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Contos De Boiadeiro I - Lilian Campos
Carta ao Leitor
Estimado leitor, é na graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, e com grande carinho que trago mais essa obra.
Digo a todos que é muito importante a oportunidade de dividir os aprendizados que conquistamos durante nossa permanência no plano espiritual, pois além de ajudar nossos irmãos encarnados, também acrescentamos em nossa própria evolução.
Percebam que os relatos contam histórias de pessoas comuns, que durante penosas colheitas aprenderam a importância de semear bons frutos, pois nenhuma semente que é lançada fica sem a devida ceifa.
Muitos encarnados ainda ignoram as Leis de causa e efeito, e quando retornam para o plano astral deparam-se com a triste realidade dos atos praticados durante a vida, os resultados geralmente se resumem em grande arrependimento, sofrimentos, expurgos, tristezas, e novas reencarnações permeadas por provas difíceis.
Essas histórias são relatadas para que o leitor se identifique com algum dos personagens, e por meio dessa comparação reconheça as tendências negativas que exigem reforma íntima. Cada exemplo propõem uma viagem interior em busca de autoconhecimento, e por consequência a possibilidade de vencer os pontos negativos que mantêm o ser encarnado atado às paixões mundanas.
Estejam atentos aos sentimentos que surgem durante a leitura, pois eles indicam pontos da alma que necessitam de cura. A tristeza, a revolta, a raiva, a mágoa, o descaso e tantos outros sentimentos são indicadores das chagas que precisam ser curadas, sendo assim, é normal que alguns fatos causem incômodos, pois o tratamento muitas vezes é doloroso.
Para o leitor empenhado, torna-se claro os aspectos da personalidade que se destacam em cada um dos personagens. Essa transparência oferece o espelhamento que reflete justamente aquilo que pede reforma e tratamento, portanto, não se abalem, não desistam, e mantenham-se focados na oportunidade de aprendizagem e autoaperfeiçoamento! É assim que vão vencer as sombras interiores e ganhar luz!
Se hoje trazemos esses relatos, é porque existe a permissão do Cordeiro, e se Ele permite, é porque existe a necessidade entre os encarnados.
Cada um desses contos é um remédio para a alma! Desejo que a cura chegue em todos os corações feridos que necessitam de consolo.
Façam bom proveito!
Fiquem na paz de Nosso Senhor Jesus Cristo e da Virgem Maria.
José Boiadeiro - 2020
CAPÍTULO 1
A Morte do Macumbeiro
Na década de oitenta, Edinelson completava trinta anos de trabalhos mediúnicos em um terreiro de Umbanda na região de Alagoas. Com quase cinquenta e cinco anos, gozava de boa saúde e bom humor. Acostumado com a vida simples ao lado da esposa Chica e do filho Fabrício, ele raramente se queixava e sempre aguardava com ansiedade o dia de trabalho.
Os anos de dedicação e muita disciplina transformaram Edinelson em um médium exemplar que raramente interferia na atuação dos guias. Consciente das atividades que envolviam o trabalho, vez ou outra, ele manifestava algum tipo de animismo, que para os guias era normal e compreensível, pois nunca passou dos limites ou interferiu no labor mediúnico.
Entre os trabalhos com Caboclo, Exu e Preto Velho, era com o Boiadeiro Zé do Laço que ele mantinha mais afinidade e um carinho especial.
Durante uma gira de direita, Edinelson realizou o trabalho com plena dedicação e após o atendimento do último consulente, Zé do Laço se desconectou, aguardou alguns instantes e transmitiu a mensagem:
— Edinelson, meu amigo, está chegando a hora!
Edinelson franziu o cenho, enrijeceu o corpo e estremeceu. Temendo o aviso espantoso, ele rapidamente tratou de criar uma desculpa:
— Devo estar ficando louco! Isso é coisa da minha cabeça!
Ansioso para se livrar da má impressão, ele seguiu rapidamente para o altar, bebeu um copo com água e quando se preparava para voltar ao lugar, ouviu novamente:
— Não é coisa da sua cabeça! Sou eu! Zé do Laço! Vamos ser francos, você sempre exagerou na comilança! Tá certo que não fuma e não bebe, mas adora uma carne vermelha! E tá chegando a hora!
Edinelson sentiu o coração disparar, bebeu mais um pouco de água e novamente ouviu o Boiadeiro:
— Não posso te falar a data, mas vai ser logo! Não se preocupe, vou estar ao seu lado! Você foi bom homem e fez um bom trabalho!
Reconhecendo que não era uma criação da própria mente, ele abaixou a cabeça, se concentrou e perguntou mentalmente:
— Que dia vai ser? Quando é que vou morrer?
