Por Todas Essas Vidas: a saga de uma mulher
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Larry Antonio Wizniewsky
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Por Todas Essas Vidas - Roseila Iara Renz Pretto
CAPÍTULO I
O ENCONTRO
Somente muitos anos depois que ela me contou que sempre que tinha um baile, se eu estava e ela também, ela me via. Eu não me lembro de tê-la visto nunca. Ela me contou que me achava um homem muito bonito e atraente. Seus olhos passavam pela multidão e logo a minha figura lhe vinha à frente. Nunca havíamos nos falado, até que um dia, a data, ainda me lembro, foi no ano de l983, acho que antes da metade do ano.
Ela tinha muitas amizades. As gurias, suas amigas eram loucas por baile. Faziam qualquer coisa para participar de um. Mesmo uma que tinha um pai bravo, que não deixava ela ir de jeito nenhum, pulava a janela, inventavam que iam fazer tricô, ouvir música e jogar cartas na casa da outra para a mãe deixá-la ir posar na casa das amigas. Mas que música, tricô e baralho! Iam ao baile.
Naquela noite tomaram o ônibus que saía às 22 horas da cidade de Acarajiba. O baile era no interior. Chegando lá, logo que ela me viu, comentou com as amigas:
— É hoje que eu falo com este gato! É hoje ou nunca!
Eu estava numa pior, tinha brigado com minha namorada e estava no baile feito bobo pensando nela. E aquela guria começou a me olhar, sorrir para mim. E eu, como era muito envergonhado, tímido, moço de família do interior, receber um lance assim, na cara, quase um convite, me deixava estonteado e sem ação. Eu não movia um membro. Apenas olhava desconfiado.
Passado muito tempo, sem que eu tomasse nenhuma atitude de pelo menos convidá-la para dançar, vi-a levantar-se e vir em minha direção. Perdi a graça:
— Está demorando muito! – Disse, e voltou ao lugar onde estava.
Criei coragem e convidei-a para dançar. Eu era muito dançador, até hoje sou. Acertamos-nos no ritmo e dançamos algumas músicas sem dizer uma só palavra. Tenho esse agravante, as palavras custam-me sair da boca. Às vezes me odeio por isso, quero falar, a palavra na garganta me angustia, mas não sai. Quando terminou a música, paramos no meio da pista de dança. Não tínhamos a intenção de dançarmos aquela como a última. Quando me olhando nos olhos, ela me perguntou:
— Você nunca se olhou no espelho?
Eu fiquei rubro, suspirei e pensei:
— O que será que esta guria pensa que é? O que ela está querendo comigo? Está me achando com cara de quê? E perguntei:
— Por quê?
— Porque você é o homem mais lindo que eu já vi!
Eu levei um susto e perdi a postura. Mas recuperei-me quando ela perguntou sobre meus pais, que eu fazia, se estudava...
Dançamos muito até o final do baile, quando anunciaram que o ônibus, rumo a Acarajiba, estaria partindo dentro de 10 minutos.
Suas amigas também dançaram com uns primos e amigos meus. Saímos todos do salão para nos despedirmos das gurias que iam tomar o ônibus.
Naquela época eu tinha uns 22 anos, meu corpo era atlético, minha estatura alta, meus olhos verdes, meus cabelos encaracolados e meus lábios carnudos, como eu mesmo costumava dizer:
— Pareciam duas tiras de fígado!
A moça era muito elegante, ruiva, 1m e 65cm de altura, 17 anos, pesava uns 45 quilos, intrigante. Foi aí que eu me aproveitei da vantajosa força, agarrei-a pelos dois braços e levantei-a acima de minha cabeça, trazendo-a de volta devagar até que nossos lábios se tocaram.
Foi nesse final de baile, numa madrugada fria, debaixo de um cinamomo que até hoje existe em frente a um antigo bolicho, ao lado daquele salão que eu fisguei seu coração. Ela conta. Contou para mim e vive contando que foi lá que ela parou na minha. Apaixonou-se perdidamente por mim. Que nesse dia eu a ganhei. No momento não pensei que pudesse ser para sempre, mas depois foi, hoje não é mais. Porque hoje eu a perdi.
