A política em György Lukács
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A política em György Lukács - Ranieri Carli
1
O ser social: do singular à generalidade
Neste capítulo, a intenção é discorrer sobre a constituição do ser social como modalidade própria de ser — o que equivale afirmar que será objeto de nossa análise a relação entre o homem e a natureza, o trabalho como mediação privilegiada da generalidade humana e as mediações éticas que existem entre os membros singulares e a universalidade social, tudo isso sob o respaldo das teses tardias de Lukács. O fim deste capítulo não é outro senão apenas introduzir as categorias que irão constar nas observações seguintes sobre a práxis política e o lugar que Lukács lhe confere na ontologia do ser social.
1.1 As raízes da legalidade imanente ao ser social
No Pensamento vivido, Lukács (1999, p. 78) comenta sobre um daqueles que seriam os principais defeitos de sua obra de juventude, História e consciência de classe: o erro fundamental de todo o livro é que eu, na verdade, reconhecia apenas o ser social como ser e rejeitava a dialética da natureza
. Com efeito, pode-se ler em um dos momentos da obra que restringir o método dialético à realidade histórico-social é muito importante. Os equívocos surgidos a partir da exposição de Engels sobre a dialética baseiam-se no fato de que Engels — seguindo o mau exemplo de Hegel — estende o método dialético também para o conhecimento da natureza
(Lukács, 2003, p. 69). Há aqui uma preocupação com a difusão de certas passagens engelsianas que concebem a distinção entre o natural e o social apenas quantitativa e não qualitativa.[1] A preocupação não é fora de propósito. De fato, o livro insere-se dentro de uma clara polêmica contra os oportunistas
da Segunda Internacional que faziam invadir o positivismo no marxismo. Em repúdio a esse positivismo, História e consciência de classe terminou por excluir a possibilidade efetiva de qualquer dialética da natureza (o que parecia então uma concessão ao método das ciências naturais).
Como se sabe, Lukács supera os erros de seus anos de aprendizagem do marxismo com a leitura dos Manuscritos econômico-filosóficos, publicados em 1932. Com eles à mão, Lukács reconheceu que a afirmação das mediações naturais não significa necessariamente a equalização entre a natureza e a sociedade. Este é um dos maiores trunfos desta obra juvenil de Marx. Nesse texto, Marx (1993a, p. 164; grifos originais) determina a condição ontológica do devir humano ao escrever que "o homem vive da natureza: quer dizer, a natureza é seu corpo, com o qual tem de manter-se em constante intercâmbio para não morrer". E, logo em seguida, sem fazer concessão teórica a nenhuma forma de positivismo, coloca o trabalho como a categoria diferenciadora entre o modo de ser social em face do ser natural:
O animal identifica-se imediatamente com a sua atividade vital. Não se distingue dela. É a sua própria atividade. Mas o homem faz da sua atividade vital objeto da vontade e da consciência. Possui uma atividade vital consciente. Ela não é uma determinação com a qual ele imediatamente coincide. A atividade vital consciente distingue o homem da atividade vital dos animais (Marx, 1993a, p. 164, 165; grifos originais).
O jovem Marx demonstra como o homem parte do ser orgânico para distinguir-se enquanto ser social, a partir da categoria que chamará posteriormente de momento privilegiado
no processo de constituição do ser social, o trabalho (Marx, 2001).
Os principais antecessores de Marx na caracterização da centralidade do trabalho na vida humana foram Hegel e os economistas clássicos. Na Fenomenologia do espírito, Hegel (2002, p. 540; grifos originais) coloca o trabalho como a criação da efetividade da história por parte do espírito: "o movimento, que faz surgir a forma de seu saber de si, é o trabalho que o espírito executa como história efetiva". A materialidade dos fenômenos que movem a história humana seria obra do trabalho do espírito, conforme Hegel. O próprio Hegel retira a ideia da centralidade do trabalho a partir da sua leitura de economistas clássicos como Adam Smith (Lukács, 1975). A frase introdutória de A riqueza das nações é precisamente: o trabalho anual de cada nação constitui o fundo que originalmente lhe fornece todos os bens necessários e os confortos materiais que consome anualmente
(Smith, 1996, p. 59). A diferença entre o tratamento dado por Marx e aquele que se vê em Hegel e em Smith é, antes de tudo, uma distinção de classe: o ponto de vista da classe trabalhadora permitiu a Marx abstrair determinações do trabalho que estavam impossibilitadas para o ponto de vista da burguesia revolucionária, adotado tanto por Hegel quanto por Smith. Do alto de tais circunstâncias históricas, Marx conseguiu, assim, retirar do trabalho o invólucro místico que lhe atribuiu Hegel e conseguiu, igualmente, capturar as contradições inerentes à sociabilidade burguesa, como a apropriação pela burguesia do mais-trabalho produzido pelo operariado, o que implica que, diferente do que supunham os economistas clássicos, não há uma relação equilibrada entre salário
e lucro
.
A bem dizer, exatamente por determinar a atividade vital consciente como especificidade do homem, Marx (1993a, p. 165; grifos originais) pôde promover a sua crítica à alienação do trabalho no modo de produção capitalista: "o trabalho alienado inverte a relação, uma vez que o homem, enquanto ser consciente, transforma a sua atividade vital, o seu ser, em simples meio da sua existência. Sob o jugo do capital (ou nas sociedades classistas em geral), o homem que trabalha vê-se reduzido à mera particularidade, uma vez que
a sua objetividade real como ser genérico é subtraída no processo de alienação do trabalho, transformando em
desvantagem a sua vantagem sobre o animal, porquanto lhe é arrebatada a natureza, o seu corpo orgânico" (Marx, 1993a, p. 166). Sem a descoberta do caráter humano e humanizador do trabalho, não seria possível para a teoria social de Marx qualquer crítica à desumanização imposta ao operário pelo capital.
Lukács retém a lição marxiana: a atividade vital consciente especifica o ser social (sendo sua protoforma) diante da natureza. Trata-se daquilo que Marx (2002, p. 211), em O capital, denominaria de processo em que participam o homem e a natureza, processo em que o ser humano, com sua própria ação, impulsiona, regula e controla seu intercâmbio material com a natureza
. Com a lição devidamente aprendida, a ontologia na pena de Lukács torna-se assim um combate em duas frentes: 1) à exclusão da dialética na consideração das ciências naturais e 2) à elevação da dialeticidade natural a modelo da sociabilidade. Somente deste modo, a prática social do homem é tomada na sua autêntica peculiaridade, com as suas categorias próprias (a teleologia, a liberdade, as alternativas, a consciência etc.).
É nas obras da alta maturidade de Lukács que a lição apreendida de Marx se explicita com clareza meridiana. Já em sua Estética, o correto delineamento de Lukács acerca da práxis humana aparecia com plena nitidez. Poderíamos mencionar inúmeros trechos em que essa dinâmica é apresentada nesta obra; vejamos como é exposto, por exemplo, o caráter social do ritmo nascido no processo de trabalho:
No trabalho, o homem toma alguma coisa da natureza, o objeto do trabalho, e arranca-o de sua conexão natural, submete-o a um tratamento pelo qual as leis naturais são aproveitadas teleologicamente em uma posição humana de fins. Isso se intensifica ainda quando aparece na ferramenta uma natureza
teleologicamente transformada desse modo. Assim se origina um processo, submetido sem dúvida às leis da natureza, mas que, como tal processo,
