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O Oráculo - J. A. Fonseca
Lembranças
Teu pai foi ao Oráculo!
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Era essa a frase que eu mais ouvia ao longo de minha infância, sempre para justificar as longas ausências da amada figura de meu pai. Desde a mais tenra idade, acho que por volta dos cinco anos, eu entendia que a cada vez que ele começava os preparativos para uma viagem, eu deveria esperar longos meses, às vezes mais de um ano, para tornar a vê-lo.
Receber seu abraço e algumas palavras de conforto e, em seguida, assisti-lo conduzir perante nossa casa centenas de homens e cavalos, colunas de carroças e rebanhos, era, na minha visão de garoto, uma despedida por demais triste. Lembro-me de que os sacerdotes passavam por último, com seus tambores, flautas e címbalos. Então eu costumava soltar a mão de minha mãe e acompanhar aquele comboio até o portão da vila, admirando-o até todos sumirem numa curva da estrada. Ficava ali ainda alguns instantes, a ouvir aquele rumor. Era uma mistura da ladainha dos sacerdotes com o balido dos animais, do bater de sandálias e cascos e o ranger das rodas, até que o vento e a distância o dissipava. Então, fechando o portão, os guardas gentilmente me conduziam para casa, onde minha mãe me esperava com lágrimas nos olhos.
Os cuidados dela me davam, com certeza, a segurança que eu precisava. Confortava-me com extremo carinho, e depois a meus irmãos e irmãs. Seu amor era incondicional e zeloso. Fora isso, na ausência de meu pai, aquela nobre mulher dava mostras de ser merecedora da honra de governar nossa casa. Sob suas ordens, todos os problemas eram tratados com justiça e ninguém era esquecido. Presidia os assuntos da vila, cuidando para que todos os interesses da família ficassem resolvidos: a colheita, o pastoreio dos rebanhos, o cuidado com a casa, o trato com os servos, a nossa educação, enfim, tudo que necessitasse da sua atenção e rigor. Era respeitada por todos, até pelos mais velhos e brutos veteranos da guarda. Num mundo feito de bronze, moldado por homens, ela ainda trazia aquela gentileza e ternura típicas das mulheres antigas. Era como aquelas heroínas das lendas, que motivavam os poetas e levavam os reis às guerras. Tinha uma beleza natural e descompromissada, mas nisso podem me acusar de filho por demais apaixonado.
Apesar de toda a atenção de minha mãe, eu sentia mesmo falta de meu pai. Eu sabia que era comum que os garotos de minha idade mal conhecessem seus pais. A educação, na primeira infância, era uma questão resolvida no interior das casas e sob os cuidados das mulheres. Isso muito se devia ao fato de os velhos estarem sempre ausentes, geralmente na guerra ou no comércio, e era comum morrerem nessas aventuras, às vezes, longe de casa. Muitos de meus amigos mal sabiam onde ficavam os túmulos daqueles a quem deviam chamar de pai.
O meu, porém, sempre fora diferente em sua forma de ser. Apesar de suas viagens longas, ele se diferenciava dos demais por uma atitude muito mais presente quando estava entre nós. Tratava-nos, a mim, seu filho mais velho, meus irmãos e irmãs, e a minha mãe, como jamais vi outro homem tratar seus familiares. Quando retornava de suas jornadas, costumava nos levar para o campo, e sempre me convidava para conversas que se estendiam ao longo de tardes e noites, contando-me do destino que aguardava a cada um de nós, mas não se estendia demais, pois parecia sentir por nós uma espécie de comoção, como se o destino de nossa família, que ele carregava há muitos anos, precisasse agora ter seu fardo passado para costas mais novas. Ele hesitava nisso. Algumas vezes, eu lhe perguntava por que sempre partia, por que sempre nos deixava. Ele continha suas lágrimas, e então tentava me ensinar o que era o Oráculo, e o quanto o passado e o futuro de nossa família estavam ligados àquele fantástico santuário.
Depois, meu pai me levava para lições de caça, luta e ensinava a manejar o arco e a lança, sempre me lembrando da força de nossa raça. Às vezes ficava comigo por dias, apascentando o gado, ensinando-me a ler as estrelas, a tocar a lira e a compor versos. Dizia que os maiores homens que já haviam pisado na terra foram grandes poetas, antes de serem guerreiros.
Minha infância se passou assim, de uma forma muito tranquila, tenho que admitir. A mãe cuidou que todas as minhas instruções se dessem de maneira correta. Por essa época, os nobres cuidavam que os filhos se instruíssem na escrita e na leitura. Dentro de casa e sob seu olhar, recebia mestres que me ensinavam e corrigiam com bastante rigor. Aceitava os castigos, porque amava minha mãe e não queria decepcioná-la, mas também porque usava o que ali me inculcavam para ir aprimorando a poesia e a música, aprendidas nas encostas pedregosas dos montes do Pindo ou na beira de um lago, cuidando do gado, ao redor de alguma fogueira.
Sim, naqueles tempos era comum que os jovens nobres cuidassem dos rebanhos paternos. Apascentávamos o gado: ovelhas, cabras e bois. Longas jornadas de inverno nos levavam a passar dias e noites ao relento, empurrando as reses para pastagens melhores e mais seguras. Em nossa vigília, sob as estrelas, sonhávamos com as venturas dos amores e das ninfas, a beleza de uma jovem pastora, a dor de um abandono, ou a desolação do exílio. Sob essa inspiração aprendi a arte indolente do tocar e cantar, que, como meu pai dizia, aproximava os guerreiros dos Deuses.
Ali, éramos o que éramos! Eu e meus irmãos crescemos junto dos filhos dos outros nobres, e também dos artesãos e camponeses. As colinas da Beócia eram nossas para correr e caçar, e os lagos para nadar e pescar. Nos campos, fomos criados com o bom queijo de cabra feito nas montanhas, completado com um pão escuro de trigo e porções generosas de azeitonas. Em casa, comíamos os legumes da horta e tínhamos peixes em abundância, que nos chegavam todos os dias, trazidos do litoral, além de assados e cozidos de variadas carnes, bastante temperados e cheios de azeite de oliva. Aguça-me o paladar lembrar-me daqueles molhos!
No pastoreio, aprendíamos o jogo da funda para espantar os lobos e caçar as lebres e, depois, mais velhos, a arte do arco e da flecha. Quando atingíamos a idade e o porte de poder levantar um cabrito pelas pernas, éramos levados para o treinamento da luta propriamente dita. Lá aprendíamos o que era o manejo da lança, da espada, da adaga, do machado, da maça, enfim, de tudo que pudesse existir para tirar a vida de um oponente de forma violenta e eficaz. Até mesmo os punhos. Para cada arma tinha os melhores mestres. Aprendi a manobrar os carros de guerra e a montar e conduzir os cavalos mais bravios. Assim a robustez de nossa raça foi me completando aos poucos.
Morávamos em Tebas, em uma grande fazenda do lado de fora da cidade. Éramos em um bom número lá, entre irmãos, tios e primos, e estes em todos os graus de parentesco. Em outras glebas, em Tebas ou arredores, mais gente da família morava. Considerando-se também todos os agregados, empregados e servos, perante a cidade representávamos uma comunidade bastante numerosa. Fora dali, de Atenas até a Tessália, muitos ramos da família ocupavam vastas terras. Tanto em Tebas como em qualquer cidade onde estivéssemos, éramos tratados não como súditos, mas como irmãos e aliados. Não devíamos vassalagem a nenhum governante, e nossa justiça era praticada dentro de nossos próprios muros.