CAPÍTULO II
O RETRATO
Depois que perdi minha mulher, esta é a primeira vez que entro em nosso quarto. Ainda meio incrédulo no que aconteceu, passei a observar o que nunca antes havia observado. Como minha mulher era organizada! Nossas roupas estavam todas bem passadas, dobradas, empilhadas ou penduradas nos cabides, na mais perfeita ordem. Nesse armário, também ela guardava uma caixa de remédios. Precavida, sempre tinha em casa analgésicos, antitérmicos, antialérgicos, remédios para o estômago.... Em outra caixa estavam seus cosméticos, seu secador de cabelos.... Como ficava linda quando soltava o cabelo, pintava os olhos, a boca. Mas eu quase nunca disse para ela que estava linda. Tinha uma estranha mania de dizer o contrário do que via e sentia. A mesma coisa fazia quando ela preparava pratos deliciosos.... Minha esposa era uma excelente cozinheira, mas eu elogiava dizendo:
— É, a força vai! – Invés de dizer-lhe o merecido elogio. Eu sabia que estas pequenas coisas a entristeciam, mas era meu costume, às vezes a brincadeira virava briga séria e eu ficava sem saber o que fazer quando ela começava a chorar baixinho, sem dizer nada.
No nosso quarto, onde tantas vezes brigamos, discutimos, choramos e fizemos amor, tínhamos na parede o quadro com a fotografia do nosso casamento. Acima do espelho da cômoda, um crucifixo, que hoje deve ter mais de 100 anos. Sua avó paterna ganhara de presente de casamento, e quando faleceu, a neta pegou para ela, pois estava lá na casa da tia Brenda, junto com o resto das coisas da avó que eram para ser doadas ou jogadas no lixo.
Ao lado do grande guarda-roupa que mandamos fazer com a madeira de uma árvore de canela que eu mesmo derrubei, estava um quadro com sua fotografia. Nessa foto, ela tinha então, 18 anos. Na época todo mundo queria ter um pôster seu. Ela também. Então fez a fotografia e me deu de presente de aniversário, pois já éramos namorados.
Naquele tempo, ela não morava mais em Acarajiba. Tinha conseguido um emprego na URAC — Universidade de Rio das Águas Claras, que na época, ainda nem era universidade, e nos víamos somente aos finais de semana, às vezes, a cada 15 dias, pois ela já fazia faculdade. Incrível a obstinação dessa mulher por estudar. Trabalhava o dia inteiro, estudava à noite e fazia os trabalhos da faculdade de madrugada e aos finais de semana, muitas vezes quando vinha me ver. Porque eu, raramente ia, era ela que vinha sempre. Enquanto ela ficava na minha casa lendo seus livros e fazendo seus trabalhos, eu ia ao Esportivo, um clube que tinha aqui perto de casa, jogar bola, bocha, baralho com uns amigos, assistir ou me meter em alguma encrenca, que sempre dava, por causa de bebedeiras ou de mulheres. Uma baixaria! Ela odiava que eu frequentasse um lugar assim com gente daquele nível
, mas eu ia sempre.
Quando ela ia embora, de volta para seu trabalho e faculdade, eu ficava com aquela fotografia, que pendurei na parede do meu quarto. Acho que nesse período eu amava muito minha namorada. Pois quando a saudade apertava, eu abraçava e beijava o seu pôster. E agora que eu a perdi, aquela foto continuava ali. Minha mulher, jovem, bonita, com 18 anos, ali, na minha frente, mas eu não tinha mais coragem de beijar e abraçar o retrato.
Estava muito cansado. Não era mais jovem e másculo como no nosso primeiro encontro, e os acontecimentos dos últimos tempos me deixaram muito abalado. Não tinha certeza se ia conseguir dormir na cama que fora nossa sozinho, mas resolvi deitar-me.
Eu sempre dizia a ela quando reclamava que não conseguia dormir e eu roncava em menos de um minuto:
— Eu deito na cama para dormir! – Incrível minha facilidade em relaxar. Em qualquer lugar, eu deitava, pegava uma almofada, ou fazia de travesseiro o próprio braço e imediatamente tirava o meu cochilo.
Mas nessa noite não. Havia um vento norte que uivava lá fora, sacudia as portas e janelas. Murmurava. Lembrei-me das muitas vezes que por causa das minhas brincadeiras de mau gosto, meu egoísmo e minha ignorância, minha mulher não conseguia dormir e passava horas durante a noite chorando baixinho aquele choro triste, de vítima, de desgraçada, que muitas vezes me deixava irritado. Hoje, eu talvez compreenderia, mas na época não. Coitada! Como deve ter sofrido! E eu não fiz nada para amenizar sua dor. Aquele vento parecia seu lamento, me incomodava. Eu precisava achar um jeito de aquietar minha alma. Pensei em rezar, quando ouvi um barulho como que de uma torneira pingando. Esperei um pouco. Continuava. Levantei-me e verifiquei o chuveiro e todas as torneiras da casa. Nada! Não havia nenhuma que apresentasse vazamento para justificar o barulho que eu ouvia. Voltei a deitar-me e os barulhos juntamente com as lembranças e o lamento do vento, não me deixavam ficar deitado na cama e dormir. Resolvi ir ao banheiro. Ao colocar o pé descalço sobre o assoalho, percebi que o chão estava molhado. Assustado, acendi a luz e algo me chamou atenção na foto de minha mulher aos 18 anos, no pôster da parede. Sua expressão havia mudado, seus olhos brilhavam e ela chorava. O barulho que eu estava ouvindo e a água no chão vinha do retrato, eram suas lágrimas que caiam.
