Memórias da Lapa Paulistana
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Sobre este e-book
A narrativa, idealizada nos anos 1960 durante a faculdade de Jornalismo, foi concluída muito mais tarde, quando o jornalista enfrentou graves problemas de saúde que o afastaram do ofício e o levaram à morte.
Além de um relato fascinante acerca dos momentos de felicidade compartilhados no bairro onde José Maria nasceu e cresceu, este livro é uma declaração de amor a uma parte fundamental da geografia paulistana e um documento valioso da história urbana.
"José Maria de Lima amava a Lapa porque foi feliz na Lapa e amava a vida porque conheceu a felicidade durante a vida."
— André Nicacio Lima, historiador
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Memórias da Lapa Paulistana - José Maria de Lima
MEMÓRIAS
da LAPA
PAULISTANA
José Maria de Lima
A Irene Videira e ao nosso filho Paulo Evaristo.
A meus irmãos e irmãs, que me ensinaram os caminhos da Lapa.
À memória
de meus pais, Paulo Lima e dona Nenê, que me transmitiram o amor à Lapa;
de Neide O. Lima e Nilton Zanutin, mais do que cunhados;
de Joana de Aguiar Videira, mãe de doze filhos e de uma infinidade de anônimos que a adotaram como símbolo do amor materno;
e dos amigos que tombaram no meio da jornada:
Adílton do Amaral
Agnelo (feirante)
Agostinho Ferreira Martins
Alexandre Salomão de Moraes
Amauri Pereira da Silva
Antonio José de Souza (Tonhão Negão)
Aureliano Mota
Boanerges de Souza Massa
Celso de Souza
Generoso Feola (Italiano)
Iraídes Gouvea Veiga
José Rodrigues Braga
Lolão Hungareis
Lotharzinho Charoux
Milton de Souza (Mirtão)
Teleco
Ulisses
Valdir Amador da Silva
Apresentação
Este é um livro de memórias de uma infância e de uma juventude vividas no bairro da Lapa, em São Paulo, em meados do século XX. Sua inspiração foi o imenso amor que o autor, o jornalista José Maria de Lima, sentia pelo lugar onde nasceu e cresceu, lugar a partir do qual construiu seus primeiros afetos, conhecimentos e ideias a respeito do mundo. Suas estórias, agora publicadas, interessam tanto a quem partilha com o autor o amor pela Lapa quanto a quem estuda a história e as experiências urbanas na formação de uma das maiores metrópoles do mundo.
A escrita da obra tem uma trajetória longa e descontínua que o autor descreve em diferentes momentos da obra. Começou ainda na faculdade de Jornalismo, nos anos 1960, quando ele foi incentivado por um professor a contar a história do lugar de onde veio. Porém, o livro só foi desenvolvido e concluído décadas depois, quando o autor era jornalista da Folha de S.Paulo e se viu diante de graves problemas de saúde que acabaram por levar ao afastamento do trabalho e à morte precoce.
Trata-se de uma história de bairro marcada pelos sentimentos e afetos pessoais. Nada linear, a história é narrada no entrecruzamento de trajetórias de famílias, de vizinhanças, de turmas de amigos, de escolas, de times de futebol e de tantos outros vínculos humanos que formaram as experiências do autor. Sem deixar de observar essas e outras coletividades de maneira crítica, o que ele recuperou foram primordialmente as relações que possibilitaram suas vivências no lugar incrível, admirável e invejável em que passou sua infância e sua juventude.
Além de expressar amor ao bairro, a obra manifesta uma gratidão sincera com relação aos pais, aos irmãos, aos parentes mais ou menos distantes, aos amigos de infância e juventude e a personagens muito diversos, cuja memória é construída ao longo do livro. Essa gratidão é visível no cuidado com que recuperou as atitudes e valores solidários de vizinhos, as amizades sinceras da infância e da juventude, as lições e exemplos dos irmãos mais velhos e tudo mais que lhe possibilitou uma vida repleta de aprendizados e de vivências de felicidade.
José Maria de Lima amava a Lapa porque foi feliz na Lapa e amava a vida porque conheceu a felicidade durante a vida. É assim que escreveu sobre a família, o bairro e os amigos, mais do que sobre si, para falar das coisas boas que viveu. Não se trata de uma autobiografia, já que o objeto é menos a história de si mesmo e mais a história dos contextos humanos nos quais este si mesmo
se formou. É uma memória de lugares de vivências e experiências pessoais e coletivas. Obra de grande interesse para quem quer conhecer a história destes lugares, em particular a Lapa do século XX.