Meu pai era o patriarca, ele presidia todos os assuntos dessa numerosa família. Entre suas atribuições, estava justamente a mais delicada, que era manter unida toda essa gente, mantê-la motivada em direção a um ideal que aprendi desde cedo: sermos donos de nosso próprio reino. Eu nasci vinte e poucos anos depois do fim da campanha dos aqueus contra Ílion. Alguns dos meus instrutores mais velhos foram veteranos daquela guerra, em que tantos heróis de toda a Grécia pelejaram até a morte. Ainda que as histórias frescas dessa grande guerra corressem o mundo, não suplantavam em glória a história do mais ilustre dos meus antepassados. Meu nome é Têmeno, filho de Aristômaco. Meu avô era Cleodeu, filho de Hilo, primogênito daquele cujo nome era Alcides, mas que todos conheceram como Héracles, o primeiro filho de Anfitrião.
Imagine o que era para uma criança ouvir que era descendente direto do maior herói da Grécia, por sua vez o filho de um deus com a mais bela mortal; ser tataraneto do homem mais forte, corajoso e inteligente de seu tempo; do semideus que realizou as maiores proezas de todas as gerações passadas e vindouras, o maior guerreiro de todos os tempos, enfim, o verdadeiro símbolo da nobreza e da força!
Por tal descendência, milhares de pessoas ao meu redor acreditavam numa única coisa: ser o rei de Micenas era meu destino por vontade divina e direito dos homens. Decorridos quase cem anos de história, e três gerações, a cada momento de minha vida, sempre fui lembrado e cobrado por isso. Eu não podia deixar de representar esse papel, que era o motivo da união de uma nação inteira. Esse povo, os descendentes diretos de Perseu, foi banido de Micenas quando Héracles nasceu, e perseguido por causa da herança após sua morte, geração após geração, pelo temor de que, um dia, um herdeiro do herói viesse reclamar seu direito.
Pois bem, no dia em que nasci, disseram que meu destino já estava traçado há muito tempo. Conforme essa crença, o destino de um homem está tecido numa grande meada pela moira Cloto. Suas duas temíveis irmãs, Láquesis e Átropos, medem e cuidam para que o momento final da cutilada nessa linha chegue sem aviso. Nem mesmo os deuses ousam desafiá-las, alterando o quinhão de vida que é dado a cada homem. O que acontece entre o nascimento de um homem e o dia de ele pagar o óbolo ao barqueiro, isso sim caberia aos deuses, que determinam nosso caminho segundo seus caprichos e necessidades. Colocam a fortuna e sua companheira, a desgraça, ao longo das curvas da estrada, a nos esperar sorrateiras, e jogam e brincam com os homens como seus fantoches, suas condescendentes criações.
Bem, isso é o que acreditaram os mais pios e a maioria dos homens que conheci, na Grécia, na Ásia, ou onde quer que a civilização exista. Até mesmo onde o mundo beira à barbárie, tudo se justifica perante a vontade dos deuses. Nas montanhas do Épiro, nas praias selvagens do Norte ou nas florestas além do rio Istros, tudo se baseia no que os céus podem ditar para os homens. A selvageria dos homens, ou a revolta da natureza, não faz diferença, pois segundo os crédulos nada acontece no mundo que não seja o desejo de uma divindade.
Quanto a mim, depois de aprender o longo percurso de todas as gerações de minha família, venho, agora, dizer que somente creio no destino que um homem faz para si mesmo. Cada ser que caminhou sobre a terra teve o anseio de uma grande felicidade, fosse ela uma boa colheita, um prato de comida, um amor ou um reino. A minha história, ou a nossa história, é o relato de uma aventura humana, marcada por essa simples busca pela felicidade. Uma busca que foi assinalada pela crueldade, mas aclamada por sua beleza, grandiosidade e nobreza.
A crueldade surgiu diante de meus antepassados, segundo os mais velhos, pelo capricho de uma deusa, ou talvez pela lascívia de um deus. Na verdade, foram os homens que a cometeram. Essa crueldade devorou, durante um século, a esperança de homens e mulheres, condenando-os ao exílio e à humilhação. A beleza da história está na crença num futuro de ouro, após uma era de bronze. Isso realmente só cuidou de uni-los por gerações, todos esperançosos de um reino prometido. Essa crença, forjada nas grutas e fontes do Oráculo, foi alimentada por todos como sendo a única via pela qual poderiam ser dignos de uma pátria. Exatamente essa via era o que meu pai procurava em cada uma de suas viagens. Uma via iluminada pelas flechas douradas e certeiras da sabedoria de Apolo, o grande deus dos oráculos.
A grandeza, essa não haveria necessidade de ser explicada, falando por si o próprio nome de Héracles. Geração após geração, filhos, netos e bisnetos, todos procuramos a senda que nos permitiria cumprir nosso destino. Às vezes, aviltados pelos deuses, enganados pelos oráculos, lutamos e vencemos cem vezes nossos inimigos e nos distinguimos, com bravura, como a raça mais nobre da Grécia, sempre desejosos de nos tornarmos dignos do nome de Heraclidas.
A nobreza, alimentada pela vontade de nossos pais, cresceu no exílio e, muitas vezes, na pobreza. Humilhamo-nos, solenemente, como suplicantes, diante das casas reais da Ática, da Beócia e da Tessália. Graças à magnanimidade dessas dinastias, elevada pela bondade para com os filhos de Héracles, pudemos viver e crescer. De geração em geração, transmitimos o orgulho do guerreiro que não se deixa abater, a areté, como nosso maior tesouro. Esse orgulho, somado ao senso de justiça e bondade, fez-nos sobressair como uma verdadeira nação por três gerações, sem cairmos no esquecimento dos gregos. A história de nossa família era cantada em versos ao redor de fogueiras, nas ruas do mercado e nas tabernas, até mesmo nos navios que singravam o Egeu e chegavam até a Ásia e o Egito. Além disso era reverenciada em orações nos templos, e adornada em vasos, panos e paredes por todos os cantos da Grécia.
Agora, tão distantes no tempo, muitos relatos e personagens parecem apenas sombras e fantasmas. Aedos contaram essas histórias, com os muitos nomes de Héracles, com a sua infinidade de aventuras e de lendas, aumentando seus feitos e méritos. Se déssemos crédito a tudo o que se contou, ou se conta, sobre nosso nobre antepassado, ele seria o pai de metade dos gregos, o salvador de mil cidades e um adversário dos Titãs. Boa parte dessas jornadas foi ele mesmo quem criou e cantou em seus infinitos poemas. Fora essa parte fabulosa, o que veio depois — a história de seus filhos e netos — é uma sucessão de desencontros e mentiras, mas também de batalhas fenomenais e feitos gloriosos, que chegaram aos nossos dias em virtude da persistência de seus patriarcas que, mesmo mergulhados na história e na política das cidades do Peloponeso, jamais perderam ou deixaram esquecer os seus propósitos.
Na forma como vou contá-la, esta história principia-se quando meu pai envidou mais uma de suas viagens ao Oráculo, em busca do sopro divino de Apolo. Eu ainda não entendia o quão importante eram essas revelações para o nosso povo, e as interpretava, na minha visão de jovem, como algo entre o real e o fantástico. Devo confessar que, no princípio, achava que o mundo era simples e objetivo, e que nossa glória era certa porque a causa era justa. Então, da infância em Tebas, até o dia em que hoje me encontro, aprenderia mesmo o que significavam todas as ações de meus antepassados e por que a mim estava reservado o destino que conheci.