Pensando ser um delírio meu, na hipótese de até ter urinado no chão, busquei um pano, sequei o assoalho e fui dormir no quarto que era das crianças, fechando a porta do quarto que era nosso.
Ouvindo aquele lamento, que eu não sabia mais se era do vento ou do choro da foto, adormeci.
Muitos dias se passaram. Eu, ali, vivendo naquela casa tão vazia, tão solitário e triste. Parecia que havia se passado 100 anos. Estava já me considerando um depressivo ou esquizofrênico. Não conseguia mais entrar no quarto que fora nosso. Passava as noites ouvindo aquele lamento e o gotejar das lágrimas que vinham do retrato. Até que certa manhã a água já aparecia por debaixo da porta ameaçando inundar outras peças da casa. Pensei então, que talvez fosse melhor dar as roupas, os sapatos, os objetos que haviam sido de minha mulher. Ela detestava ficar guardando coisas que não se usava mais em casa. Outras pessoas poderiam estar precisando. Fui providenciar umas caixas, um balde e um pano para secar aquelas lágrimas que vertiam do retrato.
Quando me agachei ouvi alguém dizer meu nome. Olhei para os lados, abri a janela e não havia ninguém. A voz vinda do retrato expelia um som como o murmúrio do vento:
— Adam, meu amor, pelo amor de Deus, por favor, pelo menos agora me ouça. Você nunca soube me ouvir. Sempre esteve posicionado em um lugar que considerava seu no qual, não queria e nem permitia a invasão da sua família: mulher e filhos. Por isso, você foi se afastando de nós, foi nos perdendo. E eu não tive tempo de escrever o que eu lhe prometi. E agora para poder ter paz você terá que escrever tudo o que eu lhe disser.
Você terá que ter paciência. Eu sei que você não é muito chegado a escrever, muito menos textos longos, meu querido. Mas você terá que fazer esse esforço, ele é necessário, pelo nosso amor, por todas as nossas vidas.
Vamos, pegue o caderno e o lápis que deixei naquela gaveta da cômoda e me ouça.
Meio atordoado peguei o lápis e fui anotando as palavras que saiam do retrato. Começou assim...
CAPÍTULO III
OS RISCOS DO VIVER
Eu sempre tive muito medo desse momento. Ao mesmo tempo, que a vontade de escrever este livro tem me causado ansiedade há muitos anos, que seus capítulos circulam diariamente na minha cabeça, até me atormentam. Eu tenho medo! Eu temo que depois que ele estiver pronto às coisas que ele trouxer possam se concretizar, ele não traz somente coisas boas, umas já aconteceram, outras ainda poderão. Ou quem sabe, depois de ter realizado este sonho eu perca a energia que me move e eu morra, pois aqui está escrito tudo aquilo que eu quis dizer, não para todas as pessoas, mas para algumas que essencialmente me foram marcantes, ou quem sabe ainda, ele sirva somente para que eu possa ter paz de espírito, viver livremente e ser feliz. Pois escrever foi a maneira que encontrei para aliviar minhas angústias, expor minhas reflexões. O papel aceita. As pessoas nem sempre. Não querem e nem têm paciência de ouvir as outras, não importa se são da família da gente ou não. Ninguém se importa. As pessoas preferem não tratar das questões que lhes são problemáticas ou difíceis. Preferem não falar, não ouvir, não resolver. Com isso, se afastam cada vez mais umas das outras. Cada um tentando viver o seu mundo. Que coisa mais estranha e contraditória. Sempre li nos livros que o ser humano é essencialmente social e que para se desenvolver plenamente precisa dessa interação com os outros seres humanos. Será que a evolução tecnológica, o mundo moderno está transformando o ser humano em um ser essencialmente individual? Onde queremos chegar com tudo isso?
É... Mas eu também tenho medo, sofro e sinto as mesmas coisas que os outros. Só que tem um, porém. Para ter paz, alegria e tranquilidade, eu preciso ter resolvidas com as pessoas todas essas questões. E como as pessoas não as querem resolver, estou sofrendo muito. Acho que a vida poderia ser bem melhor. É muito curta passa rápido demais para não nos atermos e não querermos resolver coisinhas
. Viver é muito perigoso
, já dizia Guimarães Rosa, e eu acrescento que a vida é muito maior e melhor que o perigo e vale a pena correr o risco de viver uma vida bem vivida.
