Os Pedreiros de Deus: Entre o Maço e o Cinzel
De DeSenes
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Sobre este e-book
O que levaria esses homens a decidir construir algo que jamais terminariam?
Amós, mesmo sem saber a resposta, escolheu trocar a monotonia de uma vida simples em sua vila pelas aventuras que
sempre ouvira sentado nas noites de fogueira da estalagem.
A obra narra a transformação, por vezes dolorosa, de um aprendiz de construtor na parte central de uma lenda que atravessa os séculos.
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Os Pedreiros de Deus - DeSenes
Capítulo I
Maldita jornada, desde sempre foi a mesma coisa.
Para se aprimorar, Amós, você tem de se juntar a nós no próximo intento.
Me faziam caminhar mais do que um andarilho, ou um peregrino que nada da vida faz além de se preocupar com o próximo passo. Não era um andarilho, era um aprendiz de construtor, queria fazer maravilhas com minhas mãos. Queria fazer as fortalezas mais impenetráveis, ou as catedrais com adornos inimagináveis, reluzindo perante aos céus a minha fé, de modo que Deus não se arrependesse em ter dado aos meus pais um homem saudável.
Nessas jornadas, sobrava tempo demais para refletir, e a cada passo, ficava convencido de que o que estava sendo feito era uma tremenda idiotice, porém, no passo seguinte, tornava a mudar de ideia. Assim acontecia cada vez que deixava para trás um canteiro de obra, a fim de conseguir novos conhecimentos e dominar por completo a arte de construir e decorar grandes edificações.
A cada construção que via erguer, ficava impressionado com o quanto ela podia me tornar diferente. Assim como a cada bloco de rocha repleto de arestas que me era entregue para ser desbastada e, com isso, praticar o manuseio das ferramentas, sentia como se eu estivesse sendo moldado por elas. As pedras mostram-se como grandes professores!
As escolas de Pedreiro tomam forma a cada novo empreendimento, a cada nova construção de castelos, fortalezas, mosteiros e catedrais. Cada uma dessas edificações dão origem a novos canteiros de obra, e nesses locais, são formadas as oficinas. Nós, aprendizes, nos juntamos aos Mestres de Ofício para aprender a profissão. Entretanto, por que uma pessoa se juntaria a um trabalho torpe e pesado, no qual suas mãos ficam grossas como couro curtido?
As respostas são as mais variadas...
Um aprendiz que conheci nos primeiros dias em que cheguei na guilda, chamado Ivan, parecia ser tão jovem quanto eu. Ao conversarmos, Ivan disse ter vindo do Sul e, por obra do destino, veio se juntar aos pedreiros, pois não aguentava mais seu pai. Um velho rabugento que, além de espancar a esposa e deixar a miséria reinar em seu lar, ele o obrigava a roubar as hortas e os viveres dos vizinhos. E quando pego furtando, era levado de volta para casa e, claro, duplamente castigado. Primeiro por mostrar ser um péssimo gatuno, e depois, por necessitar receber a lição que todo bom pai deveria aplicar a um filho rebelde. Essas lições costumavam deixá-lo uma semana inteira repuxando uma das pernas, ou com um braço imóvel. Ou mais frequentemente, as duas coisas.
Numa tarde qualquer, quando o homem se cansou de espancar sua mãe, decidiu que era momento de desfrutar daquilo que mais gostava: espancar seu filho mais novo, mas aquele dia seria diferente.
Ao perceber as intenções do pai, correu desesperadamente para a floresta, e lá, continuou a correr por horas. Quando cansado, com fome e desanimado, achou que havia andado em círculos, essa é a sensação de quem permaneceu muito tempo numa mesma paisagem. Ao observar o local, começou a ouvir o tilintar de ferramentas, e ao sair da mata, entendeu o quanto estava longe.
Teve a sensação de já ter passado por aquele local, mas, na verdade, não era possível ter certeza.
Ao avistar o vilarejo, não tão grande quando comparado a tudo que já vira, é bem verdade, o que lhe impressionou naquele momento foi a sensação que o perturbava, um misto de parecer conhecer o lugar, mas, ao mesmo tempo, não ter certeza de nada.