— Não tem uma data certa! Não é assim que as coisas funcionam! Só posso adiantar que não vai demorar muito!
Aterrorizado com a possibilidade, Edinelson questionou:
— Vai ser esse mês?
— Não sei, homem! Pode ser amanhã, daqui uma semana ou um mês! Não existe uma data exata! Talvez você passe pela porta e um avião caia na sua cabeça! Quem sabe você escorregue e quebre o pescoço, ou morra em um assalto! Tudo depende das suas escolhas e do que vai atrair! Só posso afirmar que o fim do seu planejamento está próximo.
Imaginando as possibilidades, Edinelson sentiu um frio na barriga, secou a testa suarenta, esfregou as mãos geladas e ouviu Zé do laço falar em sua mente:
— Tô avisando para você se preparar, não precisa se borrar de medo! Esse tipo de sentimento só faz mal, quando chega a hora do desencarne as vibrações vão lá para baixo e a criatura acaba caindo direto no umbral! Não queremos te buscar naquele lamaçal fedorento e cheio de m*! Se atente homem!
— Mas Zé do Laço! Eu tenho muito medo de morrer! Sinto um pavor danado!
— Homem do céu! Vou estar com você! Agora vá pra casa descansar e esqueça isso! Mas se prepare!
Quando o Babalorixá deu início a oração de encerramento, Zé do Laço se afastou e Edinelson se esforçou para conter o corpo trêmulo.
Minutos depois, ao olhar para o carro velho parado na frente do terreiro, ele viu Chica e Fabrício esperando, respirou fundo e se concentrou para esconder o nervosismo.
Captando o medo do marido, quando o carro entrou na avenida tranquila, Chica perguntou:
— O que foi que aconteceu, homem?
Com os olhos presos na direção, ele respondeu:
— Não aconteceu nada!
— Homem, você não disse uma palavra desde que saímos do terreiro!
Fabrício, que estava sentado no banco traseiro comentou:
— É pai, o senhor está estranho! Aconteceu algum problema?
Edinelson resmungou:
— Não aconteceu nada!
Pouco tempo depois, ele estacionou na garagem, e sem dar chances para novas perguntas, foi direto para o banho, em seguida se enfiou embaixo das cobertas, fechou os olhos e fingiu que estava dormindo.
Meia hora depois, Chica entrou no quarto, e se deitou exclamando:
— Não adianta fingir que tá dormindo! Senhor Edinelson, abra os olhos e vamos conversar! O que aconteceu naquele terreiro?
Sabendo que não conseguiria escapar da esposa, ele abriu os olhos e confessou:
— Estou preocupado.
— Com o que, homem? Coloca isso pra fora e alivia teu coração! Não presta ficar com as coisas guardadas.
— Sabe o que é, Chica, estou com medo, o Zé do Laço disse que tá chegando a minha hora!
Chica olhou com apreensão, agarrou as mãos de Edinelson e afirmou:
— Que nada homem! Você é forte igual um touro e vai viver muito!
— Não sei mulher! Se ele avisou então tem coisa!
— Você nunca teve problema de saúde! Todo dia bate um prato cheio de arroz com feijão, come muito ovo, carne, toucinho. Tudo comida boa que dá força!
— Então! Tô começando a achar que essas coisas não fazem muito bem pra saúde! Vou confessar, já tive dor no peito duas vezes, tô achando que é melhor ir pro médico! Não quero morrer não! Não vou morrer!
— Então na segunda-feira mesmo você vai pro médico e pede os exames do coração! Vai ficar tudo bem! Marca com o doutor Jarbas, ele é bom!
Edinelson pensou um pouco e concordou:
— Verdade! Segunda-feira eu vou ver o doutor! Não deve ser nada!
— Então homem, fique tranquilo, amanhã é domingo e vou tratar de fazer uma comidinha bem gostosa. Que tal uma saladinha, arroz e aquela costelinha assada que você gosta?
Edinelson sorriu, abraçou a esposa e disse:
— A salada você pode comer! Eu fico com a costelinha!
Chica deu uma gargalhada, beijou o rosto do marido e se aconchegou nos braços que lhe transmitiam sincero carinho.
Poucos minutos depois, o casal se entregou ao sono profundo. No dia seguinte aproveitaram o domingo para descansar e na segunda-feira, por volta das dez horas da manhã, Edinelson já estava no consultório do médico aguardando um encaixe.
Pouco antes do meio dia, Doutor Jarbas chamou:
— Edinelson, pode entrar!