Desde que lembro de mim, por volta de uns três anos, tenho marcadas em minhas lembranças cenas muito tristes. Naquele episódio em que eu era o bebê da família Zenre, ainda não imaginávamos que depois viriam mais três.
Eu, já era a terceira filha do casal, mas meu pai não estava nada satisfeito. Ele queria um homem!
Talvez por isso é que a maioria das lembranças de que tenho da minha infância são muito tristes: meu pai brigando com minha mãe e batendo na gente, a discriminação que recebíamos na escola, a pobreza, a falta de condições...
Nessa época, minha mãe já trabalhava na prefeitura de Acarajiba como servente. Se aposentou lá, mas meu pai quase nunca teve um emprego fixo. Morreu sem se aposentar e sem nos deixar nada. Ele queria ser patrão, não aceitava ordens, nem qualquer serviço. Tinha mania de grandeza e se achava o tal.
Quando eu tinha três anos e era o bebê da casa, uma noite, acordei com o pai ameaçando a mãe. Como disse, eu era o bebê da casa e dormia em uma caminha que fora de minhas irmãs, no quarto dos pais.
Meu pai levantou-se da cama do lado onde ele dormia e ameaçadoramente vinha até o lado onde minha mãe estava deitada, e, aos berros, tentava arranca-la da cama. Sua boca espumava de raiva: ele gritava e falava alto, dava-lhe uns chacoalhões. Eu, encolhida de medo lembro que em um dado momento a mãe disse:
— Olha a guria ali do lado, com os olhos arregalados!
O motivo da briga eu não lembro direito, só lembro que havia um circo na cidade e era por isso. O que minha mãe tinha a ver com o circo, eu não sei. Será que por algum motivo ou mesmo sem ter, ele tinha ciúmes dela?
Essas cenas eram comuns. Em outra ocasião, quando meu pai trabalhava de assador em uma churrascaria da cidade, aliás, que ele nos obrigava de certa forma a ir até lá depois do almoço para lavar os espetos e a mesa onde ele preparava a carne para assar, porque ele não podia fazer isso. Esse serviço o irritava, e normalmente era eu e minha irmã Valerry que íamos, pois, a mais velha nunca fora faxineira, empregada doméstica ou o que quer que fosse desse ramo. Sempre trabalhou em escritórios e lojas antes de ser professora. Aliás, já cabe relatar aqui, que essa irmã mais velha, já nessa época, quando éramos muito crianças, e era de nossa obrigação limpar a casa, o serviço dela era sempre limpar os móveis. Passar saponáceo e esfregão de aço na mesa e no balcão sem pintura nenhuma, que tínhamos na cozinha. Além disso, só havia mais um guarda-louça antigo, um fogão à lenha e algumas cadeiras. Nem geladeira tínhamos. Minha irmã Valerry e eu que lavávamos o chão e o banheiro. Era sempre assim.
Nos fundos da churrascaria que meu pai trabalhava na época, em um galpão, morava um senhor de idade, não lembro o nome, que ajudava por ali, limpando o pátio, lascando lenha. Um dia ele faleceu. O velório se deu nos fundos do salão paroquial da igreja católica. Todos fomos ao velório. Já era tarde da noite quando o padre chegou e disse que se não quiséssemos passar a noite lá, era só fechar a porta e retornar no dia seguinte. Meu pai não estava lá naquele momento. Lembro-me dos pés magros e encardidos do morto. As unhas meio compridas e sujas. Nesse momento o senhor Gaspar chegou com uma meia e colocou nos pés dele. Coitado! Nem sapato teve em vida, por isso, agora depois de morto, não necessitava mais.
Quando meu pai retornou ao velório, minha mãe falou-lhe do que o padre havia dito, ele não falou nada e fomos para casa. Chegando lá, começou a encrenca outra vez. Meu pai berrava com a mãe:
— Eu não entendo como você teve coragem de mandar lá no velório, o que que tu tens a ver com o morto?
— Eu não mandei nada, foi o padre Severo quem disse, se não quiserem fazer não tem problema, passem a noite lá!
Ele insistia, repetia várias vezes a mesma coisa muito irritado. Ele não tinha um vocabulário muito rico, era sempre assim, quando brigavam, ficava repetindo muitas vezes a mesma coisa. Nessa época eu tinha muito medo dele.
No dia seguinte a esse episódio, não lembro por que ele me bateu. Eu fui para a frente da casa, caminhava de um lado para outro, chorando desesperada, decepcionada, quando comecei a falar coisas que eu sentia e sinto até hoje.
— Eu sou uma desgraçada, ninguém gosta de mim, vou embora dessa casa, vou fugir para longe.
Para meu azar, o pai ouviu:
— Eu vou te mostrar quem vai fugir!
