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O Venenoso Creosoto - Ney Alencar
O Venenoso
Creosoto
1
Direitos reservados em língua portuguesa por Ney Rolim de Alencar Filho. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (Eletrônicos ou mecânicos, incluindo fotocópias e gravações) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita do autor.
O Venenoso Creosoto é um trabalho de ficção. Nomes, personagens, locais e acontecimentos são produtos da imaginação do autor. Qualquer semelhança com eventos, locais e pessoas vivas ou falecidas é mera coincidência.
O Venenoso Creosoto é uma publicação independente do autor.
2
Índice:
Obra Revisada
Prelúdio
05
Parte I
15
Parte II
95
Parte III
180
3
4
Prelúdio: O Ventre Negro da Tarântula
"Não sou monstro,
Não sou homem nem besta!
Sou algo novo!
Sou Único!"
— Felipe Moraes, O Atormentador
1970, janeiro, Recife Velho.
Nossas escolhas nos definem!
Essa não foi sua primeira escolha, mas ele a fez mesmo assim.
Perseguia-as como velas acesas em sua esperança de encontrar alguma que fosse diferente.
O ventre negro da cidade-aranha o amedrontava mais do que a própria morte.
Ele fugia daquele medo matando!
Apenas matando ele se esquecia!
Então ele a viu!
Edinalva saiu pela porta do Ateneu logo depois da uma hora da madrugada.
5
Mexeu nos cabelos pretos e lisos que esvoaçavam no vento que vinha do mar pelos labirintos de ruas da cidade grande.
O salto de seus sapatos batia de leve no calçamento de paralelepípedos fazendo um barulho agourento, clap, clap, clap pela noite.
Sua sombra se movia clandestinamente, os pensamentos eram tantos em sua cabeça que ela sequer percebia o caminho que seguia.
Já havia percorrido tantas vezes aquelas ruas pelas madrugadas solitárias, quando retornava dos bares, na tentativa vã de esquecer e ser esquecida que agora aquilo já nem importava mais.
As lembranças eram tantas e tão amarguradas que se misturavam com sua própria pele e destilavam um cheiro forte de lascívia e horror!
Lembrava-se ainda do ex marido, as mãos que percorriam seu corpo e a acariciavam naquelas noites tão calmas, quando se casara, ele lhe bastava e era tudo o que queria, não queria ninguém mais.
6
Não sentia aquele desejo luxurioso que a possuía agora, era apenas dele!
Mas o tempo consumiu tudo aquilo, ela perdeu-se e o perdeu, afastaram-se devagar, não sabia como fora que isso aconteceu.
Dormiam na mesma cama, comiam as mesmas refeições, davam-se as mãos, conversavam até, mas ele já não olhava para ela, não como antes, não a procurava mais, não a fazia deseja-lo, estava lá, mas era como se nem estivesse.
Aquilo foi matando-a por dentro, como se ele a esquecesse, ela foi se esquecendo dele também, foi deixando que as lembranças se apagassem devagar e que o gosto dele e o sentimento que nutriam desaparecesse devagar.
Eram agora como desconhecidos que dormiam na mesma cama!
Apenas isso e nada mais!
Sentia falta dele, mas quando tentava se aproximar uma estranha sensação de repulsão e náusea a 7
inundava e permeava seus pensamentos, se afastava triste, não tinha o que fazer.
Ele parecia sofrer o mesmo, já não conversavam mais, olhavam-se como desconhecidos apenas.
Afinal ela foi conhecer outros!
Não queria, mas sentia necessidade de se satisfazer e isso ele já não lhe podia dar.
Conheceu um, deu-se completamente e deixou-o tomar seu corpo e consumir sua alma!
Abandonou-se naquela lascívia e naquele novo prazer, gostou dele e depois vieram outros.
Ele acabou descobrindo, ela não fazia força para esconder!
Queria machucá-lo, queria fazê-lo lutar por ela, fazê-lo tomar a iniciativa.
Ele o fez, quando a encontrou na cama com o terceiro ou o quarto, parou ali, vendo tudo aquilo!
Ela esperou que ele gritasse, que ele expulsasse o outro, que a tomasse como fazia antes, mas para sua surpresa ele sentou-se e ficou ali, apenas olhando, enquanto aquele desconhecido a possuía.
8
Chorou depois!
Não imaginou que era aquilo que ele queria!
Tentou fazer de novo e de novo, e ele parecia querer
se
impor,
mas
acabou
deixando-a
finalmente.
Não compreendeu o que fizera a ele!
Dera-lhe o que ele queria, não foi? Mostrara a ele apenas o que ele queria ver!
Mesmo assim ele a deixara e sumira!
O amargor de tudo aquilo a consumiu de tal forma que se abandonou dentro daquela luxúria faminta que a consumia e mergulhou dentro daquele oceano imoral e hediondo!
Deixou que a usassem e usou-os completamente até que sequer se reconhecia mais.
Era apenas mais um pedaço de carne abandonada aos homens famintos!
Fora preciso que se visse no espelho, conspurcada e suja naquela depravação horrenda para que resolvesse que não queria mais aquilo.
Foi difícil sair daquele vício maldito!
9
O prazer e a luxúria consumiam sua mente como uma droga potente!
Precisava sentir e o que sentia nunca era suficiente para suprir sua fome de satisfação!
A corrupção da carne corroía sua alma!
