Flamengo: Forjados na água
()
Sobre este e-book
Personagens como Nestor de Barros, um jovem batalhador cheio de sonhos, e Mário Espíndola, um aspirante a marinheiro, unem-se a outros moradores do bairro Flamengo para criar um grupo de regatas, enfrentando desafios financeiros e sociais. Com personagens marcantes e cenários ricamente descritos, o enredo cativa ao explorar como o esporte pode forjar não apenas atletas, mas também o início de uma identidade do povo brasileiro, fortemente ligada aos clubes esportivos.
A trama evoca a atmosfera vibrante da cidade maravilhosa no período pós-imperial e destaca o espírito de união e determinação dos personagens na construção de algo maior do que eles mesmos, oferecendo ao leitor uma fascinante viagem pela história e pelas emoções humanas.
Relacionado a Flamengo
Ebooks relacionados
Márcio Braga Coração Rubro-negro: Histórias do Tabelião, Cartola e Político Nota: 0 de 5 estrelas0 notasReis Do Rio Nota: 0 de 5 estrelas0 notasFlamengo: História E Tradição Nota: 0 de 5 estrelas0 notasChiquinho: A joia da Ilha Nota: 0 de 5 estrelas0 notas100 Anos de Bola Raça e Paixão Nota: 0 de 5 estrelas0 notasFora das 4 linhas Nota: 5 de 5 estrelas5/5Maracanã: quando a cidade era terreiro Nota: 5 de 5 estrelas5/5Fafá E Michele. Nota: 0 de 5 estrelas0 notasDois Craques E Meio. Nota: 0 de 5 estrelas0 notasAmigos da Bola Nota: 0 de 5 estrelas0 notasSer alvinegro....: Isto não tem preço. Nota: 0 de 5 estrelas0 notasEterno 5x3 Nota: 0 de 5 estrelas0 notasForasteiros: Crônicas, vivências e reflexões de um torcedor visitante Nota: 5 de 5 estrelas5/5Deuses da bola: 100 anos da seleção brasileira Nota: 0 de 5 estrelas0 notasToque De Bola Nota: 0 de 5 estrelas0 notasOde a Mauro Shampoo e outras histórias da várzea Nota: 0 de 5 estrelas0 notasNo País Do Futebol, Cidade Sem Memória. Nota: 0 de 5 estrelas0 notas20 Jogos Eternos do Corinthians Nota: 0 de 5 estrelas0 notasMúsicas e jogadores do Flamengo.: Volume 2. Nota: 0 de 5 estrelas0 notasFlamengo e seus irmãos rubro-negros. Nota: 0 de 5 estrelas0 notasESPORTE DO OPRIMIDO: Utopia e Desencanto na Formação do Atleta de Futebol Nota: 0 de 5 estrelas0 notasOs Dez Mais do Fluminense Nota: 0 de 5 estrelas0 notasHistórias De Um Garoto Na Várzea Nota: 0 de 5 estrelas0 notas1987 de fato, de direito e de cabeça Nota: 0 de 5 estrelas0 notasHistória do Futebol Alagoano Nota: 0 de 5 estrelas0 notasPanorama histórico de Antas: Aspectos políticos e culturais Nota: 4 de 5 estrelas4/5Torcidas: O estádio como ritual de intensidade Nota: 0 de 5 estrelas0 notasA virada Nota: 0 de 5 estrelas0 notasO corpo encantado das ruas Nota: 5 de 5 estrelas5/5
Ficção Histórica para você
O físico: A epopeia de um médico medieval Nota: 4 de 5 estrelas4/5Razão e Sensibilidade Nota: 5 de 5 estrelas5/5Diário de um pároco de aldeia Nota: 0 de 5 estrelas0 notasAprisionada Pelo Conde Nota: 5 de 5 estrelas5/5A rede de Alice Nota: 5 de 5 estrelas5/5A biblioteca de Paris Nota: 5 de 5 estrelas5/5Uma casa na pradaria Nota: 5 de 5 estrelas5/5O Cortiço Nota: 4 de 5 estrelas4/5Santo guerreiro: Roma invicta (Vol. 1) Nota: 5 de 5 estrelas5/5Uma voz ao vento – A marca do leão – vol. 1 Nota: 5 de 5 estrelas5/5Xamã: A história de um médico do século XIX Nota: 4 de 5 estrelas4/5O último judeu: Uma história de terror na Inquisição Nota: 4 de 5 estrelas4/5Uma casa na floresta Nota: 5 de 5 estrelas5/5O Pequeno Fazendeiro Nota: 5 de 5 estrelas5/5O longo inverno Nota: 5 de 5 estrelas5/5Contos De Fadas Japoneses