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Corpo e relações de gênero na contemporaneidade
Corpo e relações de gênero na contemporaneidade
Corpo e relações de gênero na contemporaneidade
E-book711 páginas8 horasGênero e Contemporaneidade

Corpo e relações de gênero na contemporaneidade

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Sobre este e-book

Dos textos que integram este volume, os temas são variados e analisados a partir de diferentes pontos de vista teóricos, metodológicos e de inserção profissional das autoras e dos autores. Essa pluralidade e diversidade vem ao encontro da filosofia que embasa as publicações desta série de livros que debatem as questões de gênero na contemporaneidade. Aqui, os feminismos se apresentam em toda sua riqueza e plenitude de possibilidades de interpretação das relações entre os vários gêneros que compõem a experiência humana. No entanto, toda essa diversidade tem em comum o desejo de desconstruir as desigualdades, as injustiças e as travas que restringem as liberdades civis, sociais e individuais. São ideias e práticas que buscam alcançar o bem, o bom e o melhor não só para alguns e algumas, mas para todas as pessoas. Marlene Neves Strey
IdiomaPortuguês
EditoraEditora da PUCRS
Data de lançamento1 de jan. de 2017
ISBN9788539710669
Corpo e relações de gênero na contemporaneidade

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    Corpo e relações de gênero na contemporaneidade - Marlene Neves Strey

    O INSISTENTE RACISMO À BRASILEIRA E SUA NEGAÇÃO, INSCRITA NO CORPO DA MULHER NEGRA BRASILEIRA

    Ana Luiza dos Santos Julio

    Quero iniciar esta fala, a partir de relatos de experiências que, em minha negritude, tenho passado, vivido e acompanhado. Muitos teóricos apontam, e cito aqui Nascimento (2003) Gebara (2000), e Brandão (1982) entre muitos outros, que a pesquisa se forma a partir da experiência vivida. Isto é, não se trata de um suposto, mas a vida como ela tem sido, na minha experiência, assim como na experiência de outras mulheres negras, buscando uma viabilidade de transformação.

    A primeira das experiências a relatar, trata de um episódio simples, corriqueiro, por assim dizer, ocorrido no mês de agosto de 2016. Ei-la aqui:

    Tenho uma amiga há mais de 20 anos, da qual não conhecia pessoalmente, aos pais. Com a morte do pai, ocorrida recentemente, a mãe precisou viajar para providenciar a papelada de sua pensão, e contaram comigo para a realização deste translado. Então, eu, minha amiga e sua mãe saímos de Porto Alegre, as 6h da manhã, aproximadamente e viajamos para o interior, em busca da referida papelada. Viajamos, cerca de duas horas, permanecemos no local mais ou menos uma hora e meia e retornamos, gastando mais duas horas. Ao chegar em Porto Alegre, almoçamos as três juntas e isto tudo demandou aproximadamente sete horas de convívio que, diga-se de passagem, bem agradável, apesar das circunstâncias. Passados alguns dias, minha amiga comentou comigo que haviam falado em mim; que sua mãe havia gostado de minha companhia, etc., etc., mas que se surpreendeu imensamente quando minha amiga se referiu a mim como uma mulher negra. Sua mãe relutou veementemente e negou completamente o fato de eu ser uma mulher negra. Fim da primeira experiência relatada.

    Segunda experiência. Ano 2012

    Como professora, independente da matéria que esteja trabalhando, tenho por hábito incluir a questão racial e de gênero, por serem as temáticas que investigo. Em um determinado dia, após duas semanas ministrando um curso de especialização em comunicação e jornalismo, levantando os aspectos psicológicos da comunicação, apontei a questão racial, e de que como eu vivia esta experiência a partir do lugar que ocupo, como uma mulher negra. Ao fim de minha fala, no intervalo, uma aluna se dirigiu a mim, mostrando-se impactada, fazendo o seguinte comentário: professora, sabe que nestes dias todos, eu não havia percebido que a senhora é uma mulher negra? Fim do segundo relato.

    Terceira experiência. Ano 2011

    Sala de aula, faculdade de Direito, disciplina; psicologia jurídica. Situação:

    Durante o intervalo entre uma aula e outra, duas mulheres estudantes do direito, entraram na sala em que eu ministrava aula, para conversar com seus colegas daquela turma. Acabou o intervalo, eu voltei para a sala de aula e me coloquei no lugar da professora, atrás da mesa a mim destinada e fiquei ali, postada, aguardando as estudantes se retirarem. Como isto levou certo tempo, um dos meus alunos falou para elas que a professora estava aguardando que elas se retirassem para dar prosseguimento à aula. As duas estudantes imediatamente se levantaram e comentaram: ah, mas ela é tão jovem, que nem percebemos tratar-se da professora. Fim do terceiro relato.

    Quarta experiência. Ano 2010

    Sala de aula, faculdade de psicologia. Grande Porto Alegre

    Num determinado dia em que não compareci em aula, uma aluna comenta em sala de aula para a professora que me substituía: professora, sua aula foi muito boa. Em seguida, dirige-se aos colegas e comenta: Aquela professora (se referindo a mim) para ser boa, precisa muito banho de pó de cal. Fim do quarto relato.

    Quinta experiência. Ano 1989

    Bairro São Jose do Murialdo, Porto Alegre, estágio de graduação em psicologia. Atividade de acompanhamento terapêutico de um menino negro, egresso hospitalar.

