará a venda que lhe recobre o coração e perceberá qual é o homem certo para acompanhá-la em sua jornada de descobrimento... Eu... seu grande e leal amigo, seu eterno companheiro, seu noivo desde que ela tinha quatro anos: Yuri Ivanovich Bezboródov!


    2 Poeta, jurista e teólogo sufi persa do séculoXIII.(https://pt.wikipedia.org/wiki/Jalal_ad-Din_Muhammad_Rumi).

    capitulo

    "Aprendi que vai demorar muito para me transformar

    na pessoa que quero ser

    e devo ter paciência.

    Mas, aprendi, também, que posso ir além dos limites

    que eu próprio coloquei". 

    Charles Chaplin³

    Desde criança sentia que acontecia algo estranho comigo. De repente, a visão embaçava, a audição desaparecia e eu entrava numa sonolência fora do normal. Nenhuma outra menina que eu conhecia era olhada daquele jeito, como se as pessoas ao redor sentissem pena, horror e, o pior, raiva.

    Lembro-me da primeira vez em que isso aconteceu; quando me casei de brincadeirinha com meu eterno companheiro, Uli. Do nada, algo estranho ocorreu, porque ele e Dimi olhavam-me com expressões confusas, como se algo tivesse acontecido e só eu não houvesse percebido. Na época, mal demos importância ao fato, continuando a brincadeira.

    Mas, com o tempo, não só passamos a notar esses incidentes, como estes se tornaram a ser mais frequentes. Numa hora conversava com alguém, na outra, encontrava-me paralisada, olhando a pessoa como se eu estivesse dentro de uma bolha d’água, sem poder fazer nada! Na maior parte das vezes, Uli ou Dimi me salvavam de constrangimentos. Minha sorte é que todos sempre moramos em circos, onde coisas inusitadas e não convencionais são mais facilmente toleradas.

    Há uns dias, quando fui acompanhar Mama a uma consulta, havia uma revista contendo uma reportagem que falava de estados diferenciados da percepção. Confesso que não entendi a maior parte do que li, porque encontrei um monte de palavras que ainda não aprendi. Como tinha certeza de que Uli, que é muito inteligente, entenderia, perguntei para a recepcionista se poderia ficar com a revista para mim. Poxa, tinha um monte delas lá! Uma não iria fazer falta, né? Ela não gostou muito do pedido, não... mas, ainda bem, acabou concordando diante do meu olhar pidonho... ele é infalível! Meus pais que o digam...

    Agora estou aqui, esperando Uli e Dimi terminarem de ajudar a carregar o caminhão, para seguirmos para a próxima cidade onde o circo se apresentará. Desde que me lembro, sempre foi assim, nós três passando todo o tempo que podemos juntos, mesmo que seja só observando, como é o meu caso hoje. Para se ter uma ideia, quando Dimi começou a tocar um violão, lá estávamos eu e Uli aprendendo também, até se tornar nosso passatempo preferido: tocar e cantar, imitando um monte de artistas.

    Não vejo a hora de mostrar a reportagem para os meninos, para ver se tem relação com o que acontece comigo e se eles podem me ajudar. Já pedi para Papa e Mama para os dois viajarem no nosso trailer para estudarmos... só não lhes disse que tipo de estudo será esse. Embora Dimi não seja tão interessado nessas coisas quanto Uli, ele me apoia em tudo, sempre disposto a ajudar no que é preciso.

    Estou tão envolvida em meus pensamentos que nem percebo quando terminam e se aproximam de mim, até que ouço Dimi.

    — Ei, menina fofa!

    — Para de me chamar assim, Dimi! Não tenho mais quatro anos!

    — Isso mesmo, Dimi, ela já é uma adulta agora. Já tem dez!

    Esse é Uli, sempre debochado, nunca perde uma piadinha. De acordo com ele, perde-se um amigo, mas não se perde a oportunidade de sacaneá-lo com gracinhas...

    — Parem com isso, vocês dois, agora! Eu posso até gostar de ser a menina fofa de vocês, mas nunca achem que sou fraquinha e desprotegida por causa disso! Vocês sabem muito bem o que fiz com o Manezinho na escola de Monte Alegre, quando tentou passar a mão no meu traseiro, né? Além disso, já estou dando saltos mais ousados no trapézio, o que só as meninas de catorze anos fazem!

