Uma outra ciência é possível: Manifesto por uma desaceleração das ciências
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Sobre este e-book
Este livro conta com um prefácio inédito da autora, feito para a edição brasileira.
O compromisso que garantia à pesquisa científica o mínimo de independência vital já não existe mais e a produção do conhecimento passou a ser definida pelos interesses privados. Uma economia especulativa tomou conta da ciência: pesquisadoras e pesquisadores devem servir os "parceiros" industriais e participar dos jogos de guerra da competição econômica.
Nesta análise de grande atualidade, Isabelle Stengers aponta os perigos de as ciências manterem alianças intrínsecas com o empreendimento de dominação e extração cujas consequências ameaçam agora todos os viventes da Terra. A autora nos convoca, portanto, a resistir àqueles que negam a possibilidade de um outro devir da ciência, que poderia torná-la capaz de ser uma aliada na luta por um futuro digno de ser vivido.
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Uma outra ciência é possível - Isabelle Stengers
Sumário
Capa
Folha de Rosto
SUMÁRIO
PREFÁCIO DA AUTORA À EDIÇÃO BRASILEIRA
NOTA DOS COORDENADORES DA COLEÇÃO
CAPÍTULO 1
POR UMA INTELIGÊNCIA PÚBLICA DAS CIÊNCIAS
O PÚBLICO
DEVE ENTENDER
AS CIÊNCIAS?
O QUE O PÚBLICO DEVERIA ENTENDER?
AS EXIGÊNCIAS DOS CONHECEDORES
A BOA VONTADE NÃO BASTA
A CIÊNCIA NO TRIBUNAL
DE QUE SE APROVEITAM OS MERCADORES DA DÚVIDA
INSERÇÃO NA CULTURA, INSERÇÃO NA POLÍTICA
CAPÍTULO 2
TER A FIBRA DO PESQUISADOR
O GÊNERO DA CIÊNCIA
OS VERDADEIROS PESQUISADORES
A FÁBRICA DO VERDADEIRO PESQUISADOR
DESMOBILIZAÇÃO?
CAPÍTULO 3
CIÊNCIAS E VALORES: COMO DESACELERAR?
O PODER DA AVALIAÇÃO
QUEM SÃO OS PARES?
A CIÊNCIA
, UMA AMÁLGAMA A DISSOLVER
CONTRASTES
SIMBIOSES
DESACELERAR...
CAPÍTULO 4
LUDWIK FLECK, THOMAS KUHN E O DESAFIO DE DESACELERAR AS CIÊNCIAS
CAPÍTULO 5
UMA OUTRA CIÊNCIA É POSSÍVEL!
APELO POR UMA CIÊNCIA LENTA
CAPÍTULO 6
COSMOPOLÍTICA: CIVILIZAR AS PRÁTICAS MODERNAS
A INTRUSÃO DE GAIA
SEM GARANTIAS
Ecologia política
Civilizar a política
Obras de Isabelle Stengers
Página de Créditos
COLEÇÃO DESNATURADAS
Pontos de referência
Capa
Folha de Rosto
Sumário
Prefácio
Página Inicial
Página de Créditos
Uma outra ciência é possível: manifesto por uma desaceleração das ciênciasUma outra ciência é possível: manifesto por uma desaceleração das ciênciasSUMÁRIO
PREFÁCIO DA AUTORA À EDIÇÃO BRASILEIRA
CAPÍTULO 1
POR UMA INTELIGÊNCIA PÚBLICA DAS CIÊNCIAS
O público
deve entender
as ciências?
O que o público deveria entender?
As exigências dos conhecedores
A boa vontade não basta
A ciência no tribunal
De que se aproveitam os mercadores da dúvida
Inserção na cultura, inserção na política
CAPÍTULO 2
TER A FIBRA DO PESQUISADOR
O gênero da ciência
Os verdadeiros pesquisadores
A fábrica do verdadeiro pesquisador
Desmobilização?
CAPÍTULO 3
CIÊNCIAS E VALORES: COMO DESACELERAR?
O poder da avaliação
Quem são os pares?
A ciência
, uma amálgama a dissolver
Contrastes
Simbioses
Desacelerar...
CAPÍTULO 4
LUDWIK FLECK, THOMAS KUHN E O DESAFIO DE DESACELERAR AS CIÊNCIAS
CAPÍTULO 5
UMA OUTRA CIÊNCIA É POSSÍVEL!