Tomado pela ansiedade, ele sentou-se diante do médico e foi logo falando:
— Doutor Jarbas, eu ando com umas dores esquisitas no peito, às vezes o braço puxa, sabe?
— E desde quando sente essas dores?
— Já tem algumas semanas!
— Você fuma?
— Não doutor! Não fumo e não bebo nada de álcool!
— Como é a sua alimentação? O que você come normalmente?
— Ah doutor, eu gosto muito de uma carninha de porco, toucinho é bom né? Um franguinho e bastante ovo frito! Na verdade, eu gosto muito de carne!
O médico olhou com reprovação e comentou:
— Essa comida não é muito saudável! O senhor precisa comer mais saladas e diminuir o consumo de carnes!
— Ahhh doutor, mas um torresminho é bom demais! Sou da roça e lá gostamos de um pão com banha!
O médico bufou, balançou a cabeça negativamente e perguntou:
— E você faz exercícios?
— Faço no trabalho! Passo o dia inteiro puxando saco e carrinho de cimento na obra!
— Isso não é exercício, é trabalho! Vou te encaminhar para um cardiologista, é melhor ver um especialista!
— Não tem um remédio não?
— Olha, pra ser sincero, não sei se estou falando com um fantasma ou um vivo!
Edinelson estalou os olhos e interrogou:
— Mas porque doutor?
— Não sei como o senhor ainda está vivo! Com quase 55 anos, sem histórico de check-up, sem exercícios e comendo todas essas carnes gordurosas, eu não sei como ainda não morreu!
A sinceridade inesperada do médico fez Edinelson pensar por alguns segundos, e pouco tempo depois ele falou:
— Doutor Jarbas, eu não quero ir pra outro doutor! O senhor não pode me ajudar?
Jarbas olhou com preocupação, suspirou e respondeu:
— Está bem! Mas você vai fazer tudo que eu pedir! Não pense que me esqueci, você já esteve aqui duas vezes e nunca fez os exames!
— Prometo doutor! Vou fazer tudo!
Jarbas pediu um check-up completo e quando entregou o maço de folhas para Edinelson, recomendou:
— Faça-me o favor de sair daqui e ir direto marcar esses exames! Isso é pra ontem!
— Tá certo, doutor!
Edinelson se despediu do médico, voltou para a obra, se esqueceu dos exames e, no final do dia, quando chegou em casa e se deparou com Chica, estremeceu ao ouvir a interrogação:
— Foi no doutor Jarbas?
— Fui, mas olha o tanto de papel! Tudo exame que ele pediu!
— Então vai fazer os exames, homem!
— Eu faço! Mas só na próxima segunda! Amanhã é terça-feira e o ambulatório vai estar lotado!
Chica franziu a testa e retrucou:
— Então vai na quarta ou na quinta! Não tem que esperar até a próxima segunda!
— Chica! Já nem tô sentindo mais nada! Vou na próxima segunda, é o dia mais vazio!
— Homem, homem! Você sempre faz dessas! Inventa desculpas e nunca faz os exames!
— Prometo que na segunda eu vou!
Alguns dias se passaram, no sábado Edinelson seguiu para o trabalho no terreiro e quando se aproximava o final da gira, Zé do Laço se aproximou perguntando:
— Na segunda você vai né?
Edinelson captou a pergunta do guia e indagou:
— Vou aonde?
— Fazer os exames!
— Ah! Vou sim! Vou sim!
— Isso mesmo! Vai e faz tudo certinho, isso vai te dar um tempinho a mais!
— Pode deixar! Segunda-feira bem cedinho, eu vou fazer todos os exames!
Mais um final de semana passou e na segunda à noite, Chica perguntou:
— Fez os exames, homem?
— Não deu tempo pra fazer hoje! Amanhã eu vou!
— Edinelson, Edinelson! Você está enrolando de novo!
Fingindo não ouvir a reclamação. Edinelson mudou o canal do televisor e se esticou no sofá.
Os dias se passaram, novamente chegou o sábado de trabalho no terreiro, Edinelson trabalhou com o guardião e quando se preparava para sair, ouviu Zé do Laço falar em sua mente:
— Homem, homem! Você preste atenção no que anda fazendo!
Ele olhou para os lados e respondeu baixinho:
— Mas hoje é gira de esquerda! O que tu tá fazendo aqui?
— Vim trabalhar também! Não posso trabalhar em gira de esquerda?
— Eu não sabia que linha de direita trabalha nas giras de esquerda!
— Claro que trabalha! Essa crença besta é coisa da cabeça de vocês! Você vai fazer os exames ou não vai?
— Prometo que semana que vem vou fazer os exames!
