Toma lá, dá cá: Como a troca de favores moldou a sociedade e o jornalismo no Brasil
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Sobre este e-book
Os ideais republicanos de igualdade e de valorização dos méritos prometiam modificar o quadro, mas o que se verificou foi o inverso: as relações desse tipo ganharam ainda mais força.
Essa mesma lógica movia os bastidores da imprensa. Os jornalistas e literatos estavam inseridos nas mais diversas instâncias de poder, seja ocupando cargos na estrutura governamental, seja em articulações envolvendo a opinião pública.
Colaborador constante de jornais e revistas por mais de quatro décadas, o diplomata e historiador pernambucano Manuel de Oliveira Lima (1867-1928) se relacionou com os nomes mais proeminentes da vida cultural brasileira à época.
Mesmo com a peculiaridade de ter passado a maior parte da vida longe do Brasil, ele pode ser considerado um personagem típico do ambiente intelectual da Primeira República (1889-1930).
Nesse período imediatamente posterior à troca do sistema de governo, em que toda a estrutura de poder estava sendo reacomodada, práticas como a adulação e o compadrio mediaram as relações e institucionalizaram-se como estratégias de ascensão social.
Assim, o jornalismo despontava, desde cedo, como uma forma de aproximá-lo do país natal e de levá-lo a contatos que poderiam abrir portas no futuro.
Ao articular com habilidade o exercício do jornalismo aos seus projetos de vida, o jovem Oliveira Lima descobriu que poderia utilizar o espaço na imprensa como trunfo para a conquista de vantagens pessoais.
Conhecer mais a fundo os bastidores da imprensa e da sociedade daquela época nos leva inevitavelmente a pensar em quanto a forma de agir e de pensar de Oliveira Lima e de seus contemporâneos continua vigente no Brasil de hoje.
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Toma lá, dá cá - Maurício Oliveira
Capítulo 1
Um intelectual precoce
Natal de 1897. Nascido no mesmo dia de Cristo, Manuel de Oliveira Lima, pernambucano criado em Lisboa, constatava o quanto sua vida estava perfeita ao celebrar 30 anos.
Ele já alcançara duas grandes metas. A nomeação para a carreira diplomática assegurou-lhe a estabilidade de um bom emprego público, enquanto a eleição para a Academia Brasileira de Letras proporcionou-lhe o reconhecimento precoce como intelectual, mesmo que não tivesse ainda construído uma obra literária consistente.
Na vida pessoal, o casamento com a conterrânea Flora significava não apenas o início de uma relação de afeto e cumplicidade, mas também ter à disposição uma assistente dedicada. Tudo o que ele desejasse, de um saboroso jantar a uma cópia de carta com letra caprichada, a esposa provinha.
O casal, sem filhos – nunca chegaria a tê-los –, havia se instalado em Washington, a jovem capital dos Estados Unidos, onde vivia uma espécie de contos de fadas particular.
Oliveira Lima mantinha ótima relação com o chefe da representação brasileira, Salvador de Mendonça, e com o outro membro da equipe, o segundo-secretário Almeida Brandão.
Uma década antes...
Quando completou 20 anos, em 1887, Oliveira Lima apenas sonhava com o futuro que estava vivendo aos 30. Era algo que parecia muito distante, no entanto.
Ele estava se encaminhando para a conclusão do curso de Letras na Universidade de Lisboa. Temporão entre quatro filhos e único a morar ainda com os pais, tinha que lidar com o agravamento de uma longa doença do pai, Luiz, português que fizera um bom pé-de-meia como comerciante no Recife e decidira voltar à terra natal na velhice.
Luiz morreria pouco mais de dois meses depois do histórico 15 de Novembro de 1889, o dia da Proclamação da República Brasileira. Esses dois fatos – a morte do pai e a mudança do sistema de governo no Brasil –impulsionariam mudanças significativas na vida do jovem Oliveira Lima.
Como as reservas financeiras da família estavam se esgotando, ele se sentia pressionado pela necessidade de buscar um caminho próprio. Até então, a necessidade de se preocupar com a sobrevivência era algo que jamais havia sequer passado pela sua cabeça.
Quando o pequeno Manuel veio ao mundo, em 25 de dezembro de 1867, no Recife, em meio às turbulências provocadas pelo envolvimento do Brasil na Guerra do Paraguai (1864-1870), o pai já tinha 55 anos e havia se desfeito dos negócios. Vivia de renda, de tal forma que estava sempre presente em casa. Já a mãe, Maria Benedita, recebera educação de sinhá para se casar com um bom partido.
