Monteiro Lobato E O Racismo Literário
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Monteiro Lobato E O Racismo Literário - Jaqueline Silva Miranda
APRESENTAÇÃO
O presente livro trata sobre A Representação do Negro em Obras Infantis de Monteiro Lobato
, estabelecendo como objeto das narrativas o lugar ocupado pelos personagens negros em alguns paradidáticos de Lobato.
As obras referidas fazem parte da coleção o Sítio do Pica-pau Amarelo, do autor Monteiro Lobato, clássico infantil presente nos ambientes educacionais, com destaque na década de 80, com as figuras negras calcadas em seus estereótipos, a exemplo, O Saci e Tia Nastácia. Assim, apresento uma revisão literária das obras Aritmética da Emília, Histórias de Tia Nastácia e Reforma da Natureza. Para tanto, fez-se uso de outras obras, enquadradas neste contexto, para a fundamentação dos aspectos levantados, como Superando o Racismo na Escola, sob a organização de Munanga (MEC, BRASIL, 2005), PCN (MEC, BRASIL, 1997), Catinari (2006) e Teles (2005).
A leitura critica das obras levou em conta contextualizações históricas dos processos que refletem a representação do negro nas obras supracitadas. Desse modo, é premissa o esclarecimento de algumas questões referentes a esse modelo literário, sobretudo no Brasil, tais quais: Pode-se dizer que a existência de produções literárias em que se evidenciem personagens negros é frequente ou comum dentro da abordagem literária infantil aqui apresentada? E quando presentes, qual o lugar ocupado pelos personagens negros dentro dessa literatura? Quais as possíveis justificativas para a criação de personagens literários estereotipados, com base na análise aqui apresentada?
O livro está disposto em 3 capítulos, através dos quais pode-se entender um pouco sobre a criação da Literatura Infantil, a vida e arte de Monteiro Lobato e a figuração negra dentro de sua obra. É pretensão maior dos textos apresentado, contribuir para a formação de cidadãos críticos, reflexivos e conhecedores profundos da realidade em que vivemos decididos, sobretudo, a mudar.
INTRODUÇÃO
No âmbito literário, não é possível pensar seus componentes se não de forma contextualizada com o público ao qual estão destinadas as obras. Portanto, penso, a carência do protagonismo de personagens negros na literatura e as visões estereotipadas a que são submetidos em grande parte, podem revelar características de uma sociedade que, culturalmente, ainda não reconhece, respeita ou percebe a necessidade das discussões sobre o racismo no Brasil.
O pensamento ocidental que tem como imagem de identificação o homem branco europeu construiu uma representação ideal de nação e cultura, e juntamente, construiu uma noção de outras culturas com ideias que se traduzem na falta e no exotismo. As consequências desse pensamento hegemônico provocam a marginalização e inferiorização das culturas e costumes de outros grupos sociais. Em crítica a esse fenômeno, surge o conceito de democracia cultural: o direito à diferença. Nesse sentido, o direito à diferença, exige a valorização e reconhecimento desta como condição básica para uma prática educativa efetiva. (JULIÃO, 2003, p. 2)
É pensando como profissional incumbido de importantes funções, tais quais a formação cidadã, que percebo a necessidade de se repensar as questões referentes aos personagens negros, sobretudo, à sua presença, que se observa insuficiente e estereotipada em se tratando da literatura infantil. Ao tratar tais aspectos, penso abranger o debate sobre as questões raciais, tendo em mente a relevância desse conteúdo para a vida social. Promover um espaço de reflexões é, neste momento, minha maior proposta.
Pensando sobre essa perspectiva, chamo atenção para um equívoco constante nos discursos de muitos sobre o universo sociocultural: o de que inexistem livros cuja temática negra esteja no centro do enredo. Em verdade, embora ainda de maneira discreta, estes existem. O entrave insiste em como a temática é abordada. Não raramente tais obras mencionem os personagens negros, mas estes são poucos, se comparados aos demais personagens, e, dentre eles, boa parcela é fruto de uma imagem estereotipada que, por fim, diz pouco sobre a identidade, os valores, a cultura de um povo e o faz de forma desacertada, sem fundamento e totalmente nociva. É, em grande parte, uma forma sarcástica, de mau gosto, de conduzir