Ainda que seu estilo seja o de uma crônica jornalística, estas memórias são também fruto de reflexão histórica e social por parte de alguém que cursou a faculdade de História depois de se formar em Jornalismo. As memórias são de um jornalista-historiador que descreveu as trajetórias das relações humanas que o formaram enquanto pessoa. Seus sentimentos, como o amor e a gratidão, não se manifestam em visões idealistas, mas no reconhecimento de que sua felicidade foi fruto da atuação como sujeitos históricos de pessoas como seus pais, seus irmãos, sua esposa, seus amigos, seus vizinhos, seus colegas de estudo e profissão, dentre tantas outras que ajudaram a construir a história da Lapa como uma história de uma infância e de uma juventude bem vividas.
Foi na Lapa que José Maria de Lima construiu sua consciência de mundo. O olhar do autor para as solidariedades, afetos e memórias que compõem suas experiências é uma qualidade de seu livro. Ao abordar suas lembranças de infância, ele revela uma leitura bastante complexa das relações interpessoais na vizinhança, nas casas, nas ruas, nas escolas, nos campinhos.
A história é feita a partir de lugares e é em lugares que nos tornamos quem somos. A casa onde nascemos, a rua onde brincamos, a escola que frequentamos, o campo onde jogamos. Claro que há algo de enganador neste plural, já que as vivências de cada pessoa são únicas e marcadas por diferenças sociais, culturais, religiosas, políticas, dentre outras.
A memória da Lapa seria muito diversa se contada por outras pessoas que igualmente são parte da história de sua construção e reconstrução permanente. Pessoas como os antigos moradores de rua que o autor conheceu e incluiu dentre seus personagens, com nome, história e personalidade, ao longo deste livro. Contudo, ainda que os protagonistas sejam muitos e diversos, a perspectiva da escrita é a de um jornalista, filho mais novo de um funcionário de uma companhia ferroviária sediada na Inglaterra e de uma funcionária de uma empresa cinematográfica sediada nos Estados Unidos. Capital global que moldou, pelo trabalho, as vivências familiares e de vizinhança locais. Pais católicos praticantes e devotos, nascidos em São Paulo, ele negro e ela branca. Família que teve uma estratégia lenta, mas efetiva, de participação nas oportunidades econômicas abertas pelo crescimento da cidade. Desta perspectiva, de família operária que formou filhos letrados e ingressantes na classe média, predominam memórias felizes sobre as ruas de um bairro então recém-engolido pela malha urbana de São Paulo. Por ser o filho mais novo de sua família, José Maria de Lima foi, dentre os oito irmãos, o que encontrou esta trajetória familiar melhor pavimentada.
Sua posição de observação não é a dos Taunays, dos Prados, dos Salles, dos Setúbal, beneficiários absolutos da modernização promovida pela agroexportação escravista em São Paulo. Vista de seus palacetes, a nova metrópole não teria como não ser um ótimo lugar. Porém, tampouco é a perspectiva de Mauro Mateus dos Santos, o Sabotage, para quem a construção de um bom lugar sempre se deu contra tudo e contra todos, em que uma mentira vale mais que dez verdades. Nem palacete, nem favela, a narrativa deste livro parte de uma Lapa que ia de pequenos sobrados de operários a casas espaçosas de diretores de empresas. Espaço atravessado por teias de solidariedade familiar e vicinal, mas, como todos os outros, estruturado sobre violências e hierarquias econômicas e raciais. De seu lugar e posição, José Maria de Lima descreve no cotidiano de sua infância episódios que marcaram sua percepção sobre o racismo, mesmo quando por ele entendido como ato involuntário.
Não estamos diante de uma análise sociológica ou calcada em métodos historiográficos. Trata-se de estórias
, sem a pretensão de uma validade universal ou de uma autoridade científica, construídas por um profissional do jornalismo. Leitura agradável, instigante e de fundo sentimental, muitas vezes nostálgico, de uma Lapa que não tinha mais lugar no final do século XX. A escrita lapidada por muitos anos de experiência jornalística permitiu a redação de um livro repleto de narrativas bem elaboradas, mesmo que essa escrita tenha ocorrido numa situação tão adversa.
As histórias são cheias de afeto e sensibilidade. Não fosse a explicação introdutória do autor a respeito das condições nas quais escreveu a obra, seria impossível imaginar que foi em meio a graves sofrimentos decorrentes de seu quadro de saúde que ele decidiu retomar o projeto de livro, num esforço descomunal para concluir tudo antes de morrer. Este esforço é a mais justa medida de seu amor e gratidão pelas pessoas do bairro, pela família, pelos amigos de infância e pelas muitas histórias que testemunhou ou que ouviu nas escolas, campinhos, esquinas, ruas, praças, ruelas, vielas e botecos da Lapa
, como ele mesmo definiu.