APELO POR UMA CIÊNCIA LENTA
CAPÍTULO 6
COSMOPOLÍTICA: CIVILIZAR AS PRÁTICAS MODERNAS
A intrusão de Gaia
Sem garantias
Ecologia política
Civilizar a política
Obras de Isabelle Stengers
Coleção Desnaturadas
Para o GECo.
Para Serge Gutwirth.
Para todos aqueles e aquelas que me permitiram pensar que isto não é uma simples utopia.
Uma outra ciência é possível: manifesto por uma desaceleração das ciênciasDez anos se passaram desde a publicação de Uma outra ciência é possível, e o possível de dez anos atrás tornou-se, hoje, uma necessidade sentida por muitos. Ainda assim, tal necessidade segue sumariamente ignorada pelas instituições que governam o que chamamos de Ciência
. Quando associei a ideia de uma outra
ciência ao tema da desaceleração, sabia que isso não deveria ser confundido com a reivindicação nostálgica dos cientistas que protestavam contra o imperativo da produtividade e da corrida da inovação que, sob o nome de economia do conhecimento, domina atualmente o mundo acadêmico. No entanto, o perigo hoje, não restam dúvidas, é que as ciências sejam entendidas como aliadas intrínsecas do empreendimento de dominação e extração, cujas consequências ameaçam agora todos os viventes da Terra. É preciso, portanto, agir em duas frentes: resistir àqueles que desejam retornar a um passado em que se respeitava a ciência e àqueles que negam a possibilidade de um outro devir da ciência, capaz de torná-la uma aliada na luta por um futuro digno de ser vivido.
Certamente, aqueles que têm saudade do passado tinham razões, então, para se preocupar. Os sintomas patológicos associados ao imperativo da produtividade estão se multiplicando. As fraudes são abundantes, assim como o plágio e as gambiarras metodológicas. A questão da integridade dos pesquisadores
se tornou um problema institucional, mas como resolvê-lo quando a própria instituição encoraja a trapaça, exigindo respostas imediatas e não deixando espaço para a pesquisa tateante que uma pergunta exige? A avaliação puramente quantitativa – ou seja, cega – das publicações é também uma receita extremamente eficaz para favorecer a superficialidade e as pretensões irresponsáveis. Em suma, a Ciência
vai mal, e podemos compreender essa nostalgia por um passado, em sua maior parte, idealizado. Todavia, podemos entender também que, para outros, a situação atual apenas revela uma verdade já conhecida. E este livro lhes dá certa razão. Desde o século XIX, quando a história passa a ser situada sob o signo do progresso, institui-se uma ciência rápida
, mobilizada pelo dever de fazer o conhecimento avançar
, como um exército para o qual tudo aquilo que poderia desacelerar sua marcha é visto como obstáculo.
Reivindicar uma desaceleração das ciências
significa, portanto, interrogar essa mobilização e, também, aquilo que os cientistas mobilizados definem como obstáculo ao avanço do conhecimento
. Significa questionar o ideal de cientificidade que legitima a rapidez e tentar fazer com que os próprios cientistas sintam a violência e a ignorância da qual acabam tomando partido. Anos após eu ter escrito este livro, a antropóloga Anna Tsing fez esse questionamento de forma admirável. Em seu belo livro O cogumelo do fim do mundo,¹ ela definiu este ideal por meio da noção de escalabilidade
. Para ser reconhecido como científico, é necessário que um conhecimento seja válido em todas as escalas, o que também quer dizer independente das circunstâncias, dos encontros, das criações de relação. Assim como um exército mobilizado deve poder
passar por qualquer obstáculo, um verdadeiro
objeto científico deve poder
ganhar escala – isto é, ser extraído de seu mundo, o qual é definido pelas condições gerais suficientes para reproduzi-lo. Esse imperativo também exige que se condene como anedóticos, não reprodutíveis, certos comportamentos de seres que, no entanto, mostram-se capazes de coisas muito diferentes quando lhes fazemos as perguntas certas
,² para falar como Vinciane Despret. Para as ciências rápidas, levar a sério aquilo que é tratado como passível de ser eliminado demonstraria falta de entendimento do que a Ciência
requer.
