Sobre este e-book
reunindo detalhes sobre a cultura brasileira e suas curiosas histórias.
Prefácio de Raul de Souza.
Conta ainda com 80 Vídeos explicativos e complementares (acessados por QR Code).
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Levadas brasileiras - Glauco Sölter
Copyright © Glauco Sölter
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida, transmitida ou arquivada, em qualquer forma ou por qualquer meio, seja eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia e gravação de backup, sem permissão escrita do proprietário dos direitos.
Obra produzida pela Ás Editorial
EDITOR: Claudio Kobachuk
REVISOR TÉCNICO DE PARTITURAS: Sérgio Albach
PREPARAÇÃO DE TEXTO: Luzia Santos
REVISÃO: Rosalina Siqueira
PROJETO GRÁFICO, PRODUÇÃO GRÁFICA, CAPA E DIAGRAMAÇÃO: Maurelio Barbosa
FOTO DA CAPA: Patrícia Linhares
ILUSTRADOR: Luiz Antonio Solda
FOTO DA BIO: Theo Marques
PRODUTOR EXECUTIVO: Luiz Antonio Ferreira
PRODUÇÃO DE VÍDEO: Alexandre Benatto
EDIÇÃO DE VÍDEO: Kristhian Santos
ASSESSORIA DE IMPRENSA: Adriane Perin
ASSESSORIA JURÍDICA: Eduardo Mercer
CAPTAÇÃO: Sauí/Gestão de Patrocínios
VERSÃO EBOOK: ebooks.nextmidia.com.br
Publique seu livro
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www.aseditorial.com.br
Dados da Catalogação Internacional na Publicação (CIP)
Tuxped Serviços Editoriais (São Paulo-SP)
Bibliotecário Pedro Anizio Gomes CRB-8/8846
S691l Sölter, Glauco
Levadas Brasileiras / Glauco Sölter. – 1. ed. – Curitiba, PR: ÁS Editorial, 2019.
216 p.; il.; 16x23 cm.
Inclui bibliografia.
ISBN 978-65-86369-13-7
1. Baixistas Brasileiros 2. Contrabaixo (Brasil) 3. MPB 4. Músicos Brasileiros I. Título II. Assunto III. Autor
CDD 784.0981
CDU 78(81):681.817.41
Índice para catálogo sistemático
1. Baixistas; Música popular brasileira.
2. Música Brasileira; Contrabaixo.
creditosProjeto realizado com o apoio do Programa de Apoio de Incentivo à Cultura - Fundação Cultural de Curitiba e da Prefeitura Municipal de Curitiba
Sumário
Prefácio
É grave, doutor?
Pré-história
Acústico I
Acústico II
Acústico III
É groove, doutor?
Dino
Rock Brasil
Luizão
Black Brasil
Outros sambas
Outros caminhos
Viagens elétricas
Rock Cruzado
Maior apoio
Outras técnicas
Fretless
Resistência acústica
Brazilians
Atualidades
O que vem de baixo...
Fontes
Dedico este trabalho
aos meus filhos Jade e Ravi,
aos meus pais Graça e Dirk,
à minha companheira Thayana,
por todo apoio, amor e paciência,
e aos meus amigos da turma
.
Prefácio
P or volta de 1998, eu estava em frente ao clube Duc Des Lombards em Paris, quando chegou um rapaz com alguns CDs para vender; eram de uma gravação que ele havia feito no Brasil. Perguntou-me se eu era Raul de Souza; respondi que sim e logo começamos a conversar. Quando ele me disse que era de Curitiba, fiquei contente, porque tenho família lá – duas filhas, um filho, quatro netos e uma bisneta. Continuamos a amizade e alguns anos mais tarde, em 2004, pedi que ele organizasse um grupo para tocarmos no Chivas Jazz Festival, no Brasil. Ele concordou e desde essa época o Glauco está comigo. Nesses mais de quinze anos, já gravamos vários trabalhos, viajando pelo mundo inteiro.
Não é fácil…
Eu, pessoalmente, estou muito contente em escrever o Prefácio deste livro, que nos fará lembrar de músicos, no caso baixistas que viveram e também trabalharam por muitos anos em clubes, cabarés, boates, estúdios etc.
Fiquei muito feliz de ter a oportunidade de contar ao meu amigo Glauco algumas histórias desses fantásticos músicos, deste nosso país sem memória. Foi ótimo receber essa proposta, fiquei muito satisfeito de também compartilhar com todos as lembranças desses músicos tão importantes, que infelizmente nunca são lembrados... Muitos deles trabalharam comigo principalmente entre os anos de 1955 e 1965.
Os contrabaixistas são sempre muito importantes para o acompanhamento, seja em trios ou em grandes orquestras. Espero sinceramente que este livro venha abrir outras portas para que possamos não somente falar dos baixistas, mas também dos saxofonistas, trompetistas, pianistas e de todos os maravilhosos instrumentistas da música brasileira.