Hoje eu sou um homem andado em anos, sentado no megaron, dentro da cidadela adormecida, e olhando para uma fogueira que se apaga. Pelas frestas das janelas, a lua derrama sua luz e os ventos frios do inverno me dizem que não seria esta a hora para começar a escrever. Somente agora, sozinho sob o brilho dos archotes, posso dizer que minha mente se anuvia e viaja aos rincões da Beócia, e, vagando pelos caminhos montanhosos da mente, vejo-me nos mais longínquos anos da juventude. Assim, as palavras me vêm.
Tomarei do copo de vinho e sorverei o primeiro gole. Dispensei meus escribas, pois somente na solidão poderei contemplar minha vida. Minha mão não é treinada como a deles, crescidos nesse ofício tão brilhante. O buril é estranho aos meus dedos, tão acostumados ao contato da lança e da espada, mas tocarei a tabuinha com sua ponta afiada, e a mão e as lembranças trabalharão.
O retorno
Era de manhã, o sol mal raiara, quando soou um grito na estrada, e uma trompa ecoou ainda mais longe. Corri para a porta da casa, pude avistar uma coluna de poeira se levantar no horizonte e da casa da guarda um regimento sair armado pela metade, apenas com escudos e lanças, para se alinhar na entrada do pátio, em formação de defesa. Depois do portão, uns vinte arqueiros correram e se postaram por trás dos vinhedos, em emboscada. As mulheres, que já cuidavam dos seus afazeres, correram para dentro das casas, puxando crianças e até animais. Homens vinham correndo do campo, apressados, arrastando ferramentas e carroças. Um cavaleiro saiu a galope do estábulo trazendo pela rédea uma égua branca, e pediu que eu a montasse. Deu-me uma espada e um escudo e saiu na direção da estrada, gritando:
— Vamos ver se é amigo ou inimigo!
Montei de um salto, dei rédeas ao animal e alcancei o cavaleiro antes do portão, passando por entre a linha da infantaria. Não foi preciso correr muito, antes que eu distinguisse uma patrulha a cavalo vindo em nossa direção, encabeçada pelo meu tio Pérdicles. Trazia o estandarte de meu pai, e sua trompa, mas não soubera tocá-la como o velho, e, por isso, ninguém reconhecera que o visitante nada mais era que a comitiva de meu pai.
— Estou vendo que está esperto, sobrinho! — berrou o velho, assim que cheguei ao alcance de ouvi-lo — Mas quem esperava que estivesse vindo em coluna e pela estrada aberta?
— Por acaso, não devo me precaver, tio? Os vigias é que estão alertas, e, se soou a trompa com teu meio fôlego não é culpa deles. Onde está meu pai?
— Na retaguarda, com seus novos amigos, mostrando-lhes as vinhas que diz que ele mesmo plantou. Falastrão!
— Folgo em vê-lo, tio! E a todos vocês também!
Todo o grupo me cumprimentou com alegria, pois eu era o primeiro rosto conhecido depois de meses de viagem. Entreguei o escudo e a espada para o guarda que me acompanhara, e toquei a égua para frente. Avistei a coluna após uns dois quilômetros. Esta era composta de uns trezentos soldados a pé, sem armaduras, mas com suas capas, escudos e lanças. Todos os soldados me cumprimentavam com euforia, e eu gritava alguns nomes em resposta. Passei pelas carroças, servos e sacerdotes, e continuei em direção ao final da coluna, pois tinha pressa em alcançar meu pai. Eu o vi então em meio a um grupo diferente, a cavalo, parado na estrada e apontando para o vale. Os que o acompanhavam me viram e abriram caminho, deixando que eu chegasse até ele. No alto das montarias, abraçamo-nos sem nada dizer, por instantes, e depois ele me apresentou ao grupo.
— Este, Têmeno, é nosso amigo Argios, rei dos dórios. Ele e sua comitiva ficarão em nossa casa até a próxima partida.
Cumprimentei-o com deferência. Um homem grande e forte, sisudo e sério o bastante para não me dirigir palavra. Olhei para o grupo que o acompanhava, provavelmente seus capitães. Era a primeira vez que via os dórios. Fiquei espantado com sua rudeza. Eram todos guerreiros experimentados, não havia dúvida. Com braços cobertos de um couro cru e surrado não estavam armados para combate, com couraças, mas traziam espadas e adagas. Nenhum deles, nem mesmo Argios, trazia qualquer ornamento de ouro ou prata, ou seja, um grupo austero e forte.
Já o restante de sua guarda, esta sim, com a mesma compleição, mas portando, além das longas espadas, fartas couraças de bronze, escudos redondos e o que mais os destacava: compridas lanças de madeira e enormes elmos, encimados por crinas, que os deixavam ainda mais altos. Os homens a cavalo eram cerca de quinze, e sua guarda a pé, uns cem homens. Além disso, traziam seus carros de provisões em que viajavam os servos e servas. Tratava-se, com certeza, de um grupo diplomático. Isso era visto pelo fato de os nobres não estarem armados, mas apenas suficientemente protegidos pela guarda, e comodamente servidos pelos servos.
Meu pai esqueceu, por momentos, os convidados, e emparelhou seu cavalo ao meu, pedindo que eu descrevesse como tinham sido os últimos meses. Contei-lhe das colheitas de uvas e azeitonas, da produção de vinho e azeite, e dos partos dos rebanhos. Isso tudo numa pequena cavalgada de algumas centenas de metros.
— Calma, filho! — disse, e sua mão tocou meu pescoço e me puxou até que nossos rostos se tocassem — Fale devagar senão você se afoga com as palavras. Eu também tenho muito a contar, mas creio que todos estão ansiosos. Por isso, falaremos a toda a família quando estivermos descansados. Mande mensageiros às quatro direções, para reunir seus tios e primos.
— Farei isso, meu pai, e espero que as notícias sejam propícias desta vez.
— Uma notícia ser boa ou má, muitas vezes, depende de quem a ouve, filho. Vamos, vá e avise sua mãe de que cheguei e estou bem.
Deixei o grupo e galopei na direção da vila. Meu tio e a patrulha já estavam nos portões, e mulheres e crianças riam e gritavam, abraçando-se e a seus maridos e pais. Adiantei-me até a casa principal, onde minha mãe aguardava ansiosa com meus irmãos. Ficou feliz em saber que meu pai retornara, mas não quis sair até ser chamada, pois sabia do cansaço da viagem.
— Um guerreiro sabe o momento de fazer a família feliz — dizia.
Apesar de todo o tumulto no pátio, do entra e sai de homens e servos, duas horas depois, meu pai entrou na casa. Já despido das roupas de couro e bronze, banhado e trajando apenas um manto limpo de lã, abraçou a todos, um por um, procurando sempre ouvir uma palavra, e não soltando de seus braços até todos ouvirem uma frase de carinho. Depois, ele e minha mãe ficaram a sós.
Nesse entremeio, despachei os mensageiros para Tebas e para outras fazendas ao redor. Também cuidei para que todos fossem acomodados, inclusive os visitantes. Para o rei e seus capitães, dei ordens que fossem liberadas todas as casas da parte sul do pátio; e para os soldados, que fossem acomodados num acampamento desocupado que tínhamos na encosta do vale, próximo da água. Respeitosamente, o rei me pediu para ficar acomodado com seus guerreiros em suas tendas, pois assim fora criado e assim sua gente fazia há gerações. Não se sentia bem entre paredes de tijolos e preferia a palha no chão a um catre de madeira.
