Migrações e Cidadanias
()
Sobre este e-book
Gonçalo Saraiva Matias
Licenciado, mestre e doutor em Direito pela Universidade Católica Portuguesa. Investiga e ensina na Escola de Lisboa da Faculdade de Direito da Universidade Católica Portuguesa nas áreas do Direito Constitucional e do Direito Internacional Público, tendo defendido tese de doutoramento com o título «The path to citizenship: Towards a fundamental right to a specific citizenship». Publicou diversos estudos sobre migrações e cidadania, incluindo um livro, em co-autoria, para o Observatório da Imigração do então Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas intitulado A Convenção Internacional sobre a Protecção dos Direitos de Todos os Trabalhadores Migrantes e dos Membros das Suas Famílias. Perspectivas e paradoxos nacionais e internacionais em matéria de imigração. Realizou investigação como Fulbright Visiting Scholar na Georgetown University Law Center. É professor convidado da Washington University na St. Louis Law School. É assessor para os Assuntos Jurídicos e Constitucionais da Casa Civil da Presidência da República.
Relacionado a Migrações e Cidadanias
Ebooks relacionados
O Futuro da União Europeia Nota: 0 de 5 estrelas0 notasMigrações e trabalho decente: a integração do migrante no Brasil por meio do acesso ao emprego e à renda Nota: 0 de 5 estrelas0 notasInterpretações, paixões e Direito: O sentimento trágico do Direito e seu ignorado aspecto fenomenológico Nota: 0 de 5 estrelas0 notasMigrações Internacionais: Experiências e desafios para a proteção e promoção de direitos humanos no Brasil Nota: 0 de 5 estrelas0 notasDemocracia, Covid-19 e Neoliberalismo: o mundo social no pós- pandemia Nota: 0 de 5 estrelas0 notasMovimentos sociais e políticas públicas Nota: 0 de 5 estrelas0 notasBrasileiros em Portugal: Por que alguns imigrantes retornam e outros permanecem? Nota: 0 de 5 estrelas0 notasAmérica Latina em Debate: questões do tempo presente Nota: 0 de 5 estrelas0 notasFronteiras e trabalhadores no século XXI Nota: 0 de 5 estrelas0 notasParadoxos do Trabalho: As Faces da Insegurança, da Performance e da Competição Nota: 0 de 5 estrelas0 notasAtividade Física e Saúde Mental Nota: 0 de 5 estrelas0 notasUm Panorama Contemporâneo Do Direito Internacional Dos Direitos Humanos Nota: 0 de 5 estrelas0 notasBioética Social e Mistanásia: a efetividade de direitos fundamentais e evitabilidade de mortes antecipadas Nota: 0 de 5 estrelas0 notasRacismo Hoje: Portugal em Contexto Europeu Nota: 0 de 5 estrelas0 notasRealmar a Economia - A Economia de Francisco e Clara Nota: 0 de 5 estrelas0 notasPessoa com deficiência: Estudos interdisciplinares Nota: 0 de 5 estrelas0 notasO Envelhecimento da Sociedade Portuguesa Nota: 4 de 5 estrelas4/5As desigualdades sociais a partir do racismo em Jessé Souza: analisando a gênese dos conceitos Nota: 0 de 5 estrelas0 notasMenos espelhos e mais janelas: Esqueça a solidariedade de aparência. Seja solidário de coração. Nota: 0 de 5 estrelas0 notasTendências e Perspectivas nos Estudos Sobre as Relações Étnicas e Suas Interfaces Nota: 0 de 5 estrelas0 notasHorizontalização dos Direitos Fundamentais: uma perspectiva crítica Nota: 0 de 5 estrelas0 notasAdopção tardia Nota: 0 de 5 estrelas0 notasComo Ser Perfeito Nota: 0 de 5 estrelas0 notasJustiça negocial: Direitos humanos e Estado Constitucional Democrático de Direito Nota: 0 de 5 estrelas0 notasFilosofia e contemporaneidade: Horizontes transversais Nota: 0 de 5 estrelas0 notasImigrantes ou Refugiados: Tecnologias de Controle e as Fronteiras Nota: 0 de 5 estrelas0 notas
Emigração, Imigração e Refugiados para você
Teoria da reprodução social: Remapear a classe, recentralizar a opressão Nota: 0 de 5 estrelas0 notasEstrangeiros residentes Nota: 0 de 5 estrelas0 notasMEMÓRIAS DE UM COLONO NO BRASIL - Thomas Davatz Nota: 0 de 5 estrelas0 notasPerdas e ganhos: Exilados e expatriados na história do conhecimento na Europa e nas Américas, 1500-2000 Nota: 0 de 5 estrelas0 notasRu Nota: 0 de 5 estrelas0 notas
Avaliações de Migrações e Cidadanias
0 avaliação0 avaliação
Pré-visualização do livro
Migrações e Cidadanias - Gonçalo Saraiva Matias
Introdução
Este ensaio procura analisar as interacções complexas que, num mundo global, se estabelecem entre imigração e cidadania bem como as respostas que uma democracia liberal deve dar a ambos os fenómenos.
