Super-heróis, cultura e sociedade
De Iuri Andréas Reblin (Editor) e Nildo Viana (Editor)
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Super-heróis, cultura e sociedade - Iuri Andréas Reblin
Iuri Andréas Reblin
Nildo Viana (orgs.)
Super-heróis, Cultura e Sociedade
Coleção
Comics 01
Edições Redelp1ª edição 2020
Goiânia, GO
Conselho Editorial
Dr. Adrián Piva – UBA (Univ. de Buenos Aires)
Dr. Amaro Braga – UFAL
Dr. Carlos Guimarães – UFMG
Dr. Cleito Pereira dos Santos – UFG
Dr. Cristiano Bodart – UFAL
Dr. Diego Marques dos Anjos – IFGoiano
Dr. Edmilson Marques – UEG
Dra. Eliani Coven – PUC-GO
Dr. Iuri Reblin – EST
Dr. Ivonaldo Leite – UFPB
Dr. José Henrique Faria – UFPR
Dr. José Santana da Silva – UEG
Dr. Lisandro Braga – UFPR
Dr. Lucas Maia dos Santos – IFG
Dr. Luiz Antonio Groppo - UNIFAL
Dr. Marcus Vinicius Costa da Conceição – IFGoiano
Dra. Maria Angélica Peixoto – IFG
Dr. Nildo Viana – UFG
Dr. Renato Dias de Souza – UEG
Dr. Ricardo Golovaty - IFG
Dr. Ricardo Musse – USP
Dr. Rodolfo B. M. L. da Costa – UFPR
Dr. Rodrigo Czajka – UFPR
Dra. Veralúcia Pinheiro – UEG
Edições Redelphttp://edicoesredelp.net
editorial@edicoesredelp.net
© by Edições Redelp, 2020
Todos os direitos reservados.
Nenhuma parte deste livro pode ser utilizada ou reproduzida sob quaisquer meios existentes sem autorização por escrito dos editores e autores.
Sobre o livro
Diagramação:
Erika Woelke
Imagem da capa:
Adobe Stock
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
S957
Super-heróis, cultura e sociedade / [Org.]. Iuri Andréas Reblin, Nildo Viana. 1.ed. – Goiânia: Edições Redelp, 2020.
Coleção Comics, v.1
ISBN 978-65-86705-09-6
1. Quadrinhos – história. 2. Cultura. 2. Sociologia. 3. Cultura pop. 4. Sociedade. 5. Super-heróis. I. Reblin, Iuri Andréas. II. Viana, Nildo. III. Título.
CDD: 741.5
Bibliotecária responsável: Aline Graziele Benitez CRB-1/3129
Edições Redelphttp://edicoesredelp.net
editorial@edicoesredelp.net
Sumário
Apresentação
Prefácio: Os Super-Heróis e Nós
Breve História dos Super-Heróis
Nildo Viana
Os super-heróis e a jornada humana: uma incursão pela cultura e pela religião
Iuri Andréas Reblin
Super-heróis: ficção e realidade
Edmilson Marques
Super-heróis na construção da personalidade
Denise D´Aurea Tardeli
Super-heróis e cultura americana
Waldomiro Vergueiro
Ética e heroísmo: uma reflexão a partir das histórias em quadrinhos
Valério Guilherme Schaper
Apresentação
Há aquele ditado popular do qual você provavelmente já ouviu falar em algum momento (se você não ouviu, não se preocupe, pois você verá novamente uma menção a ele mais adiante no decorrer da leitura) e que assevera que todo ponto de vista é a vista de um determinado ponto
. É uma afirmação simples, mas ela serve de alerta principalmente no mundo das especialidades em que habitamos hoje. Mesmo que o debate tenha se direcionado para a questão da interdisciplinaridade ou da transdisciplinaridade, a especialidade ainda ocupa um papel de destaque nas maneiras de estruturarmos nosso conhecimento, de pensamos sobre nós mesmos e sobre nossa ação no mundo, tornando possível indagar seriamente quando e se esse destaque será (não suprimido, mas, ao menos) atenuado no futuro próximo. A especialidade treina nossos olhos a enxergar uma parte de um todo maior e faz, muitas vezes, com que o restante passe despercebido ou se torne, inclusive, significativamente reduzido. Felizmente, esse não é o caso deste livro.