Ao retomar o projeto, em ritmo acelerado por temer a proximidade da morte, ele foi muito além de sua primeira redação. O texto dos tempos de faculdade era apenas sobre a Rua Cuevas, epicentro de sua história de vida. Na versão final do livro, a história parte da rua para chegar ao bairro, espaço de brincadeiras na infância, de futebol de várzea na juventude, de igrejas, de turmas, de bares, de pequenos e grandes eventos, de personagens marcantes. Fora do bairro, a narrativa inclui Outras Estórias, em cenários como o da Universidade de São Paulo (USP), onde o autor estudou, ou a distante vila de Agissê, no interior paulista, onde ele visitou os familiares ao longo da vida.
A história narrada por José Maria de Lima tem como marco de abertura a chegada de sua família à Lapa, em 1914, décadas antes de seu nascimento. Este encontro memorável entre família e bairro, propiciador de suas vivências de infância e juventude, abre diversos caminhos narrativos, levando a histórias sobre nascer, crescer e viver numa sociedade em rápida modernização. Suas estórias — tanto as da Lapa quanto as outras — conectam vivência pessoal à história da sociedade paulistana, brasileira e mundial, no breve século XX
.
Para situar as memórias de José Maria de Lima, antes de mais nada tratemos de conhecer de onde veio o espaço de vivências e afetos chamado Lapa, na zona oeste de São Paulo.
É impossível saber quem foram os primeiros habitantes da Lapa, mas é sabido que as margens do Tietê já atraíam grupos humanos muitos séculos antes da fundação de São Paulo pelos europeus. Emboaçava era o nome que os povos guaianazes davam à região da Lapa. A denominação persistiu na boca e na pena dos colonizadores portugueses e paulistas, falantes de língua geral, ao longo dos séculos. Em tupi-guarani, Emboaçava é o lugar por onde se passa
.¹
No tempo de guaianazes, tupiniquins e tupinambás, as várzeas paulistanas formaram sistemas de aldeias conectadas não só pelos rios, mas também por caminhos terrestres. Alguns deles deram origem a importantes avenidas e rodovias da cidade e do Estado. O célebre Peabiru, caminho que cruzava São Paulo, ligava as margens atlânticas do continente ao Pacífico, passando pelo Pantanal e pelo Altiplano boliviano, chegando a Cusco, poderosa cidade inca no atual Peru.
Local de passagem de uma margem a outra dos rios Tietê e Pinheiros, Emboaçava integrava aldeias de diferentes povos que habitavam a região, usufruindo dos diversos rios e córregos que marcam a geografia paulistana. Hoje, esta imensa riqueza hidrográfica está quase toda poluída, canalizada, enterrada e sob constante apagamento da memória. Porém, foi em torno da fartura de água boa que as pessoas ocuparam por muitas e muitas gerações a Lapa e outras partes de São Paulo.
Durante o século XVI, quando a colonização portuguesa se estabeleceu em algumas localidades acima da serra do mar, o colégio jesuíta foi uma das primeiras edificações. Este estabelecimento foi erguido na região da Sé graças a um acordo dos colonizadores com Tibiriçá, liderança da aldeia de Piratininga, uma das muitas que existiam no atual município de São Paulo.
Em tupi-guarani, Piratininga significa peixe seco
. É que a aldeia ficava numa área de várzea do rio Tamanduateí, onde, após as cheias sazonais, muitos peixes encalhavam, morriam e secavam sob o sol. Antes do estabelecimento dos primeiros europeus, Piratininga era uma das muitas aldeias da região, ao lado de outras, como aquelas que deram origem aos bairros de Santo Amaro, de São Miguel Paulista e de diversos municípios da região metropolitana de São Paulo. Assim como as demais, a aldeia de Piratininga irradiava caminhos em todas as direções.
Com a criação do Colégio Jesuíta e das demais instituições portuguesas, a aldeia foi suplantada pela vila colonial de São Paulo de Piratininga. Na época, o núcleo chegou a ser cercado por povos que reagiam às violências dos primeiros colonizadores e que pretendiam acabar com a presença europeia na região. O cerco, liderado por Jaguaranho em 1562 não obteve sucesso e, em algumas décadas, São Paulo se tornou o principal centro de organização das bandeiras, expedições armadas por colonos para a escravização de povos indígenas em áreas cada vez mais distantes do interior do continente. Capital colonial da escravização de indígenas, a cidade passou, desde então, a apagar a presença e a memória desses povos. Desde então, chegaram à região gerações de africanos escravizados, cuja lembrança seria também objeto de reiterados apagamentos.
