Histórias de um intercâmbio de verão: Perrengues e gargalhadas nos Estados Unidos
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Histórias de um intercâmbio de verão - Jeici Carla Eichstadt
Como tudo começou
O ano era 2023 e eu estava verdadeiramente desanimada com minha carreira como professora municipal de língua inglesa. Fazia nove anos que era docente concursada do município de Jaraguá do sul, Santa Catarina, e me sentia estagnada. Parecia que, há nove anos, nada mudava na minha vida profissional.
Desde menina, sempre sonhei em viajar pelo mundo. Um pouco da minha escolha pela carreira em inglês se deveu ao fato de considerar que o idioma me aproximaria mais do meu sonho. No entanto, como a maioria sabe, professor não é a profissão mais bem paga no Brasil.
Em 2018, alcancei um feito inédito: com o auxílio do meu marido, que acabou compartilhando dos meus sonhos e aceitando embarcar comigo em uma aventura, conseguimos fazer uma viagem inesquecível pela Europa. Contratamos um empréstimo, vendemos o carro, economizamos durante muito tempo e, enfim, realizamos a tão sonhada viagem, passando por seis países (sete, se contar o Vaticano): Alemanha, Áustria, Bélgica, França, Itália e Suíça.
Foi uma viagem inesquecível, com gostinho de quero mais
. Voltamos com a certeza de que precisávamos repetir e com a promessa de que tentaríamos viajar pelo menos a cada dois anos. Como não temos e nem queremos filhos, ficaria fácil, certo? Não poderíamos estar mais errados: mesmo trabalhando duro com minhas aulas e meu marido como motorista de aplicativo, vimos nossos sonhos cada vez mais distantes com a chegada da pandemia e todas as consequências de tal evento. O euro subindo, o dólar aumentando e, em paralelo, problemas pessoais que nos fizeram, aos poucos, ir esmorecendo.
Em 2023, ciente de que não poderia ficar mais um ano sem viajar, sentindo uma dor quase física por não poder fazê-lo, comecei a pesquisar na internet: Como um professor falido pode viajar de graça?
. Eis que, após muitas buscas e leituras, minha resposta surge através de uma sigla que se tornaria eterna no meu coração (e, em breve, também na minha pele, já que penso em tatuá-la): PDPI, o Programa de Desenvolvimento de Professores de Inglês.
Para quem não conhece, como eu não conhecia, trata-se de um programa voltado a docentes da rede pública de ensino que, para minha surpresa, é totalmente gratuito. A iniciativa leva professores de língua inglesa aos Estados Unidos com o propósito de aprimorar a fluência no idioma, bem como melhorar a metodologia de ensino e as técnicas em sala de aula. Os únicos requisitos são (i) ser servidor efetivo e (ii) não estar mais em estágio probatório, aos quais eu atendia.
Não demorou para que encontrasse o edital do programa e fizesse dele minha bíblia. Lia todos os dias. Um pouco para compreender cada detalhe do programa e, mais ainda, para me dar conta de que era real: Tudo de graça? Passagem, hospedagem, alimentação, curso e ainda ganharia uma ajuda de custo?
. Parecia muito bom para ser verdade, mas, afinal, o que tinha a perder?
Primeiramente, cabia a mim buscar a autorização de que necessitava, junto à Secretaria Municipal de Educação, para poder me ausentar. Tive meu pedido recusado em um primeiro momento, uma vez que a licença era concedida a professores que já haviam completado dez anos no cargo efetivo – o que, no meu caso, seria apenas em 2025. A frustração tomou conta de mim, considerando que já me via lá
e que, no meu coração, já tinha como certo que conseguiria realizar meu sonho.
Alguns dias depois, o diretor da minha escola me chamou na sua sala com a boa notícia: havia conversado com a secretária de educação mais uma vez e chegado a um acordo, argumentando que a oportunidade seria válida para ambas as partes, já que ter uma professora com experiência no exterior seria muito enriquecedor para as aulas e, em geral, também para a rede de ensino. (Não sei se cumpri com as expectativas que depositaram em mim, mas, enfim, valeu pela confiança! Talvez, depois de ler meus relatos, arrependam-se um pouco da decisão. Espero que não. Oremos...) Afinal, eu poderia ir. Descontos posteriores na folha de pagamento seriam um capítulo (triste) à parte.
As próximas semanas que se seguiram seriam um emaranhado de documentos, papelada, fotocópias, autorizações, escaneamentos e preenchimentos de plataformas. A única coisa pronta que tinha era o passaporte válido (com um único carimbo, de Frankfurt, em 2018). Inscrição realizada e aprovada. Qual seria o próximo passo? Realizar a prova on-line para verificar meu nível de inglês, a qual exige um resultado bem específico, já que os professores autorizados a fazê-la precisam estar no nível intermediário. Assim, minha pontuação deveria ficar entre 450 e 550: se tirasse menos, não entraria; se conseguisse mais, também não, porque me caracterizaria como não intermediária. Não que eu achasse que fosse tão proficiente em inglês a ponto de ser mais do que intermediária, mas sempre fui boa de chute. Então, joguei para o universo. Nunca rezei tanto na minha vida.