    Faço questão de frisar minha independência. Amo esses dois, mas não sou bobinha e sei me virar muito bem sem precisar de pessoas me protegendo, principalmente porque acham que podem fazer isso só por serem homens. Uma mulher é tão capaz quanto um homem em tudo o que se propuser a fazer, aliás, na verdade, até melhor!

    — Olha só, Dimi, nossa Lara cresceu e a gente nem viu! Será que já está na hora de interná-la num asilo de idosos?

    — Ah, vá tomar banho, Uli!!! Que droga! Para de ser tonto!

    No fim, caímos os três na gargalhada, sempre felizes por estarmos juntos.

    — Uli e Dimi, pedi para Mama e Papa deixarem vocês dois irem no nosso trailer porque preciso de ajuda. Podem vir?

    — O que foi, Larinha? — Dimi pergunta.

    Uli só me encara com aquele olhar sério e indagador, demonstrando preocupação. Que droga! Quando é que vão entender que nem tudo tem que ser algo ruim? E que eu não sou fraca a ponto de não poder suportar qualquer carga? Ah, deixa para lá, porque, para falar a verdade, apesar de ser tão nova, há horas em que sinto que já nasci com a alma amadurecida.

    — Não é nada de mais, Dimi! É que eu encontrei uma revista que tem um artigo que fala algumas coisas que talvez possam ajudar a gente a entender o que acontece comigo quando entro em transe. Só que tem um montão de palavras difíceis que ainda não aprendi. Não sei se olhar o dicionário vai ser suficiente. Queria que vocês me ajudassem a compreender bem o que está escrito...

    — Claro que podemos ir, Lara!

    Uli decide pelos dois, abraçando-me e puxando Dimi com o outro braço em direção ao trailer. Ele grita para seus pais e os de Dimi, avisando-os que não viajará com eles e abre a porta para todos entrarmos, já cumprimentando os meus, que ainda não foram para a cabine do caminhão.

    Mal entram e os esfomeados atacam a geladeira em busca de algo para beberem e comerem. Nossa, não precisamos mesmo ter animais no circo, porque as duas feras insaciáveis já estão aqui! Nunca vi comerem tanto! Bem... verdade seja dita, apesar de ser menor do que eles, acho que sou o leão mais faminto de todos... Tenho sorte de a genética ser generosa comigo, pois, por mais que coma, não engordo!

    — Ei! Tem mais gente para comer, sabiam? ­— repreendo-os.

    ­— Olha só quem fala em deixar comida para os outros ­— brinca Uli.

    Meus pais riem ao verem os glutões.

    Quando eles saem para a cabine, a fim de começar a viagem, e os dois acabam de comer, Dimi vai direto ao ponto.

    — Vamos ver a revista, Lara!

    Levanto-me do pequeno sofá, pegando-a da minha mochila e sento-me com eles na minúscula mesa. Lado a lado, começam a olhar a matéria da página que lhes mostro. Eles leem em silêncio, absorvendo o que está escrito. Enquanto Uli balança a cabeça em gestos de compreensão, Dimi coça a dele, numa clara demonstração de que não está entendendo muito bem. Rio baixinho, porque estamos no mesmo barco.

    — Lara, aqui diz que algumas pessoas conseguem perceber certas coisas à volta, mas não com os sentidos que mais usamos, a visão, audição, olfato, paladar e tato, o que é chamado, pela Parapsicologia, de percepção extra-sensorial.

    — Mas que raio é parapsicologia mesmo, Uli? É algum ramo da psicologia? — Dimi questiona.

    — Bem, pelo que sei, alguns consideram como ciência, outros, não, e que se dedica a estudar manifestações paranormais e psíquicas que, para seus estudiosos, não são milagres, manifestações de espíritos, adivinhação do futuro e coisas assim, mas uma expressão de diferentes faculdades mentais que algumas pessoas apresentam. Ao menos, esta é a explicação que está aqui no artigo — Uli diz, com seu sorriso de lado.

    — Hum, então, quando eu entro em transe e falo coisas para as pessoas, neste caso, eu estaria usando essa faculdade mental diferente? — pergunto, mais interessada.

    — Bem, de acordo com o que está escrito nesta reportagem, as pessoas dotadas destas habilidades têm uma percepção mais apurada dos eventos e dos objetos à sua volta, sem precisar, para isso, recorrer aos órgãos dos sentidos mais usados⁴ — ele lê em voz alta para nós.

    — Nossa, isso parece complicado! — Dimi fala, expressando o que eu mesma sinto.