    Este acompanhamento acontecia na casa do menino. Trata-se de um menino adotado, dentro do programa Lar social. Em função do tempo de hospitalização e por tratar-se de outras crianças que também ali conviviam, se fez necessário sua reintegração, em seu ambiente familiar. Nesta proposta de estágio, eu ia semanalmente a sua casa para atividade. Intermitentemente o menino fugia de mim, evitando minha aproximação, e eu o buscava, na tentativa de aproximação e, obviamente, realização de meu estágio acadêmico.

    Um dia perguntei-lhe porque ele fugia de mim, ao que me respondeu que eu não era sua doutora (referindo-se a psicóloga). Perguntei então porque ele achava isso, ao que ele respondeu que eu não tinha carro, como os doutores tem, e além disso, eu era uma mulher negra, como ele. Fim do quinto e último relato.

    Conceituando

    Alguns termos se fazem necessário, tais como serão apresentados aqui.

    Identidade negra e pertencimento racial:

    Ainda que a sociedade brasileira, segundo os dados do IBGE (2014) seja atualmente composta por 52% da população negra, entendendo por negro(a) as pessoas que se auto identificam como sendo da cor preta ou parda, ainda se faz necessário falar em pertencimento racial. Falar em identidade negra, mesmo ao considerar este número significativo existente na população brasileira, permanece sendo algo que causa, no mínimo, a ideia de que haverá problemas pela frente. Não há dúvidas. Ora, se esta população não faz parte de minoria, passando em 2 pontos percentuais da metade da população, porque razão este grupo permanece subsumido do seio das relações sociais positivadas. Por que, dizendo de outra maneira, este grupo populacional permanece compondo os bolsões periféricos e de pobreza, não tendo alcançado ainda, uma real inclusão social?

    A fim de responder também estas questões, faz-se necessário pontuar o que é a identidade racial negra. A sociedade brasileira habituou-se, ao longo da história brasileira, a identificar-se com um estilo, com uma tipologia branca, como sendo o modelo do povo brasileiro. A partir disto, tem-se uma forte ideologia do branqueamento, como sendo a construção positiva do povo brasileiro, isto é, existe um ideário branco (Tatum, 1997 e Frankenberg, 1995) sustentando a ideia de que o melhor jeito, ou o jeito certo, ou ainda, o jeito sagrado e moralmente aceito, seja pertencer a cor branca. Qualquer outro pertencimento racial ou de cor, passa a ser algo de menor importância e valor social.

    No que tange aos aspectos psicológicos, parece haver um entendimento de que o sujeito branco é portador de uma individualidade, enquanto o sujeito negro, pertence a um determinado grupo (o dos negros) que, por si só, já o coloca num lugar de menor valor. Para exemplificar, Piza (2003) comenta que:

    É essa excessiva visibilidade grupal do outro e a intensa individualização do branco que podemos chamar de lugar de raça.

    Um lugar de raça é o espaço de visibilidade do outro, enquanto sujeito numa relação, na qual a raça define os termos desta relação. Assim, o lugar do negro é o seu grupo como um todo, e do branco é o da sua individualidade. Um branco é uma unidade representativa apenas de si mesmo. Não se trata, portanto, da invisibilidade da cor, mas da intensa visibilidade da cor e de outros traços fenotípicos aliados a estereótipos sociais e morais, para uns, e a neutralidade racial para outros. A consequência dessa visibilidade para negros é bem conhecida, mas a da neutralidade do branco é dada como natural, já que ele é o modelo paradigmático de aparência e de condição humana (p. 72).

    Daí tem-se que, ao sujeito branco nada pega em termos raciais. Já o mesmo não ocorre com o negro, que, segundo Piza (2003) nem chega a ser reconhecido em sua individualidade, e sim enquanto pertencente de um grupo racial. A intensidade disto encontra-se enfatizado na linguagem cotidiana, nas situações em que corriqueiramente aos homens negros ocorre a referência de: ele é de raça, e a mulher como ela é de raça. Assim, percebe-se o quanto, no cotidiano, só existe uma raça: a negra. As pessoas brancas são o modelo, são o padrão hegemônico da humanidade.

    Pertencimento racial

    De acordo com o que se falou até então, a ideia de pertencimento racial pode parecer ser algo pertinente apenas para a população negra. E, sim, aos negros e negras é importante que seja feito o trabalho de se saber pertencente a uma dada raça, para poder entender, com maior magnitude, não apenas a sua identidade enquanto sujeito, como também enquanto reconhecimento do lugar que está destinado a ocupar no seio da sociedade. Reconhecer o pertencimento racial, e suas vicissitudes e consequências, torna-se um recurso para poder apropriar-se do que se nomeia como subjetividade negra, assim como poder tomar consciência das condições sociorraciais da sociedade brasileira em primeira instância, mas também de como se dão as relações raciais pelo mundo a fora.

    O pertencimento racial é a consequência indelével da reconstrução da identidade negra positiva. Se ao longo da história brasileira a construção identitária negra foi negativamente apontada, com atributos desqualificadores deste pertencimento, é rigorosamente necessário fazer esta reconstrução, que traga para a pauta do dia, de todas as pessoas negras, os qualificadores de cada pessoa. É preciso dissociar a cor da pele, a tipagem capilar, assim como outros atributos fenotípicos, de características negativas, tal como o racismo atribui.

    Importante salientar que não será deixando de falar em raça que o racismo será combalido. A população negra precisa reconhecer que pertence a um grupo social, e de como estas suas características fenotípicas e culturais são entendidas, preconceituosamente, neste social. Não para outra coisa, senão o aguçamento da percepção de quem é e do que isto lhe causa e custa, socialmente.