Cabe aqui falar um pouco sobre os dórios daqueles tempos. O povo mais aguerrido que conheci estabelecera-se, há muito tempo, dentro das fronteiras da Tessália. Contavam os velhos que seu povo vinha de além das águas do Istros, o caudaloso rio do Norte, que diziam nascer nas terras geladas da Hiperbórea, e que deságua no Ponto. Além dessa fronteira, viviam os povos das planícies, comedores de carne de cavalo, os citas e sármatas. Pressionados por esses povos, os dórios cruzaram o Istros, subiram e desceram montanhas, e vieram, a cada dia, aproximando-se mais das terras cultivadas e dos pastos da Tessália. Foram sendo barrados ali pelos gregos, mas com estes aprenderam rapidamente muitas coisas, entre eles a língua e os costumes, mas preservaram algo que os gregos ainda não tinham, ou já tinham perdido: um orgulho da raça e uma disciplina guerreira sem igual, mas principalmente trouxeram consigo as armas de ferro. Sim, eles as tinham e as guardavam para si. Haviam aprendido o ofício longe da Grécia, no Leste, enquanto nós tínhamos cidades e plantações, e o bronze para defendê-las, eles tinham o ferro para conquistá-las. Para ter o minério que levava ao ferro, precisavam comerciar com o restante do mundo, por isso, dependiam dos gregos e procuravam manter relações as mais pacíficas possíveis no Sul, enquanto suportavam a pressão da fronteira do Norte.
Os dórios tinham costumes que nada condiziam com os nossos, entre eles a forma como eram tratadas as mulheres. Para eles, as mulheres nada representavam além de mães de seus filhos, futuros guerreiros. Não cantavam nenhuma forma de amor ou paixão, e as excluíam de quase toda a convivência cotidiana. Eram encerradas em suas casas e tendas, e viviam apenas umas com as outras, cuidando dos filhos menores, recebendo seus maridos quando a eles bem aprouvesse. Ainda sentiam um desprezo muito grande pelo comércio. A troca de mercadorias era unicamente destinada à subsistência e ao sustento do fabrico das armas que precisavam. Jamais o acúmulo de riquezas era permitido, pois isso tornava os homens indolentes. Nisso, não posso dizer que estavam errados.
Tínhamos em comum, nós Heraclidas e os dórios, o fato de não termos uma pátria. Eram estrangeiros em qualquer solo onde plantassem ou criassem seus rebanhos. O fato de estarem sempre se deslocando, fugindo de inimigos mais fortes e desesperados, e serem por isso tão belicosos, tornava-os ainda mais temidos aos olhos dos donos das terras por onde passavam. Para os dórios, a Grécia se abria como uma esperança, pois ansiavam apenas pela oportunidade de percorrer aqueles vales e conquistar uma cidade, onde poderiam viver e criar seus filhos como queriam.
Assim, o desejo de seu rei em se acomodar nas tendas de seus soldados, ou o fato de aceitarem apenas uma parte do vinho que lhes enviei, mostra o quão austera era a sua conduta. Bebiam sim, mas não davam demonstrações de euforia. Já nossos guerreiros, a maioria tebanos de nascimento, estavam acostumados com a convivência com os dórios, e não se deixavam levar por sua rudeza. Foi uma alegria vê-los chegar, encontrando-se com as famílias e outros companheiros. Mandei trazer vinte ânforas de vinho e armar uma grande tenda no pátio, próximo ao arsenal, onde sabia que eles gostavam de conversar e cantar. Era um local propício para não incomodar os da casa.
O final da tarde foi repleto das chegadas de todos os convidados. Alguns vinham a pé, outros montados, e até meus tios Carino e Leiandros vieram em seus carros de guerra, conduzidos por seus aurigas. Sempre gostavam de causar a impressão de que estavam prontos para a batalha. O pátio foi ficando apinhado de cavalos, carros e gente. Nas tendas dos soldados, as canções de caserna enchiam o ar com seus alaridos, tambores e bater de taças. Era um momento de festa para os Heraclidas.
Fui ao acampamento dos dórios, e fora a música que faltava, eram soldados como os nossos, entornando seus odres com quase a mesma vontade que os aqueus. Suas vozes ruidosas contavam histórias de guerra e aventuras. O rei Argios veio até mim com seus capitães, que ainda estavam sóbrios, e eu os conduzi até o pátio.
Normalmente, para as reuniões, usávamos o grande salão no térreo da casa principal, mas nessa ocasião, pelo grande número de convidados, amigos e visitantes, era preciso um espaço maior. A noite enluarada ajudou, e uma grande fogueira foi acesa no centro das cavalariças. Estas ficaram vazias de cavalos, mas as pessoas se amontoaram sobre as cercas, os telhados e até as árvores. Todos eram homens, pois as mulheres ficavam a ouvir por detrás das janelas, muros e sebes. Os mais velhos e respeitados, especialmente meus tios e primos mais velhos, eu e meus irmãos, aguardávamos num círculo de bancos de madeira ao redor do fogo. Os visitantes dórios entraram acompanhando meu pai, que veio trajando sua melhor túnica, de lã frígia tingida de vermelho sangue e bordada com fios de ouro, formando o leão dos Heraclidas no peito. Sobre os ombros, o manto dourado da pele do leão de Nemeia, herdado do próprio Héracles, e distintivo dos patriarcas desde Hilo. Aproximando-se da fogueira, sua figura resplandecia num reflexo de ouro, que o destacava da rudeza de seus acompanhantes dórios, cobertos de lã crua e couro curtido.
Ele se dirigiu ao centro daquela assembleia, que imediatamente se calou.
— Irmãos e amigos, acabei de chegar de uma longa viagem, como vocês sabem, e ainda não ouvi nada sobre as colheitas de cada um, os rebanhos, os vinhos ou o comércio. Como foi, Pérdicas, com suas ovelhas e sua lã?
Todos se entreolharam, espantados com um assunto assim, tão banal.
— Tirei cinquenta fardos de lã, irmão! Mais que no ano passado!
— Bom, irmão, muito bom! E, você, primo Maltas, quanto trigo colheu nesta estação?
— Quarenta carroças, senhor! E meus lagares produziram cem ânforas de vinho!
Vários outros, aqui e ali, começaram a falar de seus olivais, seu gado e suas lãs. Começou a parecer um mercado, e alguns já apontavam os outros, até dizendo que era mentira, que o azeite dele era melhor que o daquele, e por aí seguiria se meu pai não os tivesse contido.
— Quanto, meus irmãos e amigos, de toda essa fartura, trabalho e suor, ficou nas mãos do rei de Tebas? Quantas ânforas do seu excelente vinho, Maltas, foram para a família dos Labdácidas? Quantos de seus carneiros, primo, foram assados na cidadela? — Houve um murmúrio geral — Vejam, senhores, que o que pretendo não é afrontar nosso amigo, o rei Tisâmeno, cuja família nos acolheu há muitos anos. O que quero dizer é: não é nossa família, e esta terra aqui sob nossos pés não é nossa! Estou certo?