O livro que você está segurando em suas mãos é uma coletânea singular de leituras especializadas e apaixonadas, compiladas com o propósito despretensioso e não planejado de quebrar o paradigma do provérbio popular referido. Se todo ponto de vista é a vista de um determinado ponto, nada melhor que reunir em um só livro pontos de vista de ângulos diferentes, ou, como sugere o título do livro, de perspectivas diferentes, a fim de que o todo seja visto com pouco mais de clareza, ou antes, com toda a sua potencialidade e riqueza. O universo dos super-heróis é expressão da pluralidade complexa da vida humana: sociedade, valores, religião, cultura, comportamento, crenças, aspirações, tudo é encontrável nas histórias dos super-heróis em dimensões distintas e variáveis pela finalidade da narrativa. Logo, a intenção interdisciplinar que permeia esta compilação enseja seus leitores e leitoras a um olhar ao todo desse universo fantástico e contemporâneo que é o gênero da superaventura, como definiu terminologicamente nosso amigo Nildo Viana. Para que essa intenção se tornasse realidade, um verdadeiro time de super-heróis foi convocado e desafiado a redigir ensaios que estabelecessem diálogos entre seus conhecimentos específicos e suas paixões afins. O resultado disso é um livro agradável de ler, rico em conteúdo e sagaz em sua narrativa, conduzindo leitores e leitoras dentro de uma ampla faixa etária (transcendendo as barreiras entre fãs confessos ou não do gênero e acadêmicos curiosos) a uma nova maneira de se debruçar ou de se apreciar o universo fantástico dos super-heróis.
Neste livro, você encontrará uma leitura singular e pormenorizada da trajetória dos super-heróis desde sua constituição e sua consolidação enquanto gênero narrativo, enfocando e traçando paralelos com as transformações sociais concomitantes à elaboração das histórias, partindo da periodização dos regimes de acumulação. Além disso, você viajará por uma abordagem interdisciplinar que acentuará a narrativa da superaventura enquanto janela da realidade
e que analisará o universo dos super-heróis, especialmente, o universo da Família Marvel, na perspectiva da teologia sobre a cultura e a religião transposta nas histórias do Capitão Marvel e do Mago Shazam. Em seguida, você perceberá os paralelos interessantíssimos entre a ficção e a realidade que poderão ser delineados sob uma perspectiva histórica e política acerca do gênero da superaventura.
Ao retornar dessa incursão entre o real e a ficção, você mergulhará na psicologia e na construção do comportamento humano. Você entenderá como as histórias dos super-heróis contribuem na construção da personalidade e na modelação e na escolha de papéis sociais de crianças e adolescentes. Uma vez feito isso, chega o momento de trilhar pela cultura estadunidense e de encontrar nas inúmeras histórias e sagas do gênero da superaventura o reflexo cultural das transformações sociais pelas quais os estadunidenses passaram, agora, sob o ângulo da arte e da comunicação. Por fim, todo herói possui sua jornada, e você não poderia terminar de ler o livro sem se voltar àquilo que movimenta o universo dos super-heróis em suas raízes: o sentido do heroísmo e os valores atinentes à ética e ao dever. Numa perspectiva filosófica, você perceberá que a jornada do herói é o que caracteriza o próprio herói em relação às suas atitudes e em relação ao seu lugar no mundo; jornada esta que percorre os caminhos da tragédia e da antitragédia.
Enfim, está em suas mãos um projeto simultaneamente ambicioso e despretensioso, movido por paixão, por conhecimento e, sobretudo, por aquilo que define cada super-herói e super-heroína deste mundo afora e desta presente coletânea: os desafios e os prazeres da jornada. Vire a página e comece já a sua. Tenha uma boa leitura!
Iuri Andréas Reblin
Prefácio:
Os Super-Heróis e Nós
Pode causar estranheza um livro sobre super-heróis que não é voltado para os adoradores dos quadrinhos e do gênero da superaventura e sim uma obra que tematiza questões culturais e sociais, bem como históricas, psíquicas, entre outras, no sentido de explicar este mundo fantástico. Neste sentido, é um livro que abre novas perspectivas na análise dos quadrinhos e, mais especificamente, do gênero da superaventura. Para tanto, basta perceber que as abordagens perpassam várias ciências humanas (história, sociologia, psicologia, entre outras) e analisam os super-heróis sob vários aspectos. Na verdade, aqui temos a relação entre nós, os autores dos vários textos que compõem esta coletânea, eles, os super-heróis.