Quando Edinelson se preparou para ouvir a bronca, Zé do Laço se afastou sem pronunciar sequer uma palavra.
Na semana seguinte, Edinelson arrumou uma nova desculpa para escapar dos exames e na quarta-feira o resultado previsto de apresentou enquanto ele empilhava os tijolos na obra.
Ao sentir a dor lancinante no peito, Edinelson estremeceu, sacudiu o corpo e gemeu.
Toninho olhou para Edinelson se contorcendo e falou em tom de brincadeira:
— Eita! O macumbeiro tá incorporando o Preto Velho!
Quando Edinelson esticou o braço, mostrando o rosto contorcido de dor, Toninho gritou:
— Não é Preto Velho nada! Ele tá passando mal! Socorro! Acudam!
Atordoado com a forte dor que se irradiava pelo braço, Edinelson caiu no chão com a mão no peito e desmaiou.
No mesmo momento os peões chamaram o socorro , pouco depois a ambulância removeu Edinelson para o hospital e na primeira oportunidade Toninho ligou para a família.
Enquanto Chica corria para o hospital e rezava pelo marido, os médicos rapidamente encaminharam Edinelson para a mesa cirúrgica, colocaram as pontes de safena e o transferiram para a UTI com um prognóstico de apenas vinte por cento de sobrevivência.
Completamente desnorteada, Chica atravessou a recepção do hospital, viu Toninho sentado de cabeça baixa no corredor e perguntou em prantos:
— Meu Deus do céu, Toninho! Ele morreu, foi?
Toninho a abraçou respondendo:
— Calma, dona Chica! Calma! Ele tá vivo! Como a senhora demorou!
— Eu sei! Você sabe como é, não é fácil conseguir uma carona pra cidade! Se viesse de ônibus ia chegar amanhã! O médico já veio?
— Sim! O médico falou que tem cinquenta por cento de chance!
— Eu avisei tanto esse homem! Falei pra ele não comer tanto toucinho! Mas cinquenta por cento é bom, né Toninho?
— É bom! É bom sim! Eu conheço o homem, ele é teimoso igual uma mula! Não adianta falar!
Quando o médico residente se aproximou, Chica rapidamente apelou:
— Moço, moço! Como está o meu marido?
— Não sei, minha senhora! Acabei de chegar para o plantão!
Ela olhou com tristeza e pediu:
— Você poderia dar uma olhada e trazer notícias do meu marido? Ele se chama Edinelson.
Comovido com o apelo, o médico residente saiu em passos rápidos e logo voltou com as informações:
— Senhora, infelizmente, eu não tenho boas notícias. O seu marido tem apenas vinte por cento de vida!
Toninho se aproximou e falou com irritação:
— Vinte por cento? Mas o médico disse que era cinquenta! Já caiu tudo isso?
O médico responsável se aproximou, olhou com reprovação e disse:
— Ele tinha cinquenta por cento, mas as coisas pioraram! Neste momento não resta muita esperança, no máximo dez por cento de chances!
Chica levou a mão na testa e quando ameaçou desmaiar Toninho gritou:
— Acudam! Tragam um copo de água com açúcar!
O médico olhou de canto e murmurou para enfermeira:
— De água com açúcar, se ela acredita que vai ajudar, então deixe que beba, mal não vai fazer!
Pouco tempo depois, a enfermeira entregou o placebo, Chica virou o copo de água açucarada e agradeceu:
— Obrigada moça, agora estou bem melhor!
Notando que Chica parecia mais controlada, o médico explicou:
— Durante a cirurgia, nós colocamos duas pontes de safena e...
Enquanto o médico explicava, Fabrício entrou correndo enlouquecidamente e gritou:
— Pai! Pai!
Chica correu na direção do rapaz e pediu:
— Calma, filho! Seu pai não tá aqui! Tá na Uti!
O médico observou o jovem com aproximadamente 25 anos usando um uniforme escolar azul marinho e perguntou:
— O senhor é filho do paciente?
Chica se adiantou respondendo:
— É o nosso menino! Ele se chama Fabrício!
O médico estendeu a mão para cumprimentar Fabrício e perguntou:
— O senhor é professor de educação física?
Fabrício deu uma risada abobalhada e respondeu:
— Não sou professor não! Ainda sou aluno!
O médico sorriu discretamente e falou:
— Ah, me desculpe! Que faculdade você faz? Está cursando educação física?
Fabrício deu outra risada esquisita e explicou com empolgação:
— Não é faculdade não! Tô no segundo ano! Dessa vez vou conseguir passar pro terceiro e daí eu acabo a escola!
