Ensinâncias e Aprendências: registros de uma psicoprofessora
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Sobre este e-book
Dividido em três partes, o livro, de uma forma leve, tem relatos da professora e psicopedagoga que já tinha olhar diferenciado para os alunos. Há, ainda, uma reflexão sobre a importância do saber teórico ao se enfrentar desafios e ensinar. Às vezes a dificuldade está no aluno, às vezes está em quem não consegue ensinar a determinados alunos.
Evidenciam-se a importância da clareza de objetivos e a necessidade de ouvir e ser ouvido, inclusive aos professores.
A primeira parte, Construções Possíveis na Construção do Jogo, é transcrição de TCC e aborda a criação de jogo dentro do consultório psicopedagógico; nela, ocorreu o intercâmbio entre dois atendidos na clínica, que só se conheceram através do jogo e das regras escritas. Um deles com síndrome de Down, o segundo com questões psicológicas tratadas com uma psicóloga. A segunda parte, Despertando o Desejo de Registro da História de Cada Um e Escrevendo Um Futuro Diferente, é relato de trabalho desenvolvido com turmas de EJA. Premiado com o troféu Paulo Freire (2004), é um projeto desenvolvido a partir da dificuldade percebida para alunos adultos realizarem a escrita.
A terceira parte, Psicopedagogia em Poesia, registra poemas sobre aprendizagem e suas dificuldades.
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Ensinâncias e Aprendências - Biláh Bernardes
AGRADECIMENTOS
Toda a minha prática no magistério e no consultório psicopedagógico é diretamente influenciada pelos educadores com quem interagi. A eles agradeço, mas cito aqueles que mais me marcaram.
À diretora do colégio, minha prima e grande educadora, Maria Angélica de Castro, espelho como ideal de educação. Minhas professoras da primeira à oitava série, em Santo Antônio do Monte: Clélia Souto, Shirley Rose de Oliveira, Dinah do Carmo, Marlene de Oliveira, Diva de Oliveira, Dinorah do Carmo, Maria da Conceição Greco, Iná Ricardina de Oliveira, Maria Célia de Oliveira, Agostinha Borges, Olímpia de Souza. Dona Fausta, Dona Quinquina Brasil, Sr. Avelino de Oliveira, Dilma Morais, Norma Gontijo, no magistério e na prática em salas de aula. Ao meu primo, Otaviano Rodrigues Lacerda, agradeço ter me socorrido quando a matemática ficava incompreensível; a alguns colegas, sempre presentes nos estudos em grupo: Davi Jorge de Sousa, Solange de Oliveira, Luciene Sousa, Rosângela Brasil, Ivo Luís da Silva, Ângelo Silva, Maria Puríssima Borges, Sônia Borges.
Em família, os exemplos de meus pais, minha irmã Angélica, minha prima Laurinda de Souza.
Na faculdade Newton Paiva e no Pós-graduação em Psicopedagogia, as maiores mestras que já tive: Maria Orminda e Maria de Lourdes Caldas, Ana Teberosky, Sara Pain e Alicia Fernández (in memoriam).
Obs. No título, a palavra Ensinâncias (que no dicionário escreve-se Ensinanças) foi grafada assim para se harmonizar com Aprendências.
Maria Angélica
PARA APRENDER
Biláh Bernardes
Para Aprender
alfabeto
ou qualquer outro
dialeto ou objeto
não basta estar alerta
não basta o concreto
Para Aprender
e transformar
conhecer em saber
não basta decreto
muito menos resolve
ficar quieto
em atitude correta
Para Aprender
qualquer coisa
que lhe afete
marque, transforme
e se construa projeto
há que circular
o afeto
SUMÁRIO
Capa
Folha de Rosto
Créditos
MOMENTOS DE ENSINAR E MOMENTOS DE APRENDER
O SABER E O NÃO SABER DA PROFESSORA INFLUENCIAM O SUCESSO E/OU O FRACASSO ESCOLAR
TERAPIA DO CUIDADO
PROFESSORA E PSICOPEDAGOGA ? PROFESSORA - PSICOPEDAGOGA ? PSICOPROFESSORA?