São Paulo continuou sendo uma pequena vila por mais de três séculos. Na época da abolição (1888), sua população era de mais ou menos 60 mil habitantes. Naquele tempo, a base da economia paulista era agrária e a maior parte da população da província era formada por trabalhadores rurais escravizados, libertos e livres. Os que se encontravam escravizados estavam principalmente em fazendas de café do Vale do Paraíba e do oeste paulista, a começar por pelo eixo de Jundiaí e Campinas. A história colonial da Lapa se conecta diretamente com as plantações do oeste. Trata-se da história de uma fazenda no caminho entre São Paulo e Campinas, no local de travessia do rio Tietê, que propiciava o escoamento da produção agrícola daquela região para a capital e para o porto de Santos. Também passavam por ali aqueles que se dirigiam ao Caminho dos Goyazes, que levava às distantes minas de ouro de Goiás e de Mato Grosso.
A primeira construção colonial conhecida da região da Lapa foi uma fortificação de taipa e pilão, a Tranqueira do Emboaçava, erguida por recomendação do bandeirante Afonso Sardinha diante da possibilidade de um ataque dos tamoios e carijós, que resistiam à escravização. Durante o período colonial, boa parte do atual bairro foi uma fazenda, que até o século XVIII pertenceu aos padres jesuítas. O nome da Lapa se deve à existência, nesta fazenda, de uma capela dedicada à Nossa Senhora da Lapa, desde o século XVIII. A devoção à Nossa Senhora da Lapa, que também deu origem a bairros históricos em cidades como o Rio de Janeiro e Salvador, tinha origem portuguesa e estava ligada à atuação da Companhia de Jesus desde o reinado de D. Sebastião, quando os jesuítas se tornaram responsáveis pela localidade da Lapa, em Coimbra, Portugal.
A sede da fazenda jesuítica da Lapa se localizava no caminho de Jundiaí, muito próxima à casa onde nasceu José Maria de Lima, no atual cruzamento das avenidas Brigadeiro Gavião Peixoto e Mercedes. Outras propriedades dos jesuítas se estendiam pelo curso, então sinuoso, do rio Tietê, incluindo Água Branca, Mandi e Itaperepu. Porém, na segunda metade do século XVIII, os jesuítas foram perseguidos e acabaram por ser expulsos do Brasil. A propriedade na Lapa foi vendida ao sogro de um coronel Anastácio, que deu nome a uma parte do bairro, onde era feita a travessia do rio Tietê, a ponte do Anastácio
, dando origem à Vila Anastácio.
A Lapa dos séculos XVIII e XIX consolidou-se como uma fazenda escravista, grande produtora de cereais, chá e café. Além disso, continuava servindo de pouso no caminho cada vez mais importante entre São Paulo e o oeste dos canaviais e dos cafezais. Nas décadas finais do regime escravista, é possível encontrar diversas notícias e anúncios em jornais mencionando a presença de pessoas negras que escapavam das lavouras do oeste cafeeiro e se refugiavam na região da Lapa. A partir do momento em que a ferrovia passou a atravessar a região, o trem se tornou o principal meio para essas fugas.
A ferrovia é o marco mais importante para explicar a formação da Lapa como parte do espaço urbano de São Paulo. Foi ao longo das estradas de ferro que São Paulo se expandiu, num corredor que passa pelo Brás, Luz, Bom Retiro, Barra Funda, Água Branca, Lapa e Vila Anastácio. Ao redor deste eixo, a ruralidade se transformava, mas predominava. Esta ruralidade literalmente atravessava a Lapa descrita nessas Memórias. Quando criança, José Maria de Lima acompanhava com grande interesse a passagem estrondosa de grandes boiadas por sua rua. Elas vinham do interior, entrando em São Paulo por Pirituba, para serem abatidas e consumidas na cidade em intensa expansão. Na época da infância do autor, os mais velhos ainda tinham na memória uma Lapa de fato rural. Uma área que passou de grande fazenda escravista para um conjunto de pequenas propriedades com olarias e produção familiar de alimentos para serem vendidos na cidade. Um lugar onde se nadava nos rios Tietê e Pinheiros e em diversos córregos e lagoas.
Anúncio de venda de sítio no Diário de S. Paulo, em 1868. Naquele tempo, a Lapa era uma área rural com plantações escravistas, pastagens e olarias, atravessada por estradas e pela recém-construída ferrovia.
Anúncio do início das atividades da Estação da Lapa da São Paulo Railway,
em 1898. O superintendente da companhia, William Speers, hoje dá nome
à rua da estação, na Lapa de Baixo.