Deu-me uma nova surra, puxou-me pelo braço, beliscou-me, puxou minhas orelhas e me mandou para dentro de casa. Naquele momento eu, criança, tinha certeza que meu pai não gostava de mim. Que mania ele tinha de me beliscar e torcer minhas orelhas, isso doía muito e fez crescer dentro de mim uma enorme tristeza em relação ao meu pai. Talvez ele nunca soube, mas eu percebia a maneira diferente que tratava eu e minha irmã mais velha, daquela que ficava no meio de nós.
Ele colocava apelidos em nós. A mais velha, grande e gordinha era o corujão
, a segunda o sosó
e eu por ser magra, miúda, o tico-tico
, perceba você, que ele nos tratava como garotos, o artigo masculino usado na frente dos apelidos denuncia isso. Talvez por isso, até hoje me sinto como um homem. Ajo, enfrento, busco, faço, não dependo, odeio depender dos outros. Escondo meus sentimentos, emoções, minhas fraquezas e diante da família, do trabalho e da sociedade me apresento como alguém forte, poderosa, corajosa, imbatível, uma verdadeira fera
.
Como eu era a mais nova, sempre dormia cedo, e raras vezes via meu retornar para casa à noite. Ele costumava chegar tarde, ficava nos bares com seus amigos bebendo, enquanto a mãe retornava do trabalho e tentava dar conta das filhas, da comida para o dia seguinte, das roupas, da casa. Ele nunca ajudava. Nunca vi meu pai secar uma louça ou passar um pano no chão.
Normalmente era na manhã seguinte que minha irmã Valerry me contava que o pai a havia pegado no colo e dado-lhe algumas moedas porque ela adivinhara o nome do bicho que havia bordado no bolso de sua camisa. Eu lembro da camisa era cor de vinho que tinha um cavalo marinho bordado em preto no bolso. Na época eu não sabia o nome do bicho, com ciúmes de Valerry e também querendo ganhar umas moedas para comprar aquele sorvete da Kibon que só vendiam na rodoviária e era muito caro, é que eu tentei que Valerry me dissesse o nome do bicho. Ela me enrolou um pouco, mas disse. Eu animada, não esqueci. Esperei a próxima vez que o pai usou a camisa cor de vinho, aguentei o sono e esperei ele chegar. Meio sem jeito, fui achegando-me no seu colo. Não sabia como fazer acabei dizendo:
— Pai, eu sei o nome desse bicho que você tem bordado no bolso da camisa!
Ele meio duvidou e eu respondi:
— É um cavalo marinho!
Mas meu pai não me deu mais atenção, nem as moedas. E minha tristeza aumentava. Eu achava já naquela época, entre três e cinco anos, que nossa vida era muito difícil. Morávamos em casas alugadas, que nem sempre eram boas, o aluguel sempre atrasado. Por isso, éramos obrigados a mudar de casa muitas vezes. Em outras, o pai alugava para terceiros a metade da casa e nós todos nos amontoávamos em um quarto e uma cozinha.
Uma vez, uma inquilina, que não tinha crianças e não gostava muito de nós, trouxe uma leitoazinha. Nós brincávamos com ela e mais nada. À noite ficava trancada no galpão que havia nos fundos da casa.
Certa noite quando o pai chegou, a malvada vizinha o esperou na rua e lhe disse que nós havíamos descadeirado sua leitoazinha. Sem mesmo conferir, o pai surrou-nos a todas com uma velha correia da máquina de costura. A mãe indignada pegou uma vela e foi lá conferir. A leitoazinha estava completamente saudável. Meu pai não quis saber. Tentou bater nela também. Eu acho que ele nos odiava. Só lembrava que era pai da gente para bater. Para nos acariciar, incentivar e nos dar o que a gente precisava, ele não era.
Lembro-me dessa época, de apenas duas coisas boas que ele fazia e eu gostava. Quando ele deitava na cama e punha os pés no meu peito, me erguia para cima, me mandava abrir os braços e equilibrando-me na sola dos seus pés para brincar de avião. Ou então, quando me pegava no colo e brincava de tocar gaita. Ele fazia comigo como se estivesse abrindo uma gaita. Fazia cócegas e o som com a boca:
— Tatata tuna, tatata tuna, tatata tuna...
Eu ria muito e gostava dessas brincadeiras.
Na nossa casa não havia banheiro, nem chuveiro. Tomávamos banho numa grande bacia de alumínio que tínhamos, no quarto. No inverno, mal lavados por nós mesmas, muitas vezes meus pés rachavam, encardiam. Ficava tarde da noite, era frio e a mãe à luz de velas lavando roupas lá fora, nos mandava nos lavar. Nem sempre íamos, ficávamos brincando até que enxergávamos lá na rua, e ela aos berros:
— Piazedinho, vão se lavar!