    Mas não só aos negros este pertencimento racial permanece sendo um instrumento psicológico e psicossocial. Também aos brancos este trabalho cabe. Aos brancos é necessário fazer o trabalho de se reconhecer racialmente também, e que ocupam um lugar de privilégios sociorracial. Segundo Hofbauer (2006), fazendo uma digressão histórica:

    [...] o critério da cor traz uma nova qualidade para os processos de inclusão e exclusão. [...] até a Idade Média a ideia da cor passou por um processo de naturalização. Assim, durante muito tempo, a cor da pele, não foi vista como um dado natural objetivo (ou biológico). Preto/negro representava, em primeiro lugar, o mal, o moralmente condenável, o pecado, enquanto branco expressava o divino e a pureza da verdadeira fé.

    Não é de estranhar portanto, que a ideia de escravidão, como medida de (re)humanização de uma não pessoa associava-se a ideia de purificar um infiel e um discurso que propunha branquear os seres enegrecidos. Com a naturalização (biologização e, mais tarde, genetização) das diferenças humanas, a cor tornar-se-ia um dado cada vez menos contextual e menos negociável.

    [...] assim, durante séculos, a visão dominante sobre a escravidão e o ideário do branqueamento não apenas conviviam lado a lado, mas também constituíam ainda dois discursos ideológicos, que se sustentavam mutuamente (p. 35).

    Tal posicionamento caracterizou a famosa e falaciosa ideia de democracia racial. Por tratar-se, portanto, de dois grupos (brancos e não brancos), é necessário que os dois tomem ciência da situação, como medida de transformação do privilégio de um em detrimento das parcas condições de vida do outro, para que as verdadeiras condições de igualdade racial possam ser, em algum momento, estabelecidas.

    Subjetividade negra

    Subjetividade é um termo basal na psicologia, pois sustenta toda a ideia de mundo interior, de um universo particularizado a cada sujeito, ao mesmo tempo em que qualifica a cada sujeito enquanto semelhante a todos os outros sujeitos, cada qual portador de sua singularidade. E, não há dúvidas, a ideia da subjetividade que nos iguala na condição humana e diferencia nas particularidades, só é possível de ser compreendida, a partir de uma condição social, cultural e histórica. Ou seja, há um embricamento entre aquilo que forma cada ser humano, e o meio social no qual está inserido. Desta maneira, não há como escaparmos da ideia de que as condições socioeconômicas, pautadas pela classe social, as condições culturais e sociais, pautadas pelas condições do meio social, e condições raciais vão refletir a forma como cada um pode acessar os meios de produção cultura e social, seja através da escolarização formal, seja através da cultura da comunidade social na qual o sujeito se encontra. Todas estas condições vão costurando as possibilidades de cada sujeito construir sua interioridade, sua subjetividade.

    Os homens e as mulheres de descendência afro-brasileira passam por uma relação de pertencimento racial, que lhes permite fazer certa construção identitárias, que os difere de homens e de mulheres não negras. De acordo com Silveira (2014) a psicologia cumpre atribuições ideológicas em relação à subjetividade. Assim segundo a autora:

    quando interpreta e encaminha soluções para o sofrimento no nível do próprio indivíduo. Oblitera o reconhecimento de sua origem nos conflitos sociais. Essa prática pode se concretizar de duas maneiras: ou o indivíduo é considerado inadequado por ser fonte de seu próprio sofrimento, e por isso deve ser encaminhado a tratamento, por exemplo, às psicoterapias; ou deve ser aconselhado a conviver com um sofrimento considerado inerente à sua própria existência [...].

    E, segue a autora:

    [...] essa denúncia torna flagrante uma contradição entre a psicologia e seu principal objeto, o indivíduo e sua subjetividade, quando ela, ao invés de esclarecê-lo sobre a verdade de seu sofrimento, colabora para a sua alienação. E faz isso ao considerar que os problemas do indivíduo têm uma verdade própria, independente da cultura (2014, p. 43).

    E do que se fala exatamente, quando se aponta a necessidade de uma subjetividade negra? Fala-se na necessidade do entendimento que o pertencimento racial dos e das negras brasileiras, e aqui me refiro à população brasileira, afirmando a importância do contexto social, na costura dos aspectos preconceituosos, que precisa ser compreendido para ser trabalhado na posterior reconstrução, uma vez que esta identidade ainda encontra resquícios de uma construção colonialista negativa, que desvaloriza ao povo negro, como se fossem pessoas de uma subcategoria, ou uma categoria menor.

    Fruto do materialismo histórico, não se pode esquecer que, conforme aponta Resende (1992), ao citar Max, o modo de produção da vida material condiciona o processo em geral da vida social, política e espiritual. Não é a consciência dos homens que determina o ser, mas ao contrário, é o ser social que determina sua consciência (p. 10-11). Desta forma, se, enquanto consequência do modo de vida colonialista, o povo negro, marcado por um lugar de subserviência, marcado por um lugar caracterizado como de uma cultura que o coloca num lugar de menor valor social, caracterizado como sendo um povo de menor condição cognitiva, e, por isso, impedido, ao longo da história brasileira, de frequentar a escola formal, finda por adquirir uma identidade negatividade, por assim dizer. Esta identidade negativada o mantém numa subcultura, e nos lugares de menor prestigio social, como as periferias das cidades.

    Mesmo quando as famílias negras através de condições sociais protagonizadas pelas ações afirmativas, a exemplo, passam a poder ter acesso a bens de consumo, moradia e de cultura e educação que as coloque num patamar diferenciado nas relações sociais comunitárias, nem por isso seu acesso social está garantido. As famílias que de uma maneira ou outra conseguem furar o cerco da segregação sociorracial e passam a frequentar a sociedade, integrando as classes sócias não periféricas, como as classes média e média alta, estas famílias só estão ali na condição de exceção da regra. Ou seja, são famílias que não se encontram no lugar social que lhes é designado, mas que, por uma razão ou outra (exceção da regra) o social não as rejeita totalmente, melhor dizendo, explicitamente. E com isto, quer se dizer, que sua integração social também não se dá na sua totalidade. Além disso, há uma razão social para esta pseudo aceitação, pois estas famílias, subintegradas, representam a ideia da inexistência do racismo, caracterizando a falaciosa democracia racial.