Além de ouvir constantemente que era iluminado por fazer aniversário no mesmo dia de Cristo, Manuel recebia, na prática, mimos de filho único. Luiz, o irmão mais velho, tinha 21 anos e já era casado quando o caçula nasceu. Amália e Maria Benedita, as irmãs um pouco mais jovens que Luiz, também já haviam estabelecido suas próprias famílias.
Amália, de temperamento retraído, uniu-se a Adolfo Acioly Wanderley, bacharel pela Faculdade de Direito de São Paulo e senhor de engenho no sul de Pernambuco. Maria Benedita, chamada desde pequena pelo apelido Sinhá para não ser confundida com a mãe de mesmo nome, era expansiva e permaneceria mais próxima de Manuel – os dois trocariam correspondências com regularidade ao longo da vida, tanto sobre assuntos pessoais quanto profissionais.
Sinhá casou-se com Pedro de Araújo Beltrão, antigo senhor de engenho que muito antes da Abolição libertara seus escravos e tornou-se abolicionista, elegendo-se deputado por Pernambuco e iniciando carreira diplomática. Ele seria uma das inspirações para que Oliveira Lima pensasse em ingressar no Itamaraty.
Quando tinha cinco anos, em abril de 1873, Manuel mudou-se para Lisboa com os pais. O casarão no Recife ficou, com todas as mobílias – incluindo bronzes, porcelanas e cristais trazidos da Europa –, para o primogênito, que, além do nome, herdara do pai a profissão de comerciante.
Na capital portuguesa, Manuel cresceu estudando nos melhores colégios, vestindo-se bem e frequentando os ambientes mais sofisticados da vida cultural. De temperamento alegre e extrovertido, tornou-se admirador de música erudita e de bons restaurantes, como a aparência progressivamente mais rechonchuda não permitiria negar, embora se tratasse também de uma tendência genética – sua família era conhecida em Pernambuco como Limas gordos
.
Em 1882, aos 14 anos, o rapaz que adorava ler demonstrou precocidade intelectual ao fundar em Lisboa uma revista, que batizou de Correio do Brasil, planejada com o objetivo de divulgar na Europa assuntos relacionados ao país natal.
Inteiramente escrita por ele, a publicação tratava de temas amplos da História Brasileira – Descobrimento, Independência etc. – e dava destaque a perfis de personalidades como o Marquês de Pombal, Carlos Gomes e José Bonifácio d’Andrada e Silva. Notícias também tinham espaço, como o traslado dos restos mortais de Pedro Álvares Cabral.
Criar uma publicação sobre temas brasileiros foi a estratégia que Oliveira Lima encontrou para reforçar o vínculo com suas origens. Embora reunisse todas as condições para tornar-se cidadão português e deixar o Brasil definitivamente no passado, ele parecia ter clareza, desde cedo, de que seu futuro estava ligado ao país natal, com o qual sempre fez questão de manter laços afetivos e intelectuais.
Oliveira Lima nunca se considerou português
, ainda que se orgulhasse da formação que teve longe do Brasil. Boa parte dos laços que ele mantinha com a terra natal podia ser credenciada à nostalgia dos pais e às muitas visitas de brasileiros que a família recebia em Lisboa.
O caçula participava ativamente das conversas que transcorriam invariavelmente em torno de uma mesa repleta de quitutes pernambucanos – farinha de mandioca, doces, queijos, pimentas –, enviados do Recife pelo irmão mais velho.
Depois das primeiras experiências como jornalista, escrever para veículos da imprensa seria uma atividade que Oliveira Lima jamais abandonaria. Ele percebeu precocemente o poder que o jornalismo proporcionava para construir relacionamentos e levar à obtenção de vantagens, práticas ou simbólicas.
Foi por conta de uma reportagem para o Correio do Brasil, por exemplo, que o adolescente teve a oportunidade de entrar em contato com o também pernambucano Joaquim Nabuco. Tratava-se de uma das figuras públicas mais proeminentes do cenário político brasileiro à época, líder da causa abolicionista.
Aos 32 anos, Nabuco atuava em três áreas de potencial interesse para Oliveira Lima: o jornalismo, a política e a diplomacia. Inspirado pelo cunhado Araújo Beltrão, o jovem já vislumbrava a possibilidade de seguir a carreira diplomática, o que certamente dependeria da construção de uma rede robusta de apoios. Não havia concursos à época e o ingresso no corpo do Itamaraty ocorria por nomeação.
O primeiro contato de Oliveira Lima com Nabuco ocorrera quando o líder abolicionista passou por Lisboa a caminho da Inglaterra, para onde decidira se mudar, sentindo-se perseguido e boicotado pela sociedade escravista brasileira.