Quando íamos para dentro, o sono e a fome nos pegavam. E eu chorava. Algumas vezes, nem banho tomávamos, apenas lavávamos o rosto, as mãos e os pés na grande bacia e na mesma água. E era nessas horas, que poucas vezes o pai já havia chegado. Pegava a escovinha e lavava meus pés. Ele esfregava tanto que os desencardia e eles ficavam vermelhos. No outro dia, eu bem faceira, jurava que ia mantê-los desencardidos. Mas eu não conseguia. Logo estavam encardidos e rachados do mesmo jeito, pelo uso de chinelos de dedos.
Pelo fato de a mãe trabalhar na prefeitura a gente não recebia aqueles materiais que o governo mandava para os pobres. A diretora achava que minha mãe podia comprar. E como ela não podia, a gente ficava sem e muito triste quando os colegas não emprestavam.
Muitas vezes, quando no início do ano letivo eu procurava o pai pelos bares da cidade para que ele me comprasse os materiais escolares, ele respondia:
— Agora o pai não tem dinheiro, vem depois das onze horas que o pai vai fazer umas cobranças, e daí nós vamos comprar!
Ansiosa eu esperava até as onze horas. Quando chegava, outra vez procurava meu pai pelos bares da cidade:
— Pois é, o cara não me pagou! Vem amanhã.
E assim era sempre. Muitas vezes eu ia, até que desistia e saia sem ganhar os meus cadernos. Isso não acontecia só com os cadernos. Era aquela luta diária para comprar carne. Era difícil comprar carne. O que comíamos geralmente era feijão, arroz, polenta com ovo frito.
Não sei por que meu pai fazia isso com a gente. Depois de alguns anos, quando ele já não dormia mais no quarto com a mãe e deixava suas calças penduradas na guarda da velha cama de solteiro do quartinho dos fundos onde ele dormia, passei a roubá-lo. Sim, enquanto ele roncava deitado de costas com as mãos sobre a barriga, como um santo, eu roubava-lhe o dinheiro que necessitava. Ele sempre tinha um bom dinheiro no bolso das calças. Por que não nos dava? Não assumia as despesas da casa junto com a gente?
Sim, com a gente, porque em função de tudo isso, aos nove anos de idade comecei a trabalhar.
Se fosse hoje, seria impossível. Mas na época se faziam coisas que hoje já não se fazem mais. A prefeitura estava ficando apertada com o crescimento do município. Havia muitas escolas. Era preciso organizar uma biblioteca pública. Foi quando o prefeito da época resolveu alugar um apartamento que estava vago e se localizava em cima do mercado-bar que havia ao lado da prefeitura para acomodar a Secretaria da Educação e a Biblioteca Pública. Minha mãe recebia cem cruzeiros de gratificação na sua folha de pagamento para que, depois das dezessete horas, eu fosse lá e fizesse a limpeza do local.
No início eu estava muito contente, animada e motivada. A primeira coisa que eu fiz foi comprar umas camas tipo beliche para mim e minha irmã Valerry dormirmos, pois até então, ainda dormíamos juntas numa velha cama de colchão de palha.
As professoras que trabalhavam nessa repartição se tornaram muito amigas minhas, me elogiavam, me incentivavam. Uma vez me deram até um vestido vermelho com florzinhas brancas, de alças e lastex na altura dos peitos. Na época era moda e eu adorei.
Um dia fizemos uma promessa: eu e a Joana. Eu tinha apelidado ela de Barnei e ela a mim de Fred, por causa do desenho animado dos Flinstones que passava na televisão. Nós nos prometemos que as duas íamos vencer na vida e que teríamos uma casa com piscina. E a primeira que conseguisse deveria convidar a outra para passar as férias lá. Infelizmente, até hoje nenhuma de nós conseguiu cumprir a promessa.
Apesar de não ser muito chegado ao trabalho, meu pai era, ao contrário, era muito chegado à bebida e ao jogo. Lembro de uma vez que ele havia ficado devendo dívida de jogo, não sei para quem. A mãe tinha recebido seu salário e o guardava no bolso do casaco azul, dentro do único guarda-roupa de duas portas, com um pequeno espelho na frente, que tínhamos. Era o dinheiro para pagar o rancho que ela fazia no mercado que tinha ao lado da prefeitura durante todo o mês e pagava no final.
Ele queria o dinheiro. Ela não queria dar. Até que ele a agarrou pelo pescoço e a obrigou a dar-lhe todo o dinheiro. Ela chorou e daquele dia em diante passou a pagar o mercado sempre com um mês de atraso. Era aí pelo mês de maio, até o final do ano, quando conseguiu reequilibrar com o décimo terceiro salário essa conta. O dono do mercado, compreensivo, nunca deixou de nos fornecer o rancho, o que já não aconteceu com o leiteiro que deixou de entregar o leite.