    Independente de se encontrarem num ambiente comunitário negro ou não, estas famílias ou ainda, estas pessoas negras e negros, em geral começam a ter um sofrimento ao qual não podem nomear, quando não reconhecem sua origem. Não sabendo de onde vem o sofrimento, não podem combate-lo e, assim, sofrem sem saber por que sofrem e sem poder dar vazão a este sentimento.

    Sem dúvidas a psicologia precisa comprometer-se com isto, o que pode ser feito a partir do que Ciampa (2002) citado por Nogueira (2014) nomeia como política de identidade colonial moderna. Assim tem-se que:

    Ao estabelecer uma suposta hierarquia entre os diferentes povos no mundo baseado na supremacia racial branca, essa política de identidade acaba supervalorizando povos europeus e de aparência branca como os mais humanos, e desqualificando outros povos, como indígenas, africanos e aborígenes, como menos humanos. Os primeiros ficam impossibilitados de reconhecer a humanidade dos outros, logo, não podem se reconhecer verdadeiramente como humanos, e sofrem de uma ilusão psicossocial de superioridade. Assim como os povos desqualificados ficam impossibilitados de se identificarem com os que se julgam superiores, pois são inferiorizados, o que gera interdições no seu processo de auto reconhecimento como seres humanos.

    Todos os envolvidos em relações sociais baseadas na branquitude sofrem processos de desumanização, pois são impedidos de reconhecer a humanidade do Outro e a sua própria (NOGUEIRA, 2014, p. 58).

    Aponta-se aqui a questão do privilégio branco, como o ponto fundamental da estruturação do racismo. Ora, toda a desigualdade só pode ocorrer pelo desequilíbrio entre dois ou mais polos. Então, se há grupos raciais em desprivilegio social, é porque há outros em privilégio. Se há excluídos, há os se mantêm em inclusão. Se há aqueles que ocupam os locais internos da sociedade, é porque há aqueles ocupando os locais externos desta mesma sociedade. Se há centralizados, há também os periféricos.

    E porque isto se mantêm nas relações sociais e humanas? Porque não há o reconhecimento da humanidade do Outro? Justamente pelo que se tem apontado como o lugar do privilégio. Há, nos grupos brancos, a demanda de reconhecimento de seu lugar de privilegiado. Este é o ponto fundamental que precisa ser enfatizado para o reconhecimento dos grupos não negros em sua responsabilidade diante das condições precárias que os grupos não brancos vivenciam.

    Em outras palavras o descompromisso do grupo branco diante da condição precária do grupo negro, é o reflexo de uma postura alienada, diante do sofrimento do outro. O racismo só pode ser desconstruído quando for visto e entendido pelos diversos grupos raciais que compõem a sociedade. Há uma alienação, por assim dizer, no grupo composto por pessoas brancas, diante do que é o racismo e do quanto é causador de malefícios para grande parte da população.

    Para melhor entendimento, utilizamos aqui a ideia da colonização que forjou nosso pais e, como afirma Fanon (2005), a colonização corta o mundo em dois.

    A linha de corte, a fronteira, é indicada pela caserna e pelos postos policiais. Nas coloniais o interlocutor legítimo e institucional do colonizado, o porta-voz do colono e do regime de opressão é o policial ou o soldado. Nas sociedades do tipo capitalista, o ensino, religioso ou leigo, a formação de reflexos morais transmissíveis de pai para filho, a honestidade exemplar de operários condecorados depois de 50 anos de bons e leais serviços, o amor estimulado à harmonia e à sabedoria, estas formas estéticas do respeito à ordem estabelecida, criam em torno do explorado uma atmosfera de submissão e de inibição que alivia consideravelmente a tarefa das forças da ordem.

    Nos países capitalistas, entre o explorado e o poder interpõe-se uma multidão de professores de moral, conselheiros de ‘desorientadores’. Nas regiões coloniais, em contrapartida, o policial e o soldado, por sua presença imediata, suas intervenções diretas e frequentes, mantêm o contato com o colonizado e lhes aconselham, com coronhadas, que fique quieto.

    Como vemos, o intermediário do poder utiliza linguagem de pura violência, O intermediário não alivia a opressão, não disfarça a dominação (2005, p. 54-55).

    Poderia seguir aqui apontando as considerações de Fannon (2005) sobre esta divisão de mundo, mas reproduzo apenas mais uma frase, onde ele afirma que: Na colônia a infraestrutura econômica é também uma superestrutura, onde alguém é rico porque é branco, alguém é branco porque é rico.... (p. 56).

    E desta forma, maniqueísta que nossa sociedade permanece sendo estruturada. Hoje, talvez não com tanta clareza, com limites tão explícitos, quanto já foi um dia. Mas que as fronteiras de acesso e, fundamentalmente de permanência, são fronteiras fortes, quanto a isto, não restam dúvidas. E, pior do que fortes, são fronteiras invisibilizadas, de maneira que, supostamente é acessível para as pessoas negras, quando, de fato, a permissão, ainda que seja de acesso, é de um caráter serviçal, de uma subpresença, por assim dizer. Ora, grande parte das pessoas negras que frequentam os bairros e casas da classe média alta, é caracterizado por pessoas que prestam serviços, e ainda são os serviços mal ou pouco renumerados como os empregados domésticos com suas condições de empregabilidade ainda questionáveis.