Muita sorte!
Raul de Souza
Considerações Iniciais
E screvi este livro com o intuito de que ele fosse empolgante e divertido para todos os tipos de leitores interessados na trajetória do baixo no Brasil, mas também para que fosse imprescindível aos baixistas (brasileiros ou não) que desejam conhecer e desfrutar a cultura brasileira.
Percebi, por experiência própria, que a música que se faz depende muito mais do que se pensa do que daquilo que se é capaz de tocar. É muito mais uma questão de concepção, de ideologia musical. É claro que se necessita técnica para executar o que se concebe na mente, mas, se não estiver em sua cabeça, nunca estará em suas mãos. Tudo vai depender das decisões que um músico toma quando executa sua parte em qualquer peça.
Por isso, considero muito importante conhecer a história do instrumento que se está utilizando e as obras, descobertas, estilos e histórias de personagens que dedicaram suas vidas ao desenvolvimento dele – o baixo (brasileiro no caso). Tenho certeza de que para os aprendizes (e somos todos eternos aprendizes) este livro será um divisor de águas, principalmente aos que ainda não conhecem a maior parte deste conteúdo.
Subir num palco, entrar num estúdio ou até mesmo assistir a um show conhecendo os mestres e tendo o entendimento de seus critérios faz toda a diferença.
Certamente proporcionará muito mais segurança ao baixista, que nunca mais estará sozinho em suas performances. Ele pode até, em algum momento, se perguntar: O que tal mestre faria em meu lugar?
. Não para copiá-lo, pois seria um erro fatal que o conduziria à frustração, mas sim para usar esse conhecimento como sua base, ter na sua bagagem, na sua música, como referência, um pouco do que cada mestre desenvolveu.
Outro fato importante que observei escrevendo este livro é a pluralidade de figuras musicais que aqui estão relacionadas, todas distintas entre si. Todos obtiveram êxito e destaque, mas sempre na sua maneira original. Isso mostra como sempre existirá um jeito próprio de se tocar e que cada um deve buscar sua identidade. É louvável perceber que um artista, apesar de ter como referência seus ídolos, não precisa copiá-los para ter qualidade em seu trabalho. Mas deve cavar fundo dentro de si mesmo para encontrar sua essência e descobrir sua personalidade (musical e pessoal).
Esta obra é uma pesquisa pessoal minha e que não se pretende definitiva, muito pelo contrário. Que este seja o começo da investigação particular de cada leitor, procurando, selecionando e se aprofundando no trabalho de músicos que despertem sua admiração. O exercício da apreciação e a simples escuta descompromissada já carregam uma bagagem de informações e critérios implícitos que podem ser naturalmente absorvidos dessa forma.
Dessa maneira, fiz questão de não incluir detalhes da execução nas partituras das levadas, para incentivar o leitor a ouvir as obras abordadas, pois, apesar da importância da escrita, é somente pela escuta e execução dessas células rítmicas que se dará o mergulho no entendimento de um determinado estilo ou escola. Foi para os estudantes mais avançados que escrevi estas partituras, e para ajudar nesse processo gravei um vídeo para cada uma. O material estará disponível em meu canal do YouTube, assim como uma playlist com a maioria das músicas aqui abordadas.
De qualquer modo recomendo aos alunos de todos os níveis e aos apreciadores em geral que, mesmo antes de analisar as linhas de baixo, escutem as músicas citadas no livro e as apreciem por puro deleite.Elas foram construídas certamente com a intenção de proporcionar uma viagem musical a todos os ouvintes. Além de ser prazeroso, isso se torna especialmente necessário aos estudantes que pretendem extrair, entender e absorver as levadas aqui selecionadas.
Com certeza, grandes obras acabaram ficando de fora dessa lista que preparei para apreciação de todos.
É impossível abranger na sua totalidade as levadas de relevância, tendo em vista o imenso volume de produção artística musical brasileira. Mas procurei separar as que mais me impressionaram, mais me cativaram e as que eu imagino que possam representar um jeito de tocar, que possam ensinar algo, talvez as que carreguem o que podemos chamar de legado. Da mesma forma, vários grandes baixistas possivelmente não estão aqui mencionados.
São muitos os personagens na história do baixo em nosso país. Selecionei aqueles que tiveram uma efetiva contribuição para o instrumento e foram registrados tocando com artistas de renome nacional e em obras consagradas. Portanto, foi inevitável não mencionar outros tantos nomes que também tiveram sua relativa importância, em âmbito regional e um pouco mais restrito.
O Brasil é um país muito grande e rico culturalmente. Cada cidade, cada região têm seus músicos locais em variados estilos. Eles são também mantenedores e divulgadores dessa riqueza cultural, responsáveis por transmitir os ensinamentos, concepções e histórias do seu instrumento.