A pergunta sobre o que é eliminado pode dizer respeito a dimensões políticas (quem ganha com essa eliminação?), epistêmicas (que ignorância essa eliminação produz?) e ontológicas (que relação com seres humanos e não humanos essa eliminação produz?). Mas essas dimensões estão conectadas, o que se torna evidente toda vez que se organiza alguma forma de resistência contra a racionalização
do mundo. É especialmente política a recusa de transformações sociotécnicas por seus aspectos socialmente nocivos quando elas são apresentadas por cientistas como racionais
, pretensamente trazendo uma solução enfim objetiva a um problema de interesse comum. Esse foi o caso na Europa, com os Organismos Geneticamente Modificados (OGM). Nessa situação, porém, a resistência não se limitou à dimensão política (restringindo-se, por exemplo, ao questionamento da lógica das patentes e da industrialização da agricultura). Uma coalizão de contestações tornou possível esquivar-se da acusação de fazer oposição ao progresso
por razões irracionais, conservadoras ou ideológicas. Aqueles que apresentaram sua oposição souberam conectar o político ao epistêmico e mostrar que os biólogos defensores dos OGM demonstravam ignorância e/ou uma ingenuidade irresponsável quando falavam cheios de certezas sobre o que não sabiam: isto é, as consequências sociais, assim como ecológicas, que distinguem os OGM escaláveis
estudados no laboratório desses biólogos e os OGM semeados repetidamente em centenas de milhões de hectares. A Europa escapou dessas consequências, ao contrário do resto do mundo.
Hoje, enquanto o planeta inteiro enfrenta desastres sociais e ecológicos cada vez mais graves e numerosos, a dimensão ontológica está posta em toda sua amplitude. Pois aquilo que os políticos atuais exigem da Ciência
para salvar o planeta
são soluções globais
– a substituição total dos combustíveis fósseis pela energia elétrica, por exemplo –, cegas às consequências, e isso em nome da grandeza escalável por excelência: a quantidade de gases de efeito estufa emitida globalmente. Enquanto o conjunto de saberes e práticas locais, não escaláveis, deveria ser ativado diante da ameaça comum das mudanças climáticas, o que é de fato mobilizado remete aos mesmos poderes que colonizaram o planeta e fabricaram a ontologia dualista que deu ao Homem
a liberdade de domesticar e explorar os mundos desses saberes e práticas.
Na Europa de hoje, muitos de nós deixaram de sorrir com tolerância quando os povos da América Latina e da Nova Zelândia reconheceram os direitos dos seres que nós historicamente tratamos como produto de simples crenças. Sentimos que devemos reaprender a pensar e a agir, de um modo que afirme nossa dependência ao que não somos capazes de controlar ou reduzir a recursos
. Porém, sem termos uma tradição coletiva a reativar, essa reaprendizagem de uma ontologia não dualista corre o risco de ser artificial, uma espécie de exotismo a nível mundial
, se não se conectar com movimentos de resistência, tanto políticos quanto epistêmicos.
Quando escrevi Uma outra ciência é possível, pensava sobretudo nessa dupla resistência. Como tornar pesquisadores capazes de escutar e compreender aqueles que eles aprenderam a desqualificar, o público que não entende a ‘Ciência’
e, supostamente, opõe interesses subjetivos aos critérios objetivos dos cientistas? Desde aquela época, a situação se agravou. Com a pandemia recente, uma boa parte do público rebelou-se e acusou os cientistas de estarem corrompidos, de os estarem enganando, de servirem apenas aos interesses da indústria. No entanto, foi a maneira como os governos se valeram das recomendações dos cientistas para impor medidas autoritárias e escaláveis, exigindo a obediência de cada um, que envenenou a situação, e não a inteligência coletiva. Isso porque os critérios objetivos
apresentados ofendiam a dignidade e a capacidade de pensar daqueles sobre quem se impunham as proibições e a quem privavam de toda possibilidade de agir. Podemos falar aqui do círculo vicioso
da expertise que pode afetar as relações entre as ciências e a tomada de decisão política. Os especialistas poderiam ter dito com toda honestidade: não sabemos o que está acontecendo, estamos aprendendo
, mas muitos deles pensaram que, para não deixar o público em pânico, deveriam dar a entender que sabiam o que fazer e permitir que os Estados se valessem de sua autoridade. No entanto, o círculo vicioso instalou-se dessa maneira: quando as instruções e previsões mudam, o público pode acabar perdendo a confiança nesse suposto saber, ou mesmo recusar-se a atribuir qualquer confiabilidade a qualquer saber científico. E, desse modo, o público termina por confirmar a irracionalidade que os cientistas lhe imputam.