O pai de José Maria de Lima nasceu no bairro do Bom Retiro em 1899, coincidentemente o ano em que foi inaugurada a Estação Ferroviária da Lapa. A estação foi construída onde a ferrovia cruzava a Rua 7, que hoje se divide em Rua Doze de Outubro, na parte central da Lapa, e Rua Tenente Landi, na Lapa de Baixo. A partir deste núcleo, a urbanização começou pelas terras baixas próximas do rio Tietê e da ferrovia (Água Branca, Vila Anastácio, parte baixa da Vila Romana), expandindo-se posteriormente para os contrafortes do Espigão Central de São Paulo (Alto da Lapa, Vila Ipojuca, Bairro Siciliano). Contudo, as áreas de várzea do rio Tietê foram as últimas a serem urbanizadas. Ao longo da infância e juventude de José Maria de Lima, os grandes ocupantes das várzeas eram as olarias e os times de futebol, quase sempre improvisados.
A ferrovia foi crucial, mas não foi tudo. Depois dos trens, vieram também bondes, automóveis, caminhões, bicicletas, motocicletas, ônibus... Os principais caminhos, porém, ainda são aqueles muitas vezes pisados por falantes de tupi-guarani muitos séculos atrás. Ainda que o traçado tenha se alterado ao longo do tempo, sempre se tratou de conectar as duas margens do rio, ligando a área atual do centro de São Paulo ao seu entorno em sentido noroeste. A colonização portuguesa e a agroexportação do oeste paulista apenas fixaram o trajeto principal da travessia na antiga Estrada de Jundiaí, que atualmente é formado pelas ruas Barão de Jundiaí, Brigadeiro Gavião Peixoto e Monte Pascal. A denominação Barão de Jundiaí se deve ao fato de que este grande agroexportador escravista do oeste paulista foi o empreiteiro da obra. Atualmente conectado à Rodovia Anhanguera (e próximo também da Bandeirantes e da Castelo Branco), por muito tempo este caminho teve como veio principal a estrada de Campinas, que virou estrada velha de Campinas
e que hoje é a Avenida Raimundo Pereira de Magalhães. Nos dias de hoje, a avenida confunde as pessoas que se deparam com seu fim, na Lapa, e seu recomeço, em Pirituba. É que em outros tempos ali existiu uma ponte.
O Tietê teve um papel central na formação do bairro, mas também foram determinantes diversos rios e córregos que acabaram canalizados e em grande medida apagados da memória ao longo do século XX. O maior deles, o Tiburtino, nasce nas encostas da Vila Ipojuca, atravessa o centro da Lapa e deságua no rio Tietê, nas proximidades da Ponte do Piqueri.
Além dos caminhos e dos rios, a formação urbana do bairro também foi estruturada em torno da Capela de Nossa Senhora da Lapa, elevada à paróquia em 1911. Naquele contexto, a influência da Igreja Católica era sempre determinante na produção das cidades. Não apenas aqui, mas em toda a América Ibérica, o templo católico e a câmara ou cabildo municipal foram o núcleo central desde o período colonial. Era em torno dessas edificações e de seus poderes que se eram erguidas as casas e também os comércios, quartéis, cemitérios, hospitais e demais instituições que organizavam a vida urbana.
A Lapa surgiu como surgiam as cidades coloniais, produzindo em torno de si algumas dessas instituições. Foi assim com diversos bairros de São Paulo, sendo que, no caso de Santo Amaro, tratava-se de outro município até menos de um século atrás. Entre a Lapa e a cidade
, o que havia de urbano no começo do século XX era o entorno da ferrovia. Quando surgiram os bairros da Pompéia e de Perdizes, tratava-se de pequenos arruamentos próximos à linha do trem, em terreno plano; só depois surgiram como bairros montanhosos, que escalaram o espigão até encontrar a subida, em sentido contrário, que vinha desde Pinheiros e de seu outro grande rio.
Por sua vez, o eixo da vida comercial da Lapa é a Rua Doze de Outubro desde os primeiros dias aos dias de hoje. Mais recentes, o Mercado Municipal da Lapa, a Ceagesp, as galerias e os shopping centers reforçaram o lugar da Lapa como centro comercial não apenas da Zona Oeste, mas também de imensas periferias que se estendem para muito além dos limites do município.
O tempo de José Maria de Lima já não era o tempo da Lapa Fazenda, mas ainda não era o tempo da Lapa Centro Expandido. Quando o autor nasceu, o Rio Tietê estava acabando de ser canalizado e já era poluído em benefício dos barões da indústria, herdeiros diretos do capital escravista do café.
A Lapa dessas memórias era a Lapa da ferrovia, onde residiam muitos funcionários da estrada de ferro, dentre eles o pai do autor, Paulo Lima, que era filho de um marceneiro negro que nasceu em 1862, numa São Paulo ainda fortemente escravista.