Chica alisou a camiseta do rapaz, tentando limpar uma mancha, e resmungou:
— Eita Fabricio! Onde foi que você sujou tanto seu uniforme?
— Eu tava jogando bola com os meninos, mãe!
— Jogando bola! Jogando bola! Pra você só existe bola, pipa, carrinho! Depois vai pra casa trocar essa roupa suja! Quer que o seu pai acorde e te veja assim?
Fabricio abaixou a cabeça com tristeza e murmurou:
— Não mãe!
Tentando esconder o espanto, o médico se perguntou qual seria o problema mental do rapaz, e depois de algumas reflexões, pediu:
— Por favor, aguardem as próximas informações. Eu aviso se houver qualquer mudança no quadro do seu Edinelson.
Fabricio, Toninho e Chica seguiram as orientações, mas de tempos em tempos cercavam as enfermeiras suplicando por informações.
Aproximadamente seis horas depois, o médico se aproximou pedindo:
— Dona Francisca, por favor, me acompanhe!
Chica olhou para os lados, apontou o dedo para o próprio peito e perguntou:
— Eu? O senhor tá me chamando?
— Sim! A senhora mesmo! É a dona Francisca, certo?
Chica franziu a testa, enrugou os lábios e retrucou com aspereza:
— Não! Meu nome não é Francisca! De onde o senhor tirou isso?
— Ouvi a enfermeira chamá-la de dona Chica, acreditei que seu nome fosse Francisca!
A mulher bufou, revirou os olhos e falou com irritação:
— Meu nome é Chicória! Fique o senhor sabendo que herdei esse nome da minha avozinha!
O médico olhou com surpresa, deu uma tossida para disfarçar a risada e apontou convidando:
— Dona Chicória, me acompanhe, nós precisamos conversar.
— Toninho e meu menino vão junto!
— Eles podem vir, não tem problema, me sigam!
Quando o grupo entrou no consultório, o doutor indicou uma cadeira, olhou com tristeza e falou:
— Dona Chicória, eu já percebi que a senhora é uma pessoa sensível, também notei que o seu menino é muito especial e tenho certeza de que vão superar essa fase, a vida nem sempre é como a gente gosta!
— Meu marido tá bem doutor?
Desejando evitar um escândalo, o médico perguntou:
— A senhora quer mais um copinho de água com açúcar?
— Não aguento mais água doce, doutor! Só quero saber se o meu marido está bem!
— Ele está como Deus quer!
— Ahhh que bom, doutor! Já tava achando que era notícia ruim!
O médico se encostou à cadeira tentando relaxar, pensou em como dar a notícia do óbito e perguntou:
— A senhora ama muito esse homem, não é mesmo?
— Às vezes dou um cacete nele, mas não posso reclamar!
O médico olhou para Fabrício e Toninho, que pareciam dois bonecos com olhos arregalados e continuou:
— Ele era um bom homem! Dava pra ver!
— Era sim doutor! Meio safado às vezes, mas era safado só comigo.
Se esforçando para transmitir a notícia da melhor maneira, o médico deu uma risada contida e murmurou:
— Ele era! Era bom mesmo! Era mesmo!
Recusando-se a aceitar a verdade, após alguns instantes de silêncio, Chica perguntou:
— Doutor, eu já posso ver o meu marido?
O médico olhou com certa impaciência e falou:
— Dona Chicória, eu estou tentando muito ajudar, mas parece que a senhora não quer entender!
— Entender o que doutor?
Fabrício respondeu:
— Nossa mãe! Até eu já entendi!
O médico estendeu a mão na direção do rapaz e exclamou com indignação:
— Está vendo! Até o menino já entendeu!
Chica olhou com espanto e perguntou:
— Meu marido está bem?
O médico secou a testa e respondeu com impaciência:
— Está bem! Está bem! Está nos braços de Deus!
— Mas o senhor disse que ele estava bem!
— Eu estava ajudando a senhora a entender a situação! Mas está complicado!
— Onde está o meu marido? Quero ver o meu marido!
Quase perdendo a compostura, o médico frisou:
— Era! Era! Era um bom homem! Ele está bem, nos braços de Deus! Ele morreu! Entenda, minha senhora!
Ante a dura realidade, Chica deu um grito e se lançou aos prantos no chão. Compartilhando o desespero, Fabrício se atirou ao lado e também se entregou aos berros, Na tentativa de consolar Chica e Fabrício, Toninho começou a resmungar palavras incompreensíveis e aumentou a algazarra no consultório do médico, que rapidamente chamou uma enfermeira, prescreveu um calmante e sussurrou:
— Faça essa mulher tomar um calmante, isso vai ajudar!