    — Calma, gente! É apenas um artigo. Para entender, nós teríamos que ler mais e procurar ajuda de pessoas com maior conhecimento, que pudessem nos explicar melhor as coisas! Não é porque nós não entendemos que não pode ser explicado por quem entende, né? — diz a voz da razão do trio.

    — Olha, Lara, pelo que estou vendo aqui, há várias dessas habilidades. Clarividência, que é a capacidade de visualizar acontecimentos e objetos à distância; premonição, que é a previsão do futuro; retrocognição, que é a visão de fatos passados; mediunidade, que seria a interação entre vivos e mortos, e a psicometria, o dom de colher dados sobre alguém ou uma localidade ao entrar em contato com um determinado objeto físico⁵.

    — Eita! Quanta coisa! Pelo jeito, a Lara tem, então, a habilidade da premonição, né? Porque quando ela entra em transe, na maioria das vezes parece que fica falando de coisas que ainda vão acontecer — Dimi conclui, orgulhoso, como se tivesse feito uma grande descoberta. — Já naquela série Medium⁶, a investigadora tem esses três últimos que você falou, que nunca vou guardar os nomes. Caramba! Que legal isso!

    — Diz o Sherlock Homes ­— zomba Uli, retorcendo a boca, conseguindo arrancar risada dos três.

    Sabemos que dificilmente vamos guardar algum desses nomões, a não ser que tenham a ver com o que acontece comigo.

    — Não sei se me sinto mais tranquila ou mais preocupada agora! Tudo é tão esquisito e difícil! — falo, com certa tristeza.

    — Lara, a reportagem termina dizendo que até mesmo crenças em Deus, alma e existência após a morte, são coisas que a Ciência material, que se baseia apenas nos fatos do mundo materialista, não aceita! Então, se podem duvidar até do Ser Supremo, no qual a maior parte da população mundial acredita, não sei se podemos ficar tão preocupados assim ­— diz Uli.

    Como se intuindo meu desânimo, acrescenta:

    — Vamos continuar estudando até descobrir o que te acontece, está bem? Tenho certeza de que encontraremos uma explicação e, também, muito mais gente que passa pela mesma coisa, viu? Confie em mim!

    Dimi me puxa para um abraço carinhoso, enquanto Uli pega a minha mão e dá um beijo terno nela. Enquanto eu tiver esses dois a me apoiarem, sei que não precisarei temer nada.

    Ficamos uns instantes assim, até que Uli se levanta da cadeira, estica todo o corpo, espreguiçando-se, e boceja. Ele é tão bonito! Embora tenha só quatorze anos, já é bem alto e tem alguns músculos, porque todas as crianças no circo já ajudam nas tarefas desde cedo, o que faz com que seus corpos se desenvolvam bem. Enquanto Uli é moreno e mantém seus cabelos sempre aparados e espetados, Dimi é branquinho e tem cabelos longos, lisos e loiros. A visão dos dois juntos é bonita, e acho que todos têm inveja de mim por eles serem meus amigos fiéis.

    — Galera, acordamos cedo demais e a viagem vai ser mais longa. O que acha de deitarmos lá no quarto dos seus pais para dormir, Lara? Está com sono também, Dimi?

    — Depois de tanta coisa complicada, essa foi a mais compreensível que ouvi.

    A sugestão soa tão bem para Dimi que ele quase me derruba no chão ao se levantar rápido, com medo de que alguém possa mudar de ideia. Como bom dorminhoco, não desperdiça uma oportunidade de esticar o esqueleto... Nesse clima de camaradagem e risos, seguimos para o quarto, caímos na cama de meus pais e não demora para eu apagar.

    Acordo assustada, com Dimi ainda dormindo ao meu lado. Uli já não está mais aqui e ouço vozes do lado de fora, percebendo que o trailer está parado. Tento sair dos braços de Dimi evitando acordá-lo, sem sucesso. Despertando, diz:

    — Olá, menina fofa!

    — Oi, anjo iluminado!

    Sim, é o que Dimi é para mim. Com seus olhos violeta, cabelos lindos e aquela pele lisinha, é justamente o que parece, um anjo! Ele é tão perfeito quanto uma pintura. Uma vez, quando brincávamos, obriguei-o a ser a fada encantada e o fiz colocar uma túnica branca brilhante. Nossa! Ele simplesmente personificou a própria criatura. Eu não me importaria de ter a aparência dele como mulher, não. Quando lhe falei isso, ficou tão bravo que arrancou a roupa com raiva, acabando por rasgá-la. Disse que nunca mais seria minha fada novamente... bobo!