Essa proximidade temporal com a escravidão parece ter tido implicações objetivas/subjetivas de várias ordens. Mentalidade, cultura, imaginário e psiquismo
, sugere o historiador Salloma Jovino Salomão. Em seu livro Pretos, prussianos, índios e caipiras, este especialista na história cultural da cidade enfoca as trajetórias negras coletivas nas bordas da mesma São Paulo descrita por José Maria de Lima. A mesma cidade, porém outra.²
A integração urbana da Lapa produziu primeiramente um bairro operário, que da perspectiva periférica está da ponte pra lá
. Sua sociabilidade se assemelha à dos bairros centrais, onde não se sujava o pé de barro, onde o trem e os bondes tinham regularidade, onde o Estado não sonegou saneamento básico e equipamentos públicos. De forma semelhante ao que ocorreu no rio Pinheiros, centro e periferia foram divididos, tendo as pontes como marcos de suas contraditórias inter-relações.
Para visualizar essas mudanças, podemos observar a formação da Lapa em algumas plantas da cidade. Num Mappa da cidade de São Paulo e seus subúrbios, de 1847, os limites suburbanos são as igrejas da Consolação e da Santa Ifigênia, o convento da Luz, a freguesia do Brás (então pouco mais que a chácara do bispo
) e o cemitério e campo da forca na Liberdade. O rio Tietê e sua Ponte de Santana aparecem no extremo do mapa, mas o Pinheiros não, já que ainda era preciso cruzar uma vasta área rural para encontrar seu traçado sinuoso. Nesta época, a Lapa era uma área formada por sítios e fazendas, acessada pelo caminho que partia do Tanque do Arouche, atual Largo do Arouche.
Mappa da cidade de São Paulo e seus subúrbios (1847).
Em 1855, um Mappa da imperial cidade de São Paulo mostra, para além do Tanque do Arouche, um caminho cortado por diversos rios e córregos. Um desses córregos, denominado Água Branca, dava nome à área. Naquela época, com o avanço da economia cafeeira no oeste paulista, o caminho que atravessava a Lapa passou a ser cada vez mais importante para a economia da cidade, já que era por ele que se chegava a Jundiaí, a Campinas e a outros núcleos urbanos que organizavam a colonização.
Num mapa de 1868, o caminho que saía do Arouche aparece como sendo o de Campinas
, enquanto o caminho que saía da Consolação era o de Sorocaba
. Plantas de São Paulo das décadas de 1870 e 1880 ainda mostravam o Arouche como limite entre a cidade e seus subúrbios e áreas rurais. É apenas na década final do século XIX que a Lapa passa a entrar como área propriamente urbana de São Paulo.
Datada de 1905, uma Planta geral da cidade de São Paulo mostra a Lapa como uma pequena área urbana em torno das duas estradas de ferro. A Rua Gomes Cardim, atual Rua Guaicurus, conectava a Lapa à Água Branca, onde se dividia em duas vias principais, uma de cada lado do Parque Antártica, atual Allianz Parque, cuja primeira construção data de 1902. A primeira delas, Avenida Água Branca, depois rebatizada Francisco Matarazzo, era a via tradicional que levava até o Tanque do Arouche, passando pela Barra Funda e Santa Cecília. A segunda, Rua Itapicuru, conectava-se com os novos bairros de Perdizes e Higienópolis, chegando à Consolação.
Detalhe da Planta geral da cidade de São Paulo (1905).
Portanto, em 1914 a família Lima se estabeleceu na Lapa quando ela ainda era este pequeno núcleo urbanizado cercado por áreas rurais e semi-rurais. Uma área que ainda era borda, mas que, ao longo da vida de José Maria de Lima, se tornou centro expandido
no entre-rios da metrópole. Para além do Tietê, a infância do autor foi marcada pela imensa teia de relações de família, compadrio, amizade e vizinhança que sua mãe tecia a partir da Lapa, incluindo a outra margem do rio, onde estavam Piqueri, Pirituba e Freguesia do Ó.
Porém, a Lapa de José Maria de Lima já não tinha o rio Tietê como espaço para pescar, nadar, brincar e praticar esportes. Essas memórias mostram como as crianças da primeira geração de uma Lapa urbana encontravam facilmente áreas verdes para um brincar menos urbano. Pequenas matas e córregos ainda estavam disponíveis, mas o Tietê já agonizava. O livro também descreve como essas crianças, crias da cidade que eram, disputavam as ruas com a impositiva e muitas vezes cruel ocupação pelos veículos motorizados. Eram crianças que nadavam em lagoas e subiam em árvores, mas que também se aventuravam na produção do espaço urbano, por vezes perigosamente. Em suas memórias, o autor relembra uma imprudente odisseia infantil em galerias pluviais subterrâneas que poderiam facilmente vitimá-las em caso de chuva.