Enquanto as enfermeiras e Toninho lutavam para consolar Chica, Zé do Laço removia lentamente os liames que mantinham o corpo espiritual de Edinelson atado aos restos mortais.
Após um calmante, muito esforço e paciência das enfermeiras, Chica recobrou o equilíbrio, olhou para Fabrício e pediu:
— Filho, você precisa me ajudar, tá!
Quando o rapaz balançou rapidamente a cabeça, Chica explicou:
— Você vai até a nossa casa, abre aquele armário pequenininho onde tem um telefone em cima, e pega a agenda com capa preta. Tá entendendo filho?
Fabrício coçou a cabeça, olhou para o chão, pensou alguns instantes e murmurou:
— Tô entendendo, mãe!
— Filho, você pega a agenda com capa preta e começa a ligar para todos os nomes da lista! Você me entendeu?
Novamente ele balançou a cabeça com energia e respondeu:
— Ligo para todas as pessoas e falo o quê?
— Avisa que o seu pai morreu e o velório vai ser na capela da Nossa Senhora de Fátima.
— Tá bom, mãe! Mas como é que a senhora sabe que ele vai ser velado na capela de Fátima?
— Porque é uma capela municipal, filho! Não temos como pagar uma particular. Vai, meu filho, pelo amor de Deus, vai fazer o que pedi!
Quando Fabrício saiu correndo, Chica olhou para Toninho e comentou:
— Só espero que esse menino consiga fazer o que eu pedi!
— Calma Chica! Ele dá conta do recado! É bom menino!
— Toninho do céu, eu nem sei como vou fazer tudo sozinha!
— Vou te ajudar! O Edinelson era o meu melhor amigo! Não vou deixar vocês desamparados!
Chica agradeceu o amparo de Toninho, que a ajudou a providenciar um caixão barato, o velório e o enterro simples, custeados com as economias guardadas.
No dia seguinte, enquanto Zé do Laço ainda trabalhava no desligamento de Edinelson, o cortejo fúnebre seguiu para o sepultamento.
Amparado por guardiões, que protegiam o cemitério, o Boiadeiro prosseguia sossegadamente e com muito carinho se esforçava para fazer o melhor por Edinelson, mas quando o momento do enterro se aproximou, ele tratou de agilizar o processo.
Invisível aos olhos dos encarnados, Zé do Laço se ajoelhou em cima do caixão, puxou os últimos cordões que prendiam o corpo de Edinelson e suplicou:
— Anda homem! Sai! Sai! Solta esse corpo!
Notando que Edinelson continuava inconsciente, o Boiadeiro olhou para o lado de fora do cemitério, avistou inúmeros espíritos desequilibrados tentando entrar e clamou:
— Pelo amor de Nossa Senhora Aparecida, homem! Ajuda! Lá fora tá cheio de quiumba querendo te pegar, teu trabalho na Terra foi bom, mas desagradou esse povinho! Tu tem que sair desse corpo! Daqui a pouco a sua família vai descer esse caixão!
Pouco depois, quando o coveiro começou a descer o caixão, Zé do Laço gemeu:
— Meuuu Deuuus! Vamos homem! Solta esse corpo! Isso não te pertence mais!
Notando que o corpo astral de Edinelson se soltava e pairava sobre a matéria, prontamente Zé do Laço cortou o cordão de prata, o último a ser desligado, o acolheu nos braços, acenou para os guardiões do cemitério e se projetou para um plano superior bem longe dos espíritos revoltados.
Enquanto os familiares e amigos retornavam para casa, Zé do Laço entrou na modesta cabana edificada em uma colônia espiritual, acomodou Edinelson na cama macia, aplicou passes para remover parte da carga negativa ainda aderida ao corpo espiritual, o cobriu com uma manta, sentou-se ao lado e exclamou:
— Mas quanta dificuldade, meu amigo! Quanto apego a matéria!
Rememorando os tempos de encarnado, Zé do Laço lembrou-se do próprio desencarne no início do século XX, criou uma caixa de fósforos, um cigarro de palha e perguntou:
— Tá acordando?
Edinelson abriu lentamente os olhos e resmungou:
— Hãm, hãm, blár, blár!
O Boiadeiro deu um sorriso, pitou o palheiro e falou:
— Eita! Não dá pra entender nada! Calma, meu amigo! Isso ainda é reflexo dos remédios que te deram no hospital. É assim mesmo, durante um tempo o corpo espiritual reproduz as impressões da matéria.
Edinelson olhou para os lados e balbuciou:
— Que lugar é esse? Quem é você?