Ele fez uma pausa que eu chamaria o maior silêncio da Terra. Mas continuou:
— Todos sabem o quanto andamos pelo mundo, fugindo das injustiças dos homens e dos deuses. Sabemos o quão duro é o exílio, e não termos um chão que possa ser chamado de nossa pátria
. Eu, meus filhos, meus irmãos e meus pais, todos nascemos e crescemos nas terras de outros. Essas terras, como esta, às vezes, nos foram cedidas por bondade e amizade. Por outras, tivemos que tomá-las por força e ousadia! Mas, ainda assim, não são nossas! Sempre fomos estrangeiros aqui, na Beócia, ou na Tessália, na Ática ou em qualquer canto da Grécia onde aramos o solo ou apascentamos o gado. Ao longo de gerações, fugimos do infortúnio, mas também sempre nos mantivemos unidos pela promessa divina de que um dia o reino de Micenas, e todas as suas cidades, seriam nossos! Todo esse tempo, mantivemos a fé inabalável de que um dia se manifestaria a voz de Apolo para nos guiar! Tantas vezes pudemos ouvi-la e a seguimos, sendo que, em algumas ocasiões logramos a vitória, embora passageira. Quando fracassamos, tivemos que reconhecer que foi por culpa da nossa ignorância diante dos mistérios do Deus.
Ele fez uma pausa, e o silêncio profundo se manteve apenas cortado pelo crepitar da madeira no fogo e pelo vento nas árvores.
— Meu avô, meu pai e eu, muitas vezes, fomos a Delfos, e indagamos a sacerdotisa sobre o nosso destino. A maioria aqui presente, eu creio, não tem ideia da responsabilidade depositada nestas mãos e ouvidos. O futuro de milhares, de toda uma nação, colocado não na mão da espada, mas na mão que deposita a pergunta no vaso da pitonisa. Se fosse pela responsabilidade de liderar e lutar, vocês sabem que jamais falhei com vocês no campo de batalha! Mas o fado de conseguir com que o grande Apolo se digne a nos responder, e procurar por todos os meios interpretá-lo, esse sim é um trabalho fácil apenas para o grande Héracles!
Outra pausa, nenhum murmúrio.
— Quando daqui saí para essa última jornada, prometi a mim e a meus antepassados que somente voltaria com a certeza de que a vitória seria nossa! Prometi que levaríamos nossos filhos para a terra que nos pertence, agradecendo ao grande rei e povo de Tebas por sua hospitalidade. Sem olhar para trás, atravessaríamos a Grécia até os grandes muros de Micenas e os poríamos abaixo com o nosso peso!
Fez mais uma pausa, e antes de esperar qualquer reação, proferiu em alto tom:
— Esta é a hora tão esperada, amigos e irmãos, pois eu ouvi da grande sacerdotisa a profecia da nossa grandeza! Nunca os filhos de Héracles foram tão abençoados! Nosso destino, repovoar o Peloponeso com a nossa estirpe, começa agora!
Um alvoroço se iniciou e alguns braços brandiram suas espadas. Vi homens se abraçarem chorando, rapidamente, pois ainda queriam ouvir mais do que a sacerdotisa de Apolo tinha dito.
— Além de todas as esperanças, a sacerdotisa nos confirmou que o nosso destino é atravessar a via estreita, o istmo de Corinto, e teremos a vitória em nossas mãos! O grande Apolo nos predisse — e tirando uma tabuinha do alforje, assim declamou: Atravessem a via estreita, e vencerão
!
A multidão veio abaixo. A tabuinha foi passada para um, e depois para outro e, na medida em que ela avançava, os homens se alteravam. Nessa hora, fiquei um pouco atônito, pois ainda não entendera o que estava acontecendo, mesmo assim desembainhei minha espada como os outros, e a brandi no ar junto com um grito de euforia. Para mim, eram palavras abruptas e dúbias, mas eu aprendera que não se questionavam os deuses, seus intérpretes, e nem nosso pai. Meus tios guerreiros, Carino e Leiandros, ajoelharam-se e abraçaram suas lanças. Era quase um transe.
Quando meu pai falou de novo, intrometendo-se no eco daquela euforia, todos olharam para ele como para um salvador:
— Se o grande Deus das flechas douradas e do carro solar nos abençoou com suas visões, nós teremos, amanhã, muitos sacrifícios e orações a oferecer, mas temos muito mais ainda a agradecer! O primeiro favor nós devemos aos nossos aliados que ainda vivem no Peloponeso, que nunca nos esqueceram e sempre nos mantiveram informados sobre os acontecimentos e as ações de nossos inimigos. Hoje sabemos que Micenas e Tirinto estão fracas, pois foram suplantadas por Tégea, e seu velho rei Équemo. Mesmo que Pilos e Argos ainda tenham força, apenas Tégea poderia fazer-nos frente hoje. Agora, nossa numerosa família habita desde a Tessália até Maratona, na Ática! Nossos rebanhos cobrem as planícies. Nossos barcos vão até o Egito e Creta! E nossa juventude resplandece em força e bronze. Nunca tivemos um exército tão numeroso e forte!
Ao dizer isso, levantou meu braço, que ainda segurava a espada. Ele brandiu a sua, num gesto rápido e agressivo. Isso produziu um grande efeito na plateia, especialmente entre seus convidados. O rei Argios, por um instante, quase sacou da sua espada para brindar aquele gesto.
— A segunda benção está em nossos amigos! Não apenas fomos agraciados com a amizade de Tebas e Atenas, assim como de tantas outras cidades, como tivemos agora a oportunidade de reencontrar um grande aliado, os dórios! Héracles, no passado, ajudou a seu rei Egímio a enfrentar os inimigos. Em troca desse favor, esse rei deu parte de suas terras a nosso avô Hilo, isso nos fez quase parentes, pois em seu testamento o rei Egímio tratou Hilo como seu filho, após a morte de Héracles. Em todas as guerras que se seguiram, os dórios auxiliaram Hilo, e alinharam as suas fileiras com o primogênito de Héracles nas batalhas contra Micenas e Argos. Passado todo esse tempo, eis que nossos caminhos novamente se cruzam. Assim, além da nossa visita a Delfos, estivemos muito além, no Norte, junto à casa do rei Argios dos dórios!
Num breve gesto, o grande e austero rei foi introduzido na vida daquela família para todo o sempre.
— Para aqueles que ainda não o conheceram, saibam que este nobre e forte rei é agora nosso amigo, e é com alegria que o recebo em nossa casa! Vi em sua terra o quão forte é seu povo, sua vontade poderosa de ter um reino e de transformar o mundo num lugar seguro para os seus! Ao longo dos anos em que nossa família permaneceu desterrada, esta adquiriu a mesma índole, um ideal de força e união! Hoje, apenas como um diplomata, o rei Argios queria conhecer nossa casa, e sentir que o que eu lhe disse sobre nossa gente não era apenas a lenda que se conta da Ásia até o Épiro! Ele queria conhecer os herdeiros de Héracles!
Nisso, todos alçaram suas espadas o mais alto que puderam e gritaram, num brado de guerra uníssono e assustador, que deve ter sido ouvido em Tebas:
— Héracles! Héracles! Héracles!
Então as espadas se chocaram umas contra as outras e alguns escudos retumbaram.
Em seguida, meu pai levantou a sua taça, e todos avançaram e encheram os copos nos odres e beberam o acre vinho da Beócia, em grandes goles e com muita alegria.
O rei Argios sorveu moderadamente seu vinho. Seus companheiros sequer provaram a bebida. Apesar do abraço com que meu pai congratulou aquele rei, senti, naquele momento, que nosso novo amigo era um aliado da necessidade. Depois meu pai me explicaria as próprias atitudes. Somente muito depois eu as entenderia, mas naquele dia foi só isso.