Em meio à surpresa de ter ido tão longe, vieram os sentimentos de desespero e arrependimento, comuns nessas situações, que o preenchiam naquele momento. A angústia somente foi quebrada pelos sons da pedra sendo desbastada num canteiro logo à sua frente. Ali estava sendo erguida uma obra.
Por um momento, esqueceu da fome, do cansaço de sua frenética fuga, sentando-se à beira do canteiro para melhor observar os estranhos trabalhadores, diferente de tudo que já havia visto até então. Homens com comportamento muito diferente dos que já teve a oportunidade de conhecer.
Mas era quase noite quando foi notado por um daqueles trabalhadores, que, ao perceber a situação incomum, não tardou em se aproximar do rapaz. Como única alternativa que lhe restou, agarrou-se ao operário e, desesperado, abriu seu coração. Daquele dia em diante, passou a fazer parte daquela tão distinta família e nunca mais retornou ao seu vilarejo de origem. Apesar de temer por sua mãe e irmãos, entendeu ser melhor deixar certos sentimentos adormecidos, em detrimento da vida que agora levava. Viajava por todas as terras e reinos vizinhos graças ao, cobiçado por muitos, salvo-conduto que os construtores são portadores, para ir e vir pelas terras sejam quais forem.
É curiosa a forma que o universo conspira para lhe pôr onde ele quer que você esteja e lhe entregar aquilo que é seu. Após Ivan me contar sua história, me firmei ainda mais à sua personalidade, dando vida à amizade que imediatamente acabava de nascer.
No meu caso, a junção à corporação não foi motivada por necessidades tão traumáticas, nem um chamado divino, desses que criam profetas e profecias. Apenas me obriguei a não envelhecer como as casas de minha vila, estagnadas num mesmo lugar, até que insetos pestilentos me devorassem. O mundo estava ao meu dispor, e eu, curioso como era, jamais me permitiria a tal tolice.
O fato é que, de tempos em tempos, alguns pedreiros passavam pela vila onde eu morava em direção a seus empreendimentos. A chegada deles era uma verdadeira festa para jovens como eu, pois significava histórias que vinham além das cercas que limitam nossas vidas.
Jovens e velhos juntavam-se à fogueira da única estalagem para ouvir esses homens falarem das belezas e maravilhas que o criador havia preparado para nós. Das grandes cidades com inúmeras e belas casas das quais eu não conseguia imaginar.
Certa noite, numa daquelas em que ouvíamos esses sábios homens, algo não passou despercebido por minha curiosidade, minha maior fraqueza. Depois do término das histórias, os pedreiros se dirigiram para o segundo andar da estalagem, mas não antes de um deles se aproximar do proprietário e lhe comunicar algo de difícil compreensão. O estalajadeiro, que já parecia acostumado com esses gestos, apenas assentiu. Essa situação mexeu com minhas ideias, e diversos questionamentos invadiram minha imaginação. Antes de construir a estalagem, não seria ele mesmo um pedreiro?
Devaneios que resolvi abandonar antes que tomassem corpo e alma.
Lembro de que, após todos entrarem ao aposento, as portas foram cerradas, permanecendo os pedreiros lá confinados. Apenas um vigia
era deixado do lado de fora guardando a porta, armado de uma espada. Costume muito estranho para forasteiros que aparentavam ser amigáveis em seus gestos e olhares, em um vilarejo pacato, aliado ao fato de que os mais velhos sempre desconfiaram das práticas desses homens, lançando toda sorte de lendas e superstições.
Após a saída dos pedreiros, para se enclausurarem no cômodo privativo, os demais voltaram às suas casas, e eu não tinha mais ninguém para importunar. Tomado por um impulso que jamais saberia explicar, a maldita curiosidade talvez, resolvi conversar com aquele homem. Subi uns três degraus e parei. O olhar do vigia
desencorajava a aproximação de todos. O homem, uma estátua, com sua face imóvel, sem transparecer emoção alguma, agora me observava, e poderia jurar que sua expressão mudara. Mais leve, talvez por perceber que se tratava de um jovem ignorante que não oferecia perigo.