Forçara-se a abandonar tudo aquilo.
Afastara-se de tudo e de todos e viera parar ali, naquela cidade velha e carcomida.
Andava pelas ruas à noite, sendo devorada pelas lembras dele, o desejo e a fome pelo seu amor a consumia mais do que tudo que sentira antes.
Nada daquilo importava mais, a corrupção e seus sentimentos, o prazer e a lascívia que corriam embaixo de sua pele já não importavam mais, tudo o que queria era encontra-lo novamente.
Queria apenas vê-lo!
Um dia conseguira seu intento, e fora o inferno!
Ele morava ali, talvez tivesse fugido para aquele lugar tentando esquecê-la, ela não sabia.
Ela o vira de longe, estava caminhando pelas ruas numa tarde quando o avistara de longe, de mãos 10
dadas com outra, aquela que agora o possuía era quase como ela, lembrava-a de si mesma.
Os cabelos e o rosto eram quase iguais, ele a reproduzira em outra!
Aquilo a machucara demais!
Mas ela também o machucara demais!
Talvez ele só quisesse esquecer!
Ela se afastou sem deixa-lo ver que ela o vira.
Não precisava relembrar tudo aquilo, fazer seu coração sangrar tanto novamente.
Depois de tudo deixara-se apenas viver.
Não queria mais nada.
Pegara um emprego e se abandonara de qualquer desejo ou sonho!
Vivia apenas e isso lhe bastava!
Não queria mais nada, as lembranças daquela vida anterior bastavam para alimentar-lhe o coração.
Por vezes se tocava e pensava nele, mas então a dor a fazia chorar!
O remorso a consumia como uma ferrugem da alma!
11
Nenhum outro era suficiente para curar suas feridas ou aplacar seu desejo!
Foi assim até que encontrou esse outro, tão diferente e tão distante do que conhecera dos homens, mas afinal ele sequer era homem também, era outra coisa, estava além dos homens!
Ela gostara dele e ele lhe fazia bem, que podia fazer senão se abandonar nele inteira, tomara consciência a primeira vez que era aquele outro que realmente queria, deixara tudo para trás e voltara a encontrar nele, agora não o queria perder.
Era dele que precisaria agora! Queria estar com ele sim!
Tudo isso turbilhonava dentro dela enquanto caminhava pela rua naquela madrugada fria!
As emoções convulsionavam em uma tempestade amarga em seu interior.
Vinha tão distraída, como uma gazela sedenta caminhando para o rio para beber água, que não notava outra sombra que a seguia, sombra de 12
pantera faminta, de perto, medindo os passos firmes e decididos.
Sombra mais densa que as outras, vestida de escuridão preta e malvada!
Ela pareceu ouvir algo e olhou para trás, como se percebesse algo, quase como se sentisse que era a presa, mas havia apenas os postes de luz e os troncos das árvores.
O caminho tortuoso lembrava a ela sobre sua vida, as escolhas que fizera, os arrependimentos, menos um, ele a entendia, precisava dizer isso a ele.
Talvez tivesse chegado à hora dele afinal.
Ela sorriu!
Mudou de ideia e voltou-se para a direção da casa dele.
Das sombras à sua frente uma mão de dedos longos trouxe algo branco sobre seu rosto.
O medo e o desespero vindos do conhecimento primordial que a presa tem de que acabou de cair nas garras do predador avassalaram seu corpo, que tremeu!
13
O cheiro forte do clorofórmio inebriou-a, seus olhos se nublaram e as pernas enfraqueceram.
A consciência lutou, porém, o comando do clorofórmio sobrepôs-se à sua vontade.
Seu último olhar foi para a luz do poste, amarelada como um sol esmaecido, a cor irreal do desespero que a tomava, que a encandeou por um momento, antes de perder a consciência!
Ele se regozijou lúbrico e sedento!
14
Parte 1 – O Homem Quebrado
"O que eu sei é que somos trágicos.
Os deuses escolheram assim. Somos todos
uma
brincadeira
deles,
marionetes que envelhecem rápido demais, uma experienciazinha carnal
- de modo que não lhes interessa a parcimônia: criam uns num caldo de fúria e outros na doçura total."
― Leticia Wierzchowski, Sal
1970, fevereiro, Recife Velho.
O policial bateu na porta três vezes!
O tempo se arrastou e o mundo pareceu parar.
Sinistro.
O barulho de passos arrastados veio se
aproximando da porta, logo ela se abriu em uma fresta e um rosto velho e duro surgiu. Olhos assustados.
15
— O que quer? — perguntou o velho com descaso na voz rouca e lamuriosa.
— Bom dia senhor! — disse o policial tentando sorrir — Recebi um chamado de gritos e barulhos de briga em sua residência.
— Não foi aqui! — disse o velho em tom zangado
— Foi no vizinho!
O policial fez uma pausa e olhou de novo.
— Foi o vizinho que reclamou senhor. — explicou ele.
— Não importa. Não tem nada aqui. — disse o velho querendo fechar a porta.
O policial colocou o pé no vão.
— Preciso entrar e olhar senhor. O senhor mora aqui? Como é seu nome?
O velho tentou novamente fechar a porta, não conseguindo virou as costas e entrou pela casa arrastando os pés.
O policial abriu a porta.
Um ar frio bafejou em seu rosto.
Ele parou