    — Parece que já paramos. Já deve ser a hora do almoço — deduzo.

    — Hum, então deve ser a hora do rango. Vamos lá, antes que Uli acabe com tudo!

    Pulo da cama gargalhando, porque, em termos de comida, nós três sabemos o quanto somos insaciáveis. É difícil dizer quem é o mais guloso e comilão...

    Saímos apressados do quarto, e vejo que já há várias embalagens sobre a mesa, mas que ninguém se serviu ainda.

    — Ah, os dois preguiçosos acordaram, finalmente — Uli caçoa como se ele não tivesse dormido também.

    Mama, que não é boba nem nada, dispara.

    — Pois é, o terceiro preguiçoso acordou antes, com a esperança de que poderia comer mais que os outros dois, não é?

    Uli fica vermelho, e todos rimos dele.

    — Venham! Espremam-se aqui e vamos comer juntos hoje. Foi tão difícil fazer isso nessa última cidade que estou com saudades — fala Papa.

    Nós nos sentamos e esperamos os mais velhos se servirem, porque assim nos foi ensinado desde criança. Depois, começa a briga entre nós três para pegar as coisas mais gostosas. Papa e Mama só balançam suas cabeças, já conhecendo nosso velho ritual de disputa por comida.

    Quando todos estamos comendo há algum tempo, trocando ideias a respeito do circo, que parece estar tendo problemas financeiros – o que nos deixa temerosos quanto aos nossos destinos –, mais uma vez a velha sensação me toma e acho que estou entrando em um dos meus transes. Desta vez, diferente das outras, embora ainda me sinta como se estivesse dentro de uma bolha d’água, vendo tudo embaçado e, consigo ouvir a minha própria voz, como quando estou quase caindo no sono e ainda percebo os sons bem ao fundo.

    — Uma leve estiagem chegará, e dificuldades sobrevirão. Fome não haverá, mas mudanças acontecerão, e trabalhos não artísticos serão necessários. Um palhaço ferido e tatuado convidará a todos para seu renascer, e um longo período de trabalho, dedicação, premiado por vitórias e sucessos, virá. Não deve haver preocupação, porque um novo tempo, em poucos anos, se iniciará!

    Sinto como se estivesse caindo num poço sem fundo, até que desperto, como se acordando de um sono pesado, e vejo, como é comum nessas situações, todos olhando boquiabertos para mim. Uli volta a comer naturalmente, sendo o primeiro a lidar com a situação.

    — Bem, se dificuldades virão, vamos aproveitar agora para comer o máximo que pudermos, não é? Porque vai saber até quando a gente terá fartura assim...

    Após um breve silêncio, como se todos os outros também estivessem saindo daquele clima de transe, rimos pelas palavras de Uli, ignorando mais uma de minhas enigmáticas previsões, sem nem mesmo analisar o quanto minhas palavras seriam tão certeiras.

    Quatro anos depois, essa previsão se concretizou. Tivemos, então, plena certeza de que meus pais escolheram adequadamente ao me nomear. Uli pesquisou as origens de nossos nomes e nos explicou, de maneira simples, que o meu significa da acrópole⁷, local mais alto das antigas cidades gregas, onde, geralmente, erguiam-se templos e palácios.

    — E o que tem a ver isso comigo, Uli? — perguntei, sem entender.

    — Nas acrópoles que viviam as sacerdotisas, bruxinha! Elas eram o próprio oráculo⁸...

    — Oro... o quê? — Dimi interrompeu, curioso.

    — Bem, para resumir, eram aquelas que faziam as profecias — concluiu...

    Ah, caramba! Estou ferrada! Lembro-me de que foi o que pensei na ocasião...


    3 Charles Spencer Chaplin KBE (Londres, 16 de abril de 1889 – Corsier-sur-Vevey, 25 de dezembro de 1977), foi um ator, diretor, produtor, humorista, empresário, escritor, comediante, dançarino, roteirista e músico britânico. (https://pt.wikipedia.org/wiki/Charlie_Chaplin)

    4 http://www.infoescola.com/psicologia/percepcao-extra-sensorial/

    5 http://www.infoescola.com/psicologia/percepcao-extra-sensorial/

    6 Medium (no Brasil, A Paranormal) foi uma série de televisão dramática americana que estreou na NBC em 3 de janeiro de 2005 e terminou na CBS em 21 de janeiro de 2011. O programa foi criado, produzido e dirigido pelo vencedor do Emmy, Glenn Gordon Caron, baseado no livro de Allison DuBois, Don’t Kiss Them Good-Bye. https://pt.wikipedia.org/wiki/Medium_(teless%C3%A9rie)

