O que se aprende quando se fala em sala de aula?: uma análise das interações orais em uma turma de EJA
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O que se aprende quando se fala em sala de aula? - Fernanda Zilli do Nascimento
INTRODUÇÃO
Este livro apresenta a revisão da pesquisa de mestrado realizada na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais entre os anos de 2008 e 2010. O objetivo principal foi analisar os momentos de interação verbal em uma turma do Ensino Médio da Educação de Jovens e Adultos (EJA) com o propósito de compreender os significados que os alunos atribuem à condição de ser aluno nessa modalidade de ensino. A pesquisa concentrou-se na análise dos momentos de interação entre alunos e professores como práticas que definem e organizam os modos como os sujeitos devem se comportar, dialogar, expressar dúvidas e atribuir sentido às suas ideias, sentimentos e desejos. A relevância de destacar os momentos de interação verbal como objeto de análise advém dos princípios do dialogismo, postulados pelo Círculo de Bakhtin (BAKHTIN, 2003; VOLÓCHINOV, 2021), que enfatizam a centralidade dos processos interacionais na constituição dos papéis sociais e da subjetividade.
A escolha de investigar a educação de jovens e adultos se baseou na hipótese de que, quando esses sujeitos decidem retomar sua escolarização, trazem consigo experiências culturais diversas e concepções individuais sobre os papéis sociais a serem desempenhados como aluno. Nesse sentido, para explorar os significados atribuídos por esses indivíduos à sua própria identidade como estudantes em um contexto educacional diferenciado, foi necessário examinar as condições sociais e culturais que moldaram suas trajetórias educacionais, indo além do ambiente escolar. Em resumo, partimos do pressuposto de que o aluno da Educação de Jovens e Adultos está envolvido em um processo de construção de conhecimento e identidade que transcende os limites do aprendizado formal. Concordamos com Oliveira (1999, p. 1) ao definir que o sujeito da EJA
não é o estudante universitário, o profissional qualificado que freqüenta cursos de formação continuada ou de especialização, ou a pessoa adulta interessada em aperfeiçoar seus conhecimentos em áreas como artes, línguas estrangeiras ou música, por exemplo. E o jovem, relativamente recentemente incorporado ao território da antiga educação de adultos, não é aquele com uma história de escolaridade regular, o vestibulando ou o aluno de cursos extra-curriculares em busca de enriquecimento pessoal. Não é também o adolescente no sentido naturalizado de pertinência a uma etapa bio-psicológica da vida. (OLIVEIRA, 1999, p. 1)
Outro aspecto relevante foi a percepção de que grande parte das pesquisas sobre aprendizagem e desenvolvimento humano têm, em seu recorte, privilegiado crianças e adolescentes, excluindo desse espectro os modos pelos quais os adultos aprendem os objetos do ensino educacional. A literatura científica-acadêmica sobre a didática de ensino de adultos acaba por considerá-los como sujeitos plenamente autônomos e cujos processos de aprendizagem se dão de maneira similar. Em síntese, à época dessa pesquisa, ainda havia lacunas dentro do campo da educação por estudos que se dedicassem a investigar a inserção e permanência do adulto em instituições de ensino, quer seja no nível fundamental ou universitário. Propomos essa investigação também a partir da hipótese de que há distinções entre a construção dos aspectos identitários e de aprendizagem entre adultos em contexto educacional da Educação de Jovens e Adultos para adultos em formação técnica ou universitária, por exemplo. Consequentemente, ao adentrarmos no ensino de EJA para realizar nossa pesquisa, não poderíamos perder de vista que os processos de aprendizagem de adultos são moldados, primordialmente, por elementos contextuais, sociais e culturais.
Esta pesquisa foi realizada em uma escola municipal da rede pública de Belo Horizonte dedicada exclusivamente à Educação de Jovens e Adultos¹. O recorte metodológico por escolas municipais da rede de ensino da prefeitura de Belo Horizonte deu-se por compreendermos a importância da regulamentação da modalidade de EJA em acordo com os parâmetros do CME – Conselho Municipal de Educação. Foi por meio de uma pesquisa de caráter etnográfico que realizamos um trabalho de campo por seis meses em uma única turma, acompanhando todas as aulas, que foram integralmente gravadas em vídeo e áudio. Para a seleção dos dados de análise, escolhemos, exclusivamente, os momentos em que houve interação dos alunos com seus professores ou com seus pares. Partindo desse recorte, as seguintes questões foram postas para a construção de nossas categorias analíticas:
a) Quais são os modos que os alunos utilizaram para introduzir e manter seu turno de fala em situações de interação na sala de aula?
b) De que forma, e com que ditos, os professores autorizam ou desautorizam as falas dos alunos?;
c) Quais são as estratégias que os professores mobilizam para dar espaço e legitimidade ao que o aluno diz em sala de aula?;
d) Quais seriam os motivos por que somente determinados alunos são mais ouvidos ou solicitados a se expressarem durante a aula?