No final de fevereiro, chegou o tão aguardado dia da prova. Vários requisitos precisavam ser cumpridos, como por exemplo estar em um cômodo fechado da casa, onde ninguém pudesse entrar durante a realização do teste, e também não se levantar para nada, nem mesmo para ir ao banheiro. Eu, que tomo remédio diurético e vou ao banheiro a cada meia hora, teria de ficar quase quatro horas imóvel. Eu, que em situações tensas fico com o intestino solto, teria de ficar quase quatro horas sem ir ao banheiro.
Fraldas geriátricas compradas, precisava arrumar meu cantinho, que acabou sendo meu quarto, mesmo. Na falta de um lugar para apoiar meu notebook, peguei emprestada a mesa em que meu irmão descasca aipim e batata. (Sim, moro em um sítio e, sim, lavei-a antes de usar.)
Cantinho arrumado, passei às orientações para que tudo desse certo durante aquelas quatro horas. O microfone deveria ficar ligado o tempo todo durante a prova, então, sutilmente, pedi que minha sogra saísse de casa, que meu irmão não passasse de tobata (veículo a motor utilizado na roça) e que meu marido não permitisse que nenhum animal da casa fosse me perturbar, porque, se houvesse muito barulho, a prova seria cancelada. Considerando que tenho seis gatos, três cachorros, além de gansos, galinhas, patos e marrecos, não seria uma tarefa muito fácil.
Finalmente, o horário da prova havia chegado. Consegui me lembrar de não tomar muita água naquele dia, nem comer nada que pudesse fazer meu intestino me pregar uma peça. Orientações reforçadas com todos os integrantes da família, hora de fazer o teste.
Iniciei as questões da prova com o Listening, que é a parte da escuta. Não demorou muito para que os primeiros problemas animalescos viessem à tona. Algum dos meus gatos não gostou muito de ter sido trancado para fora do quarto e começou a arranhar a porta. Meu marido, que havia sido muito bem orientado (e ameaçado), começou a brigar com o felino. Poucos segundos depois, os arranhões recomeçaram. Então, o que se seguiu foi uma sucessão de rec, rec, rec
na porta e de Psiu! Para com isso!
, com intervalos de 30 segundos de paz
. A situação ficou assim durante uns 20 minutos, até que ouvi os roncos do meu marido no sofá e, para meu desespero, a continuação dos rec, rec, rec
na porta do quarto.
Depois de pensar em agredir meu marido, lembrei a mim mesma que não podia me distrair durante muito tempo, já que as questões e o tempo estavam passando. Por sorte, meu gato (que, até hoje, entre todos os que tenho, não identifiquei especificamente) havia desistido de entrar no quarto.
Além do episódio envolvendo o gato (anônimo) e o ronco do meu marido, o restante da prova decorreu com tranquilidade: nem vontade de ir ao banheiro eu tive e, embora não conseguisse mais ler as últimas perguntas, porque já estava muito cansada, pude finalizar o teste sem desespero.
Assim que a prova é concluída, o resultado da pontuação vem de imediato. A surpresa e a alegria foram grandes: 537, o que significava que minha pontuação havia sido baixa o suficiente para entrar no programa, mas também alta o suficiente para me classificar como Intermediária II, além de estar bem colocada para poder disputar uma vaga com todos os candidatos.
Saí gritando feito louca, pulei em cima do meu marido, que continuava dormindo (e roncando), abracei os gatos, que saíram correndo assustados, enviei mensagem para a sogra dizendo que ela poderia voltar para casa e foi uma noite de festa. Mas nada estava garantido ainda: tínhamos de esperar a lista oficial com a classificação. Ter tirado a nota de que precisava não garantia, necessariamente, que fosse selecionada.
Entretanto, a classificação não demorou a vir e a alegria foi imensa. Mas, como todo pobre que desconfia quando a esmola é demais, limitei-me a falar apenas com as pessoas da família, porque fiquei com receio de sair divulgando e, no fim, não dar certo.
Foram algumas semanas de preparação: lives com o pessoal da Fulbright (a organizadora do programa), a descoberta da instituição de destino (Universidade do Estado de Michigan, em East Lansing, Michigan) e de quem seria minha colega de quarto (Você, leitor, vai ouvir muito a respeito dela.), além de toda a documentação que ainda faltava organizar. Para quem achava que já havia passado pela etapa mais difícil do processo, supostamente a prova, eu não imaginava como seria preencher um DS 160, documento obrigatório para solicitar o visto.
As perguntas do formulário beiram a comédia, como por exemplo Já participou de grupos terroristas?
, Já esteve envolvido com tráfico humano?
e Sabe como preparar uma bomba?
. (Quis responder sim
a todas, mas a vontade de viajar era maior.) Ouvi uma participante relatar que, na parte do estado civil, no seu caso separada
, surgiu o questionamento Qual foi o motivo da separação?
, ao qual ela respondeu: Porque meu marido engravidou a amante
. Tenso.
Naquele meio-tempo, iniciaram os contatos com a Universidade do Estado de Michigan, primeiras mensagens, cronogramas e vídeos demonstrando como é o campus, tornando tudo real. Ainda assim, parecia que não era