Esse pequeno gesto me encorajou a vencer os demais degraus que nos separava, e me instalei à frente dele:
— O que se passa aí? Todos foram dormir?
Com uma expressão bem mais aliviada, pois suas suspeitas se confirmaram, tratava-se mesmo de um jovem ignorante.
— Sim — respondeu ele, com um ar zombeteiro nos lábios.
— E você pretende vigiar essas portas aí fora por toda a noite?
— Sim.
Essa foi a única palavra que consegui arrancar de seus lábios, mas claro, além de curioso, a teimosia imperava naqueles meus poucos anos, e não me daria por vencido. Eu sabia que algo se passava ali, mas se eu realmente quisesse saber o que estava acontecendo, teria que mudar a minha estratégia.
— Sabia que eu também sei usar uma espada? Na verdade, o ferreiro Marcos sempre me deixou brincar com suas criações, e ele diz que aprendi bem como me portar num combate. Mas o que eu queria mesmo era aprender a fazer minhas próprias espadas, quem sabe me tornar o ferreiro do rei.
O vigia
não precisava saber, mas eu tinha como certo o fato de o ferreiro permitir que eu brincasse com as armas, de tão bom grado, era uma forma de me ver distante de sua forja e, claro, tornar muito menos penoso seu ofício.
Contudo, o vigia não era uma pessoa ingênua tal qual eu o imaginava. O homem, vendo que teria um duro embate pela frente, se permitiu relaxar, afinal, aquele garoto não iria embora tão cedo, e o interrogatório iria durar noite adentro. Mas passados poucos minutos, estávamos rindo de pequenas histórias que passávamos a compartilhar sem formalidade. E quando descobri seu nome, tornei ainda mais difícil para ele aquela noite. Se chamava Elias, e agora que éramos amigos
, começou a correr uma ideia na minha jovem mente.
Eu sabia que estava acontecendo algo diferente, sentia as vibrações. Dentro da sala, algo parecia vívido e emocionante, esperando o momento certo, e quando tudo parecia leve entre nós, fiz, de supetão, novamente a pergunta:
— O que se passa ali dentro? Parecem bem enérgicos enquanto se preparam para dormir!
Elias, boquiaberto, parecia não acreditar na teimosia da qual eu era capaz.
— Você realmente é um garoto persistente, ali se passam segredos de construções. Estamos a caminho de um trabalho não muito distante daqui. No local, vamos erguer uma fortaleza, pois o rei tem a intenção de abrigar parte de suas tropas para essa maldita guerra. O lado bom desta guerra é que gera muito trabalho para ser feito.
— Muito ainda precisa ser discutido antes de dormir, por isso a seriedade do assunto.
Aceitei, por ora, a explicação dada, mas uma ideia surgiu em minha mente que me deixou empolgado, pois nascia uma ótima oportunidade de sair daquela aldeia, e com uma profissão. Assim, seduzido com a possibilidade de ter um trabalho, que, a meu ver, era grandioso, pouco importava a superstição dos velhos. Pois, diferente deles, poderia sair pelo mundo para conhecer novas terras, ganhar meu salário e viver minha velhice com uma família sob o teto de que eu mesmo levantaria.
Já conseguia me visualizar carregando pedras e manuseando ferramentas. Porém, sabendo que, no mundo real, geralmente as coisas não funcionam da mesma forma que imaginamos, principalmente vindo de um ser atormentado, impaciente e teimoso como eu era. Assim, empolgado com a conversa, precisava ser convincente de minhas intenções. Teria que ser taxativo, pois precisava fazer parte disso!
— Elias, irei avisar meus pais que vou seguir com vocês quando partirem!
E, no momento em que me virava para descer as escadas, a resposta veio para desintegrar toda e qualquer projeção para o futuro que eu idealizara.
— Não, você não poderá, infelizmente.
Nesse momento, congelei e lentamente me virei, parecia não acreditar.
— Claro, sei que uma boca a mais para alimentar gera custos para a caravana, mas tenho minhas economias. Não pretendo me juntar de graça. — Tentei me justificar.
— Seu dinheiro não é necessário, garoto. — Arrematou de vez toda