    O racismo à brasileira

    Muitas pessoas tendem a pensar tratar-se de complexo de perseguição, de inferioridade, paranoia e ou coisas que o valham quando uma pessoa negra aponta as situações corriqueiras pelas quais passa em função de seu pertencimento racial. A bem da verdade, estas são as manifestações do racismo à brasileira, isto é, um racismo dissimulado, não assumido, não explicitado. Um racismo que vai minando, e destruindo a capacidade emocional da pessoa negra, quando ela não está a tenta a tais questões. E que, além disto, ainda a responsabiliza pela experiência racial negativa pela qual está passando. De outra maneira, o racismo à brasileira responsabiliza aos negros e as negras pela existência do racismo.

    Por isto e neste sentido, fiz questão de lhes trazer algumas poucas das experiências por mim vividas, e refiro agora, que destas apresentadas, a mais sofrida foi a do menino, em 1989. E por quê? Por que naquele tempo, eu não tinha consciência de pertencimento racial. E as experiências pelas quais eu passava me envergonhavam, me retraiam, e, fugi muitas vezes deste enfrentamento. E isto que experienciei quando fugi de um racismo que eu não podia nomear, iguala-se a experiência de muitas pessoas negras, que a vivenciam, mas que não lhes pode dar o nome, sem que fosse imediatamente posto no lugar de algoz ao invés do lugar de quem sofre a discriminação racial.

    Estas são ações que descaracterizam a experiência do outro, invalidando-a, tornando-as de menor valor, sentido ou importância.

    Quando uma pessoa negra percebe em sua experiência de vida que está sendo de alguma forma atingida em seu pertencimento racial, e recebe da parte do outro, daquele que lhe, supostamente está ouvindo, uma atitude que negligencia em menor intensidade, e descaracterize seu sentimento, esta pessoa negra, está, em verdade, vivendo duplamente a experiência de racismo. A primeira, que caracteriza a experiência genuína, por assim dizer, que é a fonte primeira de seu mal-estar, e a segunda, que caracteriza a mal acolhida. Isto é, um acolhimento que mascara a real razão de seu sofrimento, pois o descaracteriza, negando-lhe, e lhe retirando a real importância.

    Expressões corriqueiras do tipo: não é nada disso; deixa isto prá lá, não leva isto tão à sério, nada mais são do que tentativas de descaracterizar a experiência racial que o outro (o/a negro/a) vivencia. E, ao lhe ser feito isto, esta pessoa negra está fadada a não poder reconhecer a experiência pela qual está passando. Daí porque a mal acolhida. Ao invés de acolher-lhe o sofrimento, esta mal acolhida forja-lhe um sofrimento maior, porque transforma aquele sofrimento em algo sem nome, sem sentido.

    Viver um sentimento sem sentido é algo inócuo, vazio, podendo chegar as beiras de um nonsense, de um desequilíbrio mental. E o que é que nos dá sentido senão os símbolos, os signos representativos das nossas experiências. Então se a pessoa negra está passando por uma ofensa ao seu pertencimento racial e não lhe é permitido vivenciar tal experiência, dando-lhe nome e significado, o que resta, é o sofrimento, podendo este ser algo de menor a maior gravidade, de acordo com o que esta pessoa seja capaz de experienciar e requerer dar sentido.

    Porque estas ações, estas experiências são construídas nas relações sociais de tal forma e intensidade, a ponto de um menino recém-saído de uma internação psiquiátrica e tendo ele o mesmo pertencimento racial, poder distinguir com nitidez que, tratando-se de uma mulher negra, não poderia, supostamente, haver poder aquisitivo, a exemplo de não ter carro, e nem mesmo poder ser doutora. Como é que este menino consegue fazer toda esta assertiva, senão estando dentro de uma sociedade que o mostrou e mostra a todo o tempo, serem estes os valores sociais? Ainda que nada disto seja para nós brasileiros e brasileiras, explicitado, isto está no nosso imaginário social, construindo e constituindo nossas relações sociais. É isto que se inscreve nas entrelinhas de nossas relações e que quem tem sensibilidade de perceber, percebe.

    O que é inscrito neste social, em relação ao pertencimento racial, que é facilmente compreendido por este menino de dez anos, mesmo que estando em situação de sofrimento mental; compreendido por uma senhora, de 80 anos, sem nível universitário, mas de uma condição socioeconômico considerado média alta; que é igualmente compreendida e assumida sem questionamentos por vários estudantes universitários? Há, por assim dizer, alguma informação subliminar que nos faz compreender, sem maiores explicações e questionamentos, que existam lugares racialmente definidos ou determinados na sociedade brasileira. Há uma demarcação territorial, simbólica, interiorizada, que define quais lugares concretos, reais, que podem ser ocupados por um e outro grupo racial.

    Nascimento (2003) aponta o recalque e o silêncio, como características deste racismo à brasileira. Deste racismo que existe, que exclui as pessoas negras, e que insiste em negar sua existência. Diz ela que na acepção popular, racista é quem fala de racismo ou enuncia a identidade do discriminado; a atitude não racista é o silêncio [...] tal noção representa não apenas um equívoco como um dos pilares que sustentam a dominação, pois o silêncio configura uma das formas mais eficazes de operação do racismo no Brasil (p. 23).

    Este racismo, dissimulado, é intensamente perverso, porque não permite que as pessoas negras possam se resguardar do que as ofende. O silêncio oculta. O silêncio cala e torna as pessoas não solidárias umas às outras. Como diz Milton Nascimento, quem cala sobre o teu corpo, consente com a tua morte.

