O congresso dos desaparecidos: Drama em prosa
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Sobre este e-book
O congresso dos desaparecidos, que agora vem à luz, é uma obra desconcertante em muitos sentidos. Primeiro, por ter como personagens exclusivamente vítimas do desaparecimento como prática de terrorismo de Estado. Essa prática, amplamente utilizada nas ditaduras latino-americanas do século XX, no entanto, é apresentada por Kucinski no contexto da Colonialidade: desde que o Brasil foi criado praticou-se e se pratica o desaparecimento dos considerados indesejados pelos donos do poder.
Assim, ao lado dos desaparecidos da ditadura que organizam um congresso e, depois, uma tomada de Brasília (em um contramodelo revolucionário dos atos fascistas de 8/1/2023), encontramos também Zumbi, Antônio Conselheiro, Amarildo, combatentes da Cabanagem, da Guerra do Contestado, das ligas camponesas, de Canudos, indígenas, vítimas espectrais da violência e do racismo estruturais.
Kucinski em seu romance-manifesto repagina a história do país do ponto de vista das continuidades de práticas de dominação e de necropolítica. Nascido como fruto e resistência ao "surto fascista" que vivemos recentemente, no livro fica claro que nossa tarefa agora é organizar uma memória resistente para se combater os fascismos de hoje e estruturar uma sociedade na qual os fascistas não tenham mais vez.
De quebra, o romance, decerto inspirado no Pedro Páramo, de Juan Rulfo, e em outros diálogos de espectros e mortos, apresenta uma autorreflexão crítica sobre as práticas de resistência e revolucionárias das esquerdas durante os anos de chumbo.
Como sempre em suas obras, com ironia, personagens históricos e criados se misturam para permitir imaginarmos – criar uma imagem – da ditadura. Como o período neoditatorial de 2016- 2022 deixou claro com sua glamorização da ditadura, a memória desse período e a memória da barbárie institucional no Brasil devem constituir espinhas dorsais da resistência contra os fascismos que sempre galopam no dorso pútrido do negacionismo.
Nesse sentido, a prática do desaparecimento deve ser vista com o epítome do fascismo latino-americano, seu cerne.
A "fenomenologia do desaparecido político", traçada por Kucinski aqui, não deixa dúvidas quanto a isso.
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O congresso dos desaparecidos - Bernardo Kucinski
CONSELHO EDITORIAL
Ana Paula Torres Megiani
Eunice Ostrensky
Haroldo Ceravolo Sereza
Joana Monteleone
Maria Luiza Ferreira de Oliveira
Ruy Braga
O congresso dos desaparecidos. Autor, Bernardo Kucinski. Editora Alameda.Copyright © 2023 Bernardo Kucinski
Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009.
Edição: Haroldo Ceravolo Sereza
Projeto gráfico, diagramação e capa: Larissa Nascimento
Assistente acadêmica: Tamara Santos
Revisão: Alexandra Colontini
Desenho da capa: Enio Squeff
Produção de livro digital: Booknando
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
K97c
Kucinski, Bernardo
O congresso dos desaparecidos [recurso eletrônico] / Bernardo Kucinski. - 1. ed. - São Paulo : Alameda, 2023.
recurso digital
Formato: ebook
Modo de acesso: world wide web
ISBN 978-65-5966-180-0 (recurso eletrônico)
1. Ficção brasileira 2. Livros eletrônicos. I. Título.
CDD: 869.3
23-84667
CDU: 82-3(81)
Meri Gleice Rodrigues de Souza - Bibliotecária - CRB-7/6439
22/06/2023 29/06/2023
ALAMEDA CASA EDITORIAL
Rua 13 de Maio, 353 – Bela Vista
CEP 01327-000 – São Paulo, SP
Tel. (11) 3012-2403
www.alamedaeditorial.com.br
Estamos todos perplexos
à espera de um congresso
dos mutilados de corpo e alma.
Alex Polari, Inventário de cicatrizes
están en algún sitio /nube o tumba
están en algún sitio/estoy seguro
allá en el sur del alma
Mário Benedetti, Desaparecidos
Sumário
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Posfácio — Desaparecer, verbo transitivo
Agradecimentos
1.
Vagava eu distraído por confins distantes e eis que subitamente me senti arrastado como por mãos invisíveis e tenazes na direção da Praça da República, que não via desde que ali caímos, eu e o Rodriguez, havia mais de quarenta anos. Deparei com a cidade atulhada de desabrigados, mendigos e crianças em andrajos. O centro velho, tomado por sinistras barracas de lona pardacenta, parecia um campo de refugiados.
A Praça da República estava em tudo diferente da imagem que eu retinha na memória, de árvores opulentas e regurgitando de colegiais à saída das aulas. O colégio virara uma repartição pública sem vida. As árvores desgalhadas e a grama pisada lembravam um velho que desistiu de se cuidar. Vultos esgarçados ocupavam o coreto. Era um fim de tarde quente e abafado. Garotos chapinhavam nas águas lodosas do laguinho.
Não encontrei os bancos nos quais outrora fingíamos namorar. Apurando o olhar avistei na extremidade da praça uma mureta em torno de um poste e nela me sentei. Pus-me a pensar. O pensamento é imprevisível como um voar de passarinho. Pensei no que acabara de ver. Os destituídos de sempre, finalmente e para sempre descartados. Os novos tempos deles não precisavam. Depois, pensei nos tempos idos e na obstinação da memória. Vejo o presente, mas o passado está fincado dentro de mim.