Para caracterizar a dinâmica discursiva na sala de aula, fez-se importante explicitar as condições contextuais a partir das quais os enunciados são produzidos no momento da interação entre seus participantes, o que nos remeteu aos estudos sobre o dialogismo a partir da teoria dialógica da enunciação (VOLOCHINOV, 2017; BAKHTIN, 2003). Desta forma, discutir as interações que se constituem entre professor/aluno e aluno/aluno na EJA é discutir novas formas e possibilidades de aprendizagem e constituição de sentidos sobre a cultura escolar.
Este livro está dividido em quatro capítulos, os quais são descritos a seguir. O primeiro capítulo e o segundo capítulos têm o propósito de apresentar os princípios epistemológicos e teóricos adotados para construir as hipóteses e objetivos da pesquisa. Para isso, discutimos os conceitos de interação, dialogismo e constituição de subjetividade, a fim de esclarecer como a análise dos eventos de interação, dos rituais/práticas que ocorrem em sala de aula, da organização dos turnos de fala e dos objetos discursivos autorizados
na sala de aula nos fornecem pistas sobre os significados de ser um aluno na educação de jovens e adultos.
A partir do terceiro capítulo, abordamos as definições do processo de coleta de dados. Descrevemos os pressupostos teóricos e metodológicos da pesquisa de campo, incluindo os critérios de seleção da instituição escolar, a organização das aulas das quais participei e a construção dos objetivos da pesquisa. Em seguida, no quarto capítulo, nos dedicamos às análises dos eventos de interação selecionados como representativos para o estudo. Descrevemos as categorias de análise e procuramos demonstrar, por meio da transcrição das sequências interacionais, como as dinâmicas discursivas moldam e influenciam a construção dos papéis sociais a serem desempenhados em sala de aula.
1 Essa instituição será aqui identificada como Escola Municipal Célio Soares, doravante denominada EMCS.
1. DIALOGISMO, INTERAÇÃO E O APRENDER A SER ALUNO
: PONTES PARA (RE)PENSAR A SALA DE AULA
Ser significa conviver. A morte absoluta (o não ser) é o estado de não ser ouvido, de não ser reconhecido, de não ser lembrado. Ser significa ser para o outro e, através do outro, ser para si. O ser humano não tem um território interior soberano, está todo e sempre na fronteira; olhando para dentro de si ele olha para os olhos de outro ou com os olhos de outro". – Mikhail Bakhtin
[...] se é dizendo a palavra com que,
pronunciando" o mundo, os homens o transformam, o diálogo se impõe como caminho pelo qual os homens ganham significação enquanto homens. Por isto, o diálogo é uma exigência existencial. E, se ele é o encontro em que se solidarizam o refletir e o agir de seus sujeitos endereçados ao mundo a ser transformado e humanizado, não pode reduzir-se a um ato de depositar idéias de um sujeito no outro, nem tampouco tornar-se simples troca de idéias a serem consumidas pelos permutantes. - Paulo Freire
Damos início a este capítulo com duas citações de pensadores que, apesar da inscrição em distintos campos de saber, foram fundamentais para estabelecer os alicerces do quadro teórico desta pesquisa. Baseamo-nos nos estudos dialógicos do Círculo de Bakhtin no campo da filosofia da linguagem e na relevância de Paulo Freire na área da educação para examinar a importância dos eventos de interação entre alunos e professores, particularmente durante as aulas, na formação da identidade do sujeito como estudante de EJA. Nesse percurso, duas questões foram postas no processo da pesquisa: por que escolher a interação em sala de aula como objeto de análise capaz de iluminar os significados de ser aluno na Educação de Jovens e Adultos? E de que maneira a análise dos momentos de interação verbal poderia fornecer indícios sobre as práticas e rituais relacionados às representações que moldam o modelo de estudante?
Nosso ponto de partida foi o reconhecimento de que a linguagem e, sobretudo, as práticas discursivas que ela engloba, são constitutivas da subjetividade humana. Não adotamos aqui a perspectiva estruturalista dos estudos linguísticos, mas, principalmente, a concepção de linguagem como um processo dialógico e enunciativo. Começaremos, portanto, esclarecendo os princípios epistemológicos dos conceitos de língua, linguagem e interação que orientou este estudo.
1.1 UM SOBREVOO SOBRE TEORIA ENUNCIATIVA DA LINGUAGEM E SOBRE O DIALOGISMO: DE ÉMILE BENVENISTE AO CÍRCULO DE BAKHTIN
Émile Benveniste (1902-1976) foi linguista francês cujas contribuições tiveram impacto significativo na compreensão sobre a natureza da linguagem. Sua principal defesa foi que a linguagem não pode ser investigada somente como um instrumento de comunicação entre indivíduos, mas deve ser compreendida como elemento constitutivo da subjetividade humana. Para Benveniste, a linguagem é a experiência que funda os processos de subjetividade, uma vez que é por meio da enunciação que o