    As pessoas não negras sabem da existência deste racismo, reconhecem que esta existência é preconceituosa e perniciosa, mas, no entanto, não reconhecem quem são os racistas, nem mesmo quando se trata da própria pessoa racista. Desreconhecem também, quem sofre o racismo e, portanto, torna quase impossível, primeiro, que se fale no assunto e, em segundo, que se possa trabalhar no sentido de eliminar tal prática. Além disso, invertem o sentido, acusando de racista, aquele que aponta a existência do racismo. Este é um mecanismo usualmente utilizado por opressores, mecanismo que enfraquece o poder de ação da pessoa que vive a experiência de mutilação de seu pertencimento racial.

    Ora, ao se ter negros(as) de estimação, que de tão estimados deixam de transparecer serem negros(as), estes(as) tornam-se com menor potencial ofensivo, e a ameaça racial torna-se sob controle, ou deixa de existir. Negra é sempre a outra pessoa, com a qual não se tem proximidade e com a qual é permitida a discriminação racial, como condição de defesa de interesses e manutenção de privilégios.

    Para poder entender as artimanhas do racismo, é preciso compreender a noção do privilégio branco, como sendo essencial para a manutenção do racismo. Bento (2002, p. 28) nos aponta que a discriminação racial teria como motor a manutenção e a conquista de privilégios de um grupo sobre o outro, independentemente do fato de ser intencional ou apoiada em preconceito. É preciso que se pense a respeito da importância da presença do corpo negro, da presença da mulher negra nas relações sociais brasileiras, em condições de igualdade. Que se pense nas relações sociais no sul do Brasil, aonde um montante das pessoas é de origem alemã, italiana, polonesa, enfim, pessoas brancas, habituadas ao convívio branco. Habituadas, sobretudo, a uma subserviência negra. Habituadas a verem a mulher negra como alguém que está presente para lhes servir, e nunca para partilhar e muito menos ainda, para ser servida. Neste contexto social, pensar o corpo da mulher negra como alguém com direitos, é quase como inverter uma ordem. Daí a naturalização de todas as experiências citadas, em que todas as pessoas ou negam a negritude da mulher, não a reconhecendo como mulher negra, ou, quando a percebem enquanto sua negritude, a negam enquanto alguém que possa ocupar outro lugar senão aquele social e preconceituosamente construído.

    No Rio Grande do Sul, quando vamos à periferia das cidades, temos como garantia que encontraremos pessoas negras. Mas, ir a serviços que requeiram algum nível de especialização ou graduação, não se pressupõe encontrar negros no lugar de servidores de nível superior. Talvez nos serviços de higienização, de motoristas ou de segurança, mas nunca em serviços que passam de uma determinada linha imaginária intensamente respeitada por todos. E essa é a territoriedade racial. Tolera-se a presença de pessoas negras numa certa condição. Não está ainda no nosso imaginário e muito menos em nossas consciências, a possibilidade de encontrar pessoas negras como protagonistas de serviços de nível superior. Médicos, engenheiros, advogados, psicólogos, enfim, profissionais de nível superior, parece sempre, terem corpos brancos.

    Se para as mulheres ainda existam barreiras em serem profissionais de nível superior, para as mulheres negras esta barreira é, certamente, muito maior e intensa. Estas barreiras nos dias atuais, não são exatamente em serem profissionais de nível superior, posto que as mulheres têm ocupado grande número de vagas no ensino superior. Mas, no mercado de trabalho, a absorção das mulheres e das mulheres negras mais intensamente, demonstra como funciona a questão racial. Em outras palavras, as portas do mercado de trabalho de nível superior ainda não se encontram abertas para absorver as profissionais de nível superior. O critério de seleção ainda as discrimina, não lhes dando devida credibilidade profissional.

    Julio (2011) em sua tese de doutorado aponta o relato de uma acadêmica de direito, em que demonstra como isto se dá na prática. Disse a acadêmica, na ocasião, que trabalhava na condição de cargo em comissão (CC), há anos na SEC/RS, e que ela era muito querida entre os colegas e os chefes. Entretanto, toda a vez que havia uma possibilidade de promoção, sempre era indicado outro colega, sendo que todos aqueles, com exceção dela própria, que entram junto com ela, assim como muitos que entraram depois, já tinham sido promovidos. Aponta ainda que, para não ser injusta, sempre que ocorreram festinhas no setor em que trabalhava, ela era homenageada e recebia palmas pelo trabalho desenvolvido.

    No imaginário social há padrões fenotípicos que vão ser definidores de respeitabilidade, eficiência, competência e, enfim, de habilidades. Assim, os cabelos lisos, loiros, tem um valor social alto. Cabelos crespos, ou encaracolados, parece terem uma displicência, associada a pouca competência, desleixo e outras inabilidades. A pele alva anuncia limpeza, clareza e, de alguma forma é ligada à competência. Já, por outro lado, a pele escura, preta, é associada a falta de limpeza, a escuridão e a displicência, sendo a cor das ruas, das praias. A exemplo repito aqui a fala de uma aluna referindo a necessidade de banho de pó de cal, para haver competência na professora. Esta aluna, mesmo sem saber, praticou o que se denomina darwinismo social, eugenia ou, ainda, a cultura do branqueamento.