Preparativos
A guerra que ia se iniciar primeiro varreu a terra como notícia. Por todos os cantos da Grécia, aliados e inimigos se alvoroçaram com a ideia de que os Heraclidas iam novamente invadir o Peloponeso. Após sessenta anos de poucas escaramuças e algumas batalhas indefinidas, uma grande invasão, todo o deslocamento de uma nação, estava para se iniciar. A primeira reação se deu em Tebas. Dois dias depois da grande reunião, o rei Tisâmeno surgiu na estrada pela manhã, conduzindo seu próprio carro e liderando uma comitiva de poucos cavaleiros, que vinham tranquilos e bem-dispostos, e quando apeou no pátio, abraçou meu pai e lhe desejou uma vida longa. Eu levei-lhe uma caneca de água fresca, e ele bebeu com prazer e alegria. Depois colocou sua mão cheia de anéis da realeza sobre meu ombro e disse:
— Obrigado, jovem príncipe! — Fitando-me com sinceridade prosseguiu — Será um bom rei em Micenas!
Poucas vezes o vira pessoalmente e, naquele dia, a primeira fora de Tebas. Era mais velho que meu pai, talvez da idade que teria meu avô. Era também mais baixo, um tanto atarracado, mas de um semblante tranquilo e honesto. Sempre gostara dele, e meu pai fazia questão de dizer o quanto Tisâmeno herdara a boa índole dos seus bons antepassados, apesar de alguns maus parentes.
O rei nos acompanhou, e viu os preparativos que já tinham começado e se estendiam da vila para os campos ao redor. Carros, carroças, cavalos, forjas, tudo se misturava na forma de ruídos, exclamações, cheiros, poeiras e fumaças. Centenas de homens se atropelando nas tarefas de colocar um exército em marcha.
Caminharam calmamente, e se dirigiram à casa principal.
— Tenho sua amizade em alta conta, Aristômaco! — disse ele a meu pai, já sentados à mesa do grande salão. — Eu sei que a sua saída da Beócia nos fará grande falta também. Terei terras incultas, oficinas vazias e barcos que não chegarão ao meu litoral.
Meu pai sorriu brevemente, oferecendo uma taça de vinho ao rei:
— Sentirá falta do meu vinho também, bom rei?
— Entre muitas coisas, com certeza, seu vinho é o que mais fará falta em Tebas! — respondeu e tomou um longo gole com visível prazer.
Meu pai aguardou que ele tirasse o copo dos lábios e continuou:
— Isso não será problema, Tisâmeno! — sim, ele chamava o rei pelo nome quando queria e talvez fosse o único homem na Beócia a ter tal liberdade — Sei que as terras do Peloponeso geram ótimas cepas, e o clima de lá nos dará uvas até mais doces que as da Beócia. Farei com que caravanas lhe tragam todos os anos o vinho que puder beber!
— Era isto o que esperava ouvir, Aristômaco! Ter certeza de que nossa amizade, aliás, mais que isso, a amizade de nossas famílias, permanecerá intocada! Conheci você no dia em que nasceu, pois tive a sorte de ser amigo do seu pai Cleodeu! Assim, tenho para com você e todos os seus o mesmo afeto que dedico a meus filhos. Não quero que isso se perca!
— Tisâmeno, eu amo Tebas como minha casa, e antes de mim todos a amaram, até o bom e velho Anfitrião! Teremos eternamente uma dívida com sua família, e não haverá vinho que poderá saldá-la! Mas acho que os braços fortes dos Heraclidas, guiados por nossa honra, poderão pagar essa dívida um dia. Contará sempre conosco!
— Aristômaco, aprendi com meu pai Tersandro, durante o pouco tempo que o conheci, e depois com meu regente Peneleu, o quanto os Heraclidas sempre nos apoiaram e, muitas vezes, nos salvaram, desde a época de Creonte e Héracles. As tantas guerras civis que os leões dos Heraclidas
evitaram entre meus antepassados e, assim, preservaram a dinastia mais antiga da Grécia. Eu realmente conto com sua amizade e, por isso, estou aqui! Eu quero que o braço forte dos Heraclidas seja ainda mais poderoso!
Ele, levantando-se da mesa, foi até a janela e apontou a direção de sua capital.
— Neste momento, meus mensageiros, assim como os seus, saem em todas as direções, e reúnem a elite de meu exército. Em uma lua terei cinco mil homens acampados fora da cidade, prontos a seguirem as suas ordens, e tudo que os celeiros reais dispõem, daqui até a fronteira, serão seus para alimentá-los e armá-los!
Meu pai ficou muito impressionado com aquilo, aproximou-se do rei e o abraçou com sinceridade:
— Tebas será amada para sempre, grande rei!
— Acho que em breve eu também o chamarei de grande rei, meu amigo! — e Tisâmeno retribuiu o abraço, que tenho certeza também foi muito sincero. Ele concluiu — Acho até que, se algum dia, o meu nome for lembrado, Aristômaco, será por este dia! Será por conta do nome de Héracles!
Assim ele se foi, levantando poeira no pátio e seguido por seus guardas.
Enquanto isso, em Atenas, um contingente se preparou e viajou até Plateia, para nos aguardar para a travessia do istmo de Corinto. Muitas centenas dos mais bravos guerreiros da Ática, também incentivados por seu rei, alinharam seus carros na fronteira do Peloponeso.
Do lado inimigo, nossos espiões no Peloponeso nos traziam notícias bastante preciosas. Em Micenas, o desespero da facção reinante fez com que deixassem a cidade, levando seu tesouro, e fossem se refugiar nas muralhas de Tégea. Da longínqua Élis vinha a notícia de que seu rei Óxilo estaria disposto a nos apoiar. Todas as demais cidades, desesperadas, procuravam se apoiar em Tégea, onde o velho rei Équemo ainda reunia as forças verdadeiramente combativas dos aqueus.
Quando também chegou a notícia de que um grande exército de dórios atravessava a Tessália, rumando para o sul, deixou de haver na Grécia qualquer dúvida de que o destino dos Heraclidas finalmente se realizaria. O dinheiro de meu pai sustentava a grande marcha do rei Argios, subornando os soberanos tessálios para permitir a passagem do exército dório, que cruzou o Esperqueus e chegou até o Monte Eta. Ali, meu pai foi aguardá-lo, e juntos sacrificaram e rezaram no templo de Héracles. Desceram pela costa e, finalmente, passaram por Tebas.
Com o rei Argios, nada menos que cinco mil hoplitas e cem carros de combate acamparam às margens do lago Kopays. Já estavam a sua espera centenas de carroças e mulas, carregadas de suprimentos, para iniciar a campanha. Sua presença causava assombro no restante do exército. Mesmo acampados, mantinham uma disciplina férrea, com pouca ou nenhuma cantoria, nada de danças ou folguedos, e pouco comércio. Passavam o dia se exercitando e orando aos deuses, ou então afiando as armas e aprumando os arcos. O ruído que mais se ouvia era o martelo do ferreiro na forja. O soldado dório era, em geral, muito alto, barbado e com semblante pesado. Trazia o capacete de bronze encimado pela crina de cavalo, descendo até a cintura, e com a típica proteção de nariz. Peitorais e grevas, e o grande escudo de bronze sobre madeira, o hoplon, do diâmetro de seu braço, constituíam suas defesas. Os ataques: uma lança grossa de três metros, com a ponta de ferro em forma de triângulo agudo, para estilhaçar o inimigo na estocada e na saída, e a espada curva, de ferro afiado, três vezes mais resistente que o gume das nossas espadas de bronze. Para completar, uma capa grossa de lã, a proteção contra o frio do inverno e o calor do sol no verão, que tinha de durar toda a campanha, e era uma companheira inseparável. Representava seu clã pela cor, que variava da púrpura, do rei Argios, ao azul do clã das montanhas da fronteira do Épiro.