O fenómeno migratório tem sofrido profundas alterações ao longo da sua história. Desde logo, são conhecidas as migrações forçadas decorrentes de catástrofes naturais ou de guerras e conflitos entre povos, de que são exemplo os milhões de deslocados na Segunda Guerra Mundial.
Depois, as migrações laborais motivaram deslocações em massa de pessoas, num movimento conhecido como Sul-Norte, consubstanciando, essencialmente, a procura por parte dos trabalhadores migrantes de melhores condições de trabalho e de vida, deixando países em desenvolvimento e fixando-se em países desenvolvidos.
Finalmente, a globalização trouxe consigo uma alteração sem precedentes do fenómeno migratório e uma radical alteração dos diversos perfis migratórios.
Na verdade, a crescente mobilidade, acompanhada de maior consciência das assimetrias nacionais, levou ao desejo concretizável de deslocação de pessoas. Estes movimentos têm na base motivações muito diversas.
Assim, o fenómeno migratório deixou de se centrar na migração laboral em sentido sul-norte para passar a representar uma rede muito mais complexa de circulação de pessoas, assente em factores como a migração económica, de consumo e de talento.
Esta realidade foi em grande parte potenciada também pela globalização dos mercados, das empresas, da sociedade de informação. Um fenómeno relativamente comum dos dias de hoje é a formação das chamadas «comunidades de expats», jovens profissionais e altos quadros de empresas multinacionais que deixam os seus países de origem, em geral países desenvolvidos, para residirem, trabalharem, investirem ou prestarem os seus serviços em países em desenvolvimento cujas oportunidades para estes profissionais se apresentam muito promissoras. A esta realidade não é alheia também a expansão de grandes empresas multinacionais que promovem a circulação dos seus quadros enquanto estratégia de crescimento interno e de valorização dos recursos humanos.
Como concluiu a OCDE¹ no seu recente relatório sobre as migrações no mundo, o fenómeno migratório deixou de se centrar no factor trabalho para passar a resultar de elementos tão distintos como o capital humano e o investimento.
É certo que estas alterações profundas têm também impacto na sociologia das migrações. O factor-chave para a boa gestão dos fluxos migratórios deixou de ser apenas a relação entre as migrações e o mercado de emprego, a integração dos imigrantes e das suas gerações de descendentes ou o debate sobre o multiculturalismo ou a assimilação. Os novos fenómenos migratórios exigem dos Estados uma política de captação de imigrantes qualificados, de par com a captação de investimento estrangeiro. A interligação entre estas realidades é umbilical: de nada serve a um Estado criar condições, fiscais e outras, de investimento se depois as empresas multinacionais encontrarem obstáculos, não apenas laborais, à promoção da circulação do seu capital humano. Isto sem descurar a importância fundamental das políticas de integração dos imigrantes que já se encontram nos países de destino e que aí decidiram construir a sua vida.
Outra consequência sociológica está relacionada com a menor dificuldade de integração desta nova migração, em geral mais informada e de maiores recursos. O reverso desta realidade é que raras vezes estes migrantes têm a intenção de se fixar nos países de destino. Isso é particularmente evidente nos casos da novíssima imigração norte-sul. Trata-se de um desafio para os países de acolhimento, mas também de uma oportunidade, terem de lidar com novos migrantes que o são, assumidamente e por opção própria, a prazo.
Esta realidade exige políticas migratórias adequadas que preservem os interesses dos países de destino sem, contudo, descurarem os incentivos correctos a este grupo de migrantes muito volátil que podem facilmente escolher outra paragem para aplicar as suas qualificações.
Actualmente, a complexidade do fenómeno migratório é, assim, muito maior que no passado. Isto porque aos novos desafios do capital humano se somam os velhos problemas da integração das comunidades migrantes e seus descendentes que continuam a viver e a trabalhar nos países de acolhimento.
Uma discussão muito presente nos debates sobre migrações e o seu impacto nos países de origem e de destino dos migrantes diz respeito à chamada «fuga de cérebros», ou brain drain.
Esta realidade coibiu, de resto, os países desenvolvidos de estabelecerem políticas mais «agressivas» de captação de capital humano, na medida em que se instalou a convicção de que essas políticas se faziam à custa da perda de competências e de valor nos países mais necessitados deles.
A análise da realidade portuguesa revela-se especialmente rica para o estudo deste fenómeno, na medida em que Portugal, nos últimos cinquenta anos, alterou de forma acentuada e em sentidos diversos o seu perfil migratório. De um país de fortíssima emigração nos anos 60 do século XX passou a um país de elevada imigração nos anos 90 e, finalmente, a um país de moderada emigração no final da primeira década do século XXI. Esta realidade encontra-se bem presente na evolução do saldo migratório do