A mãe dizia para o pai:
— Tem que pagar o leite!
— Para que que eu preciso de leite? Eu não bebo leite!
Engraçado. Ele não tinha três crianças que precisavam de leite? Você acha que um homem normal faria isso?
Nessa época eu acho que para variar, ele estava desempregado. Agora morávamos numa casinha minúscula na última rua da cidade. Eu tinha uns cinco anos e a mãe nos deixou em casa, eu e a Tatiana, que era um bebê ainda, nem caminhava, com ele e foi trabalhar. As duas irmãs mais velhas já iam à escola.
Era inverno e a geada cobria tudo, inclusive um potreiro que tinha ao norte de nossa casa. A mãe deixava fogo no fogão à lenha e o feijão cozinhando. Ela sempre nos assustava dos perigos de pegar fogo na casa, e por isso, era preciso ter muito cuidado, não brincar com fósforos, velas, etc., e o pai conosco. De repente, ele saiu sem me avisar. Quando percebi que eu e Tatiana estávamos sozinhas em casa e aquele fogo no fogão, fiquei apavorada, peguei uma jarra de água, abri as rodelas da chapa do fogão com o gancho e derramei a água no fogo para apagar, fazendo uma enorme lambuzeira. A água escorria pelo chão junto com as cinzas escuras. Peguei a Tatiana e fui a arrastando pelo potreiro. Eu não conseguia carregá-la. Ela era pesada. Pensava em ir atrás da mãe, nem tinha certeza se ela estava no Destacamento de Polícia, onde funcionava o Posto de Saúde, ou na Prefeitura. Ela fazia assim: ia cedo limpar o Posto de Saúde, passava em casa para ver como estávamos e depois ia para a prefeitura.
Nem bem cheguei até a rua, a mãe vinha chegando. A Tatiana estava gelada e com os sapatinhos dela molhados e sujos por serem arrastados na grama com geada. A mãe ficou furiosa e me deu uma surra. Nos levou de volta para casa e refez o fogo. Ordenou-me que ficasse ali, cuidando da Tatiana e do fogo, pois do contrário, o feijão não cozinharia e não teríamos o que comer no almoço. Com muito medo fiquei.
Depois, isso aconteceu de novo muitas vezes e eu passei a fazer uma coisa que até hoje não entendo bem. Lembro-me que a mãe saía e eu pegava o rabicho do ferro de passar roupa e batia na Tatiana, ela era pequena, não conseguia se defender, então ficava sentada no chão, levando as rabichadas. Ela chorava muito. Naquele momento, eu me sentia como a mãe dela e no direito de bater-lhe se ela não fizesse o que eu queria. Tinha uma vizinha que sempre ouvia aquilo. Um dia ela me perguntou:
— Por que você faz isso com sua irmãzinha?
Com meus cinco anos e pouco, comecei a pensar nessa pergunta. Não sabia por que. Mas hoje eu sei. Minha mãe usava muito o tal rabicho do ferro de passar roupas para bater na gente. Devido a sua situação terrível, de cansaço, seu humor era péssimo e por muito pouco passava a gente no laço. Isso me revoltava. Quando eu apanhava dela eu gritava muito, daí ela me trancava no banheiro e eu não parava de dar socos e chutes nas paredes e na porta. Uma vez dei um soco no vidro da porta da cozinha. Quebrou o vidro e eu cortei feio meu pulso. Como eu havia feito uma arte, minha mãe amarrou um pano e não me levou ao médico para fazer pontos. Aquilo demorou a sarar.
Então, eu repetia com minha irmã os gestos dela. Aos cinco anos. O que diria um psicólogo, analista ou psiquiatra? Gostaria de saber.
Quando eu tinha uns sete ou oito anos, o pai resolveu abrir uma tenda de frutas. Ela se localizava entre meio o moinho e o bolicho do senhor Nicollau. Eu e a Valerry é que tínhamos a obrigação de cuidar. De manhã, íamos à escola e à tarde cuidávamos a tenda enquanto o pai saía para dar suas voltinhas. Para fechar a tenda, usávamos uma corrente com cadeado. Sempre que abria eu deixava a chave no cadeado para depois fechar, até que um dia o pai me disse que era para tirar a chave do cadeado e deixa-lo aberto. Na hora de fechar era só empurrar e pronto. E foi o que eu fiz no dia seguinte.