A Lapa dessas memórias foi a de uma parte da cidade que surgiu inseparável de uma vigorosa tradição do futebol de várzea nas margens do rio Tietê, que persiste até hoje. Assim como o pai de José Maria de Lima, o introdutor oficial do futebol no Brasil, Charles Miller, também era funcionário da São Paulo Railway. O bairro de trabalhadores da ferrovia inglesa foi pioneiro na paixão pelo esporte de origem britânica que formou o Brasil como país do futebol
. As várzeas entre a ferrovia e o rio Tietê, desde a Vila Leopoldina até a Barra Funda, ainda são pontuadas por estádios, campos e campinhos, mesmo sob intensa gentrificação. Na margem lapeana do Piqueri, o Bicudão. Na Água Branca, clubes e times históricos como o Nacional, o Santa Marina e o União Lapa, além dos atuais campos de treino do Palmeiras e do São Paulo. Não muito longe, o estádio do Palmeiras, hoje Arena. A Lapa é congênita do futebol como paixão e sociabilidade. O autor dessas memórias viveu intensamente as partidas em várzeas, campos e campinhos, além de ter sido um torcedor fanático do São Paulo Futebol Clube por toda a vida. Ao longo do livro, o leitor encontrará um vívido relato de um bairro que, em meados do século XX, respirava futebol.
Hoje, a Lapa já não é mais borda, mas continua sendo caminho. Serve de ligação do centro da metrópole com as periferias de além-Tietê. O bairro é considerado parte do centro expandido e, de fato, nas proporções atuais da cidade, estamos mais próximos da Sé do que das bordas das zonas oeste e norte, em conurbação com outros municípios. Para milhões de habitantes de bairros como Freguesia do Ó, Cachoeirinha, Brasilândia, Pirituba, Jaraguá e Perus, e de cidades como Caieiras, Franco da Rocha, Francisco Morato, Jundiaí, Osasco, Barueri, Carapicuíba, Jandira e Itapevi, a Lapa continua sendo Emboaçava, lugar por onde se passa
.
São Paulo reproduz desde o século XIX um padrão de um urbanismo dividido em bairros de mansão, bairros de sobrado e a favela clássica
, no dizer autorizado de Salloma Salomão. Nesta engenhosa e violenta divisão, a Lapa foi urbanizada predominantemente como bairro de sobrado, concentrando-se as mansões na City Lapa e as favelas nas várzeas do Tietê. A Lapa surgiu como bairro de operários com o mínimo de vida digna, depois virou bairro de classe média, e atualmente, de forma crescente, de classe média alta, com edifícios se multiplicando em diversas áreas, da Vila Leopoldina à Vila Romana. Essas transformações implicam não apenas a espoliação dos locais de habitação e sociabilidade dos mais pobres, como também o apagamento de sua memória.
As memórias da Lapa Paulistana não deixam de registrar aspectos da construção e reconstrução de uma sociedade racializada, apesar do caráter sistemático desses apagamentos. Tanto nas falas quanto nos silêncios, José Maria de Lima revela uma perspectiva lapeana sobre as culturas, identidades, memórias e invisibilidades históricas de São Paulo ao longo do século XX. Nesse sentido, é recomendado ao leitor que se interesse pela trajetória desta metrópole que conheça também a perspectiva das margens escrita por Salloma Salomão, na obra mencionada há pouco.
Além da marcante cisão espacial, a formação urbana de São Paulo foi incrivelmente rápida. A Lapa, que hoje é quase o centro da cidade, só se tornou área urbana após a abolição e a República, na última década do século XIX. Antes disso, São Paulo era uma cidade pequena, inferior ao Rio de Janeiro, a Salvador, a Recife, a Ouro Preto ou a Belém do Pará. Talvez o aspecto mais impressionante da imensidão populacional e territorial da cidade de São Paulo de hoje seja o fato de que tudo aconteceu extremamente rápido, mesmo para os padrões alucinantes da expansão das metrópoles em boa parte do planeta durante o século XX.