Por sua campanha pró-Abolição, que incluiu a fundação em 1880 da Sociedade Brasileira Contra a Escravidão, Nabuco teve o nome vetado pelo Partido Liberal para a reeleição como deputado por Pernambuco, obrigando-o a se candidatar pelo Rio de Janeiro, onde obteve votação insuficiente.
Ele decidiu então partir para a Inglaterra, passando a prestar serviços como advogado para empresas inglesas ligadas ao Brasil e a contribuir com as Cartas de Londres
para o Jornal do Comércio, o que manteve seu nome vivo entre os compatriotas. Em Londres ele escreveria O abolicionismo, livro publicado em 1884, marco da campanha que se tornaria exitosa em 1888.
Oliveira Lima acompanhou o cunhado na recepção a Nabuco oferecida pela Câmara dos Deputados portuguesa e escreveu um entusiasmado perfil do ilustre conterrâneo, publicado no quarto número de sua revista.
O texto foi iniciado com Joaquim Nabuco! Quem não conhece no Brasil esse mancebo tão justamente célebre pelas suas nobres e avançadas ideias?
e encerrado com Um bravo sincero a Joaquim Nabuco, pelo seu sempre leal e exemplar procedimento com respeito à sublime luta da emancipação dos escravos, a questão mais grave que atualmente ocupa o Brasil, na sua qualidade de nação liberal e civilizada
.
Ao enviar um exemplar do Correio do Brasil a Nabuco, Oliveira Lima recebeu um caloroso agradecimento:
Acham-me para político moço demais; o que dirão porém quando virem que o meu biógrafo é um jornalista da sua idade? O seu juízo a meu respeito é a apenas uma tradução da sua simpatia. Mal sabia eu que, no menino que me dava todas as notícias de última hora, estava um botão de jornalista a desabrochar a toda a pressa voltado para o sol da pátria!
Na sequência da carta, Oliveira Lima foi inesperadamente contemplado com um surpreendente desabafo de Nabuco sobre a condição de líder do movimento abolicionista.
Ele dizia que seu desterro em Londres não era voluntário, e sim imposto por circunstâncias muito práticas: Estou simplesmente tratando de ganhar a vida, como apenas um emigrado
. No Brasil, explicava Nabuco, todo o campo da luta pela vida está infelizmente dominado pela escravidão, e eu tornei-me seu mortal inimigo
.
Nabuco gentilmente reconhecera o conterrâneo como colega jornalista e, apesar da diferença de idade, o acolheu como um igual. Abria-se, a partir desse primeiro contato, a oportunidade para novas correspondências. Oportunidade que seria devidamente aproveitada por Oliveira Lima, interessado em consolidar a amizade estratégica.
O líder abolicionista certamente via muito de si naquele rapaz. Em 1865, quando tinha coincidentemente os mesmos 15 anos, Nabuco foi calorosamente recebido por Machado de Assis em contato semelhante. Machado, então com 25 anos, elogiara o poema patriótico sobre a rendição de Uruguaiana que o jovem filho do senador Nabuco de Araújo recitara, na presença do Imperador, durante um evento do Colégio Dom Pedro II.
O jovem Nabuco escreveu a Machado de Assis agradecendo os comentários, ponto de partida da amizade entre os dois homens que, três décadas à frente, iriam se tornar os nomes mais reluzentes do grupo fundador da Academia Brasileira de Letras.
Oliveira Lima interrompeu a produção do Correio do Brasil, quando a publicação estava prestes a completar o primeiro ano, para se dedicar ao curso de Letras da Universidade de Lisboa.
O curso foi escolhido, em parte, porque ele sentia mais afinidade pela Literatura do que pelo Direito, caminho tido como natural para filhos da elite econômica de Portugal e do Brasil. Havia também a proximidade com outro interesse do jovem, a História, que se consolidava como área autônoma e era contemplada com algumas disciplinas no curso de Letras.
Não se pode desprezar, ainda, o fato de que estudar em Coimbra, o centro clássico da formação em Direito em Portugal, era caro e inviável diante da necessidade de ficar perto do pai doente.
Além do convívio com professores que respeitava pela erudição, Oliveira Lima fez durante o curso de Letras amigos como o maranhense Manoel Villas Boas, que o ajudou a retomar a produção do Correio do Brasil depois de dois anos de interrupção.
Nesse período, ele chegou a mobilizar sua incipiente rede com o propósito de viabilizar financeiramente o projeto. Pensou em vender assinaturas – sem, contudo, obter sucesso.