Nota: 0 de 5 estrelas0 notasCidadezinha na campina Nota: 5 de 5 estrelas5/5A doçura da água Nota: 4 de 5 estrelas4/5A História de Sarah Nota: 5 de 5 estrelas5/5Vende-se uma família Nota: 5 de 5 estrelas5/5À margem da lagoa prateada Nota: 5 de 5 estrelas5/5Ransom, Detetive Privado Nota: 0 de 5 estrelas0 notasA pintora de henna Nota: 5 de 5 estrelas5/5Os Irmãos Karamazov Nota: 5 de 5 estrelas5/5Travessia: A história de amor de Anita e Giuseppe Garibaldi Nota: 0 de 5 estrelas0 notasUm quilombo no leblon Nota: 1 de 5 estrelas1/5O assassino cego Nota: 4 de 5 estrelas4/5Um estranho em Goa Nota: 2 de 5 estrelas2/5
Categorias relacionadas
Avaliações de Flamengo
0 avaliação0 avaliação
Pré-visualização do livro
Flamengo - Roberto Sá Filho
Prólogo
Muito Antes do Maracanã
No ano de 1895, aquela cidade, de apenas 700 mil almas, agraciada às margens da Baía de Guanabara, permanecia em um estado de graça ignorante ao seu potencial, ainda alheia às futuras dádivas do Cristo Redentor, do charme do Bondinho no Pão de Açúcar e do esplendor do Maracanã.
Apesar de pulsante, a cidade, relativamente jovem, com seus eternos contrastes sociais, já se encontrava envolvida por desafios de urbanização e questões de saúde pública, ao mesmo tempo em que estava em um período de rápido crescimento. O desenvolvimento da ferrovia e do porto havia transformado o Rio de Janeiro em um importante centro comercial e cultural.
Sua área urbana, que se estendia em um abraço apertado entre a Praça Mauá e a Lapa, começava a avançar nas praias de Botafogo e Flamengo, enquanto a chamada Zona Sul, com suas joias hoje tão cobiçadas como Copacabana, Ipanema e Leblon, era então uma faixa de terra distante, pouco frequentada e quase esquecida.
Neste ambiente rico e cheio de diversidades, onde cada um trazia sua própria história, seus sonhos e suas cicatrizes,nesta cidade forjada à beira-mar, o remo, era o esporte preferido do povo, celebrado em festa nos domingos de regata. Enquanto a bola, trazida por Charles Miller somente um ano antes, era um objeto estranho e novo para os cariocas. Os poucos que a conheciam, ainda não sabiam como jogá-la, e seus toques eram incertos.
A história do Flamengo? Calma, torcedor!
O tempo avança como um contra-ataque veloz, as estratégias se iluminam, como o sol antes de mergulhar por trás das arquibancadas.
Então, compreenda que um intrincado esquema tático do destino precisa ser traçado primeiro. As jogadas se entrelaçam, os encontros e desencontros em campo se sucedem, as ações individuais se acumulam como peças fundamentais na construção do alicerce que preparará o campo para os sonhos que estão prestes a se realizar. São as sementes desse destino cativante que irão brotar em breve.
Neste cenário, a vida na cidade maravilhosa era intrinsecamente ligada ao mar, com suas praias moldando a rotina e o espírito de seus habitantes, um ritmo que pulsava ao compasso das ondas e do vento, ecoando na alma dos cariocas e permeando cada aspecto de seu cotidiano vibrante.
Capítulo 1
Era Uma Vez… No Rio De Janeiro
A bola dançava com uma falta de propósito evidente pelo chão áspero, enquanto, no manto celeste, o crepúsculo suave tingia o céu azul de listras douradas. Em campo, ela ziguezagueava com destemor, como se fosse uma pequena alma errante em busca de algum grandioso destino desconhecido. Ali, reuniam-se, despretensiosamente, pessoas de diferentes classes e origens, apenas para apreciar o ritual recém-chegado desse tal de futebol.