Foi na tentativa de reunir esses relatos, quase sempre fragmentados, transmitidos oralmente entre os músicos, em situações cotidianas, que resolvi escrever este livro.
Acabei criando uma espécie de roteiro para o nosso protagonista – o baixo brasileiro, que atravessa a história em diferentes mãos através do tempo.
É grave, doutor?
L embro-me nitidamente do meu primeiro método de Guitarra -Baixo . Caderninho fino, de capa azul cintilante, emprestado de um amigo que já era baixista e tocava no coral da escola. E ali me recordo de que havia como primeira definição: Instrumento de acompanhamento
.
Eu estava, mais do que qualquer coisa, hipnotizado por aquele timbre vigoroso, macio e brilhante, que entrava pelos meus ouvidos, mexia com meu estômago e alterava minha respiração. Ah! Eu queria literalmente entrar nos alto-falantes...
Alguns anos antes, havia ouvido pela primeira vez o som de uma banda ao vivo, numa apresentação de final de ano na escola onde eu estudava. Acostumado que estava somente a ouvir músicas no toca-discos da sala de estar, aquilo me pegou de tal maneira, que fiquei paralisado e só saí da beira do palco após muita insistência dos meus pais.
Sempre soube que ser músico nunca foi das tarefas mais fáceis no Brasil (talvez em nenhum lugar do mundo, é verdade). O sujeito deve ser, acima de tudo, um idealista, principalmente se dedicar sua vida a buscar a música e encarar o malabarismo de viver exclusivamente dela. Geralmente não há muita estabilidade ou garantia e o risco é constante. E paradoxalmente exige uma entrega tamanha, somente vista nas paixões mais fervorosas. No meu caso, é exatamente do que se trata.
Decidir ser um baixista profissional poderia soar como a mais improvável das opções para quem estava cursando o segundo ano do curso técnico de eletrônica. Mas essas coisas acontecem assim. Quase por acaso fui conhecendo esse universo lúdico, fui entrando nesse labirinto de combinações infinitas de sons e frequências, timbres e nuances, de jogos rítmicos e harmônicos.
Meu passaporte para essa viagem sonora foi meu instrumento e fui guiado pelos inúmeros mestres que tive a oportunidade de encontrar pelo caminho.
O contato (via gravações ou shows) com o trabalho de outros artistas que haviam dedicado suas vidas ao mesmo instrumento foi fundamental. Por meio dele, estabeleceram-se os critérios para entender o que funcionava em cada estilo e o que se podia explorar no instrumento quanto à sonoridade e tocabilidade, buscando sempre responder a uma pergunta crucial: Como pensar o baixo das músicas, como identificar o que a música pede? Afinal, quando vamos criar uma linha de baixo para uma música inédita, por exemplo, precisamos de alguma referência, para não partir do zero ou imaginar que se está inventando a roda. E, se a intenção for inovar, também é necessário conhecer as regras. Como dizia um antigo professor: está tudo nos discos
.
Para nossa sorte, nos discos estão para todos ouvirem, por exemplo, as linhas de baixo que fizeram história. Elas foram supervisionadas por técnicos, criadas por arranjadores e maestros e por grandes baixistas que as tocaram magistralmente e foram acompanhados em ensaios e em estúdio por produtores e pelos próprios compositores e colegas musicistas. Nada passa despercebido quando temos tantos profissionais envolvidos em produções que normalmente envolvem grandes investimentos.
Tudo aquilo que não pode ser escrito em nenhum método está lá: os pequenos tiques e manhas. E aí se torna necessário desenvolver uma habilidade peculiar: a arte de ouvir.
Acredito que as pessoas geralmente ouvem a música em camadas. Nas exteriores estão as frequências mais perceptíveis e as vozes com as mensagens da letra (normalmente em primeiro plano em uma mixagem). Então, mais camadas vão surgindo, trazendo detalhes da bateria, harmonia e, finalmente, a frequencia grave do baixo. Quanto mais apurada, educada ou sensível for a percepção, mais próxima ela ficará de sentir a música, de absorvê-la por completo. Há pessoas que a princípio não escutam o grave e a partir do momento em que começam a percebê-lo deslumbram uma nova perspectiva e passam a saborear
as linhas de baixo.
É nítido que as frequências baixas não chamam tanto a atenção do ouvinte. Não é à toa que existe até uma piada com o fato de que todos falam durante o solo de baixo... Eu mesmo me lembro de ouvir os improvisos de baixo acústico nos discos de jazz do meu pai e não entender o que estava acontecendo. Será que a música parou? Aquela frequência não era familiar aos meus ouvidos. Mas ao mesmo tempo eu não conseguia escapar da introdução da música Haitian Fight
, com aquelas notas graves de blues em riffs tocados magistralmente pelo baixo de