Um texto, assim como um livro de textos, é manifestação de uma relação social. Os seres sociais e conscientes que escrevem o fazem de uma determinada forma, portando determinadas concepções, valores, sentimentos, junto com determinada relação com o tema que aborda. O livro presente não é diferente. Há, aqui, uma relação entre seres sociais tematizando temas que são, no fundo, sociais. Disto resultam contribuições com focos, abordagens, métodos, diferenciados. Assim, um texto remete ao outro, no sentido de que é possível confrontar determinadas análises, percepções e assim o leitor ganha ao poder perceber que o universo dos super-heróis é amplo, rico, complexo e, ao mesmo tempo, pode ser percebido sob formas diferentes, complementares, opostas, semelhantes, com ênfases diferenciadas e assim por diante. Aqui há uma dupla revelação: do mundo dos super-heróis e de alguns dos reveladores desse mundo na perspectiva analítica que busca relacioná-los com a cultura e a sociedade.
O texto que apresenta uma Breve história dos super-heróis
, de minha autoria, abre a coletânea e focaliza o desenvolvimento histórico do gênero superaventura, partindo do pressuposto de que sua historicidade não é autônoma e independente e sim, dependente da historicidade da sociedade que lhe engendrou. É uma pequena contribuição para a história social dos super-heróis. Iuri Reblin traz uma discussão interessante sobre super-heróis, relacionado-os com a teologia, sendo mais uma contribuição sua neste aspecto, já iniciada em outras publicações de sua autoria. Ele acaba focalizando um aspecto da cultura e sua relação com o mundo da superaventura. O texto de Edmilson Marques já aborda as conexões entre ficção e realidade, focalizando o processo do real por detrás do imaginário e destacando o processo de mercantilização e burocratização dos quadrinhos. Uma ampla e reveladora análise sobre os quadrinhos é apresentada, mostrando conexões nem sempre claras entre a ficção e a realidade. Já Denise Tardeli aborda o potencial dos super-heróis para a formação moral e da identidade de crianças e adolescentes, relacionando a superaventura com a construção da identidade e da personalidade. O Texto de Waldomiro Vergueiro relaciona a história dos super-heróis com a história dos Estados Unidos, com a cultura norte-americana. Os processos sociais e culturais dos EUA são relacionados com as mutações do universo dos super-heróis. Valério Schaper discute os super-heróis a partir de uma análise do problema moral, focalizando o Surfista Prateado, personagem no qual se pode ver o dilema moral de forma cristalina. Enfim, um conjunto de textos que cercam os super-heróis sob diversos ângulos e mostrando como nós nos relacionamos com eles.
Assim, o presente livro pode ser considerado uma viagem. Mas não uma viagem comum, e sim uma viagem por mundos diferentes, distantes, partindo dos labirintos das mentes que pilotam a nave para revelar o labirinto das mentes que produziram seres fantásticos que realizam aventuras fantásticas, que bem poderiam ser nossas aventuras, se pudéssemos trocar o cotidiano repetitivo, burocrático e mercantil que vivemos por um mundo de ações heróicas e significativas. A tentação de sonhar ser o que se gostaria de ser é apenas outra face da recusa do que somos, do que nos faz ser o que somos, ou seja, de nossa sociedade. Os super-heróis não são meras fantasias para crianças e sim um profundo revelador de nosso inconsciente e, ao mesmo tempo, produção social e histórica que mostra, cabalmente, principalmente em determinados momentos históricos, o exercício do poder através da axiologia, dos ideologemas, de sentimentos negativos.
O bem e o mal em um romance astral, como já dizia Raul Seixas. Mas as categorias metafísicas de bem e mal só são eficazes no mundo fictício dos super-heróis, pois em nosso caso, o que temos são pessoas de carne osso, com grandezas e pequenezas, com capacidade criativa e destrutiva, que não são naturais e sim produtos da sociedade que as produzem. O desejo do ser humano de ser livre significa a vontade de superar sua pequenez produzida socialmente e o super-herói encarna inconscientemente este projeto, bem como encarna o seu contrário, a pequenez, quando olhamos para sua face consciente e visível. Nós, escritores, analistas e leitores, temos que superar a pequenez e torcer para os super-heróis fazerem o mesmo, inclusive lutar contra nós mesmos para não nos cegarmos diante da pequenez dos super-heróis, por admirá-los pela sua grandeza. Neste jogo há uma constante luta e nesta luta, os seus produtos, e entre seus produtos, o presente livro, que interfere nela.