O conterrâneo Medeiros e Albuquerque, que havia sido colega de Oliveira Lima nos bancos escolares de Lisboa, até tentou atender ao pedido do amigo, mas não conseguiu vender uma assinatura sequer no Recife. Justificou dizendo que as pessoas do seu circuito estranharam a tentativa de vender no Brasil uma publicação pensada para falar de assuntos brasileiros a quem estava no exterior.
Em paralelo à tentativa de manter o próprio veículo, Oliveira Lima iniciou colaboração com publicações comerciais. Ele estava com 16 anos quando assinou um artigo no jornal Comércio de Portugal, de Lisboa, sobre o endurecimento da lei de combate à falsificação de dinheiro.
Construir a imagem de jornalista brasileiro com espaço na imprensa europeia se tornaria parte importante da estratégia do jovem Oliveira Lima para divulgar seu nome no país natal.
Outro passo nessa direção foi tornar-se primeiro-secretário do Conselho Diretor da Sociedade de Beneficência Brasileira em Portugal – cargo sem remuneração, mas que lhe assegurava representatividade entre os compatriotas estabelecidos em Lisboa e o aproximava também dos brasileiros que apenas passavam pela cidade.
Oliveira Lima esforçava-se para estreitar as relações com Pernambuco, que ele projetava como seu provável destino inicial do retorno ao Brasil, plano ao qual começava a se dedicar com mais ênfase.
Uma providência essencial nesse sentido foi ter se tornado, aos 17 anos, colaborador fixo do Jornal do Recife, fazendo crítica de teatro e de artes plásticas, sua primeira atividade remunerada como jornalista. A vida cultural europeia passaria a chegar aos leitores pernambucanos filtrada pelo olhar do jovem conterrâneo.
O texto de estreia de Oliveira Lima no Jornal do Recife simboliza o quanto o padrão dos textos jornalísticos à época ainda estava distante da objetividade que se disseminaria mais tarde. Trata-se de uma antinotícia, pois a informação principal é de que nada aconteceu:
Bem pobres de acontecimentos têm sido estes últimos dias. Nenhum caso importante tem vindo alterar a monotonia constante da pacata cidade de mármore e de granito, como lhe chamava o grande Herculano. Em compensação, o tempo tem estado delicioso: aqui e nas províncias. O micróbio conserva-se longe e felizmente atravessamos incólumes a quadra de maior intensidade de todas as epidemias, os meses de julho e agosto.
Entre leões e cachorros
Apesar da predominância ainda de textos rebuscados, havia uma transformação significativa em andamento na imprensa brasileira: mais ênfase em temas políticos e menos nos assuntos culturais.
As décadas anteriores haviam sido de um jornalismo focado nas artes e nas letras. José de Alencar foi o ícone dessa era romântica: seu primeiro livro, Cinco Minutos, surgira em 1856 como brinde de fim de ano aos leitores do Diário do Rio de Janeiro, jornal do qual era redator-chefe. A repercussão foi tão boa que O Guarani e A Viuvinha também nasceriam da mesma forma ao longo dos quatro anos posteriores.
Tratava-se de uma estratégia para que os jornais deixassem de ser uma literatura eminentemente masculina e passasse a atrair novos leitores: mulheres e jovens.
Na década de 1880, com a sociedade brasileira voltada a duas grandes causas, a Abolição e a República, as discussões políticas atraíram as atenções e ganharam grande repercussão.
Para conquistar e consolidar espaço na imprensa, era preciso participar do debate sobre os temas mais polêmicos, carregando as tintas em adjetivos, hipérboles e ironias.
Atento à conjuntura e sentindo-se respaldado pela obtenção do diploma em Letras, em julho de 1887, aos 19 anos, Oliveira Lima aproveitou que o Jornal do Recife estava mudando de mãos para pleitear um espaço mais nobre no jornal. Queria tratar não apenas de arte, mas também de temas políticos.
O título havia sido comprado pelo juiz Sigismundo Antônio Gonçalves, em sociedade com o jornalista Ulysses Vianna. O principal objetivo era dar sustentação à carreira política de Gonçalves. Se, além disso, também viesse a dar algum lucro, melhor ainda.
Atendido em seu pleito, Oliveira Lima foi contemplado com uma coluna, a Correspondência de Lisboa
, em que poderia tratar de política. Ao estabelecer as bases do acordo, o novo diretor do jornal o advertiu sutilmente sobre a linha a ser seguida:
Vsa conhece pelo Jornal do Recife as nossas intenções e orientação, e adaptará a elas as suas correspondências que desejamos sejam ao mesmo tempo noticiosas e