Entre aquela confraria de jovens, cujas camisas se colavam no corpo devido ao suor, a habilidade estava em falta, mas o entusiasmo transbordava como uma fonte inesgotável. Era só diversão; naquele tempo, não havia nenhum prodígio, nenhuma estrela que brilhasse com a maestria de um Domingos da Guia ou a destreza de um Zico. O futebol ainda dava seus primeiros passos no mundo e engatinhava timidamente no solo brasileiro. Aquele era um tempo de esperança, um tempo em que os sonhos de grandeza brotavam nos corações, mesmo que a realidade do campo improvisado fosse um tanto desajeitada.
E no meio daquela trama de paixão e falta de jeito, estava Nestor Barros, um jovem de alma inquieta e mente curiosa. Nascido em uma família com condições modestas, cresceu ouvindo histórias sobre o mar e sonhava em fazer parte dessa vastidão. No entanto, as dificuldades financeiras o mantiveram ancorado à realidade, estudando e trabalhando como guarda-livros. Preferia, muitas vezes, a companhia de desconhecidos e dos desfavorecidos. Sua residência, desde que chegou ao Rio de Janeiro, uma casa de cômodos, na praia do Flamengo, testemunhava os seus encontros com uma variedade de figuras, cada uma trazendo uma história única e agregando valor à vida do outro.
Em campo, numa jogada sem ensaio, num momento que o destino traçara com lápis incerto, a bola rolou até os pés de Nestor, um simples guarda-livros apaixonado pela prática esportiva. Seus olhos brilharam com uma chama; ele não hesitou. A bota que vestia encontrou a bola e, sem pensar nas imperfeições do calçado e da esfera, ele a cruzou para o outro lado do campo.
Da outra ponta, um rapaz demonstrando a mesma inabilidade, deu um impulso desajeitado com a cabeça. E então, como se os deuses do futebol estivessem jogando com os fios do destino, fizeram a trajetória da bola reencontrar Nestor, que galopava em direção ao gol com esperança. Num lampejo de instinto e coragem, a bola ultrapassou a meta, deixando o goleiro desamparado e o campo ecoando com gritos de júbilo.
Nestor, ainda impulsionado pela adrenalina da jogada, com um sorriso largo, dirigiu-se em direção de seu amigo que havia chegado há pouco.
Ao lado, com os olhos fixos, observando atentamente o balé errático da bola nos pés de Nestor, encontra-se Mário Espíndola, um jovem aspirante a marinheiro que abriga em seu peito sonhos tão vastos quanto o próprio oceano que um dia sonhava desbravar.
Mário, um jovem alto e magro, com cabelos pretos engomados, estava abrigado na sombra acolhedora de uma árvore. Seus olhos castanhos observavam o jogo com um misto de indiferença e curiosidade, como espectador de um espetáculo do qual não estava totalmente investido.
E naquele cenário imperfeito, onde a bola dançava sem rumo, onde os pés dos jogadores tropeçavam nas próprias pernas e ambições, uma história estava sendo tecida. Uma história de amizade, de coragem e de paixão pelo jogo que transcenderia as imperfeições do campo e alcançaria além das estrelas.
— Futebol, Nestor? — questionou Espíndola, arqueando uma sobrancelha com desaprovação, como se a ideia de jogar bola fosse algo mais absurdo do que diversos dos estranhos costumes da sociedade carioca da época, como o entrudo, uma brincadeira carnavalesca controversa que consistia em jogar água, farinha e outros objetos menos nobres nas pessoas que passavam pelas ruas.
Nestor, por sua vez, exibiu um sorriso desafiador, como quem carregasse um segredo que estava disposto a revelar.
— É divertido. Você deveria experimentar jogar um dia. Irá se apaixonar.
Espíndola soltou uma risada estridente, quase sufocada pela sua própria incredulidade.
— Jamais! Isso é coisa para ingleses branquelos e de roupas frouxas. Prefiro remar, meu caro amigo. Tem sol, tem mar, e as moças adoram.
Nestor ergueu as mãos em um gesto de rendição; sua expressão era um misto de diversão e recepção. Ele sabia que a opinião de Espíndola sobre o futebol não era incomum, especialmente naquela sociedade carioca que tinha seus próprios critérios extravagantes de encorajamento e entretenimento.