— Dorme mais um pouco! Você ainda está sentindo as reminiscências da anestesia no corpo material! Vou coar um café fresquinho.
Notando que o Boiadeira abria as portas dos armários em busca dos utensílios, Edinelson interrogou:
— O que você está fazendo?
— Um cafezinho! Você quer?
— Poxa vida! Um café fresquinho é bom! Tô meio zonzo!
— Isso vai passar, é só ter um pouco de paciência.
Ainda atordoado, Edinelson olhou para a casa com mobílias antigas e novamente interrogou:
— Onde estou? Que lugar é esse?
Ciente de que Edinelson ainda não compreendia o próprio desencarne, Zé do Laço disfarçou a risada e falou com seriedade:
— Fique calmo, vou servir um cafezinho que vai ajudá-lo a despertar! Não é igual ao café da sua casa, mas até que é bom.
Após coar o café, Zé do Laço acomodou o bule e duas canecas sobre a mesa, em seguida retornou para a pia, lavou o coador de pano e explicou:
— Tudo que você está vendo são criações mentais que nascem das lembranças que guardo na minha memória espiritual. Essa cabana é uma cópia da casa que tive na Terra.
O Boiadeiro sentou-se, encheu as canecas com café, afofou uma almofada sobre a cadeira de palha, olhou com simpatia e convidou:
— Venha tomar café, pode sentar, tá bem fofinho! Quer outra cadeira para levantar as pernas?
Desconfiando do homem franzino com botas até os joelhos, camisa branca, calça marrom, cinturão de couro largo com uma grande fivela onde se destacava o desenho de um cavalo, Edinelson sentou-se, correu os olhos para o chapéu de couro pendurado ao lado de um laço, e perguntou:
— Eu te conheço de algum lugar?
O Boiadeiro sorriu e respondeu estalando os dedos:
— Vixi! Nos conhecemos faz tempo!
Ainda mais desconfiado, Edinelson perguntou:
— E qual é o seu nome?
— Jesuíno! José Jesuíno!
Edinelson enrugou a testa, olhou de canto e murmurou:
— Já ouvi esse nome em algum lugar.
— Quer mais um golinho de café? Mais açúcar? Se quiser mais açúcar eu crio agora mesmo! Você é meu amigo e pelos bons amigos a gente faz o melhor!
Esforçando-se para raciocinar na nova dimensão, ele interrogou:
— Seu nome é Jesuíno?
— Sim! Jesuíno! Deixe-me sentar mais perto, meu grande amigo!
O Boiadeiro arrastou a cadeira para o lado de Edinelson e comentou:
— Esse café você não encontra em lugar nenhum, é uma criação que só existe na minha mente! Sempre que quiser pode vir aqui tomar um cafezinho comigo! Me diga, você se sente bem? Está com dor nas costas?
— Não tenho dor nas costas, as vezes sinto um pouco de ardência no peito! Mas é pouca coisa!
— Eu te dei um bom trato e apliquei bastante passe pra curar o probleminha no seu coração! Desculpe o mal jeito, mas sabe o que é? Nunca fiz isso antes e não tenho prática! Desde que comecei a trabalhar com você, nunca me acoplei a outro médium.
Edinelson arregalou os olhos e balbuciou:
— Hãm? O quê?
— Deixe-me explicar direito! Veja o que a falta de experiência faz, você não está entendendo nada! Meu nome é José Jesuíno! E você deve estar pensando que sou seu guia.
Receoso e com muita dificuldade para raciocinar, Edinelson respondeu:
— Não! Eu não estou pensando nisso! Guia? Eu sinto que te conheço de algum lugar, mas não acho que é meu guia! Devo estar sonhando! É sonho né?
— É parecido com sonho. Acontecia muito quando você estava dormindo, você achava que era sonho, mas era projeção astral.
Temendo causar um impacto emocional e abalar drasticamente as vibrações de Edinelson, Zé do Laço deu um sorriso amigável e falou:
— Lembra que você tinha aquelas dores no peito?
— Hãm, hãm!
— Você tá acordado, homem? Parece que ainda tá dormindo! Esse café não tem cafeína, é um pouco diferente daquele que os encarnados consomem.
— Estou acordado sim, só quero entender quem é você, que lugar é esse e o que está acontecendo!
— Eu sou José Jesuíno! Um guia!
Edinelson abaixou a cabeça, pensou por alguns momentos e respondeu:
— Bem... O único guia chamado José Jesuíno que eu conheço é o Zé do Laço!
O Boiadeiro se calou, bebeu um gole de café e deu tempo para que Edinelson chegasse sozinho a uma conclusão.