Ao terminar o expediente, de tarde, fechei a tenda e fui para casa. Fiz meus temas, me lavei, comemos o que tinha e fui dormir na cama de colchão de palha junto com a Valerry. Tarde da noite, vinte e três horas aproximadamente, acordei na cozinha da casa apanhando do pai. Eu não sabia o que estava acontecendo. Só mais tarde é que a mãe disse que ele procurava a chave da tenda. Como não a encontrou, pegou a mim e a Valerry e nos levou até a tenda, aí eu lembrei que possivelmente a chave estaria lá dentro. Ele ficou furioso e disse que então no outro dia resolveria o problema. Mandou-nos sozinhas de volta para casa. Passamos pela praça com muito medo, pois não estávamos acostumadas a andar pela cidade à noite, na época ainda não havia muita iluminação pública. Havia muitas pessoas na praça. Percebemos que era um comício, pois era época de eleições.
Passamos pela rodoviária e seguimos para casa, quando nos deparamos com a completa escuridão. Havia faltado luz. Com muito medo, corremos para casa. Esse era o nosso pai!
Hoje quando conto essas cenas para minhas irmãs mais velhas, elas se apavoram da minha memória. Muitas coisas elas não lembram. Será que eu sou diferente? Teria eu mais sensibilidade ou seria mais observadora? Quem sabe ainda, é minha a função de relembrar e relatar a história da família? Ou será que foram só diante de mim que os fatos aconteceram?
A cada página que você escreve para mim, sinto um certo alívio. Um enorme bem-estar. Você vai continuar, não vai? Você vai me ajudar a tirar do meu peito, da minha mente e da minha alma toda essa dor, não é mesmo? Você vai me trazer a liberdade e a paz que eu procurei a vida toda!
Você sabia que é para mim tudo? Com você eu experimentei os melhores e os piores momentos de minha vida. A maior alegria e a maior tristeza. O melhor prazer e a pior dor. Você é meu princípio e meu fim.
Eu estava absorto. Como poderia ajudá-la se não a tinha mais? E ela continuou...
Nessa época morávamos em uma casa que a avó paterna mandara construir com os materiais que sobraram da destruição de uma outra, grande e alta que se situava na esquina, um pouco acima de onde morávamos, pois, o terreno da esquina foi vendido pelo tio Aquiles, muito metido a fazer negócios e a se apropriar dos bens que eram da avó. Quando nos mudamos para a casa nova
estávamos felizes. Lá havia luz elétrica, banheiro de material, chuveiro quente.
Dois anos depois, as coisas começaram a piorar. O salário da mãe perdeu poder aquisitivo, o pai não suportava trabalhar, agora de auxiliar de pedreiro, tinha que fazer força, cumprir horários e ordens, se sujar, e ele não gostava. Agora já éramos em seis irmãos: Nazaré, Valerry, Semele, Tatiana, Alcebíades e Pérola. Meu pai teve a graça de ter o tão sonhado filho homem depois da quarta menina.
Foi nesse tempo que ele passou a vender bilhetes de loteria, carnês, fazer jogo do bicho. E por consequência disso, passar o dia e a noite pelas ruas, pelas esquinas, de bar em bar. Tomava um trago aqui, uma cerveja ali, entre um cigarro e outro, conversava com as pessoas e se achava o tal. Tinha solução para todos os problemas da cidade, do estado, do país e do mundo. Achava corretas suas ideias, vivia uma vida particular e todos na cidade o conheciam e gostavam dele. Acredite se quiser, mas ele ajudava as pessoas, mesmo as que nem conhecia, até dinheiro emprestava. Sonhava em ficar rico, ganhar dinheiro fácil, acertar na Loteria Esportiva. Fazer os treze pontos. Na época ainda não existia a infinidade de jogos que hoje existe.
Mas em casa a situação se complicava. Os seis filhos indo para a escola, precisavam de roupas, calçados, cadernos, livros, comida.... Meu pai não lascava nem um pedaço de lenha para a mãe fazer o fogo no fogão à lenha. Isso quando tinha lenha para lascar. Uma vez minha mãe chegou a lascar uns mourões de cerca que eram do tio Manolo e que estavam lá em casa, pois não havia com o que fazer fogo. Eu mesma lasquei alguns. Sendo de eucalipto que duros e difíceis de lascar que eram!
Com essa situação a mãe foi ficando cada vez mais nervosa, mais violenta e mais agressiva conosco. As brigas eram cada vez mais constantes e violentas. Uma vez ele deu um soco na cabeça dela e ela caiu dentro de uma caixa de madeira que ela usava para deixar minha irmã mais nova brincar, conhecida como chiqueirinho. Nesse dia, ele prometeu matar-nos todos. Fomos dormir na casa de uma vizinha.
Roupas e calçados nós só usávamos as que ganhávamos das primas filhas das tias Brenda e Malvina. Só quem ganhava roupas e calçados novos era a Nazaré. Segundo a mãe, ela já era moça e não podia andar de qualquer jeito. Além disso, ela tinha alguns outros privilégios em casa. Comia sempre os melhores pedaços de carne, quando tinha, servia-se sempre