O exército dos Heraclidas, comandado por meu pai, crescia a cada dia. Centenas de homens chegavam de todas as direções, trazendo seus equipamentos e cavalos, e suas tendas iam ocupando as margens do lago, estendendo, por quilômetros, aquela aglomeração de barracas, forjas, estábulos e oficinas. Meu pai cuidou de organizar o exército em três colunas. A principal, sob seu comando direto, tinha cerca de dez mil soldados a pé e oitenta carros de combate. Tinha o nome de Hilo, em homenagem ao primogênito de Héracles. A divisão comandada por meu tio Pérdicles reunia, além de tropas dos Heraclidas, todo o contingente dório, num total de oito mil homens de infantaria e cem carros de guerra. Chamava-se divisão Perseida, em homenagem ao grande Perseu, nosso antepassado e um dos grandes reis de Micenas. Por último, a divisão dos contingentes aliados da Ática, da Tessália, do Épiro e até da Trácia, num total de oito mil soldados e uns setenta carros. Chamava-se divisão Filoctetes, em homenagem ao melhor amigo de Héracles, combatente heroico de Ílion.
O grosso do exército Heraclida se armava e se vestia à maneira tebana, os escudos curvos de bronze, as lanças de madeira de freixo e ponta de bronze, com uma vez e meia a altura de um homem. A couraça de bronze no peito, nos braços e pernas, e o capacete redondo no topo e reto na nuca. Apenas os capitães usavam as crinas no alto do capacete. A espada era reta e feita de bronze, e mais curta que a dória. O armamento em geral era adornado com prata e pedras, e até ouro. Cobriam-se com mantos de lã até o joelho, com capuzes para os dias mais frios. Diferenciavam-se os tessálios, muito parecidos com os dórios, com o escudo redondo e a profusão de crinas de cavalos, e os trácios, rudes montanheses, com peles de animais a servir de manto. Todos, em geral, traziam a insígnia de sua origem: um cavalo da Tessália, um urso da Trácia, ou uma águia da Ática, mas todos os Heraclidas traziam nos escudos e carros de guerra a insígnia de Héracles: o grande leão rugindo para o inimigo.
Por falar em carros de guerra daqueles tempos: frágeis estruturas de metal e madeira, revestidas de couro e uma fina lâmina de bronze, com duas rodas de madeira com um aro externo de metal e um varão de madeira pesada. Neste atrelavam-se dois cavalos pesados, fortes o bastante para penetrar uma linha de escudos e lanças, com o peitoral reforçado por uma placa de bronze. Eram guiados por um auriga, armado de chicote e, em caso de necessidade, de espada. Ao lado dele ia o guerreiro, um grande senhor em armadura vistosa, manejando a lança e a espada e, se necessário, usando as flechas, que trazia em várias aljavas no interior do carro. Poderoso, do alto de seu pedestal sobre rodas, esse guerreiro podia distribuir a morte ao seu redor. Era como se toda a tropa a pé servisse apenas como coadjuvante, cada guerreiro só estava ali para derrubar os adversários dos carros deles. Dominava o campo quem, com seus carros, sobrepujasse os carros do inimigo. Pelo menos era assim naqueles tempos, quando ainda eram heróis os homens que guerreavam!
Durante meses, eu acompanhei toda aquela movimentação, auxiliando meu pai quando preciso e, nas horas vagas, percorrendo os acampamentos junto com meus irmãos. Estes estavam tão excitados com aquele alvoroço quanto cabritos subindo uma colina no verão. Eram Cresfonte e Aristodemo, ainda imaturos, mas loucos para estarem ali, no topo de um carro, atirando suas flechas. Eu crescera brincando com aqueles meninos e, dentro em breve, minha vida iria se separar das deles.
Enquanto nós assistíamos, e meu pai se desdobrava naquela lida, uma dor enorme afligia minha mãe. Apesar de toda a sua vida ter sido preparada para aquilo, a expectativa de uma guerra tão ampla não era o que esperava para si e seus filhos. Chorava todos os dias, depois nos acalentava e procurava sempre trazer nosso pai para junto de todos, antes que partisse. Ele mesmo fazia de tudo para estar à noite com ela e os filhos, e se divertia contando as histórias do dia, mostrando-nos sempre seu modo afetuoso de nos tratar. Isso era algo que aquele mundo não estava pronto para esperar ou entender.
Chegada a hora da partida, meu pai se despediu de toda a família, e apenas eu o acompanhei, em seu carro, rumo ao sul. Pela primeira vez, subi em um carro lado a lado com ele, desfilei pelo pátio e portão afora e, discretamente, olhei sobre meu ombro minha mãe na porta da casa, que chorava e amparava meus irmãos e irmãs. Tudo sempre fora tão diferente, mas agora eu sabia que, mesmo que não fosse para a guerra, era perto este dia, acompanhar meu pai agora era o meu destino.
Assim, alinhando-se pelas estradas para o Peloponeso, nada menos que uns trinta mil homens se puseram a caminho naquela primavera. Atrás deles, uma multidão de carroças, animais e pessoas a pé. Um contingente de empregados e escravos, e mais as famílias de muitos homens que, desde já, queriam entrar na terra de seus antepassados. A melhor visão que tive desse exército completo foi em Plateia. Juntando-se às tropas que lá já aguardavam, o acampamento se estendia a perder de vista, aglomerado em torno de muitas praças, onde o comércio funcionava de dia e de noite. Muita música e dança; gritos e algazarra.
Quando as fogueiras eram acesas ofuscavam as estrelas. Então os odores dos pães e das carnes assadas enchiam o ar. Próximas à tenda de meu pai, ficavam as barracas dos adivinhos e seus altares, onde, entoando orações, dissecavam aves e cabras, queimando-as em honra dos deuses. Um misto de incenso e carne queimada enchia o ar ao redor daquela grande barraca. Eram essas as sensações que eu tinha naquela noite fresca, parado à porta da tenda de meu pai, às vésperas do grande avanço pelo istmo de Corinto.
Eu dei início à conversa:
— Este é o maior momento da vida de qualquer homem nesta planície, pai! Imagino então o que significa para o senhor!
Ele, calmamente, veio até a entrada e olhou para aquele acampamento imenso, onde a luz das fogueiras se estendia até o horizonte, e os ruídos de cinquenta mil pessoas, combatentes ou não, misturavam-se.
— Têmeno, os homens que você vê na planície, ao contrário da sua visão jovem e apaixonada da guerra, não estão pensando em outra coisa além de se divertir por esta noite. Exceção feita, creio eu, para os dórios e os sacerdotes! — Ele disse isso rindo e continuou — Depois disso, todo guerreiro digno de nome pensa sobre os tesouros que espera conquistar nas terras além de Corinto. Glória, talvez, mas principalmente espólio, sejam tesouros, terras, mulheres ou escravos. Sempre foi assim desde os tempos de Héracles, quando o que valia para um homem era um bom rebanho, de preferência, o do vizinho.