Depois de olhar demoradamente os detalhes da cabana, Edinelson questionou:
— De qual religião o senhor é?
— Na Terra eu era católico, mas sabe como é, aqui não tem religião.
Edinelson sorriu mostrando alívio e disse:
— Se o senhor não tem religião, então posso falar a verdade, eu sou da Umbanda e trabalho em terreiro, o senhor se importa? Tem algo contra?
O Boiadeiro balançou a cabeça de um lado para o outro e respondeu:
— De jeito nenhum! Não tenho nada contra! Vou ser sincero, gosto muito dos macumbeiros!
Envolvido pela tranquilidade do Boiadeiro, Edinelson deu outro sorriso, abaixou a cabeça e confessou:
— Sabe o que é? Eu tenho um guia que desce para trabalhar comigo. Não sei explicar a ciência das coisas, desculpe a minha ignorância, mas só sei falar com essas palavras, nunca fui de estudar muito. O nome dele também é Jesuino, mas eu sempre o chamo de Zé do laço.
— É mesmo? Você trabalhava com espíritos? E como era? Eles entravam dentro do seu corpo?
— É! Eles entram dentro do corpo e tomam conta!
— Mas que coisa interessante! Então quer dizer que um fantasma entra dentro do corpo e toma conta? E além de tudo, você ainda tem um guia que se chama Zé do Laço?
— É, tenho! Mas também trabalho com o Sete Encruzilhadas, o Pai Antônio de Aruanda e outros guias.
Desejando que Edinelson chegasse ao entendimento da nova condição, Zé do Laço prosseguiu com a conversa despretensiosa, serviu mais café e falou:
— Então quer dizer que você é médium de terreiro? É muito interessante tudo isso! Depois quero conhecer os seus guias! Sete Encruzilhadas e Antônio de Aruanda, pra mim são novidades! Posso saber como era o Zé do Laço?
— Ahhh sim! O Zé do Laço é um boiadeiro barbudo, pele morena, alto, encorpado e muito forte!
— É mesmo? O homem é alto?
— É sim! Quase dois metros de altura! Enorme!
Contendo-se para não cair na gargalhada, Zé do Laço pediu com empolgação:
— Conte mais, conte mais! Fala mais desse Boiadeiro!
— Ele é um homem queimado do sol, com barba preta!
— Barba preta? É mesmo? Nossa Senhora! Ele tem muita barba?
— Muita! Barba cheia, sabe?
Zé do Laço passou a mão sobre o rosto liso e comentou:
— Que interessante! Como você pode ver, eu não gosto muito de barba. Quando encarnado sempre gostei de passar a lâmina, eu não tinha uma barba boa.
O Boiadeiro ofereceu mais um caneco de café magnetizado, aguardou alguns instantes, e pediu:
— Agora fique caladinho e preste muita atenção! Quero explicar algumas coisas. O meu nome é Zé do Laço e você é o Edinelson, durante trinta anos nós trabalhamos juntos, e isso aqui não é um sonho!
Edinelson deu um leve sorriso mostrando incredulidade, mas quando Zé do Laço olhou com seriedade, ele sentiu o calafrio descer pela coluna, observou o homem de baixa estatura e interrogou:
— Se isso não é um sonho, o que é então?
— Vou explicar, mas você precisa manter a calma, se entrar em desespero e tristeza as vibrações caem e puft! Você vai para o umbral! Não pode ficar triste e nem com raiva! Entendeu? Qualquer passinho para baixo você cai!
Notando que Edinelson olhava com espanto, Zé do Laço continuou:
— Sabe aquela dor no peito? Eu tirei tudo para você!
— Tirou?
— Sim! Eu sei tirar dor também! Sabe o que acontece quando as pessoas morrem?
— Sim, elas vão para o umbral!
— Nem sempre, às vezes, elas vão para um lugar semelhante a esse, é um bom lugar!
— Hãm, hãm!
Notando que Edinelson lutava para permanecer na ignorância, o Boiadeiro falou:
— Vou ser mais direto! Filho, você morreu, tá mortinho, mortinho! O seu coração parou e não bateu mais! Eu posso afirmar porque estava ao seu lado. Lembra-se que eu avisei? Eu disse que o desencarne estava próximo e sugeri que fosse ao médico. Era para você ter vivido mais dois anos, mas você fugiu dos exames! Deu no que deu!
Com o semblante atônito, rosto pálido e olhos lacrimejantes, Edinelson murmurou:
— Por favor, o senhor poderia repetir a primeira frase?
— Qual frase? Que você morreu?
— Sim!
— Você morreu! Tá mortinho, mortinho!
Edinelson bateu a mão na perna, apalpou a