    Trabalhei alguns anos como psicóloga no Centro de Referência da Mulher, Vânia Araújo Machado, que é o Centro de referência do Estado do Rio Grande do Sul, de atendimento à mulher em situação de violência. Lá, o recorte racial não era considerado, com toda a força necessária, como uma das categorias de violência contra a mulher. Assim durante os anos que passei por lá, vi muitas mulheres dos mais diversos lugares, serem indicadas e assumirem, como chefes daquele setor. Na mesma sala em que eu trabalhava, havia uma assistente social, que foi a primeira técnica do Estado, desde que o Centro foi criado, e que, inclusive, permanece trabalhando lá. Nestes anos em que eu estive lá, houve um momento em que seu nome foi indicado para a chefia do setor, porém, informaram os superiores, que, naquela ocasião, não haveria uma F.G. (a função gratificada) para lhe ser designada pelo serviço prestado. Ou seja, lhe foi solicitado a trabalhar de graça, num lugar de suma importância dentro dos lugares que fazem o enfrentamento à violência contra a mulher. Esta mulher negra, não aceitando a incumbência, em seguida veio outra mulher, não negra, e, para esta, surgiu uma FG para que assumisse a tarefa.

    Então, tomo aqui as palavras de Bento (2002), quando ela diz haver um pacto, um acordo tácito entre os brancos de não se reconhecerem como parte absolutamente essencial na permanência das desigualdades raciais no Brasil (p. 26).

    Julio (2015) comenta a questão da violência que sofre a mulher negra no Estado do Rio Grande do Sul, a partir de um estudo sobre o seminário proposto, em 2014 para os CRAMs, CRAS e o CREAS no Estado, que estivessem a frente do enfrentamento à violência contra a mulher. Neste encontro foi questionado destes partícipes, qual o número de mulheres negras por eles atendidas. E a resposta foi quase nula. As psicólogas e assistentes sociais destes órgãos, relataram quase nunca fazem enfrentamento implicando a questão racial, posto que raramente são procuradas por mulheres negras. Então, outras perguntas são necessárias: será que existe mulheres negras na sua cidade? Se existem, será que sofrem violência? Se sofrem violência, por que não buscam os serviços? Além do impacto causado, não se obteve respostas contundentes. O fato é que se percebe a violência institucional contra as mulheres negras que, sentindo-se desprotegidas também pelo Estado, tendem a não buscar nele, apoio para as suas demandas.

    Bento (2002) aponta a isto como sendo a exclusão moral, que é o descompromisso político com o sofrimento do outro. E aqui, preciso ser textual para dimensionar a gravidade factual.

    Exclusão moral ocorre quando indivíduos ou grupos são vistos e colocados fora do limite em que estão vigendo as regras e valores morais. Os agentes da exclusão moral compartilham de características fundamentais, como ausência de compromisso moral e o distanciamento psicológico em relação aos excluídos.

    O primeiro passo da exclusão moral é a desvalorização do outro como pessoa e, no limite, como ser humano. Os excluídos moralmente são considerados sem valor, indignos e, portanto, passíveis de serem prejudicados ou explorados.

    A exclusão moral pode assumir formas severas como o genocídio, ou mais brandas, como a discriminação. Em certa medida, qualquer um de nós tem limites morais, podendo excluir moralmente os demais em alguma esfera de nossas vidas. Em geral, expressamos sentimentos de obrigações morais com a família, com amigos, mas nem sempre com estranhos e, menos ainda, com inimigos e membros de grupos negativamente estereotipados.

    Pelos processos psicossociais de exclusão moral, os que estão fora do nosso universo moral são julgados com mais dureza e suas falhas justificam o utilitarismo, a exploração, o descaso, a desumanidade com que são tratados (BENTO, 2002, p. 29,30).

    Isto confirma por onde o silêncio e a omissão sustentam as desigualdades raciais, e legitimam o lugar do branco, a partir da moral que desconsidera aqueles(as) diferente de si. Na contramão do silêncio, anunciasse a importância do pertencimento racial, da noção do que é pertencer-se a uma raça, e isto vale tanto para pessoas brancas quanto para pessoas negras. Para as pessoas brancas cabe a nobre tarefa de se perceberem enquanto pertencentes ao grupo de privilegiados, e que seu privilégio só é possível porque o outro está em desvantagem. E este fato não é psicológico, não é filosófico. De tão intenso, pode-se anuncia-lo como físico: se tem alguém de fora, é porque tem alguém dentro; se tem quem esteja em cima, é porque tem alguém que está embaixo. A partir desta noção física, passamos ao substrato sociológico e psicológico, que nos indica que só podemos permanecer assim, com uns dentro e em cima, enquanto outros estão fora e embaixo, porque existe a exploração, a opressão dos(as) excluídos(as), que carrega consigo a ideia da superioridade de uns, e inferioridade de outros.

    Do grupo de pessoas negras é preciso o trabalho de reconhecimento do pertencimento racial. Esta noção traz um entendimento de sociedade que pode contribuir para a transformação das relações sociais. Freire (1974) foi categórico aos nos apontar o oprimido como sustentador do opressor. Portanto, é preciso que haja uma tomada de consciência, dos dois grupos, para que uma transformação social se efetive.

    E a educação, continua sendo o caminho mais nobre para a construção de consciência. Julio (2011) aponta em sua tese de doutorado, que dos 280 bolsistas negros de uma Instituição de ensino superior em Porto Alegre, 80% dos que concluíram a formação de nível superior, são mulheres negras. De lá pra cá, tem-se visto nos corredores das Universidades, um número representativo de mulheres negras. O número de mulheres negras que estão buscando psicoterapia na cidade de Porto Alegre, vem aumentando consideravelmente, e estas vêm com uma demanda de que o psicoterapeuta seja uma mulher negra, em geral, por já terem passado por uma experiência negativa com outro(a) psicoterapeuta, que de uma maneira ou outra, não as acolheu em suas demandas. E isto anda em direção à necessidade de transformação das relações inter-raciais nos lugares mais recôncavos até os mais altos. Dos mais íntimos até os mais institucionalizados.