Sentando-se calmamente em seu catre, meu pai prosseguiu:
— Eu sei o que nos aguarda, Têmeno, além daquela planície, quando entrarmos nos vales do Peloponeso! Embora sejamos agora fortes e em grande número, os que lá estão nos esperando têm a vantagem de conhecer o terreno e, sendo legítimo ou não, acreditam que estão defendendo suas casas. São os senhores de dez grandes cidades. Para eles, não somos os herdeiros de Héracles, mas os piratas que vão saquear e matar suas famílias, além de tomar suas terras. Não interessa o quanto as casas reais do Peloponeso nos perseguiram, nos enganaram, e até mesmo hoje, sessenta anos depois, atacam nossos navios e caravanas. Toda a legitimidade de nossa ação está apenas em nossos corações, no nosso desejo de justiça. Portanto o que se passa no meu coração é uma grande angústia, pois a vida de todas essas pessoas e o destino de minha família estão em minhas mãos agora, e não há mais volta!
— Mas se até o Oráculo predisse nossa vitória, pai, por que se afligir? Pode Apolo estar mentindo? Pode Apolo nos fazer de bobos, primeiro nos enganando sobre nosso destino, e depois nos levando a crer numa vitória incerta?
— Filho, por tantas vezes, os deuses nos honraram com vitórias, depois com derrotas e, geração após geração, nos fizeram mesmo crer que havia em nosso sangue algo de digno a ser propalado ao mundo. Somos herdeiros de Perseu! Héracles foi o primeiro de nossa família a ir ao Oráculo e, em seguida, seus filhos e netos. Eu fui uma dezena de vezes, e a maior parte delas, sem resposta! Ao longo de cem anos, todas as vezes nossa família acreditou que tudo seria resolvido pela vontade do Deus. — Ele parou por um momento e sorveu seu vinho — Pois bem, filho! Saiba então que nosso único desejo, nesses cem anos, foi manter unida nossa família diante de um ideal! Posso até dizer que nenhuma dinastia na Grécia durou tanto no poder como o tempo que nossa família permaneceu unida. Hoje somos muitos e temos aliados, entre eles os dórios, um dos povos mais aguerridos e violentos da Grécia e da Ásia. Quando adentrarmos aquelas terras, para reclamar o trono de Micenas, que lhe pertence por direito, teremos que abraçar a maior de todas as guerras, contra todas as cidades do Peloponeso, e despejar o ódio e a morte na casa de milhares de famílias inocentes. Quando tivermos dominado toda a terra, você verá, meu filho, como será difícil a tarefa de governar com justiça. Seus tios e primos, e até irmãos, e depois seus aliados, todos vão querer suas partes, e pior, quererão ser reis. Não mais governarei os Heraclidas, além daqueles que realmente serão fiéis. O rei Argios vai querer sua parte na terra dos nossos antepassados. Eu terei que ceder, pelo tratado que com ele firmei. Deverá saber por que fiz isso: não acredito mais que possamos ficar outros cem anos a esperar, espalhados pela Grécia, a boa vontade de Apolo em nos devolver o que é nosso. Mais uma geração, e então nossos jovens não mais serão Heraclidas, mas tebanos e atenienses. Então sumiremos da memória do mundo, como um povo que imaginou poder perpetuar a glória de um herói. O templo de Héracles talvez se desfaça com o tempo, e mesmo a sua lembrança será apenas mais uma lenda. Enfim, filho, quero que fique claro que somos mortais!
As lágrimas rolaram pelo rosto barbado. Jamais vira, ou tornaria a ver, tanto sentimento e tanta sinceridade em um homem.
— Continue, pai! Sei do meu destino, e que, como o senhor antes de mim, terei que assumir o encargo de governar a família. Não tenho medo! Além de guerrear, o senhor me ensinou a ser honrado e justo, a parlamentar e distribuir o bem ou o mal, conforme o quinhão de cada um. Perpetuarei a glória de seu nome, mais do que o de Héracles. Eu, meus filhos e netos, governaremos Micenas para sempre. Sei do sucesso que terá em breve, com o maior exército da Grécia esperando ali fora, com uma fome de glória contida por cem anos.
— Isso, filho, é o que eu espero de você, com ou sem a vitória sobre os aqueus, mas antes de sentar no trono de Micenas, quero que faça algo para nós dois.
Disse isso e se virou, entrando na parte da tenda onde estavam seus pertences. Abriu uma grande arca de madeira, com entalhes e adornos em prata. Tirou de dentro dois objetos: uma adaga de bronze, incrustada em prata e ouro, com uma cena de caça esculpida no cabo de marfim; e uma flauta de osso, muito bonita, mas do tipo que já não se fabricava mais, e que apenas se via nas casas dos mais velhos.
— Diga-me, filho, destas duas coisas, qual pertenceu a Héracles?
Percebi, de imediato, que isso era uma charada, para me levar a uma lição de moral no final. Pensei então, apressadamente, na mais rápida e sensata das respostas.
— Ambas, pai!
Ele me olhou profundamente nos olhos, e depois abriu em seu sorriso uma gargalhada tão retumbante, que, acredito, metade do acampamento deve ter despertado. Abraçou-me, virou-se e caiu em sua cadeira.
— Diga-me, Têmeno, por que essa resposta? Pense sensatamente antes.
Entendi que acabara de entrar em uma grande enrascada. Mas pensei, e pelo tempo suficiente de uma grande taça de vinho, sorvida delicadamente por meu pai, fui até a entrada da tenda, respirei e voltei. Então respondi:
— Este punhal é antigo. Poderia talvez pertencer até ao avô de Héracles. Todos os punhais feitos depois dele têm alguma incrustação de ferro na lâmina, para deixá-lo mais resistente. Este é afiado direto no bronze, que se presta a ser mais cortante. Bom para os tempos em que os homens não usavam couraças, e bom para furar o couro forte de um animal!
Meu pai olhou-me assombrado. Realmente, eu tinha muito bem treinados os dons da observação e da memória.
— Esta linda flauta de osso, velha como o punhal, seria difícil tocá-la, eu um reles mortal! Foi feita por e para as mãos de um gigante. Veja o espaço entre os buracos, as mãos que tiravam música deste instrumento eram de um homem com o dobro do meu tamanho. Héracles era assim. Veja, meu pai, que são apenas conjecturas. Se me disser que nenhuma destas peças pertenceu a Héracles, acreditarei, mas não acreditarei se disser que pertence a este ou aquele outro grego. Apenas Héracles poderia ter possuído tais tesouros!
Então, meu pai se aproximou e me abraçou. Seus grandes braços me envolveram e apertaram, e senti, por um instante, que se tratava de uma despedida. Ele me perguntou então:
— O que é mais importante para você, Têmeno?
— Sem dúvida alguma, o senhor, minha mãe, e meus irmãos e irmãs!
— Não tinha dúvida que responderia isso. Foi para tal que o criei! Foi assim que fui criado, e antes meu pai e o pai dele. Se muitos pensam que nosso grande avô Héracles era um homem rude e apenas forte, estão enganados. Nossa herança como Heraclidas é exatamente a inteligência, a perspicácia, o apego à verdade e, principalmente, o amor.
Ele encheu duas taças de vinho, oferecendo-me uma, o que jamais fizera até então. Era o vinho com mel da Beócia, consumido nas vésperas e nos dias das grandes batalhas. Eu gostei daquilo, acho que enternecido pelo momento sem igual.
— Amanhã, nossa marcha começará através do Peloponeso. Milhares de Heraclidas e dórios, suas famílias e suas ideias de um mundo melhor. Isso entrará para a história! Mas quero que algo mais importante ainda seja feito por você, quero que vá com sua mãe e irmãos até o monte Eta. Lá, no