ORGANISMO, HUMANIDADE E TDAH *
PARTE 2 - ENSINÂNCIAS E APRENDÊNCIAS
FRACASSO ESCOLAR: CONTRIBUIÇÕES DA PSICOPEDAGOGIA
REFERÊNCIAS
CONSTRUÇÕES POSSÍVEIS NA CONSTRUÇÃO DO JOGO OU O JOGO NA CONSTRUÇÃO DA PSICOPEDAGOGA
COMENTÁRIOS SOBRE O TCC:
DESPERTANDO O DESEJO DE REGISTRO DA HISTÓRIA DE CADA UM E ESCREVENDO UM FUTURO DIFERENTE
PARTE 3 - PSICOPEDAGOGIA EM POESIA
SABER HIPERATIVO
CONSTRUIR-SE NUM BRINQUEDO
ENSINANTES
MOTIVAÇÃO
ENSINANÇAS
HIPERATIVIDADE
O SABER EM JOGO
SURDEZ
LUDOTERAPIA
CERTEZA
CENAS PARADIGMÁTICAS
SÍMBOLO
AINDA É TEMPO
IMPLICANDO-ME
INCOMPREENSÃO
PSICOPEDAGOGIA
ESCUTA PSICOPEDAGÓGICA
CONVIVÊNCIAS
MODALIDADE DE APRENDIZAGEM
TEORIA DO CUIDADO
OUTROS POETAS
ERRO...
NÃO COISA
EXERCÍCIO DE SER CRIANÇA
Landmarks
Capa
Folha de Rosto
Página de Créditos
Sumário
Bibliografia
MOMENTOS DE ENSINAR E MOMENTOS DE APRENDER
RELATOS DE EXPERIÊNCIA
Sou uma contadora de casos sobre meus alunos e apaixonada pela arte de ensinar, principalmente àqueles que constituem desafios por não se reconhecerem capazes ou por estarem rotulados como incapazes. Creio que, ao lerem os relatos, se lembrarão de muitos José(s), Ken(s), Júlio(s), João(s), Maria(s) e demais protagonistas destes casos, na prática escolar. O que torna diferente a minha prática é que consegui escrever sobre eles e quando registramos na escrita, nos distanciamos dos casos. Fica possível perceber o que fizemos de correto e porquê; onde erramos e porquê.
É na análise dos erros, principalmente, que conseguimos abrir espaço para novas ideias e para a mudança.
Por isso, chamei o tema deste texto de Momentos de Ensinar e Momentos de Aprender. É que, na sala de aula, alternamos nossa posição ora no papel de ensinante, ora de aprendentes.
A primeira turma que me foi designada em escola da PBH, era de alfabetização e tinha alunos entre 8 e 13 anos de idade. Quando cheguei, ao início do mês de maio, fiquei assustada. Todos os alunos tinham notas no boletim que variavam entre 1,5 e 4,5! Ninguém atingia a média!
Eram feitos muitos ditados de palavras nesta turma e, na média, todas as palavras eram consideradas erradas. Percebi – pelo conhecimento que adquirira estudando Emília Ferreiro, Ana Teberosky e outros autores construtivistas, na Faculdade Newton Paiva, que todos haviam construído hipóteses sobre a escrita que indicavam a fase silábica.
Em um insight abençoado, resolvi mudar os critérios para avaliar. Como todas as palavras, no global, estavam erradas, passei a contar letras certas e os erros eram apontados como falta ou troca de letras. Por exemplo, na palavra cachorro, escrita "caxoro": há 5 letras certas, uma letra trocada (x e ch) e falta uma letra r; Em batata, escrita bdta: há 3 letras certas, uma troca (t por d) e faltam duas letras.
No caso da palavra cachorro, eu explicava que há duas formas de representar o som: x ou ch. Que aprender qual das duas era considerada correta dependia de prestar atenção na escrita e memorizar. Em relação ao r ser somente um ou dois, trabalhamos ao mesmo tempo os dois casos até que percebessem que dois erres ficavam entre vogais. E eu dava a eles o conhecimento de que eu estava ensinando a partir das palavras que escreveram errado nos trabalhos. No caso de batata, entendi que os alunos (a maioria) que escreviam assim, estavam na fase onde construíram a hipótese de que não se podia repetir vogais na palavra. Nesses casos, trabalhava mais com a observação do som e levava pares onde faltar a vogal gerava grafia igual para palavras diferentes. Ex.: medo (mdo) e mudo (mdo).
Eu contava a história de uma criança que escrevera daquela forma para as duas palavras. A pergunta era: Pode a mesma escrita para as duas palavras? Isso, eles sabiam que não podia. Como resolver isso? Ouvia as hipóteses deles que eram analisadas. Só depois eram ensinadas as formas corretas. Quanto à troca do t por d na palavra bdta (batata), assim como em outras, cabia