    Reflexão

    Utilizei-me nas descrições acima de algumas entre as muitas experiências que passei ao longo de minha vida, com pessoas dentro e fora da academia. Com pessoas com mais ou com menos educação formal. Com pessoas de diferentes classes sociais. E, em todos os casos, a manifestação se assemelhou no sentido de que, ou ocorreram negações de meu pertencimento racial, ou, nos casos em que foi percebida minha cor, não foi ligado ao lugar social que ocupo, como psicóloga, professora e como mulher. Chamei a abordagem que tomo aqui como pesquisa participante concomitante com relato de experiência, por entender que, através destas experiências que tive e tenho, frequentemente na vida de mulher negra, muito é possível ser trabalhado em termos de pesquisa das relações sociorraciais e suas consequências psíquicas, tanto para as pessoas brancas, que não se reconhecem, nem em sua condição racial e, muito menos, da maneira como lidam com a questão racial, muitas vezes incrementando o racismo de forma consciente ou não.

    Assim é que a mãe da minha amiga me considerou uma boa pessoa, tendo manifestado ter gostado de mim, e, neste gostar, dissociou meu pertencimento racial. Não, ela não é negra (como que querendo dizer): como pode ser negra e ser legal. Ou ainda, porque ofendê-la chamando-a de negra. Então, implicitamente, há o entendimento de que o pertencimento racial negro é algo que ofende e inferioriza a pessoa. É algo ligado, ainda, a atributos negativos, que, portanto, não pode ser qualificador de alguém de perto, alguém de suas relações.

    A aluna de comunicação gostou de minhas aulas, e não conseguiu ver que a professora é uma mulher negra. Como se nas entrelinhas explicitasse uma impossibilidade de uma mulher negra, ser professora no magistério superior, na pós-graduação para aulas num curso de especialização. É verdade que quando olhamos o corpo docente das escolas superiores, raramente vemos uma pessoa negra, e muito mais raro ainda é a presença de uma mulher negra, trabalhando no ensino superior. Então, e em decorrência disto, há no mínimo duas tendências que podem se dar, quando não se enfrenta a questão racial: ou os discentes negam a presença da e do professor negro, ou ocorre uma dissonância cognitiva, em que, intelectual e emocionalmente, o corpo discente não assimila positivamente o lugar daquele(a) professor(a) como alguém de valor, de conhecimento, para estar ali. Esta atitude não é rara de acontecer e é a demonstração fidedigna do quanto o racismo se faz presente nas relações sociais cotidianas, independentemente do nível intelectual e educacional das pessoas envolvidas no fato. Em repetição ao exposto, no curso de direito, as alunas negaram veementemente que esta mulher negra pudesse ser professora daquele tão estimado e valioso curso. Ao serem cobradas e solicitadas a se retirarem, argumentam não ter percebido que a professorara estava em sala, alegando tratar-se de uma mulher muito jovem. Na verdade, naquele curso havia professores jovens, e nenhum deles, provavelmente haviam passado por esta situação. A justificativa delas, obviamente não nos convenceu. E, não informei antes, uma delas tinha sido secretaria adjunta da Secretaria de Educação do Estado do Rio Grande do Sul, e a outra Diretora de uma Escola particular de primeiro e segundo graus, em Porto Alegre. Considerada uma das melhores escolar de Porto Alegre. Estas pessoas também não conseguiam ver uma mulher negra, num lugar de quem teria algo a lhes ensinar, por assim dizer. Assim como também a estudante de psicologia, foi explicita ao referir que, para ser boa (no sentido de capacidade intelectual para ministrar-lhes aula) a professora precisaria de menos melanina, ou, em seu dizer, mais banho de pó de cal.

    E por fim, a criança, recém-saída de uma internação psiquiátrica, fez, tal qual estas adultas, acadêmicas ou não. O menino fez a mesma leitura, posto que para ele também uma mulher negra não poderia ser doutora, ou neste caso psicóloga. Nossa sociedade é tão bem organizada desta maneira, que um menino negro, com problemas emocionais sérios, consegue reproduzir com tamanha exatidão: uma mulher negra, sem carro, não é doutora. Ou seja, doutores são pessoas brancas, e pessoas brancas, possuem carros posto possuírem condições econômicas para tanto.

    A pergunta é, como uma criança consegue com tamanha propriedade reconhecer esta organização social? E, penso que, para os atentos, a resposta também pode ser simples, posto que esta criança absorve este social desde o dia em que nele se inseriu, ou seja, desde seu nascimento. Ela olha, sente, percebe quem é quem neste social. E, se esta criança negra desequilibra emocionalmente, há´ de nos perguntarmos qual nossa responsabilidade por isto. Creio que, em alguma medida esta criança ao ver e ler a estrutura social, sentiu-lhe o peso, e de alguma forma, desiquilibrou, adoeceu.

    No hospital Psiquiátrico onde ele se encontrava por alguns anos (Unidade Infantil do Hospital São Pedro), o lugar das pessoas negras era fortemente demarcado, ou por outros que como ele, estavam hospitalizados precisando de atendimento, ou por pessoas que trabalhavam na limpeza e ou por algumas poucas auxiliares de enfermagem, mas nunca, isto sim ele vivenciou, nunca no lugar de médicos, psicólogos, assistentes sociais ou enfermeiros. Estes lugares da equipe psi, sempre foram bem delimitados por um corpo técnico composto de pessoas brancas. Então, de alguma forma e segundo sua própria experiência, eu, na

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