POR UMA EDUCAÇÃO ESTÉTICA: Gilles Deleuze e Marco Lucchesi
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POR UMA EDUCAÇÃO ESTÉTICA - Carla Maria Menezes
APRESENTAÇÃO
Nunca ninguém se torna mestre num domínio em que não conheceu a impotência, e, quem aceita esta ideia, saberá também que tal impotência não se encontra nem no começo nem antes do esforço empreendido, mas sim no seu centro.
Walter Benjamin
Minha trajetória...
Rememorar minha trajetória pessoal, profissional e acadêmica é remexer em baús desorganizados e trancafiados há tempos. Porém, é um percurso necessário para justificar minha motivação para chegar ao ponto em que me encontro hoje como mestranda.
Puxar minhas memórias afetivas pensando em meu trajeto pessoal, acadêmico e profissional, me remeteu à estética de minha vida. Sensações intensas e outras, um pouco mais amenas, mas aromas, sabores, imagens, sons que ressurgem como "flashes" e, quase que automaticamente, se refletem em um sutil movimento em meus lábios esboçando um sorriso. Também lembranças que sacodem e ondulam minhas sobrancelhas, fazendo-as tomar vida própria quando vulnerabilizam minhas contrariedades e descontentamentos com plena transparência.
Hoje, percebo o quanto a Estética esteve presente em minha vida. O áspero do chão de terra do quintal da casa de meus avós paternos. Arranhões nas pernas causados pela textura dos galhos da pitangueira carregada de cores e sabores marcantes. Mesmo sendo uma menina de pouca idade, já gostava de desbravar espaços, cores e sensações.
Até os quatro anos de idade, fui a única e mimada filha. Com essa idade, ouvi de minha mãe que receberia um presente – um irmão. Agora, tinha que dividir meus pais, brinquedos e espaços, tanto físicos quanto no colo de minha mãe. O cheiro de minhas comidas preferidas deu lugar ao aroma de sopinha de bebê. O quarto cor de rosa transformou-se em amarelo e, afinal, deixou de ser um quarto de menina para ser de um casal de filhos. Eu, sendo a mais velha, deveria compreender a situação e cuidar do irmãozinho
. Não tinha a menor escolha sobre essa nova realidade, devia apenas aceitar as novas regras desse jogo e, agora, não ser mais solo.
Nesta época, a escola passou a fazer parte da minha rotina, pois dividia o tempo e a atenção de minha mãe com meu irmão. Nas horas de minha ausência, durante meu período na escolinha
, ela priorizava toda a atenção apenas para ele. Após algumas passagens rápidas por escolinhas
pequenas e provincianas de Educação Infantil, em 1980 iniciei minha trajetória em uma escola gigantesca, ao menos era assim que me parecia, o SESI – 166. Lá, vivi os melhores anos da minha infância. Afinal, estudei nesta mesma instituição da pré-escola à 8ª série (assim chamada na época, e hoje redefinida como 9º ano do Ensino Fundamental).
É da pré-escola que me vem o cheiro da massinha de modelar e do giz de cera. Os colegas sentados em grupos, em mesinhas pequenas e coloridas, a mochila pesada, mas que levava apenas um estojo e uma sacolinha de tecido xadrez em vermelho e branco com um patinho muito simpático pintado à mão pela minha mãe. Dentro da sacolinha, apenas uma toalhinha de mão com meu nome bordado, uma escova e uma pasta de dentes. Hoje, vejo que o peso ao qual me referi é maior em minha memória do que realmente era devido aos pertences carregados.
As sensações, com o passar da idade, foram se transformando. Outros sons, outros cheiros, outros sabores e outros sentimentos. Amigos, amores, desafios, expectativas trazidas pelo Ensino Fundamental, na época, com a nomenclatura de primário
. Cadernos coloridos encapados minuciosamente em um ritual entre mãe e filha, plásticos xadrezes cobrindo as carteiras e uniformizando a estética da sala de aula. Muitas de minhas referências surgiram nesta fase. A professora da 1ª série me acariciava com seu olhar acolhedor. A da 4ª série elogiava minha caligrafia e o zelo pelas folhas dos cadernos, com suas linhas pintadas com as mais lindas cores da caixa de lápis de cor de 24 cores.