A complexidade desta situação revela a problemática do mundo dos super-heróis e o presente livro ajuda a refletir sobre o irrefletido e isto, em si, já é uma grande contribuição. Então resta os leitores se preparar para uma aventura intelectual sobre as fantásticas aventuras sociais, históricas, culturais e psíquicas dos super-heróis.
Nildo Viana
Breve História dos Super-Heróis
Nildo Viana*
Os super-heróis são produtos históricos e sociais como qualquer outra produção cultural. Este caráter social e histórico dos super-heróis é pouco abordado nos estudos sobre quadrinhos e sobre estes personagens, mais especificamente. Nosso objetivo aqui é fazer um breve apanhado da evolução dos super-heróis, destacando sua relação com as mudanças culturais, o que, inevitavelmente, nos faz abordar as mudanças sociais em geral. Em síntese, apresentaremos uma breve história dos super-heróis, desde sua origem até aos dias atuais.
Para realizar este objetivo, iremos periodizar a história dos super-heróis visando compreender as principais mutações que ocorreram no gênero da superaventura¹. Estas mutações são provocadas por transformações sociais e culturais, que, aliadas ao desenvolvimento endógeno da tradição fictícia, promovem alterações no mundo fictício dos super-heróis.
A periodização é um processo útil e necessário para compreender a evolução dos super-heróis. Através dela, podemos observar as grandes mudanças no universo ficcional dos super-heróis e, desta forma, entender o que provocou tais mudanças. Obviamente que a historicidade do gênero superaventura é uma historicidade dependente da historicidade da sociedade e, portanto, a periodização da história da superaventura está intimamente relacionada com a historicidade da sociedade moderna (VIANA, 2007a). Porém, como se trata de uma totalidade no interior de outra totalidade mais ampla, a história do gênero da superaventura possui períodos que estão ligados a aspectos mais específicos da sociedade moderna e, por isso, pode ter períodos que não são da mesma quantidade que os daquela.
Assim, a história da sociedade moderna pode ser periodizada a partir da sucessão de regimes de acumulação e estes foram o extensivo (a partir da revolução industrial até a segunda metade do século 19); o intensivo (que vai da segunda metade do século 19 até o final da Segunda Guerra Mundial); o intensivo-extensivo (que abarca o período do término da Segunda Guerra Mundial até a década de 1970), e o integral (que se inicia na década de 1980 e permanece até os dias atuais). Estes regimes de acumulação expressam determinada forma de organização da acumulação capitalista através de uma cristalização da luta de classes em determinada forma de organização do trabalho (processo de valorização), de formação estatal e relações internacionais, o que não poderemos desenvolver mais detalhadamente aqui².
O que é importante ressaltar aqui é que esses regimes de acumulação marcam a história da sociedade moderna e determinam as mudanças culturais, atingindo, também, o gênero da superaventura. Porém, a periodização da superaventura é um pouco diferenciada. Nós periodizamos a superaventura, com base na superaventura produzida nos EUA³, da seguinte forma: a) época do nascimento, que vai da criação do Superman até o final da Segunda Guerra Mundial; b) a época da crise, que vai de 1945 até o final da década de 1950; c) a época da retomada e renovação, que ocorre a partir do final da década de 1950 até o final dos anos 1960; d) a época do envelhecimento
dos super-heróis, que vai do final da década de 1960 até 1980; e) a época da reorganização e inovação, que vai de 1980 até os dias de hoje. Esta periodização, sem dúvida, entra em conflito com a periodização tradicional realizada pelos próprios agentes da produção dos quadrinhos, que distinguem em idade de ouro, prata, bronze, pois os critérios para tal são pouco convincentes e, muitas vezes, marcados por determinados valores e concepções que são prejudiciais a uma real percepção da história dos super-heróis⁴.
Assim, há mudança na superaventura no final dos anos 1950, o que não ocorre no regime de acumulação. A explicação disto deve-se ao fato de que ocorrem mudanças nos regimes de acumulação (uma coisa é a mudança de regime de acumulação, ou seja, a passagem de um regime para outro; outra coisa é a mudança no interior de um regime de acumulação, ou seja, a mudança no seu interior) e de que, em países diferentes,