Contudo, o jovem batalhador que estudava e trabalhava, também sabia que havia nuances além das aparências. Ele entendia que as moças da alta sociedade não eram propriamente apaixonadas pelo remo em si, mas, sim, pelos remadores que deslizavam graciosamente sobre as águas. Eram homens altos e vigorosos, bronzeados pelo abraço intenso do sol na baía de Guanabara, frequentemente membros promissores de famílias abastadas. Era um belo contraste ao estilo franzino e pálido dos ingleses, dos pertencentes às camadas mais populares da sociedade ou até de estudantes que voltavam de temporadas na Inglaterra, em geral, e praticavam o novo esporte, ainda sem expressão por aqui.
Nestor sabia que os esportes poderiam ser um espelho das complexidades sociais, um tabuleiro onde as peças humanas se moviam em busca de aceitação, respeito e amor. O futebol, para ele, representava algo mais do que a mera obediência da bola aos pés. Era a dança imprevisível da vida, onde o imprevisto podia se transformar em glória, e estava entrelaçado com a esperança.
Enquanto as palavras do aspirante a marinheiro ainda emparelhavam no ar, a brisa suave do entardecer acariciava a pele dos dois amigos, como se o próprio universo sussurrasse segredos de possibilidades inexploradas.
As palavras que fluíam de forma suave, foram subitamente interrompidas pelo aproximar de um garoto de dez anos, Gumercindo Lustosa, que emergia do campo com desejo urgente de atenção. Seu peito ofegava, mas seus olhos cintilavam com um fascínio puro, um reflexo do seu ídolo que saíra do campo após marcar o gol. Com uma voz que tremia de cansaço e entusiasmo, suplicou que Nestor retornasse ao campo, e que o ensinasse a dominar a bola com a mesma técnica que ele possuía.
Nestor, com um sorriso afetuoso que carregava consigo a experiência de quem compreende a importância de inspirar, acariciou o cabelo de Gumercindo.
— Outro dia. Zezé e Felisberto também já estão aqui — apontou para os amigos que se aproximavam como um par de cúmplices, enquanto Gumercindo voltava para o jogo.
Os dois amigos, cujas risadas eram como as notas de uma sinfonia conhecida, se uniram ao grupo. E assim, entre risos e apertos de mão, os acontecimentos do dia, as trocas de histórias, eram atualizadas entre eles.
Zezé, como era carinhosamente chamado José Agostinho Pereira da Cunha pelos seus amigos, notou que João, um tanto mais velho que o irmão Gumercindo, se aproximava do grupo, como quem estivesse indo buscar o caçula no campo, mas, em vez disso, desviava seu curso em direção ao aglomerado de amigos, provocando uma mudança espontânea na direção da conversa, em um drible de descontração e ironia característica.
— Olha só quem apareceu ali, Nestor! João, o seu melhor amigo! — cutucou Felisberto, apontando com o queixo para o amigo que ainda estava de costas.
— Vocês acreditam mesmo que compartilhar a vizinhança com ele é um sinal de afinidade, e não apenas um triste acidente cartográfico? — respondeu Nestor, com um meio sorriso, que costumava evitá-lo com frequência, apenas pela sua ingenuidade de quem nasceu sem privações, de cultivar hábitos e esbanjar ostentações que não faziam parte do cotidiano mais limitado de Nestor.
— E a senhorita Vitória, irmã dele? O fato de ela morar próxima a você, também é um acidente cartográfico? — Espíndola disparou a pergunta com um sorriso matreiro nos lábios, saboreando o momento em que colocava o amigo em uma verdadeira sinuca de sentimentos, navegando pelas correntezas de sarcasmo e camaradagem que regiam aquela roda de amigos.
A atração de Nestor por Vitória não era nova, nem de se estranhar. A filha mulher da família Lustosa era uma joia única e cobiçada, recém-revelada perante a sociedade, uma preciosidade que destoava dos padrões de sua época. Sua recatada postura escondia um sorriso convidativo, e seu olhar cativante, mergulhado em forte personalidade desafiadora, lançava redes invisíveis sobre aqueles que tinham a sorte de cruzar seu caminho.
No instante em que João ingressou na roda de conversa, o diálogo rapidamente ganhou um novo rumo. Assim como um barco solitário desviando subitamente de uma tormenta iminente. Entretanto, com sorriso no rosto, o irmão de Gumercindo trazia consigo um propósito claro, que ansiava compartilhar com seus colegas.
— Amigos, antes que me escape da memória, reservem o dia 30 em vossas agendas, pois será o momento de finalmente celebrar a minha