Trago em minha memória o aroma dos alimentos servidos na merenda, o grito agudo do sinal que determinava nossa rotina escolar; a textura do piso rústico e quadriculado do pátio que ficava gravada em partes do meu corpo, meio que óbvias, por passar o recreio inteiro sentada com as amigas brincando no chão de Cinco Marias
. Para quem não tem mais de quarenta anos, eram saquinhos de pano recheados de arroz cru que nos desafiavam ao serem lançados ao ar e capturados com destreza. Meus cinco saquinhos foram carinhosamente feitos pela minha mãe com tecido azul de poás brancos. Enquanto os costurava, eu a observava sentada ao lado de seus pés no vai-evem do pedal da máquina de costura.
Com a chegada ao ginásio
(Ensino Fundamental II), chegaram também as descobertas e os novos desafios. A rotatividade diária dos professores em sala era uma vitrine. Cada qual com seu jeito, seu sorriso, seu carinho, seu mau humor, mas cada um deixando marcas que refletem até hoje em quem sou. Foi nessa época que veio o amor pelo magistério. O horário da aula de Português era mágico. Ver a professora Marisa entrando em sala com seus cabelos intactos, unhas vermelhas, roupas lindas e transadas
para a época, sem falar em seus calçados, que nos enchiam os olhos de admiração. Seu cheiro suave, sua voz calma e doce nos transportava, sem o mínimo esforço, para onde ela desejasse. Sua maneira de falar sobre a língua portuguesa, a gramática e a poesia, me maravilhava. Sua entonação na leitura diária era imbatível e inebriante. Surgiriam, então, minha paixão e meu interesse em estudar profundamente nossa língua.
O amor pela docência já estava em meu sangue. Ao se casar com meu pai, minha mãe interrompeu sua formação no Ensino Normal
(Magistério), mas, por volta dos meus dez anos, ela decidiu retomar seus estudos e assim voltou a cursar até concluir o magistério. Meus olhos brilhavam ao vê-la elaborando seus trabalhos, suas atividades. Ouvir seus relatos de sala de aula era algo delicioso e motivador.
Em meados dos meus onze anos, mais um presente – um novo irmão. Agora, não era mais somente a irmã de dois meninos. Havia sido promovida à cuidadora e segunda mãe de ambos. Com a vinda do mais novo, vieram também os desafios. Minha mãe, agora divorciada e professora da rede municipal de Santo André, dependia de meu auxílio, no contraturno da aula, para cuidar, principalmente, do caçula. Trocas de fraldas, alimentação, medicações em meio às aferições de temperatura e cuidados específicos mediante uma desidratação. Eu, uma menina de onze anos, cuidando de um bebê de três meses. Toda essa vivência precoce me trouxe vários frutos pessoais e profissionais. Além do vínculo afetivo imenso com ele, florescia também o amor pelo cuidar, orientar e educar.
Com o término do Ensino Fundamental, em 1988, vieram também as escolhas do Ensino Médio. Incentivada pela minha mãe, resolvi arriscar e prestar o vestibulinho
para cursar o CEFAM (Centro Específico de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério). Fui aprovada nesta que seria a primeira turma em Santo André. Quatros anos pela frente em período integral, das 7h20min às 18h20min. Pela manhã, aulas teóricas das matérias do currículo de ensino comum. À tarde, o período era destinado às aulas práticas das disciplinas pedagógicas e para os estágios. Além do embasamento teórico e prático, tínhamos um grande estímulo: uma bolsa de estudos proporcional à assiduidade, no valor máximo de um salário mínimo. Na época, a quantia de NCz$120,00 (cento e vinte Cruzados Novos) que recebia ao final do mês era entregue integralmente para minha mãe, pois complementava nossa renda para sobrevivência de uma família constituída por uma mãe divorciada, excluída devido ao preconceito de sua família tradicional, professora, e seus três filhos. Hoje, vejo que as marcas trazidas com as dificuldades só nos fizeram mais fortes e unidos.
O Bichinho da Educação havia me picado e as sensações tomam outra proporção com os novos saberes, novos aprendizados e novas vivências. Todas as aulas eram repletas de conhecimentos e ideologias, mas foram as