No entanto, atualmente, são os pesquisadores e engenheiros que estão se rebelando. Eles se recusam a participar da mentira política encarnada na promessa de inovações sociotécnicas que responderão à ameaça climática (um bom
Antropoceno). Alguns participam de ações de desobediência civil para alertar o público. Outros mudam de trajetória e tentam encontrar outros ofícios ou atividades que façam mais sentido eles. Outros, ainda, formam associações que buscam compartilhar conhecimento com os grupos impactados pelas mudanças. Esta última decisão responde, à sua própria maneira, ao tema do aterramento
das ciências e das técnicas, popularizado por Bruno Latour em Onde aterrar?³ mas também a essa outra ciência
, cuja possibilidade eu defendo neste livro. De fato, compartilhar não significa explicar
ou comunicar
, mas sim aprender com os outros, graças aos outros e arriscando com os outros como colocar um problema terrestre
, isto é, irredutível, às exigências da escalabilidade. E isso exige que os cientistas desacelerem
, que aprendam a levar a sério aquilo que sua ciência elimina para fazer avançar
o conhecimento. Eles devem aceitar que aquilo que é eliminado pode interessar a outros de uma maneira não subjetiva
, mas vital
. Eles devem perceber que seus próprios saberes precisam ser situados por outros saberes, que respondem a outras perguntas.
Falar de uma outra ciência
significa apostar que as ciências não são definidas por uma ontologia dualista, e que as técnicas que elas tornam possíveis podem se tornar sensíveis a questões de escala, circunstância e uso. Significa apostar que o que se chamou de racionalidade científica
é – assim como a insensibilidade dos exércitos mobilizados aos danos que causam – um produto historicamente situado que diz respeito à formação, ou melhor, adestramento
dos cientistas, um produto do que chamamos de disciplina
. Os cientistas e técnicos que estão mudando de profissão confirmam isso quando se qualificam como desertores
: o que eles estão abandonando é o que lhes impunha a exigência de não perder tempo.
Para que uma outra ciência seja possível, no entanto, não bastam iniciativas interdisciplinares
que ocorrem isoladamente e com o respeito mútuo das fronteiras disciplinares. Trata-se de aceitar o experimento do encontro, em torno de uma situação que lhes concerne, com outros protagonistas, cujos saberes diferem e não respondem aos critérios das ciências. O que não significa que os cientistas devem estar abertos
a esses outros ou que devam acolher tudo, tendo a pretensão de compreender tudo. O experimento para os pesquisadores consiste em aceitar não estar no centro do encontro, aceitar serem situados por esses outros, aprender com eles aquilo que negligenciam e eliminam, sem usar como proteção categorias como objetividade ou racionalidade. Trata-se de dar a uma situação terrestre, irredutível a um objeto disciplinado, o poder de fazer hesitar, pensar e aprender conjuntamente. Colocar no centro de um encontro a aprendizagem daquilo que a situação exige está ligado a uma ontologia pragmática e situada, em que nenhum saber possui uma validade geral, apenas enquanto situado por essa exigência.
Uma outra ciência é possível, mas ela exige a rebelião contra o conjunto dos meios pelos quais as instituições atuais desencorajam estudantes e pesquisadores a fazer más perguntas
, perguntas que não fazem avançar o conhecimento
porque questionam o sentido do que lhes foi ensinado, do que é privilegiado, do que é negligenciado ou desprezado. Uma outra ciência é possível e ela responderia a uma outra definição da racionalidade: será chamado de racional aquilo que vise entender o que uma situação exige e a se tornar capaz de responder a essa exigência. Desse modo, no que diz respeito às ciências, a racionalidade exigiria, por exemplo, uma avaliação – feita não apenas por pares, mas também por outros igualmente concernidos – daquilo que um pesquisador aprendeu com as hesitações e testes que encontrou quando deixou o espaço seguro de sua disciplina. Ela exigiria uma rede de publicação em que essas aprendizagens fossem relatadas e pudessem ser discutidas e citadas da mesma maneira como são relatados, discutidos e citados os resultados de uma pesquisa clássica que só interessa à disciplina; elas não seriam tratadas como avanços, mas sim como experiências de aprendizagem sempre situadas. Ela exigiria que os experts reencontrassem o que esse termo significa em sua origem: pessoa com experiência, capaz de transmitir o que aprendeu dessa experiência. E exigiria ainda, sem dúvidas, que as ciências rompessem os laços privilegiados que foram tecidos, sob o signo do progresso, com as razões do Estado nacional ou supranacional e das empresas. Pois são as razões desses