A história da modernização e do rápido crescimento da cidade tem nessas memórias uma fonte riquíssima. Não apenas trens e bondes, mas também o rádio, o cinema, a música negra produzida nos Estados Unidos, as primeiras histórias em quadrinhos. A modernidade estava na Lapa de José Maria de Lima na figura de um aviador que dava rasantes sobre a vizinhança para impressionar a esposa que assistia ao espetáculo de seu quintal. Mas também estava na figura da nadadora negra do São Paulo Futebol Clube que organizou as primeiras festas na Lapa onde se dançava rock-and-roll no bairro, uma dança proibida
. Estas festas de uma modernidade negra onipresente na urbanização de São Paulo eram frequentadas por atletas do São Paulo Futebol Clube e por jovens da vizinhança como José Maria de Lima, interessados por esta contagiante e proibida
novidade.
Neste e em outros momentos da obra, é possível construir, a contrapelo, a trajetória cultural afro-diaspórica, matricial na construção da cultura urbana paulistana, mas silenciada pelos memorialistas de seu modernismo eurocentrado. Nesse sentido, não é nada irrelevante o fato de que o maior incentivador de José Maria de Lima na escrita deste livro tenha sido um importante intelectual negro antirracista de meados do século XX. O professor que exaltou o primeiro esboço desta obra era ninguém menos que o jornalista Fernando Góes, dos maiores jornais de São Paulo, envolvido com a criação de uma imprensa negra que reivindicava um lugar melhor para os filhos e netos da diáspora africana. Nascido na Bahia, membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia e da Academia Paulista de Letras, confrontou a história literária do modernismo imigrantista que pretendia uma São Paulo branca. Dentre seus escritos mais relevantes, está um estudo sobre a vida e a obra do advogado abolicionista Luiz Gama. José Maria de Lima iniciou a redação dessas Memórias sob o olhar incentivador de um intelectual desse porte.
Além de jornalista, o autor era historiador e tio do também historiador André Nicacio Lima, a quem foi confiada a tarefa de organizar e encaminhar a publicação do livro. Assim como meu tio, nasci, cresci e me entendi no mundo a partir da Lapa paulistana. Minhas memórias guardam semelhanças com as do meu tio: brincadeira nas ruas que ainda persistiam nos anos 1990 nas ruas de classe média do Alto da Lapa, grandes quermesses nos diversos templos católicos do bairro, o futebol de várzea nos campos da Lapa de Baixo, a linha divisória entre a Lapa de casinhas e a Lapa de mansões, a presença marcante dos trens, do rio Tietê, das pontes, dos viadutos, do Mercadão. Contudo, em todos esses casos, são vivências separadas por décadas de rápidas transformações. Meu tio era um homem maduro precocemente adoecido quando eu era criança.
Assim como ele, viajei por diversas vezes à Agissê durante a infância, em visita aos familiares da região. Porém, não vivi o tempo de caçadas de onça no sertão descrito por meu tio. Meu espanto era outro, com os grandes rebanhos de bois, algo que na infância de meu tio era possível observar na Lapa.
As memórias de José Maria de Lima no oeste paulista distante, mais próximo do Pantanal do que da capital, são narradas na segunda parte deste livro — as Outras Estórias. Trata-se de um conjunto de lembranças do que meu tio viveu fora da Lapa. Estórias da Universidade de São Paulo, onde cursou História e conheceu sua menina dos olhos lindos
, a então estudante de Farmácia e Bioquímica Irene Videira, sua esposa e companheira até o fim da vida. Estórias de hospitais, quando enfrentou um tumor no cérebro e quase morreu aos 20 anos de idade, além de outras lutas posteriores. Enfim, estórias que também o constituíram, mesmo que longe da Emboaçava paulistana.
Uma dessas estórias é a do Doutor Boanerges, que quando ainda era estudante de Medicina lhe garantiu tratamento para o tumor. Os dois haviam se conhecido ao passarem as férias na distante e pequena Agissê. Anos depois, em 1969, no contexto dramático de aprofundamento da ditadura militar-empresarial no Brasil, Boanerges tomou o caminho do enfrentamento e se tornou um dos milhares de indivíduos mortos e desaparecidos sob a tutela do Estado brasileiro naquele período. Foi contra os apagamentos produzidos pela ingerência militar-empresarial na vida política brasileira que José Maria de Lima quis falar do amigo, médico da guerrilha
.
Ainda que em outro tempo, me construí tendo muito em comum com meu tio, afinal partilhamos o bairro da Lapa, a família Lima, a formação em História e um tanto dos gostos, valores e visões de mundo. A imensa biblioteca que tomava a parede de sua sala sem dúvida influenciou meu interesse pelos livros. Meu ambiente de habitação e trabalho hoje se parece muito com o dele. Em minhas memórias de infância, ele era um tio que sofria graves enfermidades, que era inconformado com as estruturas de poder da sociedade e que amava futebol, cerveja, jornalismo e política. A falta de audição não o impedia de estar sempre pronto ao debate. Sua contundência