    7 https://pt.wikipedia.org/wiki/Acr%C3%B3pole

    8 Oráculo é o substantivo masculino que significa uma previsão do futuro, ou a pessoa ou entidade que faz essa previsão. Também pode indicar a vontade, palavra de Deus ou de alguma divindade. A atividade de um oráculo está relacionada com a adivinhação do futuro e vaticínio, com a revelação de coisas ocultas ou da vontade dos deuses. https://www.significados.com.br/oraculo/

    capitulo

    "Algo só é impossível até que alguém duvide

    e resolva provar o contrário". 

    Albert Einstein

    — Uliiii!

    O chamado, cheio de agonia, consegue suplantar o alto som da moto que estou experimentando, tirando minha atenção de toda e qualquer coisa que não seja ela. Chego a ouvir o eco de sua dor e sofrimento vibrarem dentro de mim... Como se o que Lara sente encontre ressonância em meu peito. Volto-me para o local de onde vem a voz e a vejo, nervosa e chorando, nos braços de Ivana, nossa fada madrinha e espécie de faz tudo de Aleksei, o dono do circo no qual todos nós trabalhamos há um ano.

    A angústia já conhecida está espelhada em sua face e é como uma navalha flagelando meu coração.

    Não sei como desligo a moto. Tudo o que posso ver à minha frente é somente Lara. Nada, para mim, é mais importante do que correr até ela e tomá-la em um abraço apertado e acolhedor, como se pudesse protegê-la de todo o sofrimento. Corta meu coração vê-la assim e, infelizmente, não temos como evitar que isso aconteça. Ao menos ainda não. Quem sabe um dia consigamos...

    Tenho estudado o máximo que posso a respeito do assunto, mas há horas em que penso que estou andando em círculos, pois é tanta coisa para ler e absorver! É como se a compreensão fosse algo irracional.

    Já com ela em meus braços, tento acalmá-la.

    — Shiiiii... calma, menininha fofa! Já vai passar. Estou aqui, e nada vai te fazer mal. Já se esqueceu de que sou como seu escudo?

    Olho para Ivana por cima da cabeça de Lara, e ela mostra uma expressão de pesar e tristeza, sensibilizada com o que parece ter acontecido.

    — Lara, vou deixar você com o Yuri um pouco para falar com seus pais, está bem? — Ela passa a mão nos cabelos da menina, que continua quietinha como se, em meus braços, encontrasse seu porto seguro. Apenas funga baixinho, ainda fragilizada.

    — Ah, Ivana, não fale nada para eles! Você só vai preocupá-los com algo que não tem como ser mudado.

    — Não, Lara, vou apenas lembrá-los de que tudo tem o seu tempo. O de revelar certas coisas a você chegou, e eles precisam entender isso.

    Ivana sempre foi muito reservada. Não é uma mulher de futrico e fuxicos, sendo assim, estranho suas palavras. Ela nos deixa a sós e segue até o trailer da família da Lara. De longe, vejo que entra decidida, após bater. Volto minha atenção ao bichinho encolhido em meus braços. Minha menina acalma-se um pouco e até sorri quando brinco com ela, afagando-a. Não é o sorriso que gosto de ver estampado em seu rosto, entretanto, não tem mais a expressão sofrida de momentos atrás. Pouco depois, a mãe de Lara abre a porta e nos chama, querendo que entremos. Antes de o fazermos, Ivana sai, dá um beijo em cada um de nós dois e segue seu caminho.

    — Uli, estou com medo! O que Ivana foi fazer lá?

    Olho para ela, dou-lhe um sorriso de encorajamento e um pequeno beijo na testa.

    — Vai dar tudo certo. Confie!

    — Não sei se estou preparada.

    Dando passagem para entrarmos, a mãe da Lara se afasta da porta. Já dentro do trailer, pego seu rostinho entre minhas mãos, fito seus olhos molhados, que me partem o coração, e tento incutir-lhe força e coragem, sussurrando baixinho:

    — Lara, não adianta você continuar adiando isso, porque ignorar o que realmente acontece com você está lhe fazendo mal! O melhor é tentarmos ir o mais fundo que pudermos, a fim de você entender o que se passa contigo e, então, se possível, controlar suas visões.

    — Para você tudo parece muito fácil, Uli, mas não é assim! — O pânico volta a assombrar sua feição. — Você não entende o quanto é

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