Aqueles foram os meus melhores anos e também os piores. Éramos jovens e éramos rebeldes. Todos aspirávamos dar à vida um sentido relevante, quiçá heroico. Assumimos a revolução como destino. Derrotar um exército, mudar o mundo, tudo parecia possível. Que ingenuidade! Que ilusão! Que tremenda ilusão! Depois, o pânico, quando já sabíamos da derrota e, não obstante, perseverávamos, como que provocando o anjo da morte. E me perguntei pela enésima vez: como foi possível acreditar? E de que adiantou nossa imolação para chegar aonde chegamos, o povo na penúria e no obscurantismo e a própria natureza sobressaltada por cataclismos e epidemias que perecem prenunciar o fim dos tempos.
Imerso em reflexões, demorei a perceber que um vulto se sentara ao meu lado. Voltei-me para examiná-lo e vi que tinha o rosto desfigurado. Ainda assim, algo em sua fisionomia me foi familiar. Olhei bem, fixamente. Tinha queixo protuberante, a mandíbula saltada para fora, quase uma deformação. Eu conhecia aquela mandíbula! Ele também me olhou fixamente. Súbito, estendeu as mãos e exclamou:
– Japa!
Então o reconheci e exclamei:
– Rodriguez! E nos abraçamos.
Logo, passamos a falar ao mesmo tempo, aos atropelos. Rodriguez sentira o mesmo impulso de rever a praça. E no mesmo momento. E sentara-se ao meu lado, na mesma mureta. Quantas coincidências, comentei. Não são coincidências, ele disse, a coincidência é aleatória, não significa nada; penso que algo importante para nós dois deve ter provocado nosso encontro. O que poderia ser? Perguntei. Talvez uma espécie de sincronia de desejos, ele aventou, sentirmos ao mesmo tempo o mesmo imperativo.
Deduziríamos, depois, que fôramos ali reunidos pelas deusas da fortuna — nas palavras do Rodriguez, um estudioso das mitologias — para dar sentido às nossas existências inúteis e estéreis. Talvez para outra vez nos rebelarmos, ele aduziu. Eu, então, confessei que já não suportava o tédio e a solidão. Pois eu mergulhei na filosofia, ele disse, antes mal tinha tempo; agora, sem militância e sem as aporrinhações da vida, sem precisar ir a lugar algum, o tempo me sobra; é como se o tempo também não tivesse para onde ir.
Ficamos a nos examinar, ambos calados, e assim transcorreu um longo minuto, até que Rodriguez exclamou: você não mudou nada! Parece tão bem! Eu não pude dizer o mesmo. Perguntei o que lhe tinha acontecido. Apanhei demais, ele disse, baixando a voz, ainda gritei que o ponto tinha caído, mas você não ouviu. Ouvi, mas não deu tempo, eu disse, me acertaram na hora. E lamentei: eu não estava preparado. Nenhum de nós estava, disse Rodriguez, temíamos o pau de arara, isso sim, tínhamos pavor do pau de arara, na morte ninguém cogitava. Eu às vezes cogitava, eu disse, temia a morte de algum companheiro. Isso, eu também, disse Rodriguez, mas não a minha, acho que ninguém pensa na própria morte.
Tombei ali mesmo, perto de onde estávamos. Podiam ter permitido a meus pais um enterro decente, porém decidiram me desaparecer. Nem vi para onde me levaram. E você? Perguntei ao Rodriguez, para onde te levaram? Perdi a conta de quantas vezes me enterraram e desenterraram, ele disse, por fim me despejaram na vala de Perus, misturado com outros, e ficou impossível me identificar. Agora é que não vão mesmo, eu disse, a Comissão da Verdade já acabou. As famílias tinham que protestar, disse Rodriguez. Mais do que protestaram? As famílias se cansam, eu retruquei, e já se passou tempo demais.
Rodriguez concordou.
Nesse momento tive a ideia que deixaria Rodriguez maravilhado. Que tal nós mesmos protestarmos, a gente se reúne e lança um manifesto, isso sim, teria força! Rodriguez franziu a testa como quem não entendeu e não disse nada. E assim ficou, calado e de olhar perdido, por um bom tempo. Súbito, empertigou-se, fixou o olhar em mim e exclamou: um encontro dos desaparecidos! Que ideia poderosa! Um encontro nacional dos desaparecidos políticos! Os espectros assombrando os vivos! Como foi que ninguém pensou nisso antes?!
Nós nos apagamos, eu disse, outros falam por nós, alguns, dizem mentiras, outros pensam que sabem mas só nós conhecemos o pavor da experiência limite do desaparecimento; é a nossa voz que tem que ser ouvida, quem sabe sacudimos as pessoas? Rodriguez concordou e pontificou: um povo que esquece seus desaparecidos está condenado a um futuro de mais desaparecidos. Eu disse: em outros países isso não aconteceu, como você explica esse esquecimento? Teve esse surto fascista, um gigantesco retrocesso, ele respondeu, de onde você pensa que vieram os fascistas? Não surgiram do nada! Também eles são espectros do passado; são os escravocratas de outrora reencarnados em empresários, capitães do mato reencarnados em gerentes de bancos, déspotas sanguinários reencarnados em demagogos políticos. Temos que enfrentá-los!
À medida que falava, Rodriguez mais e mais se empolgava. Logo passou a imaginar como convocar os desaparecidos se não tínhamos acesso às redes sociais. Vai ter que ser de boca em boca, eu disse, um avisa o outro, que fala para mais outro e assim vai se espalhando a convocatória. Nesse caso, disse Rodriguez, temos que definir desde já
